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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nosso filho nonato

Meu amor, sei que é zero a chance de você ler esta carta. Não faz mal, é apenas uma conversa comigo mesma. Você é meu leitor imaginário. Imaginar que estou falando com você me ajuda a colocar em ordem os pensamentos.
Quem sabe um dia, por simples curiosidade, você lance o meu nome (caso dele ainda se lembre) em uma máquina de busca - et voilà! Descobre este texto. “Tudo é possível neste mundo de maravilhas!” - já dizia Dona Benta lá no Sítio do Picapau Amarelo, na época em que pica-pau não tinha hífen.
Mas, voltando ao assunto, leia ou não leia tanto faz. Nada mudará no universo.
O caso é o seguinte. Estive pensando naquele ditado: “D’us escreve certo por linhas tortas”. Pensando em como isso é verdadeiro. Existem coisas que parecem ser horríveis e são mesmo, porém evitam que outras piores aconteçam.
Exemplo: quando nos separamos foi horrível (para mim), mas talvez tenha sido melhor para todos, inclusive para a sociedade. Motivo? O nosso filho. O nosso filho que não nasceu e nem ao menos foi concebido. O nosso filho nonato.
Não entendeu nada, aposto. Explicarei em detalhes.
Se tivéssemos ficado juntos certamente teríamos tido pelo menos um filho. Por duas razões. Primeiro, que você sempre foi muito vaidoso e tem em alta conta a sua genética. Lembro-me de comentários seus a esse respeito. Sem dúvida ia querer um filho para perpetuar essa maravilha que você sempre se considerou.
Segundo, que eu sou saudável e fértil. Minha ginecologista diz que os meus ultrassons são obras de arte, dada a perfeição que ela enxerga lá naquelas sombras informes.
O nosso filho seria muito bonito, tenho certeza. Porque você é muito bonito. Cheguei a ver as suas fotos de bebê e posso dizer que nunca houve uma criança tão linda. Eu também fui bonitinha quando pequena. Não tenho provas porque todas as fotos sumiram, mas é o que dizem. Enfim, com toda a probabilidade o nosso nonatinho seria uma graça. Herdaria os nossos olhos claros, a nossa pele boa e os seus cabelos cacheados.
Bonito, saudável, inteligente e rico. Rico sim, porque a profissão que você escolheu é muito lucrativa para quem domina a parte técnica e tem criatividade. E você, além de bonito, é também inteligente e criativo. Maldito seja. Tanta coisa boa em uma só pessoa chega a ser obsceno. O que te salva são os defeitos, tipo essa irritante imaturidade de criança mimada e a falta de educação que você pratica acreditando ser sofisticado. Não fosse isso, eu não te amaria. Seria apaixonada como sempre fui, mas não sentiria amor. Quem consegue amar uma criatura perfeita?
Pois então, já que o nonatinho herdaria tanta coisa boa, qual o problema?
O problema é que ele seria psicopata. Sabe quanta infelicidade um psicopata espalha pelo mundo? Muita.
Está chocado, meu amor? Quer que eu te prove? Provarei.
Começando pela minha família. O meu avô paterno era um sádico asqueroso que gostava de espancar os filhos sem motivo nenhum, só para se desestressar. Traumatizou todos, é óbvio, e ainda chegou ao fim da vida convicto de que havia sido um bom pai. Que tipo de gente é essa? Isso é gente?
Ainda na linhagem paterna, há vários casos de alcoolismo e de mau-caratismo, não necessariamente na mesma pessoa, mas inclusive. Imagine uma frase do tipo: “A que horas vai terminar o enterro da minha mãe? Estou atrasado para um churrasco.” Essa foi proferida por um primo meu. Que ganha rios de dinheiro com atividades ilícitas.
Do lado da minha mãe, as pessoas são emocionalmente frias. Não existe esse negócio de afeto entre irmãos, carinho de mãe pra filho, lealdade, gratidão e coisas do gênero. Lembra-se das minhas fotos que sumiram? Desconfio que a minha mãe jogou todas fora. Quando ela se irrita - o que é frequente - faz coisas assim. Esconde objetos que sabe serem necessários, como óculos ou chaves. Ou que são sentimentalmente importantes, como presentes e lembranças. Quebra outros “por acidente”, joga fora “sem querer”... Eu poderia ficar aqui listando exemplos e mais exemplos. Só pra finalizar, existem casos comprovados de pedofilia e de prostituição desse lado da família.
Pra você ver, meu amor: sou portadora desses genes execráveis que o pobre nonatinho receberia em suas adoráveis e rechonchudas células.
E você não está muito melhor do que eu, se quer saber. Não conheci muito o seu pessoal, mas sei que a sua mãe criava vinte gatos dentro de casa. Acha isso normal?
Aquela vez que você ficou semanas sem falar comigo, lembra? Não lembra? Mas foi o que aconteceu. Parou de falar comigo sem qualquer justificativa. Quando eu perguntava o que estava acontecendo (nas raras vezes em que conseguia chegar perto o suficiente para fazer perguntas) você respondia que “não era nada”. Depois que passou, veio com a história de que tal comportamento não tinha nada de mais, que havia sido apenas "uma fase”.
Uma fase o caramba! Foi quando, após reavaliar todas as suas atitudes estranhas - que foram muitas - compreendi que você tinha problemas mentais. Não bastassem a imaturidade e a falta de educação, você tinha problemas mentais.
Então, amor da minha vida, veja como foi bom não termos tido nenhum filho. Já pensou que estragos irreparáveis poderia fazer um jovem tão belo, tão rico e tão psicopata como ele teria sido?
Melhor que nunca tenha chegado a existir. Nonatinho está lá onde deveria estar, junto com o nosso amor: em lugar nenhum.


Imagem: http://www.thebabycotshop.com

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