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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Voltar para casa

Não, não nego nenhuma das acusações. Todas são verdadeiras nos seus pormenores. Eu fiz tudo isso e muito mais.
Exibicionismo? Talvez. Leviandade? É possível. Sempre fui um pouco leviana. Quem sabe um desejo de subverter tudo, de chocar as pessoas. Um desejo inconsciente de ser descoberta. Como fui.
Em outras épocas as imprudências podiam nos custar a vida, e realmente custaram. Mas agora as coisas estão evoluindo rapidamente e a situação tornou-se irreversível. Apesar disso reconheço que não devia ter posto em risco um projeto tão importante. Sim, vou explicar. Não importa mais esconder. Ninguém vai poder fazer nada, ainda que acredite. E eu sei que ninguém vai acreditar.
Quando eu era criança ficava horas trancada no quarto, explorando todas as reentrâncias das paredes, os pequenos recantos dentro dos móveis, o buraco da fechadura... Na adolescência, gostava de sair nas noites claras. Grudava-me na vidraça das casas e escorria por elas feito gelatina. Era engraçado quando alguém conseguia me ver.
Lembro quando entrei numa rosa pela primeira vez. É muito agradável dentro de uma rosa. Mas não gostei quando entrei numa laranja. Já entrei também num cachorro. Cachorro é bom, é suave. Gato não. Só uma vez entrei num gato, e ele percebeu, ficou inquieto. Tive que sair logo.
Quanto às pessoas, nem todas são sensíveis. A maioria não é. Pode-se entrar e sair à vontade quantas vezes se queira, que elas continuam quietas, impassíveis, com a mesma cara abestalhada. Exatamente como o cachorro. As outras, as felinas, capazes de captar o invisível, são poucas.
Bruxa, eu? Não, Senhor Inquisidor, nunca houve bruxas. A realidade não é tão simples.
O senhor quer saber sobre os sabás? Existiram, sim. Eram tentativas de abrir um canal espaço-temporal para que pudéssemos voltar ao nosso lugar de origem. Pensava-se na época que um esforço mental coletivo seria bastante forte para abrir o canal. Passaram-se alguns séculos até que se descobrisse o verdadeiro meio, o único meio de se conseguir isso.
De onde somos? Não sei responder. Sei que há muito tempo um grupo de exploradores estava investigando uma abertura no espaço-tempo quando foram puxados para cá. Nunca conseguiram voltar. O canal deixa passar matéria em um único sentido.
Os mais antigos, nossos ancestrais, quase enlouqueceram de desespero, porque o seu conhecimento não era suficiente para resolver o problema. Obrigados a permanecer na humanidade, fizeram o possível para se manter despercebidos.
Tem sido difícil, sim. Mas agora não vai demorar. Está tudo preparado e quase pronto. Foi necessário interferir muitas vezes no curso da história. Tivemos que manipular os homens, jogar com as suas vaidades, influenciar algumas mentes criativas... Uma pequena parte do nosso conhecimento científico foi sendo revelado pouco a pouco, cautelosamente. O que a raça humana iria fazer com essas informações foi facilmente previsto.
Agora o arsenal nuclear mundial está com a potência que precisamos. Vai ser fácil deflagrar a guerra total. Só uma liberação de energia tão grande quanto a explosão do planeta será capaz de inverter a inclinação gravitacional do canal.
Então nós nos libertaremos destes corpos humanos e seremos sugados de volta ao nosso próprio universo.

Imagem: http://lacaidadeconstantinopla2.blogspot.com.br

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