Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

acesse:

http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

.

domingo, 31 de agosto de 2014

Uma pessoa folgada

Que a Elza era uma chata e folgada, eu já sabia desde os primeiros dias depois da nossa lua-de-mel. Não fazia nada e estava sempre cansada, sempre reclamando que não tinha tempo para isso, que não tinha tempo para aquilo, que estava com dor de cabeça e outras baboseiras.

Mas que ela era uma bruxa só estou descobrindo agora. Digo e explico.

Nos cinco anos do nosso casamento ela só trabalhava meio-período, das sete da manhã até a uma da tarde. Em vez de voltar direto pra casa como uma mulher que sabe das suas responsabilidades, ela passava primeiro na casa da mãe dela. Isso todo santo dia. Para fazer faxina, fazer comida, levar a velha no médico, sei lá o que mais.

Eu dizia:

“Isso não está certo, filha. Você não é empregada da sua mãe. Ela que contrate alguém pra ficar lá com ela. Você não pode deixar de lado as obrigações da sua casa pra correr atrás dos problemas dos outros! Aquelas inúteis das suas irmãs podiam fazer a parte delas, não podiam?”

E ela:

“Não tem outro jeito não. Minha mãe não tem dinheiro pra contratar ninguém, e as minhas irmãs não estão nem aí. Nem pra ajudar no serviço da casa e nem pra pagar uma empregada. Que é que eu vou fazer? Não posso deixar a minha mãe sozinha, né?”

Nesse ponto eu desconversava porque já adivinhava onde ela estava querendo chegar: trazer a mocreia pra morar com a gente.

Daí o que acontecia? Eu chegava em casa do trabalho e a janta não estava pronta porque ela ainda estava lavando a roupa ou fazendo outra coisa qualquer. Eu até que tentei ser legal, passei a chegar mais tarde, ficava fazendo hora na rua só pra dar mais tempo pra ela terminar as coisas, mas não adiantava muito não.

E na hora do vamovê? “Ai, que estou cansada! Ai que estou com dor de cabeça!”

Não era só de noite que dava problema não. Quantas vezes não cheguei atrasado no trabalho porque tinha que ficar esperando ela passar a minha roupa? Que já devia estar passada e guardada, mas não! Ela ia lá na área de serviço pegar do varal pra passar bem na hora de eu sair.

Olha, nem sei como aguentei cinco anos.

Agora veja o que está acontecendo. Ela foi embora dizendo que não suportava mais, e coisa e tal. Tudo bem. Não sinto falta dela não, era uma chata e folgada. Mas ela rogou praga, tenho certeza. Quer uma prova?

Venha aqui no banheiro pra ver. Repare como está criando mofo por todo canto. Isso nunca aconteceu antes, quando ela morava aqui. Nunca teve o menor problema aqui no banheiro. Mas foi só ela ir embora que pouco tempo depois começou a apretejar tudo. Debaixo da pia da cozinha é a mesma coisa. Só pode ser praga, estou dizendo.

Sinceramente, não sei o que fiz pra merecer isso.

Imagem: http://www.thehousewifewannabe.com

sábado, 30 de agosto de 2014

Sem noção

Certa noite o jovem Thiago acessou uma sala de bate-papo diferente daquela em que sempre entrava.
O título era “Sem noção”.
Ele nunca havia notado esse título na lista das salas do portal, e quando viu ficou curioso.
Ao entrar, sob o nick Curioso, deu boa noite e ninguém respondeu. Havia muitos participantes, mas ninguém falava nada. Depois de esperar uns três minutos, perdeu a paciência e “gritou” em letras maiúsculas:
“QUALÉ, VOCÊS ESTÃO MORTOS?”
Recebeu esta resposta de alguém apelidado Anjo Tocheiro:
“kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!!!”
E ele:
“Não vejo qual é a graça!”
Resposta:
“Já vi que você é um típico sem noção!”
”Sem noção é a tua mãe, cara!”
”Mãe eu não tenho, mas já vi que você não faz a menor ideia.”
”Desculpa aí, foi mal. Menor ideia do quê, cara?”
”De que já morreu!”
”Tu tá fumando o quê, mano? Que papo besta é esse?”
”Só estou querendo te ajudar. Você tá sem noção de que já morreu e eu tô te informando.”
Thiago estava começando a se sentir desconfortável com aquela conversa.
”Já deu, cara. Tô indo nessa.”
”Tá indo pra onde, mano? Você tem que esperar que venham te buscar.”
Nesse ponto o Thiago ficou mesmo incomodado.
”Esse papo não tá levando a nada, então boa noite. Fica na paz.”
”Na paz eu já estou. Mas você vai voltar logo. Até daqui a pouco.”
Thiago saiu da sala mas continuou se sentindo incomodado. Olhou em volta e levou um grande susto com o que viu... ou com o que não viu! Voltou imediatamente para a sala! Foi recepcionado pelo Anjo Tocheiro: "kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!"

Imagem: http://www.coolweirdo.com

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Amor de mãe

Esta história é verdadeira. Aconteceu há muito tempo. Quem me contou ouviu de alguém que testemunhou o fato.

          Era uma senhora com vários filhos que enviuvou logo depois do nascimento do caçulinha. Trabalhava como lavadeira, e passou a trabalhar ainda mais já que agora precisava cuidar sozinha da prole.
          Na região onde morava havia uma família que, se não era rica, estava muito bem de vida.
          Aquelas pessoas adoravam o bebê, saudável e gracioso, da lavadeira. Então um dia pediram para passar alguns dias com ele, que o tratariam muito bem.
          Ela concordou porque confiava naquela família. Além disso seria, durante algum tempo, uma preocupação a menos. E uma despesa a menos.
          No dia combinado ela foi buscá-lo, mas em vez de trazerem o bebê a levaram para o quarto onde ele estava.
          A lavadeira ficou admirada com o luxo do lugar. Seu filho estava dormindo em um bercinho maravilhoso. Suas roupinhas haviam sido trocadas por outras, muito melhores e mais bonitas.
          Então veio a proposta:
           “Por que a senhora não dá pra gente o seu nenê? Está vendo como ele está sendo bem tratado? Se ficar aqui conosco ele terá tudo do bom e do melhor. Quando crescer vai estudar e vai ter um futuro muito melhor do que a senhora pode lhe dar. Além disso é uma boca a menos na sua casa. Sobrará mais para os seus outros filhos.”
          A lavadeira ficou paralisada. Nunca pensara em se separar de filho nenhum, nem nos momentos de maior desespero. Era um absurdo tão grande que ela não tinha palavras pra responder. A outra continuou:
           “Pense bem. É bom pra todo mundo. Para nós, que gostamos tanto do seu filho, será uma felicidade tê-lo aqui para sempre! Para a senhora, que vai ficar mais aliviada, vai ser bom também. Para os outros filhos nem se fala, que vão ter mais do que têm agora. E principalmente para o nenê, que a gente vai criar como se fosse nosso. Ele nem precisa ficar sabendo que é adotado, porque a senhora ainda não registrou. O maior beneficiado será ele. Está nas suas mãos dar-lhe um futuro.”
          A lavadeira olhava, olhava, silenciosa e pensativa.
          Depois de contemplar fixamente o seu bebê durante algum tempo, ela simplesmente virou as costas e foi embora, sem dizer uma palavra.
          Nunca mais voltou àquela casa.
Imagem: http://inloveheart.wordpress.com

