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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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domingo, 6 de agosto de 2017

Começo, meio e fim

Como era charmoso o meu Otacílio!
Me lembro com tanta clareza da primeira vez que o vi!
Foi na entrevista para o meu primeiro emprego.
Entrei na sala e lá estava ele atrás daquela escrivaninha enorme de madeira escura toda entalhada em belos arabescos, coisa linda mesmo. Combinava com a elegância da sala e dele próprio.
Falou pra eu me sentar e aquela voz forte, tão masculina, me impressionou. De nervosa que estava fiquei mais nervosa ainda.
Ele só me olhando e sorrindo de leve. Parecia reparar na minha aparência.
“Será que estou bem vestida? Meu cabelo está em ordem? O decote não extrapolou?”
Pra encurtar a história, fui contratada. Fiquei sendo secretária do Otacílio.
Ele disse que não fazia mal eu não ter experiência; às vezes era até melhor pegar alguém sem experiência e ir ensinando tudo aos poucos, do jeito certo. Assim a pessoa fica bem treinada e “com a cara da empresa”.
O Otacílio me treinou bem demais. Se é que vocês me entendem. Fiquei do jeitinho que ele queria. Em tudo.
Quatro ou cinco meses depois de contratada eu me considerava namorada dele. Todo mundo da firma sabia do nosso caso. Por que não? Nós dois éramos solteiros, não havia nada a esconder. Tudo bem que na questão da idade tinha lá uma diferença de uns vinte anos, mas paixão não escolhe idade.
Foi isso o que ele me falou logo na minha primeira semana de trabalho. E também de como eu estava linda no dia da entrevista e como ele quase não conseguiu disfarçar o interesse por mim. Naquele instante ele teve certeza de que tudo ia dar certo.
Deu mesmo.
Só uma coisa me incomodava. Não muito, só um pouco. Ele nunca tinha me pedido em namoro. A gente saía, jantava, namorava, até viagem de fim de semana fizemos umas vezes. Mas nunca me pediu em namoro e muito menos falou “eu te amo”. Uma vez eu falei pra ele, porque era verdade, mas não tive resposta. Não com palavras. Me respondeu com beijos, e isso compensou.
Homem não gosta de se abrir tanto assim, pensei. Palavras não têm importância. São os atos que demonstram amor, não umas poucas palavrinhas que o vento leva.
Depois de um tempo comecei a ouvir fofocas. Engraçado não ter percebido antes: as meninas do escritório cochichavam sobre mim e o Otacílio. Só podia ser inveja, das bravas. Uma vez fui à copa pegar café para ele e ouvi umas risadas. Alguém estava dizendo que era incrível uma  menina como eu me contentar com aquele barrigudo careca; as outras caíram na risada. Elas não me viram, então dei meia volta e fui para a minha mesa.
Barrigudo careca? Nunca! Ele estava um pouco acima do peso, mas quem não está? E careca jamais! É normal os homens ficarem meio calvos, diz que é por causa dos hormônios. Qual o problema de ele estar com o cabelo um pouco ralinho no topo? Não atrapalhava em nada a estética.
Elas não viam como ele era inteligente, charmoso, gentil e perfumado. Ou melhor: viam sim, por isso tanta inveja.
