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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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domingo, 6 de agosto de 2017

Começo, meio e fim

Como era charmoso o meu Otacílio!
Me lembro com tanta clareza do dia em que nos conhecemos!
Foi na entrevista para o meu primeiro emprego.
Entrei na sala e lá estava ele atrás daquela escrivaninha enorme de madeira escura toda entalhada em belos arabescos, coisa linda mesmo. Combinava com a elegância da sala e dele próprio.
Falou pra eu me sentar e aquela voz forte, tão masculina, me impressionou. De nervosa que estava fiquei mais nervosa ainda.
Ele só me olhando e sorrindo de leve. Parecia reparar na minha aparência.
“Será que estou bem vestida? Meu cabelo está em ordem? O decote não extrapolou?”
Pra encurtar a história, fui contratada. Fiquei sendo secretária do Otacílio.
Ele disse que não fazia mal eu não ter experiência; às vezes era até melhor pegar alguém sem experiência e ir ensinando tudo aos poucos, do jeito certo. Assim a pessoa fica bem treinada e “com a cara da empresa”.
O Otacílio me treinou bem demais. Se é que vocês me entendem. Fiquei do jeitinho que ele queria. Em tudo.
Quatro ou cinco meses depois de contratada eu me considerava namorada dele. Todo mundo da firma sabia do nosso caso. Por que não? Nós dois éramos solteiros, não havia nada a esconder. Tudo bem que na questão da idade tinha lá uma diferença de uns vinte anos, mas paixão não escolhe idade.
Foi isso o que ele me falou logo na minha primeira semana de trabalho. E também de como eu estava linda no dia da entrevista e como ele quase não conseguiu disfarçar o interesse por mim. Naquele instante ele teve certeza de que tudo ia dar certo.
Deu mesmo.
Só uma coisa me incomodava. Não muito, só um pouco. Ele nunca tinha me pedido em namoro. A gente saía, jantava, namorava, até viagem de fim de semana fizemos umas vezes. Mas nunca me pediu em namoro e muito menos falou “eu te amo”. Uma vez eu falei pra ele, porque era verdade, mas não tive resposta. Não com palavras. Me respondeu com beijos, e isso compensou.
Homem não gosta de se abrir tanto assim, pensei. Palavras não têm importância. São os atos que demonstram amor, não umas poucas palavrinhas que o vento leva.
Depois de um tempo comecei a ouvir fofocas. Engraçado não ter percebido antes: as meninas do escritório cochichavam sobre mim e o Otacílio. Só podia ser inveja, das bravas. Uma vez fui à copa pegar café para ele e ouvi umas risadas. Alguém estava dizendo que era incrível uma  menina como eu me contentar com aquele barrigudo careca; as outras caíram na risada. Elas não me viram, então dei meia volta e fui para a minha mesa.
Barrigudo careca? Nunca! Ele estava um pouco acima do peso, mas quem não está? E careca jamais! É normal os homens ficarem meio calvos, diz que é por causa dos hormônios. Qual o problema de ele estar com o cabelo um pouco ralinho no topo? Não atrapalhava em nada a estética.
Elas não viam como ele era inteligente, charmoso, gentil e perfumado. Ou melhor: viam sim, por isso tanta inveja.
Não foi a única vez que ouvi coisas ruins sobre o meu Otacílio. A pior foi que ele havia despedido uma funcionária grávida sem ligar que ela era arrimo de família e solteira. Eu não quis saber dos detalhes, por exemplo se ela tinha entrado na justiça do trabalho e coisas do tipo. Não estiquei a conversa porque era absurdo demais e eu tinha mais o que fazer.
Aí vieram me falar que ele tinha sido grosso com o motorista da firma. Que o motorista ficou tão revoltado que saiu xingando: “Seu narigudo! Seu ignorante! Seu besta!”
Não acreditei nessa história. Outra maledicência. E aquela parte do “narigudo”, então! Ridículo. O nariz dele não era grande, era masculino. Queriam que ele tivesse narizinho feminino, então?
Dias depois dessa última fofoca ele amanheceu com conjuntivite e não pôde ir trabalhar.
Seu Armando, chefe do departamento pessoal, me chamou e disse que eu precisava levar uns papéis para o Otacílio assinar. Coisa urgente: era a rescisão do motorista.
Levar aonde? Ao apartamento dele? Meu coração começou a bater forte. Nunca eu tinha ido ao apartamento do meu namorado, nem sabia onde ele morava.
Seu Armando me entregou uma pasta de documentos, o papel com o endereço, e disse que era lá pertinho, dava pra ir andando. Já estava tudo combinado, e que eu tomasse cuidado porque conjuntivite pega.
Fui caminhando sem pressa. Não queria chegar suada e descabelada, e também precisava me acalmar. Finalmente ia conhecer o lugar onde morava o meu Otacílio. Com certeza um apartamento charmoso e elegante como ele.
Na portaria do edifício encontrei uma mulher bonitona conversando com o porteiro.
― Pode uma coisa dessas, seu Aparecido? Ele nem me falou nada. Fiquei sabendo por acaso. Liguei no celular dele mas estava desligado. Ele não quer que eu ligue na empresa, mas desta vez não teve jeito porque fiquei preocupada.  Lá me disseram que ele não tinha ido trabalhar por causa de uma conjuntivite. Coitado, deve estar precisando de ajuda, mas é um fofo e não quis me incomodar. Olha, não tem necessidade do senhor avisar que estou subindo. Tenho a chave, vou abrir a porta sem fazer barulho e dar uma espiada nas coisas…
O porteiro me viu parada esperando ser atendida.
― A moça é a secretária do seu Otacílio? Pode subir, ele já autorizou. Vai junto com a senhora aqui.
A bonitona virou pra mim com um sorriso bem grande, estendendo a mão.
― Você é a secretária do Otacílio? Muito prazer! Sou a noiva dele, meu nome é Mariana, qual é o seu?
O mundo girou à minha volta e tive de apoiar a mão na mesa do porteiro para me equilibrar. Fingi que estava só depositando a pasta de documentos pra liberar a mão e cumprimentá-la. Ela não percebeu o meu choque, continuou a falar toda animada.
― Vamos subir juntas. Estou preocupada, sabe? Conjuntivite não é grave, mas a pessoa não pode sair de casa. Vou ver se não precisa comprar alguma coisa, algum remédio, alguma comida. A diarista dele só vem na sexta, veja só a situação.
A música do elevador era “Começo, meio e fim” do Roupa Nova. Ela falava, falava, e eu não queria ouvir. Me concentrei na música, fui cantando mentalmente como se estivesse num karaokê.