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A pedra azul

Há muito tempo, em uma aldeia distante, existia uma mocinha órfã de pai e mãe que vivia com a sua madrasta. Essa mulher fazia-se de muito boa para todo mundo, mas dentro de casa era uma verdadeira peste. Ao ficar viúva não pôde colocar para fora a enteada porque a esta pertencia a casinha onde moravam. Então resolveu fazê-la de escrava, obrigando-a a trabalhar dia e noite para sustentar a ambas.
Além das responsabilidades da casa, a menina tinha que cuidar da horta e do pomar e também levar as verduras, legumes e frutas para o mercado. À noite, em vez de descansar, era obrigada a fazer trabalhos de costura.
Para piorar tudo, sua madrasta a mandava para o quarto com um toco de vela que não durava quase nada, por isso seus trabalhos de costura estavam sempre incompletos no dia seguinte. Dessa maneira a malvada tinha pretexto para recriminá-la e castigá-la.
Um dia a menina caminhava para o mercado equilibrando sobre a cabeça uma cesta pesada de hortaliças e frutas. Ia muito triste, pensando na vida, sem saber como mudar tudo aquilo. De repente, em uma curva da estrada, encontrou uma velhinha. Embora não a conhecesse, cumprimentou-a educadamente e ofereceu-lhe uma laranja, já que fazia muito calor e a senhora parecia estar com sede.
“Obrigada, filha. Você tem bom coração. Mas me diga: por que está assim tão triste?”
Normalmente a menina não se abriria a uma estranha, mas aquela senhora parecia tão confiável que ela lhe contou tudo. Então a velhinha tirou da sacola uma caixa de madeira já bem desgastada e disse:
“À noite, quando a vela acabar, abra esta caixa que o seu quarto vai ficar clarinho e você vai poder terminar o serviço. Assim a sua madrasta não vai ter motivo para te atormentar.”
A menina aceitou o presente mesmo sem entender como aquela caixa poderia iluminar a escuridão. Agradeceu e seguiu para o mercado.
À noite, como sempre, recebeu uma boa quantidade de serviço para fazer e o costumeiro toco de vela, que cada vez vinha mais curto. Porém sentia-se excepcionalmente despreocupada. Logo que a vela acabou, abriu a caixa de madeira e para sua grande surpresa havia uma pedra luminosa dentro! A pedra emanava uma luz azul muito bonita, clareando tudo com suavidade.
Nessa noite ela fez o serviço completo. Misteriosamente foi tudo muito rápido e ela não se sentiu exausta e com os olhos ardendo, como sempre acontecia. Pelo contrário, estava descansada e tranquila. Dormiu bem e acordou revigorada.
A madrasta ficou irritadíssima ao ver que não tinha como recriminar a menina, mas não falou uma palavra. Estava intrigada sem entender como o trabalho, além de completo, se apresentava mais bem feito do que de costume.
No dia seguinte aconteceu a mesma coisa, então ela resolveu investigar. Nessa noite foi espiar pelo buraco da fechadura e viu quando a menina tirou da caixa aquela linda pedra azul e luminosa. Imediatamente decidiu furtá-la. Queria aquela luz tão bonita no seu próprio quarto, e também queria de volta os motivos para azucrinar a enteada.
Na primeira ocasião em que ficou sozinha em casa, foi ao quarto da menina. Procurou e logo encontrou a caixa de madeira debaixo do colchão. Ali mesmo a abriu com intenção de levar a pedra embora e deixar a caixa vazia no mesmo lugar. Porém algo estranho aconteceu...
Em vez da pedra, ela encontrou uma cobrinha azul.
A cobrinha saltou para fora e imediatamente a picou. A malvada morreu na mesma hora.
Ao voltar para casa, a menina encontrou a madrasta caída, picada de cobra, com a caixa vazia ao lado.
Apesar de todo o sofrimento que havia passado, ela perdoou aquela mulher, rezou por sua alma e providenciou um sepultamento digno.
Nunca reencontrou a pedra azul, mas agora não precisava mais porque só trabalhava de dia. Alugou o quarto da madrasta para a velhinha da estrada, a qual nunca explicou o mistério. Mas a menina não se preocupou com isso, e viveu em paz e harmonia dali para a frente.

Imagens:
http://galleryhip.com
http://freevintagedigistamps.blogspot.com.br

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A expedição subterrânea - "Os meninos da Rua Beto"

Numa bela manhã de novembro aquele grupo de garotos tomou uma resolução radical!
Entrar na tubulação subterrânea de drenagem das águas pluviais!
Para quê? Para ver como era por dentro, oras!
E não tiveram medo das baratas, aranhas, ratos e escorpiões? Nãããão!!!
Mas quando um agente da lei se intrometeu nos planos dos garotos, tudo mudou!
Como terminou essa aventura?

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

(a) Conseguiram sair sãos e salvos daquela tubulação escura e úmida?
(b) Foram apreendidos pelo agente da lei?
(c) Suas mães descobriram a travessura?
(d) Todas as opções acima estão corretas?
(e) Nenhuma das anteriores?

Veja a resposta correta em "Os meninos da Rua Beto"!

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h

HiStÓrIaS dE uM tEmPo Em QuE aS cRiAnÇaS bRiNcAvAm Na RuA

Um anjinho meio torto - "Os meninos da Rua Beto"

Abril de 1958

Havia uma casa na rua de baixo com um jardim cheio de roseiras. Ali morava a Clarice, menina da minha idade, que tinha uma irmã ainda bebê chamada Sônia.

Minha mãe era madrinha da Sônia. Bonitinha mas de rostinho triste, ela sofria de alguma doença que a levou para o céu com cerca de um ano, vítima do atraso da medicina e da ignorância generalizada. Foi a primeira morte, o primeiro velório, o primeiro caixãozinho que vi na vida.

Clarice e eu brincávamos juntas muitas vezes. Minha suspeita era de que havia ali um certo retardo mental, já que se conseguia enganá-la nas brincadeiras com demasiada facilidade.

Além disso, ela apresentava certas atitudes estranhas.

Quando se zangava com alguém, disparava a gritar os palavrões e impropérios mais absurdos, coisas que eu jamais tinha ouvido ou imaginado existir. Ela acompanhava os insultos com gestos que às vezes eram ainda piores que as palavras. Lembro-me de ficar olhando aquilo de boca aberta e olhos arregalados, tamanho o espanto que me causava.

Certo dia eu estava comendo uma fatia de pão quando, perdendo a vontade, simplesmente joguei fora. Clarice foi lá, pegou aquela sobra toda suja de terra e disse:

”Não pode jogar fora assim, é pecado.”

Então deu um beijinho no pão e jogou no mesmo lugar.

Fiquei admiradíssima. Tanto com a ausência de nojo na menina, que nem ligou para a sujeira na hora de dar o beijinho, como pelo conceito novo que ela me apresentou: nunca tinha escutado falar e nem pensado no pão, ou qualquer outro alimento, como algo a se reverenciar.

No final, considero que a Clarice me ensinou duas coisas importantes.

Primeira: falar palavrão é uma coisa muito feia. Quando existe uma pendência a ser resolvida, quem tem razão não é necessariamente aquele que fala os piores insultos ou grita mais alto. É preciso conversar com calma, expondo claramente os argumentos. Se a outra pessoa não quiser ouvir, ou então responder com falta de educação, melhor que fique falando sozinha. Ou que fale com o nosso advogado.