Não foi a única vez que ouvi coisas ruins sobre o meu Otacílio. A pior foi que ele havia despedido uma funcionária grávida sem ligar que ela era arrimo de família e solteira. Eu não quis saber dos detalhes, por exemplo se ela tinha entrado na justiça do trabalho e coisas do tipo. Não estiquei a conversa porque era absurdo demais e eu tinha mais o que fazer.
Aí vieram me falar que ele tinha sido grosso com o motorista da firma. Que o motorista ficou tão revoltado que saiu xingando: “Seu narigudo! Seu ignorante! Seu besta!”
Não acreditei nessa história. Outra maledicência. E aquela parte do “narigudo”, então! Ridículo. O nariz dele não era grande, era masculino. Queriam que ele tivesse narizinho feminino, então?
Dias depois dessa última fofoca ele amanheceu com conjuntivite e não pôde ir trabalhar.
Seu Armando, chefe do departamento pessoal, me chamou e disse que eu precisava levar uns papéis para o Otacílio assinar. Coisa urgente: era a rescisão do motorista.
Levar aonde? Ao apartamento dele? Meu coração começou a bater forte. Nunca eu tinha ido ao apartamento do meu namorado, nem sabia onde ele morava.
Seu Armando me entregou uma pasta de documentos, o papel com o endereço, e disse que era lá pertinho, dava pra ir andando. Já estava tudo combinado, e que eu tomasse cuidado porque conjuntivite pega.
Fui caminhando sem pressa. Não queria chegar suada e descabelada, e também precisava me acalmar. Finalmente ia conhecer o lugar onde morava o meu Otacílio. Com certeza um apartamento charmoso e elegante como ele.
Na portaria do edifício encontrei uma mulher bonitona conversando com o porteiro.
― Pode uma coisa dessas, seu Aparecido? Ele nem me falou nada. Fiquei sabendo por acaso. Liguei no celular dele mas estava desligado. Ele não quer que eu ligue na empresa, mas desta vez não teve jeito porque fiquei preocupada.  Lá me disseram que ele não tinha ido trabalhar por causa de uma conjuntivite. Coitado, deve estar precisando de ajuda, mas é um fofo e não quis me incomodar. Olha, não tem necessidade do senhor avisar que estou subindo. Tenho a chave, vou abrir a porta sem fazer barulho e dar uma espiada nas coisas…
O porteiro me viu parada esperando ser atendida.
― A moça é a secretária do seu Otacílio? Pode subir, ele já autorizou. Vai junto com a senhora aqui.
A bonitona virou pra mim com um sorriso bem grande, estendendo a mão.
― Você é a secretária do Otacílio? Muito prazer! Sou a noiva dele, meu nome é Mariana, qual é o seu?
O mundo girou à minha volta e tive de apoiar a mão na mesa do porteiro para me equilibrar. Fingi que estava só depositando a pasta de documentos pra liberar a mão e cumprimentá-la. Ela não percebeu o meu choque, continuou a falar toda animada.
― Vamos subir juntas. Estou preocupada, sabe? Conjuntivite não é grave, mas a pessoa não pode sair de casa. Vou ver se não precisa comprar alguma coisa, algum remédio, alguma comida. A diarista dele só vem na sexta, veja só a situação.
A música do elevador era “Começo, meio e fim” do Roupa Nova. Ela falava, falava, e eu não queria ouvir. Me concentrei na música, fui cantando mentalmente como se estivesse num karaokê.