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa entender
que um amor de verdade
é feito canção,
qualquer coisa assim, que tem seu começo,
seu meio e seu fim.”

Essa parte da música não ajudou em nada, garanto. Depois da subida de elevador mais penosa da minha vida, chegamos ao apartamento. Era tão lindo quanto eu tinha imaginado. Mariana chamou:
― Otacílio, meu amor! Está no quarto?
Nem esperou a resposta e já foi entrando. Fiquei lá parada na antessala, abestalhada da minha vida.
Logo voltou a noiva do meu namorado:
― O Otacílio pediu pra você me dar os papéis que ele vai assinar lá no quarto. Ele está com vergonha de aparecer com os olhos vermelhos e inchados.
Dei pra ela a pasta e continuei no mesmo lugar, catatônica.
Não demorou e ela estava de volta.
― Menina, por que não se sentou? Quer uma água? Um cafezinho antes de ir?
Eu não quis nada. Só agradeci e fui embora. Meu coração doía a ponto de estourar.
Entrei no elevador e comecei a ouvir a música. Sem querer comecei a cantar mentalmente, como tinha feito na subida. Estava neste trecho:

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa aprender
a começar de novo.
É como tocar o mesmo violão,
e nele compor
uma nova canção.”

Devagar, devagarzinho, me veio uma coisa estranha. Alívio. Uma sensação boa que aumentava enquanto o elevador descia. A tristeza foi sumindo. Nem deu tempo de ficar com raiva do Otacílio. Nem raiva, nem decepção, nem ressentimento. Quando o elevador chegou ao térreo, era isso o que eu sentia: nada.
Quem era aquele namorado que nunca me pediu em namoro e que tinha uma noiva? Ele não era ninguém. Se não era ninguém, por que me importaria com ele?
Nenhuma razão para sofrer. Nada.
Meu amor pelo Otacílio morreu numa viagem de elevador.
Morreu, evaporou, se desfez no ar. Nem restos mortais deixou.
Fui embora cantando mentalmente o resto da música:

“Ah! Coração
se apronta pra recomeçar.
Ah! Coração
esquece esse medo de amar de novo.”

Uma semana depois, quando ele voltou da licença médica e eu entrei na sala dele para levar a minha carta de demissão, não o encontrei.
Só vi um homem de meia-idade calvo, barrigudo e de nariz proeminente ao lado da escrivaninha enorme de madeira escura, toda entalhada em belos arabescos.

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