Segunda: todo alimento é sagrado, jamais deveria ser tratado com desdém. Plantar, cuidar, colher, processar e preparar alimentos é um processo longo e trabalhoso que merece ser valorizado e respeitado. Não devemos ser gulosos, pegando mais do que conseguimos comer. Não devemos ser dissipadores, consumindo mais do que o necessário - alimentos ou o que quer que seja.

Em suma, podem-se aprender coisas boas e importantes tanto pelos bons quanto pelos maus exemplos. Até “um anjo torto desses que vivem nas sombras” (*), tem algo a nos ensinar. Basta prestar atenção.

(*) In “Poema de Sete Faces”, Carlos Drummond de Andrade

Imagem: http://fineartamerica.com

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Emilianismos

Certa vez a boneca Emília ficou sozinha no Sítio do Pica-Pau Amarelo quando todos os demais moradores foram fazer uma viagem. Então, sem ter ninguém para atrapalhar, ela resolveu colocar em prática algo que já vinha planejando há tempos: uma reforma na natureza.
Quando os outros voltaram fizeram com que ela revertesse a reforma; afinal, entre outras coisas, era um absurdo abóboras nascendo em árvores. Já pensou você sentado sob uma árvore lendo um livro e de repente uma abóbora cai na sua cabeça?
A única novidade mantida foi o apito do leite ao ferver, porque a Tia Nastácia gostou da facilidade.
Essa história me faz pensar em como seria bom podermos fazer reformas sem ter os empecilhos da fria lógica e da crua realidade a nos impedir.
Tudo isso para dizer que - muito emilianamente - eu sei como resolver os problemas do mundo. A ideia é simples: conectar todas as mentes humanas, de maneira que o prazer de um passe a ser o prazer de todos, e a dor de um também passe a ser a dor de todos.
Dessa forma, para que todos pudessem ser felizes, todos teriam que ser felizes.
O egoísmo humano faria com que todas as infelicidades fossem prontamente rastreadas, identificadas e solucionadas. Só assim o conforto geral seria preservado.
Infelizmente não vivemos no Sítio do Pica-Pau Amarelo, então essa reforma não é possível.
Só resta mesmo seguir aquele antigo conselho: amar ao próximo como a si mesmo. Complicado...

Imagem: http://blogdositiodopicapauamarelo.blogspot.com.br

domingo, 24 de agosto de 2014

Venha você também! :)

Cenas de um casamento

A igreja onde se casou a minha amiga Marilene tinha um padre muito conservador.
Todas as noivas eram obrigadas a passar pela confissão antes do casamento, e nessa ocasião ele perguntava se ela era virgem. Caso a resposta fosse negativa - lembremos que é pecado mortal mentir na confissão - ele celebrava a cerimônia com a faixa de seda, que usava na cintura, virada para o lado contrário.
Já que tal procedimento não era segredo, a intimidade da noiva ficava exposta a todos. Ou seja, o padre, além de conservador, era um grandessíssimo fofoqueiro, e praticava dois atos bastante graves: transformava-se em inquisidor, cometendo assédio moral no momento em que o seu papel deveria ser o de ouvinte e orientador, e ainda revelava publicamente um segredo de confissão.
Apesar de todo o conservadorismo e sisudez reinantes naquela paróquia, a Marilene rebelou-se contra a tradição da marcha nupcial sem graça que era tocada em todos os casamentos. Escolheu uma balada romântica da nossa banda de rock favorita e levou a partitura para o coral da igreja. Até onde sabíamos, essa mesma música era muito tocada em casamentos lá nos Estados Unidos.
O pessoal do coral gostou, aprovou e começou os ensaios. Enquanto isso, prosseguindo com o nosso espírito de rebeldia, resolvemos introduzir mais uma inovação: noiva e madrinha vestidas exatamente da mesma maneira, até na cor!
Fomos às lojas de noivas, pesquisamos, e escolhemos um modelo simples, discreto e elegante. Mandamos fazer dois exatamente iguais. A única diferença seria o véu na cabeça da Marilene. Era um símbolo de que “nem o casamento vai atrapalhar a nossa amizade”.
Convidada usando branco já é considerado gafe imperdoável, o que dizer então de uma madrinha em pleno altar? Mas nós éramos assim mesmo, muito rebeldes.
No momento em que ela entrou na igreja e o coral deveria iniciar a linda e emocionante balada romântica da nossa banda predileta, o que aconteceu? Ouviu-se aquela mesma música chata de sempre.
As fotos registraram as nossas caras de decepção, mas todos interpretaram como “emoção”. Que emoção que nada! Era decepção misturada com frustração e raiva daquele padre estraga-prazeres.
Final da história: todos os que foram à cerimônia ou à festa de casamento encararam com aparente naturalidade a semelhança dos nossos trajes. Dias depois espalhou-se a notícia de que, lá na Europa, isso era a última moda.

Imagens:
https://www.etsy.com
http://www.photofacefun.com

sábado, 23 de agosto de 2014

Casquinha de alho

História antiga contada por uma bisavó.

Havia uma mulher muito ruim que, ao morrer, foi diretamente para o inferno.
Muitos anos depois, seu filho - um homem bom - faleceu e foi para o céu. Lá chegando quis saber como estava a sua mãe.
“Infelizmente tivemos que mandá-la para o inferno. A quantidade e a gravidade dos erros que ela cometeu não nos deixaram alternativa.”
Sendo uma pessoa generosa, que já havia perdoado todas as maldades e abusos praticados por aquela que o tinha dado à luz, o homem pediu uma nova chance para a mãe.
“Aquela mulher não merece nada, mas abriremos uma exceção por você, que é uma pessoa de muitos méritos. Daremos uma nova chance, mas caberá a ela aproveitar ou não.”
Então lhe entregaram uma casca de alho.
“Vá até a beirada do inferno e chame a sua mãe. Diga a ela para segurar na ponta da casca, enquanto você a puxa para fora. Se conseguir chegar até a borda, ela estará salva.”
Mais do que depressa o homem foi ao local, chamou a mãe e lhe deu as instruções.
“Segure com força, mãe. Mas tenha cuidado, porque se a casca se romper a senhora cairá de volta e nunca mais poderei resgatá-la.”
Iniciada a subida, tudo estava indo bem. O homem puxava bem devagar, e lhe pareceu uma tarefa fácil porque o peso era pouco, mesmo depois que outras almas, ao assistir à subida da companheira de tormentos, seguraram em seus pés e foram sendo içados também.
Já estavam chegando à borda quando a mulher olhou para baixo e resolveu se livrar daqueles intrusos que se aproveitavam da situação. O filho era dela, a chance era dela e de mais ninguém.
Então balançou os pés para fazê-los cair. Nessa hora a casquinha se rompeu. Caíram todos.
O homem bom teve que se afastar dali e nada mais pôde fazer para ajudar a mãe.

Moral da história: seja generoso. E tenha cuidado com o que diz e faz: alguém pode estar lhe concedendo a sua última chance, mesmo sem você saber.