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa entender
que um amor de verdade
é feito canção,
qualquer coisa assim, que tem seu começo,
seu meio e seu fim.”

Essa parte da música não ajudou em nada, garanto. Depois da subida de elevador mais penosa da minha vida, chegamos ao apartamento. Era tão lindo quanto eu tinha imaginado. Mariana chamou:
― Otacílio, meu amor! Está no quarto?
Nem esperou a resposta e já foi entrando. Fiquei lá parada na antessala, abestalhada da minha vida.
Logo voltou a noiva do meu namorado:
― O Otacílio pediu pra você me dar os papéis que ele vai assinar lá no quarto. Ele está com vergonha de aparecer com os olhos vermelhos e inchados.
Dei pra ela a pasta e continuei no mesmo lugar, catatônica.
Não demorou e ela estava de volta.
― Menina, por que não se sentou? Quer uma água? Um cafezinho antes de ir?
Eu não quis nada. Só agradeci e fui embora. Meu coração doía a ponto de estourar.
Entrei no elevador e comecei a ouvir a música. Sem querer comecei a cantar mentalmente, como tinha feito na subida. Estava neste trecho:

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa aprender
a começar de novo.
É como tocar o mesmo violão,
e nele compor
uma nova canção.”

Devagar, devagarzinho, me veio uma coisa estranha. Alívio. Uma sensação boa que aumentava enquanto o elevador descia. A tristeza foi sumindo. Nem deu tempo de ficar com raiva do Otacílio. Nem raiva, nem decepção, nem ressentimento. Quando o elevador chegou ao térreo, era isso o que eu sentia: nada.
Quem era aquele namorado que nunca me pediu em namoro e que tinha uma noiva? Ele não era ninguém. Se não era ninguém, por que me importaria com ele?
Nenhuma razão para sofrer. Nada.
Meu amor pelo Otacílio morreu numa viagem de elevador.
Morreu, evaporou, se desfez no ar. Nem restos mortais deixou.
Fui embora cantando mentalmente o resto da música:

“Ah! Coração
se apronta pra recomeçar.
Ah! Coração
esquece esse medo de amar de novo.”

Uma semana depois, quando ele voltou da licença médica e eu entrei na sala dele para levar a minha carta de demissão, não o encontrei.
Só vi um homem de meia-idade calvo, barrigudo e de nariz proeminente ao lado da escrivaninha enorme de madeira escura, toda entalhada em belos arabescos.

(Clique para ouvir)




quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma rosa para Daiane

Amanhã é o último dia de aula. Acabou o curso. Quem foi aprovado, muito que bem. Quem não foi, já era.
Agora só quero o meu certificado. Festa de formatura? Sai fora. Não vou desperdiçar dinheiro com besteira.
Todo mundo lá arrumadinho, sorridente, fazendo de conta. Eu, hein?
Quero meu certificado, mano. Chego na secretaria, pego o papel e vou-me embora pra nunca mais voltar. Nem olho pra trás.
Três anos terríveis. Professores lixos, colegas idiotas, escola caindo aos pedaços.
Alguém por acaso se lembra da menina que se matou no ano passado? Que pulou na frente do ônibus? Não, né?
Fui lá na diretoria e avisei: a Daiane está com depressão. Ela anda falando umas coisas que gente normal não fala. Avisa lá a família dela antes que seja tarde.
Jacaré avisou? Nem jacaré nem a diretora. Depois que chegou a notícia foi um tal de ai que horror pra cá, ai que pena pra lá, colega chorando no fundo da sala, professor fazendo discurso sobre o perigo das drogas. Que droga, mano? A Daiane nunca usou droga! Nesse dia quase parti pra ignorância.
Depois do chororô, ninguém mais tocou no assunto. Acho que só eu ainda me lembro disso nessa zorra de escola.
E a inspetora homofóbica? Foi dar bronca no sujeitinho que estava escrevendo na parede, até aí concordo que vandalismo não pode, mas precisava tanta falta de educação? Tanta gritaria? Não, né? E no final, igual à cereja em cima do bolo, chamou o cara de gayzinho sem noção.
Logo ela, mano! Logo ela que todo mundo sabe que é lésbica. Como pode isso?
Olha, foi dureza aguentar professor de português falando errado. Tipo: oucem aqui, pessoal, a prova é dia tal e tal! Juro, não tô inventando. O cara falou bem assim: oucem aqui!
E a professora que não dava aula porque mandava todo mundo apresentar trabalho? Toda vez tinha apresentação de trabalho. Ela ficava lá sentada assistindo. Quase nunca falava alguma coisa. Desse jeito até eu.
Sinceramente, mano? Cansei. Levar papel higiênico de casa, beber água direto da torneira, engolir merenda de bolacha seca, sentar em carteira quebrada.
E a galera fazendo zoeira sem parar. Quase não dava pra ouvir nada. Eu lá querendo anotar as coisas, entender a bagaça da matéria, levantando a mão para fazer pergunta, tudo pra depois aguentar a gozação. Olha aí a nerd! Essa daí vai pra NASA quando se formar! Quanto cê tá pagando pelas notas?
Ai, as meninas. Tão arrumadinhas, batonzinho na boca, chapinha no cabelo. Burras que nem uma porta. Porta ou porca? Sei lá. Aula de matemática: professor, por que o triângulo equilátero não tem hipotenusa?
Nessas horas eu ficava com dó do professor, apesar de ele também não ser lá grande coisa.
Os carinhas da classe, então, só ligados nos bagulhos que rolam na pracinha. Sabe a pracinha em frente à escola? Muita coisa acontece ali, principalmente na hora do intervalo. Todo mundo sabe, menos a direção. Sair no intervalo não pode, mas cadê que tem inspetor no portão? Sai quem quer, mano. Sai quem quer, entra quem quer, faz o que quer.
Amanhã é o último dia, por isso muita gente não vai. Eu vou. Pra sentir que terminei mesmo essa etapa. Que terminei para sempre. Tipo ir ao velório só pra ter a certeza de que o defunto morreu.
E também pra colocar uma rosa naquele cantinho do pátio, lá onde tem o pé de ipê amarelo. Uma rosa em homenagem à Daiane.
Nunca vou esquecer. Foi bem ali, naquele cantinho, perto do ipê amarelo, que trocamos o nosso primeiro e o nosso último beijo.
Adeus, Daiane. Fica na paz. <3