Imagem: http://www.wikiart.org

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pulseirinha perdida

Manhã de domingo fria e chuvosa. Muito cedo. Lá vou eu andando pela rua quase deserta. Se pudesse estaria também, como a maioria das pessoas naquele momento, debaixo dos cobertores. Mas nesse dia isso não era possível. Rua molhada e escorregadia: é melhor olhar onde se pisa. E justamente lá, onde se pisa, um brilho me chamou a atenção. Abaixo-me para examinar o fenômeno e encontro uma pulseirinha toda suja de lama escura.
Desenho de estilo antigo, cor de ouro velho, cravejada de pedras incolores muito brilhantes. (Ouro? Diamantes?)
De quem será? Não há ninguém nas proximidades; quem perdeu deve estar longe. Deve ser alguém muito descuidado para perder na rua uma joia tão linda.
Olhando melhor, vejo que é uma pulseirinha de criança. Uma garotinha de uns sete, oito anos, foi quem a perdeu. Que pena, há de sentir falta. Olho em volta e realmente não vejo ninguém. Não tenho a quem devolvê-la.
Levo para casa e limpo a peça com muito cuidado. Ficou mais bonita, assim limpinha. O brilho das pedras é notável. Não paro de pensar na garotinha que a perdeu.
Dias depois levo ao relojoeiro. Ele faz um teste rápido e diz que aquilo não é ouro não. Concluo que as pedras não devem ser diamantes. Menos mal para a minha consciência.
Já que não posso devolvê-la nem usá-la, nem tenho para quem dar de presente, guardo-a em uma caixinha bonita forrada de veludo vermelho escuro.
Uma homenagem secreta à menininha que deve ter levado uma grande bronca da mãe mesmo sem ter culpa nenhuma, tadinha: o fecho estava defeituoso.


Imagem: http://1000wallpaper.blogspot.com.br

sábado, 16 de agosto de 2014

Um acontecimento importante

Ele era jovem ainda quando ficou viúvo. Uma doença longa e penosa vitimou a sua mulher. Quando ela morreu, uma parte dele foi junto. Nunca mais se sentiu completo.
Não tinha filhos, não se interessou mais por ninguém, assumiu por completo a viuvez e a solidão. Continuou vivendo porque não tinha alternativa.
Anos depois sua irmã mais nova se casou e tocou a ele cuidar da mãe idosa. Teve que lidar com um novo luto ao deixar a casa onde tudo estava impregnado com lembranças da esposa. Voltou a morar com a mãe, que não quis de jeito nenhum se mudar.
Agora não tinha mais o singelo consolo de se sentar na velha poltrona à noite, ouvindo de olhos fechados, com a luz apagada, aquelas músicas antigas de que ele e a mulher gostavam tanto. Agora a vida era trabalhar e cuidar da mãe, cuja companhia não o tornou menos solitário.
Então chegou aquela quarta-feira especial. Por algum motivo misterioso, acordou com a forte impressão de que alguma coisa muito boa estava para acontecer. Mas o que seria?
Vasculhando a mente em busca de explicações, não encontrou nenhum motivo para estar se sentindo assim. Não havia indícios de mudança, nem para melhor nem para pior, em qualquer aspecto da vida. Tudo igual, como sempre esteve. Porém a sensação continuava.
Quando chegou ao trabalho ouviu comentários sobre a mega sena acumulada cujo sorteio seria naquele dia. Veio uma certeza repentina e forte: “Tenho que jogar nessa mega sena! É preciso, é indispensável, é imperativo que eu jogue nessa mega sena!”
A expectativa do tal acontecimento maravilhoso acentuou-se depois que ele tomou essa decisão. Esquisito isso, uma vez que jogar em loterias era coisa que jamais o havia interessado.
À medida que as horas passavam, aquela percepção foi se transmutando em algo que há décadas não sentia, tanto que estranhou no início e levou algum tempo para identificar. Era felicidade!
Felicidade como, se a sua amada esposa continuava ausente e nenhum prêmio de loteria, por maior que fosse, poderia trazê-la de volta?
Na hora do almoço ele saiu e foi à casa lotérica. Fez o jogo com as mãos trêmulas de emoção. Não entendia nada do que estava acontecendo, mas, como tantas vezes em sua vida, desistiu de questionar e deixou-se levar, fazendo o que devia ser feito.
Saiu da lotérica ainda com o recibo da aposta na mão. Olhava para os seis números com o coração batendo forte. A sensação de felicidade ia aumentando, chegando ao ponto de ele sorrir. Há quantos anos não sorria de verdade, do fundo do coração? De repente, não conseguiu refrear uma risada de pura alegria!
Foi nesse momento que o carro o atingiu. O motorista conseguiu frear a tempo de evitar o atropelamento, mas o empurrão do para-choque o fez cair e bater a cabeça. Morreu instantaneamente. Segundo testemunhas, ele havia tentado atravessar a avenida movimentada sem olhar. Estava distraído lendo um papel que tinha nas mãos.
Esse papel voou e se perdeu na sarjeta. Seus números não foram sorteados.

Imagem: http://galleryhip.com

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sol sobre as nuvens

“Quando o dia está assim, úmido, cinzento... e tudo parece se encolher de frio... e os sapatos ficam molhados, os guarda-chuvas pingando, e as pessoas andam encurvadas com o peso dos casacos e do vento gelado... ninguém se lembra de que lá, acima das nuvens, o sol está brilhando esplendoroso!” disse ele.

“Tá legal”, disse eu. “O problema é que estamos aqui, abaixo das nuvens, onde tudo é gelado, cinzento e úmido.”

“Você não tem imaginação? Pegue o seu avião e voe até onde o sol brilha!”

“A minha imaginação vai ficar quentinha, mas o meu corpo ainda estará com frio.”

“Então vem aqui que te dou um abraço.”

Pronto. Nem precisei de avião. O abraço me elevou até as nuvens e mais alto ainda. O sol brilhou muito quente, muito luminoso, tornando tudo mais belo, mais vivo, mais colorido.

(Era lá que eu queria estar agora.)

Imagem: http://www.motaen.com

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Uma mente bizarra

          Magali era completamente louca, mas ninguém sabia. Só eu. Isso porque a moça era tão chata que ninguém gostava de conversar com ela, mas eu - que tenho uma paciência de Jó - era sistematicamente submetida a horas de lengalenga em que se mesclavam delírios psicóticos, reclamações generalizadas e muita maledicência.
          Por exemplo, ela chegava e dizia que tinha passado a manhã observando pequenos duendes andando sobre a sua mesa.
           “Duendes? Como assim?”
           “Duendes, ora. Eles entravam pela janela, atravessavam a minha mesa e saíam do outro lado . Você sabe que a minha mesa fica encostada na parede bem em frente à janela. Então eles não fizeram cerimônia nenhuma. Entraram e saíram a manhã toda.”
          E falava isso muito séria, como se fosse uma coisa normal. Uma vez quis me ensinar uma ginástica que servia para aliviar cólicas. Era uma série de movimentos completamente ridículos; poupar-me-ei de descrevê-los.
           “Onde você aprendeu isso, Magali?”
           “Foi um anjo quem me ensinou.”
          De vez em quando relatava coisas esquisitas que lhe aconteciam, como a chuva de gotas douradas que caía sobre a sua cama quando ela se deitava. Imediatamente após começava a falar mal de alguém. Logo em seguida ensinava uma receita de geleia. E por aí afora.
          Esse comportamento maluco não a impedia de trabalhar e de cumprir prazos, mas afastava as pessoas. Então ela era solitária. E cada vez mais chata e fofoqueira.
          O ponto alto de sua loucura foi quando revelou que na noite anterior Nossa Senhora tinha feito o “casamento místico” dela com Jesus Cristo. Muito séria, descreveu pormenores da cerimônia. Não posso contar o que ela disse porque não me lembro de nada. Acho que não prestei muita atenção. Nessa época já estava bastante incomodada com essas conversas bizarras e com as fofocas intermináveis. Perder tempo dando trela a gente sem noção, definitivamente não dá.
          Vai daí, num dia de TPM exacerbada, quando vi a Magali começar o papo furado de sempre, fiquei irritada e disse alguma coisa de que ela não gostou. Ficou de mal comigo. Foi um grande alívio!
          Vários meses depois, ela já trabalhando em outro local, a vi por acaso quando passou na avenida dirigindo um carrão.
          Hein? Magali doidona dirigindo um carrão?
          Pois é. O sinal de prosperidade indicava que nem os duendes, nem as chuvas douradas, nem as cerimônias místicas, nem as incessantes fofocas a impediam de realizar o seu trabalho e de cumprir os prazos.
          No final, é isso o que importa, certo?
          (Ou não?!)
Imagens:
http://post.kards.qip.ru
http://www.trendmixer.com/tinkerbell

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ascensão e queda da galinha Kátia - "Os meninos da Rua Beto"

Nunca houve uma galinha como Kátia. Nenhuma outra foi tão amada em vida e tão pranteada em seu passamento.

Da história de Kátia faz parte o coleguinha Izaías, que morava quase em frente à nossa casa e tinha oito anos na época. Sua mãe, senhora previdente, mantinha uma criação doméstica de galinhas para enriquecer a alimentação dos seus vários filhos.

Quando Kátia nasceu era um pintinho como outro qualquer, mas ao se tornar franguinha chamou a atenção do Izaías devido ao colorido de suas penas, tendendo ao vermelho. Ele resolveu tomá-la sob sua proteção e “pediu” a franguinha para a mãe, que a “deu”, distraída, sem pensar no significado emocional daquele pedido. Nessa ocasião Kátia recebeu seu charmoso nome.

À medida que o tempo passava, Izaías ia cuidando da sua galinha de estimação com todo o carinho, tanto que esta se tornou grande, gorda e vermelha.

O amor é um sentimento cheio de mistérios, cuja existência é sentida até pelos animais irracionais. Mesmo contando com tão poucos neurônios, Kátia percebeu que havia um vínculo entre ela e o menino, e o seguia como se fosse um cachorrinho. Quando ele fazia questão de sair desacompanhado, precisava dar altos e repetido berros: “Volta, Kátia!” para conseguir fechar o portão e sair à rua.

Tudo caminhava normalmente até o dia em que desabou um enorme temporal. O céu tornou-se escuro, o vento soprava furioso, raios começaram a riscar a atmosfera, e pavorosos trovões explodiam.

Por algum insondável motivo, ao invés de refugiar-se no galinheiro com as suas companheiras Kátia voou para cima do telhado do banheiro. Talvez, sentindo-se carente naquele dia, tenha agido assim para chamar a atenção do Izaías. Este, quando a viu em tão perigosa situação gritou várias vezes: “Desce, Kátia!” mas a galinha fingiu não entender e continuou empoleirada no telhado.

Izaías encostou uma escada na parede do banheiro e subiu para salvá-la. Já a tinha pegado e estava prestes a descer, quando um raio caiu a dez metros. O susto foi tão grande que ele despencou lá de cima! O telhado era baixo e por isso ele não se machucou, mas infelizmente aterrissou sobre a desventurada galinha, que teve morte instantânea.

Chorando em total desconsolo, Izaías resolveu enterrá-la com todas as honras que se dispensam a um animal de estimação, mas sua mãe, com aquele espírito prático de dona de casa, decidiu preparar e servir Kátia na janta.

Isso provocou uma enorme revolta no menino. Ele tomou a resolução de fugir de casa, e só não o fez porque o meu irmão conseguiu dissuadi-lo depois de exaustivas conversas. No entanto Izaías passou algum tempo magoado com sua mãe e jamais esqueceu a saudosa galinha.

Por uma dessas coincidências da vida, sua primeira namoradinha chamou-se Kátia. Era uma mocinha gorda e avermelhada, e trabalhava em uma avícola...

Imagem: http://galeria.colorir.com

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

(Segredos...)

Imagem: http://www.photofacefun.com

Carne de sapo

          Giusepe era um garotinho de cinco anos muito mimado. Filho único, mandava e desmandava nos pais, principalmente na mãe. Um dia ela precisou passar o dia todo fora e não podia levá-lo, então resolveu que o menino iria ficar com a tia, que tinha dois filhos da mesma idade. Foi chegando e dando instruções à cunhada:
           “Olha, o Giuzinho come de tudo, menos pimentão e chuchu. Ele também detesta cebola frita. Se você fritar ovo, não deixe a gema quebrar, tá? Ele gosta com a gema dura, mas não pode estar quebrada senão ele não come. Peixe não tem problema, menos sardinha, porque faz mal a ele. Galinha ele não come de jeito nenhum, não adianta insistir. Se você fizer bife, não esquece de tirar as cebolas, senão ele não vai nem tocar.”
          Enquanto ela falava, a tia só sorria e balançava a cabeça fazendo que sim. A verdade é que estava muito irritada por ter de cuidar daquele moleque malcriado. E pensava lá com os seus botões:
           “Até parece que vou me preocupar com o que ele gosta ou não gosta. Vai comer o que estiver na mesa. Se não quiser que não coma, mas não vou ficar perguntando o que ele quer. Só me faltava receber ordem de criança!”
          Essa senhora tinha métodos bem mais rústicos para cuidar dos filhos, mas estava dando certo, porque os meninos eram independentes, saudáveis, e nunca faziam manha.
          As coisas transcorreram razoavelmente bem pela manhã. Na hora do almoço tinha arroz, feijão, coxas de frango e salada de alface e tomate. Giusepe foi logo reclamando, naquele tom de criança exigente e choraminguenta:
           “Não quero frango!!! Não gosto de frango!!!”
          E a tia:
           “Mas isso não é frango!”
           “É sim! É coxa de frango! Eu não vou comer isso não!”
           “Se não quiser não coma, mas vai perder a chance de experimentar uma coisa muito gostosa.”
           “Frango não é gostoso, é horrível!”
           “Mas estou te dizendo que isso não é frango!”
           “Então o que é?”
           “É sapo! Não é coxa de frango, é coxa de sapo!”
           “Que nojo! Sapo é sujo!”
           “Esse não é sujo não! Comprei no açougue. É sapo criado numa lagoa bem limpinha.”
           “Mas sapo é pequenininho, essa coxa é muito grande pra ser coxa de sapo.”
           “É que eles dão vitaminas para os sapos crescerem fortes e ficarem gostosos.”
          O menino, que não era bobo, observava com o rabo do olho os dois priminhos que não estavam prestando a mínima atenção naquele papo de gente doida e comiam com muito apetite as coxinhas dos seus pratos. Tudo indicava que, ao terminarem as suas, iriam querer a dele. Então resolveu arriscar. Uma mordidinha, uma mastigadinha, uma engolidinha... Hmmm... estava gostoso. Não pensou mais em nada; comeu e repetiu.
          A tarde passou sem intercorrências graves, só algumas brigas. No final, quando a mãe do Giusepe chegou para buscá-lo, nenhuma criança havia sangrado nem apresentava hematomas, então tudo estava bem.
           “Venha, Giuzinho! Mamãe vai levar você pra casa e fazer o seu jantar. O que você quer comer, meu amor?”
           “Eu quero carne de sapo!”
          A mãe olhou para a tia perguntando silenciosamente que conversa estranha era aquela, mas a tia apenas fez um gesto como quem diz: “Coisas de crianças!”
           “Giuzinho, meu querido, carne de sapo é porcaria, não serve pra comer.”
           “Nãããooo!! É gostoso!! Eu quero carne de sapo!”
          E foram embora, com o garoto gritando sem cessar.
          Instantes depois, como o berreiro não parasse, a tia abriu a cortina da janela e viu quando o menino se atirou no chão da calçada, esperneando e gritando.
           “Eu, hein? É nisso que dá criar um filho com tanto mimo. Agora aguenta.”
          Fechou a cortina e foi cuidar da vida.