Imagem: http://resource4christians.blogspot.com.br

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Aniquilação

Era uma vez um elétron depressivo, profundamente negativo, que vagava sozinho sem ter para onde ir.
Nem sempre fora assim.
Houve época em que ele se sentia feliz, fortemente ligado a um átomo, vivendo em um confortável orbital p junto com outros cinco companheiros. Um inesperado raio cósmico, porém, produziu a sua ionização, e o elétron foi repentinamente lançado à solidão do espaço intermolecular. 
O destino, imprevisível como sempre, reservou-lhe uma surpresa colocando em seu caminho um pósitron!  
Com toda a sua deslumbrante positividade, essa partícula rara emergiu de um radioisótopo e disparou em sua direção a uma velocidade relativística.
Foi paixão à primeira troca de fótons...
O elétron acreditou, durante aqueles maravilhosos nanossegundos, que seria novamente uma partícula ligada. Não sabia, o inocente, que estava indo ao encontro da sua antipartícula... Aquela que tinha o poder de aniquilá-lo para sempre...
Ao se tocarem, algo quântico aconteceu! Uma completa fusão! Uma absoluta, total e irreversível entrega.
Sim, porque eles entregaram um ao outro suas massas, suas cargas, seus números quânticos e suas energias cinéticas. Ou seja, tudo o que possuíam. Como se não houvesse amanhã.
E amanhã realmente não houve. Para nenhum dos dois...
Após um flash infinitesimalmente breve, dois raios gama emergiram.
Exatamente iguais, de mesma energia, porém separados por um ângulo de 180 graus.
Propagando-se em sentidos diametralmente opostos, afastaram-se à velocidade da luz.
Para nunca mais se reencontrarem.

FIM


Imagem: https://gyanvigyanblog.files.wordpress.com

domingo, 9 de julho de 2017

O lustre de cristal

Nossa casa em Dinkelsbühl era grande, decente, mas sem luxo. A parcimônia, quase uma filosofia de vida da família, nos proporcionava com sobriedade os confortos da época. Como se dizia então, vivíamos bem. Apenas duas extravagâncias existiam na residência: um enorme lustre de cristal na sala principal e uma adega bem guarnecida.

A casa, herança do meu bisavô, fora comprada um pouco antes do seu casamento. Profissional da ourivesaria, soube poupar o suficiente a fim de realizar o sonho de ter uma casa boa, sólida, capaz de abrigar a família numerosa que planejava ter. A noiva, filha de um bem sucedido artesão, recebeu de seu pai como presente de núpcias o belíssimo lustre.

Segundo a lenda, ele havia sido manufaturado séculos antes por um mestre vidreiro da ilha de Murano. A encomenda viera de um aristocrata veneziano sob a recomendação de imitar uma longa e volumosa cascata de lágrimas de cristal, límpidas e perfeitas, capazes de multiplicar a luz em mil raios iridescentes.