Imagem: http://www.frog-clip-art.com

domingo, 10 de agosto de 2014

O tempo é a quarta dimensão

Então um dia ela voltou àquele lugar onde fora tão feliz.
Sabia de antemão que tudo estaria mudado, que a época da felicidade havia sido outra, mas o lugar era aquele.
Olhou em volta e compreendeu que não podia esperar nenhuma mágica. Que não tinha entrado em uma máquina do tempo. Mas o lugar era aquele, sim.
Encostando a mão nas paredes, parecia sentir uma vibração.
“Aqui existe alguma coisa que tem a ver comigo. Eu deixei um pouco da minha energia neste lugar. Os momentos felizes e as pessoas queridas estiveram aqui. Alguma coisa ficou de tudo isso.”
Ficou? Será que ficou mesmo?
Depois de uma certa hesitação, ela foi embora. O lugar era aquele, mas o tempo não era. Não adiantava permanecer ali. Fantasma de felicidade não é felicidade.
A inteireza das coisas depende de todas as suas dimensões. Uma delas estava faltando, e faltaria para sempre. Passou. Não volta mais. Morreu. Adeus.
Imagem:
http://veronnikafra-forever.blogspot.com.br

sábado, 9 de agosto de 2014

Cartas de amor

Minha amiga Marilene trabalhou uma certa época no departamento de previdência social de um banco. Era um escritório pequeno e isolado, onde, além dela, havia o chefe e uma outra funcionária.
Esse chefe era um jovem de olhos muito brilhantes, com as últimas espinhas ainda estourando no rosto. Depois de algum tempo, quando os três já tinham adquirido suficiente familiaridade, ele começou a expor seus pontos de vista sobre variados assuntos, incluindo sua opinião sobre as mulheres.
Encurtando a história, o rapaz - Ademir - se dizia um grande conhecedor da alma feminina, de tal maneira que não havia novidades possíveis para ele, e insinuava que era um arrasador de corações. Para completar, classificava as duas moças como ingênuas e inexperientes.
Do exposto acima é possível perceber que o Ademir, além de estar com os seus hormônios em vulcânica atividade, era bastante imaturo. As minhas amigas, se tivessem mais maturidade que o chefe, teriam percebido isso e colocado um limite nas coisas. Mas eram todos muito jovens, e sendo assim só o que elas queriam era uma desforra.
Começaram então a notar que o Ademir usava os momentos livres para escrever furtivamente coisas misteriosas. Colocava tudo em uma pasta que ficava sempre trancada em uma gaveta.
Um dia em que a pasta foi esquecida em lugar acessível, a curiosidade (e o desejo de vingança) falaram mais alto do que a ética, e elas leram tudo. Eram relatos de aventuras amorosas. Mal inventadas e mal escritas. Erotismo simplório e brega, típico da imaginação de um virgem não assumido.
As meninas deram muitas risadas e resolveram fazer uma brincadeira. Não se tratava de vingança, mas de simples gozação. Pediram que eu escrevesse cartas apaixonadas para o Ademir enviando para o endereço do escritório (a fim de que pudessem observar a sua reação). A minha maturidade não era maior do que a de todo esse pessoal, então achei que seria bem divertido. Como a ideia era apenas fazer brincadeira, escrevi uma carta muito exagerada e ridícula, que qualquer ser humano normal iria tomar como falsa. Algo assim:
Para a grande surpresa das meninas, ao ler aquilo ele - em vez de reconhecer a brincadeira - ficou com o rosto vermelho, guardou a carta e não comentou nada. O grande conhecedor da alma feminina tinha acreditado naquela bobageira!
O que fizemos? Continuamos a escrever. Cada carta era mais imbecil e exagerada (e com mais erros de português) que a anterior, e ele continuou acreditando!
Isso se prolongou por algum tempo até um dia em que ele estava particularmente insuportável, contando vantagens sobre a sua grande experiência com as mulheres, comparando sua excepcional sabedoria e astúcia com a ingenuidade pueril das meninas.
A certa altura a Marilene perdeu a paciência e revelou a brincadeira. Nesse momento elas realmente se vingaram, porque o Ademir ficou com a maior das caras de tacho, provando mais uma vez que havia acreditado em tudo.
A reação seguinte foi ficar zangadíssimo e exigir uma conversa comigo.
Encontrei o rapaz muito revoltado, os olhos brilhantes faiscando de raiva, as espinhas querendo estourar de ódio! Levei a maior bronca. Como me atrevia a brincar com os sentimentos das pessoas daquele jeito?
“Mas Ademir, como você acreditou naquelas bobagens? Não percebeu que era exagerado demais?”
“Acontece que é impossível prever o efeito daquilo que dizemos! Não dá pra saber o que as outras pessoas vão sentir. É por isso que não se pode ser leviano! Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá!”
Nos dias que se seguiram ele bancou o ofendido, tanto que as minhas amigas acabaram ficando com uma ponta de remorso. Eu não fiquei com remorso nenhum, e acho que ele posou de ofendido só pra não ter de olhar nos olhos das meninas e admitir que era mais ingênuo e inexperiente do que elas.
Espero que, com o passar dos anos, ele tenha amadurecido. Ou então (já que gosto não se discute) tenha encontrado alguém capaz de lhe escrever, com toda a sinceridade, cartas iguais àquelas...

(Imagem: http://www.loftwork.com)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O desastre das galinhas - "Os meninos da Rua Beto"

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

Olha aí o Isaque!
Ele tinha doze anos e era vendedor de galinhas, mas não conseguia vender uma sequer!
Para que não perdesse o emprego, dois amigos tentaram ajudá-lo, mas o que aconteceu?!
Um terrível desastre!!!
Pobres galinhas! Salvaram-se ou foram para o céu dos galináceos? E os meninos, saíram ilesos ou não?
Isaque conservou o seu emprego? Recebeu promoção? Ou foi despedido por justa causa?

As respostas para estas e outras intrigantes questões estão em "Os meninos da Rua Beto"!