À medida que trabalhava, o mestre foi se apaixonando pela obra de arte que via tomar forma em suas mãos. Três anos depois, prestes a terminar o serviço, já tinha decidido que não iria cedê-la. Sem poder fazer a devolução do dinheiro recebido e estando esgotado o prazo de entrega, o mestre desmontou o lustre, depositou-o cuidadosamente em uma arca e fugiu da ilha, abandonando sua antiga vida. Vagou por várias localidades e após alguns anos foi ter à vila de Dinkelsbühl, onde se apresentou com outro nome e constituiu uma nova família.

Várias gerações depois o sogro do meu bisavô, descendente desse homem e guardião do tesouro mais precioso da sua linhagem, houve por bem passá-lo à responsabilidade do genro, que não o decepcionou, mantendo o magnífico objeto sempre limpo e bem conservado no local mais visível da residência. Assim ele passou para as mãos do meu avô e depois para as do meu pai, que continuou honrando a tradição.

O lustre encantava a todos os que o viam pela primeira vez. Algumas pessoas chegavam a inventar pretextos para voltar lá e contemplá-lo mais um pouco.

O mais assíduo admirador da obra de arte (e da adega do meu pai) era o burgomestre da vila, Herr Bardric Hensler. Quando esgotaram-se os pretextos para voltar à nossa casa e olhar o lustre, ele se ofereceu para comprá-lo. Não conseguindo resposta positiva, aumentou a proposta para valores bem altos, mas o tesouro da família não estava à venda por preço nenhum. Desde então, de amigo que dizia ser, passou a nos tratar com uma indiferença que beirava a hostilidade, e deixou de comparecer aos almoços e jantares oferecidos em nossa casa ― o que deve ter lhe custado certo esforço, já que apreciava por demais os vinhos da coleção do meu pai.

O ano era 1930. Meu irmão do meio, Benjamin, estudava na Inglaterra e de lá podia observar certas movimentações ocorrendo na Alemanha, fatos fora do normal que nós mesmos não percebíamos com clareza por estarmos concentrados nas tarefas do nosso ofício, que não eram poucas. Eu, o mais velho, e Efraim, o mais novo, trabalhávamos na oficina de ourivesaria junto com o nosso pai. Benjamin, porém, preferiu se dedicar às ciências matemáticas e para isso recebeu o necessário apoio.

Eis que certo dia recebemos pelo correio um livro mandado por ele junto com este bilhete: “Estou enviando o livro que a mãe tanto pediu. Espero que ela goste do romance.”

Nossa mãe nunca havia pedido livro nenhum. Percebemos que se tratava de um aviso cifrado. Vasculhamos as páginas e encontramos palavras sublinhadas com tinta azul. Copiamos essas palavras na ordem em que apareciam, compondo uma mensagem. Não me lembro das frases exatas, mas era um pedido veemente para que vendêssemos tudo o mais rápido possível e fôssemos encontrá-lo na Inglaterra, porque coisas terríveis estavam para acontecer aos judeus alemães.

Benjamin era inteligente e ajuizado. Não duvidamos por um segundo da veracidade da sua informação. Nosso pai achou melhor fazermos tudo discretamente. Prudência e sigilo eram necessários à nossa salvação.

Fizemos os planos. Venderíamos uma parte das pedras preciosas que conservávamos em local secreto na adega; a outra parte levaríamos conosco para a Inglaterra. A casa precisava ser vendida, mas o pretexto deveria ser muito bom para não despertar suspeitas. E o lustre? A solução era desmontá-lo e repetir a façanha do nosso antepassado, o mestre vidreiro de Murano.

Graças aos contatos que tínhamos a venda das pedras foi rápida; em algumas semanas estava em nossas mãos o dinheiro para a viagem; ficou guardado na oficina. A outra parte das pedras minha mãe, boa costureira, ocultou na parte interna das roupas íntimas que haveria de usar na viagem. Faltava vender a casa, mas antes que pudéssemos por em prática essa parte do plano, recebemos a visita de Herr Bardric Hensler.