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h

HiStÓrIaS dE uM tEmPo Em QuE aS cRiAnÇaS bRiNcAvAm Na RuA

Voltar para casa

Não, não nego nenhuma das acusações. Todas são verdadeiras nos seus pormenores. Eu fiz tudo isso e muito mais.
Exibicionismo? Talvez. Leviandade? É possível. Sempre fui um pouco leviana. Quem sabe um desejo de subverter tudo, de chocar as pessoas. Um desejo inconsciente de ser descoberta. Como fui.
Em outras épocas as imprudências podiam nos custar a vida, e realmente custaram. Mas agora as coisas estão evoluindo rapidamente e a situação tornou-se irreversível. Apesar disso reconheço que não devia ter posto em risco um projeto tão importante. Sim, vou explicar. Não importa mais esconder. Ninguém vai poder fazer nada, ainda que acredite. E eu sei que ninguém vai acreditar.
Quando eu era criança ficava horas trancada no quarto, explorando todas as reentrâncias das paredes, os pequenos recantos dentro dos móveis, o buraco da fechadura... Na adolescência, gostava de sair nas noites claras. Grudava-me na vidraça das casas e escorria por elas feito gelatina. Era engraçado quando alguém conseguia me ver.
Lembro quando entrei numa rosa pela primeira vez. É muito agradável dentro de uma rosa. Mas não gostei quando entrei numa laranja. Já entrei também num cachorro. Cachorro é bom, é suave. Gato não. Só uma vez entrei num gato, e ele percebeu, ficou inquieto. Tive que sair logo.
Quanto às pessoas, nem todas são sensíveis. A maioria não é. Pode-se entrar e sair à vontade quantas vezes se queira, que elas continuam quietas, impassíveis, com a mesma cara abestalhada. Exatamente como o cachorro. As outras, as felinas, capazes de captar o invisível, são poucas.
Bruxa, eu? Não, Senhor Inquisidor, nunca houve bruxas. A realidade não é tão simples.
O senhor quer saber sobre os sabás? Existiram, sim. Eram tentativas de abrir um canal espaço-temporal para que pudéssemos voltar ao nosso lugar de origem. Pensava-se na época que um esforço mental coletivo seria bastante forte para abrir o canal. Passaram-se alguns séculos até que se descobrisse o verdadeiro meio, o único meio de se conseguir isso.
De onde somos? Não sei responder. Sei que há muito tempo um grupo de exploradores estava investigando uma abertura no espaço-tempo quando foram puxados para cá. Nunca conseguiram voltar. O canal deixa passar matéria em um único sentido.
Os mais antigos, nossos ancestrais, quase enlouqueceram de desespero, porque o seu conhecimento não era suficiente para resolver o problema. Obrigados a permanecer na humanidade, fizeram o possível para se manter despercebidos.
Tem sido difícil, sim. Mas agora não vai demorar. Está tudo preparado e quase pronto. Foi necessário interferir muitas vezes no curso da história. Tivemos que manipular os homens, jogar com as suas vaidades, influenciar algumas mentes criativas... Uma pequena parte do nosso conhecimento científico foi sendo revelado pouco a pouco, cautelosamente. O que a raça humana iria fazer com essas informações foi facilmente previsto.
Agora o arsenal nuclear mundial está com a potência que precisamos. Vai ser fácil deflagrar a guerra total. Só uma liberação de energia tão grande quanto a explosão do planeta será capaz de inverter a inclinação gravitacional do canal.
Então nós nos libertaremos destes corpos humanos e seremos sugados de volta ao nosso próprio universo.

Imagem: http://lacaidadeconstantinopla2.blogspot.com.br

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Sabor surpresa

Aquela senhorinha de outros tempos costumava cobrir os seus bolos com clara de ovo batida com açúcar. Assim mesmo: clara batida em neve com açúcar. Ficava espesso e branquinho. Se colocasse anilina mais bonito ficava.
Um dia ela ganhou um pedaço de bolo coberto com glacê. Que diferente essa cobertura! Que gostosa! Como se faz?
Ensinaram a receita, que levava gordura vegetal. A senhorinha guardou na memória para fazer na próxima oportunidade.
Chegou a oportunidade: um aniversário. O bolo ficou bonitão.
Na festinha os convidados estranharam o sabor daquele glacê, mas ficava feio falar qualquer coisa. Então fizeram uma força danada para engolir aquilo sem fazer careta. E sem vomitar.
Dias depois, com jeitinho, uma amiga perguntou como ela tinha feito a cobertura.
“Ficou bom, não ficou? É receita nova. Só fiz uma modificaçãozinha.”
“Ah é? Que modificação a senhora fez?”
“É que eu não tinha gordura vegetal em casa, então usei banha de porco...”
Imagens: http://cravnravn.blogspot.com.br
http://www.clker.com/







segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Essas pessoas sensíveis

           Eu tinha um amigo chamado Gabriel. Ele era funcionário lá da faculdade.
           Gabriel era gordo. Descendente de italianos, apreciava uma boa massa. Adorava as rosquinhas caseiras que eu levava de vez em quando. E retribuía com tortinhas de morango.
          Ele era separado, com uma filha. O imóvel do casal ficou com a ex-esposa, que conservou a guarda da menina. O sonho do Gabriel era comprar um imóvel para ele, por isso economizava tudo o que podia.
          Muito culto, o Gabriel. Com um senso de humor às vezes corrosivo, mas sempre inteligente. Ele vivia estudando francês. Planejava uma viagem para a França e queria aproveitar ao máximo, então achava imprescindível falar a língua do país.
          Foi o Gabriel quem me iniciou nos mistérios da torta de ricota com passas, do patê de beringela e das HQs francesas, pelo que sempre lhe serei grata.
          Ele tinha juntado quase todo o dinheiro necessário para a compra da sua casa quando aconteceu o confisco das cadernetas de poupança. O choque foi grande demais, sofreu um infarto. Não morreu, mas ficou debilitado física e emocionalmente.
          Quando voltou a trabalhar ele me disse: “Agora não tenho mais esperança de um dia comprar a minha casa. Acabou-se tudo.”
          Pessimismo exagerado, mas vindo de uma pessoa em estado depressivo dava pra compreender.
          Pouco tempo depois ele teve outro infarto, e dessa vez foi fatal.
          Ah Gabriel, querido amigo... de quem foi a culpa por você ter morrido tão cedo?
          Quem mandou comer tanta comida italiana?
          Por que não fez exercícios? Por que não fez dieta?
          E por que se estressou tanto quando sequestraram todas as suas economias? Hein?
          Ah, essas pessoas sensíveis...
Imagem: http://thefatgoddesslife.blogspot.com.br

domingo, 3 de agosto de 2014

A noiva pintada

Foi assim que tudo começou. Ele pintou a minha cabeça em primeiro lugar, e foi por isso que logo comecei a pensar, mesmo sem ver e nem ouvir nada. No começo só conseguia sentir as pinceladas, muito suaves, muito agradáveis. A umidade da tinta era refrescante, e a textura cremosa dava às cerdas do pincel um ritmo seguro, macio. Fui surgindo lentamente e tenho certeza de que nem mesmo ele, meu criador, suspeitava da curiosidade que ia crescendo naquela cabeça ainda sem olhos, sem boca e sem nariz.

Demorou muito para pintar os cabelos. Quantos matizes, quantos brilhos terá ele colocado nas curvas dos cabelos? Devem ter sido muitos, porque não acabava nunca! Que criatura minuciosa, pensava eu! Que paciência, que empenho! Já tinha certeza, desde então, de que toda aquela demora não significava indecisão. Ao contrário, ele sabia o que buscava.

Estranhamente, pintou o nariz em seguida. Por que não os olhos? O natural seria pintar os olhos antes do nariz, achava eu. Mas preferiu o nariz. E comecei a sentir os odores do lugar. Naturalmente, um forte cheiro de tinta, que não me desagradou. Como poderia me desagradar, se era a substância da minha própria existência? Junto com o cheiro de tinta veio o do pintor. Suor, cabelos, respiração. Não me desagradou. Como poderia me desagradar se vinha do meu criador? Agora já conhecia o seu toque e o seu odor. Faltava vê-lo e ouví-lo.

Foi pintando o pescoço, o colo, os braços. O tecido da roupa ele fez muito leve, quase não o sinto. Será de renda? Será transparente?

A boca. Demorou muito na boca. Usou pincéis pequenos, alguns finíssimos, alguns espessos. Delineou o contorno com firmeza, e foi preenchendo o espaço com movimentos lentos, sinuosos, de baixo pra cima, de cima pra baixo, o lábio superior, o lábio inferior, os cantinhos... Deve ter ficado bonito. Tenho até a impressão de que ficou proeminente. Proeminente e macio, talvez cintilante como se estivesse molhado.

Mas os olhos? Estava tão ansiosa por vê-lo! Sabia que precisava ter paciência porque ele não demonstrava pressa nenhuma de me terminar. Quanto tempo ficou desenhando os detalhes do vestido? Uma eternidade.

Às vezes parava de trabalhar, e me vinha o medo de que tivesse desistido. O cheiro de tinta diminuía e o dele desaparecia completamente. Só voltavam muito, muito depois. Primeiramente o dele, em geral misturado com outros odores que não lhe eram naturais. Depois começava o de tinta, e à medida que as carícias do pincel se reiniciavam e se prolongavam, o cheiro do pintor se tornava mais forte, mais característico. Todos os outros iam se extinguindo, e ficavam outra vez os dois únicos de que eu gostava: o das tintas e o do pintor. Que bom! Que reconfortante! Desejava que ele nunca parasse de me pintar, que nunca me terminasse.

Mal acreditei quando começou a pintar os olhos, naquele ritmo lento e minucioso. O esquerdo primeiro. Desenhou os cílios um a um, com um pincel finíssimo. Perdi a noção do tempo. Quando começou o direito eu fiquei apavorada, porque não estava enxergando nada com o esquerdo! Ele havia pintado um olho cego! De que adiantava tanta minúcia e arte, se no fim estava condenada a não vê-lo jamais? Ah, que dor senti! Se tivesse lágrimas, teria chorado.

Ele continuava o trabalho no olho direito, mas agora eu já não estava impaciente. Sabia que nunca iria vê-lo. Queria poder imaginá-lo, mas nem isso era possível porque nunca tinha visto ninguém. Lamentei que tivesse caprichado tanto na cabeça, porque os meus pensamentos eram perfeitos e eu sabia que ao terminar o olho direito o trabalho estaria completo, e ele se afastaria para sempre.

Foi tão rápido desta vez! O pincel foi retirado da superfície, os odores se diluíram, e eu soube que estava tudo terminado.

Muito, muito tempo depois, quando a minha tinta já estava totalmente enxuta e eu quase conseguira parar de pensar, comecei a sentir de novo o aroma do meu criador. Vinha bastante atenuado, misturado com um perfume muito agradável. Senti que se aproximava, e dali a pouco aquele familiar cheiro de tinta veio vindo, veio vindo, e de repente um pingo refrescante foi depositado bem no centro de uma das íris. E eu enxerguei! Não deu tempo de olhar nada porque logo depois outro pingo caiu no centro da outra íris. Agora eu via tudo com perfeição!

Meu criador se afastou caminhando de costas, sabendo que agora eu o via, querendo que eu o visse também. E olhava para mim, e sorria, e parecia maravilhado, e acho que estava emocionado.

Como é belo o meu criador. Nunca vi nenhuma outra pessoa, mas tenho certeza de que ele é a mais bela de todas as criaturas. Não se esqueceu de mim, como eu tinha receado. Às vezes ele sai, mas sempre volta. Senta-se à minha frente e fica me olhando e sorrindo com os olhos brilhantes de lágrimas. Acho que me ama tanto quanto eu o amo.

Outro dia me beijou. Foi maravilhoso. Muito, muito mais agradável do que a mais suave das pinceladas.


Imagem: http://paintingwedding.com

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O caso da minhoca - "Os meninos da Rua Beto"

Janeiro de 1969

Meses antes de completarem quinze anos o meu irmão e o Izaías trabalharam em uma metalúrgica que fazia parte de uma conhecida fábrica de chuveiros, a qual empregava menores de idade sem registro em carteira inclusive para trabalhos perigosos e insalubres com solda, prensa, cromação, etc.

O serviço do meu irmão não oferecia perigo porque era na linha de montagem, mas o Izaías trabalhava em uma prensa. O único treinamento em segurança que recebeu foi a exibição de um vidro cheio de formol contendo fragmentos de dedos e tecidos humanos, com a advertência de que “se você não tomar cuidado, olha só o que pode acontecer!”.

O chefe da seção onde eles trabalhavam era um rapaz que tinha cara de minhoca, pelo menos na opinião dos dois: olhos baixos demais em relação ao nariz, boca pequena e redonda, ombros estreitos e caídos. E além disso tudo era careca.

A uma certa altura de um certo dia, em plena hora do expediente, o Izaías chegou para o meu irmão e contou a seguinte piada, com palavras mais ou menos assim: um minhoco colocou a cabeça para fora do buraco e viu, saindo de um buraco vizinho, uma forma roliça e insinuante. Como era um conquistador, o minhoco disse, fazendo voz de galã: “Olá, querida! Como vai?” Ouviu então a seguinte resposta irritada: “Não seja imbecil! Não tá vendo que eu sou o seu rabo?!”

"QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ!!!!!" (O meu irmão não era nada discreto quando dava risada.)

O chefe escutou e resolveu verificar o que estava acontecendo. Enquanto o meu irmão ria, de olhos quase fechados, o Izaías viu o cara-de-minhoca se aproximando e começou a rir também. O meu irmão olhou para o chefe e pensou a mesma coisa. Riu mais ainda. Em seguida os dois se entreolharam, um adivinhou o que o outro estava pensando, e a gargalhada foi em uníssono.

Pelo resto do dia, quando os dois viam o chefe, começavam a rir feito loucos. Uma hora o homem não aguentou mais. Chegou para os indisciplinados e disse que eles eram esperados no departamento pessoal para assinar uma advertência.

Se ele os tivesse deixado ir sozinhos o fim da história seria outro; mas ele foi junto, e portanto os garotos assinaram as advertências dando gargalhadas. Aquele comportamento era tão fora do normal que o pessoal do DP achou que eles estavam loucos. Resolveram despedi-los na mesma hora.

"Izaías, você está despedido!"
"QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ!!!"

Foi aí que tiveram certeza de que os rapazes estavam mesmo loucos, e despediram o meu irmão em seguida. Os dois foram embora se chacoalhando de tanto rir.

Moral da história: a minhoca é um animal muito útil. Fertiliza o solo, serve como isca nas pescarias, aumenta o conteúdo proteico dos hambúrgueres de carne bovina, e no caso relatado acima salvou dois jovens do perigo de se tornarem vítimas mutiladas do capitalismo selvagem.

Ah sim! Minhoca também serve para fazer poesia:

Ao ver uma velha coroca
fritando um filé de minhoca
o Zé Minhocão
falou pro irmão:
“Não achas melhor ir pra toca?”

Poema sem título
Tatiana Belinky

“Limeriques das coisas boas”, 1987

Imagem: http://www.studyblue.com