Veio nas primeiras horas da manhã, antes de sairmos para o trabalho. Entrou com arrogância, sem nos cumprimentar, indo de imediato ao assunto ― não sem antes lançar o olhar cobiçoso ao lustre de cristal.

― Herr Isaac, estou confiscando a sua casa em nome do Partido Nacional Socialista. Aqui será instalada a unidade de controle e fiscalização político-social do burgo.

― Mas por que justamente a minha casa, Herr Bürgermeister?

― Não tenho necessidade de responder às suas perguntas, Herr Isaac. Como ato de generosidade esclareço que o motivo é a localização. Por estar isolada e situada sobre esta colina. Daqui se tem uma perfeita vista de toda a vila.

Embora não estivéssemos surpresos, tendo sido avisados que mais cedo ou mais tarde teríamos nossa privacidade invadida, não foi possível reprimir algumas palavras e gestos de dor. Porém mostramos resignação. Resistir seria perigoso. O outro lado era muito mais forte.

― Quanto tempo temos para desocupar a casa, Herr Bürgermeister?

― Até o meio-dia de hoje, Herr Isaac. Poderão levar a roupa do corpo e uma mala cada um. As malas serão vistoriadas. É bom que contenham apenas vestimentas. Qualquer outro objeto será confiscado. A partir deste momento a residência está sob vigilância.

Sem dar tempo a nenhuma resposta, ele bateu os calcanhares, fez a saudação nazista e dirigiu-se à porta. Antes de ir, um breve porém ávido olhar ao lustre.

Sentíamos deixar para trás a casa de nosso bisavô e a herança de família da nossa bisavó. A vida, no entanto, se apresentava como o bem mais precioso a ser preservado.

As malas foram examinadas e só continham roupas. Revistaram cada um de nós e nada encontraram em nossos bolsos. Entregamos o molho de chaves e fomos liberados.

Passamos o resto do dia na oficina. Foi decidido que era melhor viajar imediatamente, e tomamos as providências a fim de partir de madrugada. Ao anoitecer deitamos para descansar um pouco. Quando os nossos pais adormeceram, Efraim e eu saímos e rumamos para o antigo lar. Eu havia retirado do molho de chaves aquela que abria a porta externa da adega. Embora o nosso plano fosse perigoso, não podíamos deixar de tentar.

Caminhamos sem pressa e em silêncio para não chamar a atenção. Demos uma volta bem grande até chegar ao caminho que passava atrás da casa. Subimos cuidadosamente a colina, observando se havia guardas vigiando a propriedade. Estava tudo escuro, nenhum ruído se ouvia. Alcançamos a porta da adega. Girei lentamente a chave, abri a porta e o que vimos ali? Herr Bürgermeister Bardric Hensler caído no chão, cercado de garrafas vazias, visivelmente desacordado.

Prosseguimos em nosso objetivo. Chegamos à sala principal e, apesar da escuridão, sabíamos exatamente o que fazer e como fazer. Inúmeras vezes ajudamos o pai a descer o lustre até uma altura conveniente para a limpeza, e depois a erguê-lo novamente. Foi o que fizemos. Em vez de limpeza, porém, íamos retirar as peças de cristal. Precisávamos ser rápidos, não tanto por receio de sermos surpreendidos pelo burgomestre, que certamente permaneceria prostrado até a manhã seguinte, mas para não perdermos a hora da partida.

Trabalhamos muito bem, soltando rapidamente cada uma das gotas e colocando-as dentro de um saco de pano cheio de estopa, ali colocada para amortecer o atrito. Demorou menos do que tínhamos pensado. Os lindos cálices e espirais que ornamentavam a cascata de lágrimas não podiam ser levadas devido ao volume e ao peso que fariam. Efraim não pensou duas vezes: começou a esmagá-los sob o salto dos sapatos. Meu coração doeu, mas concordei e o ajudei. Nada deveria ficar para aquele usurpador nazista que se embebedara com os preciosos vinhos da nossa adega.

Terminamos a tarefa e na saída Efraim se deteve um instante contemplando o porco bêbado largado no chão. Fazendo sinal para que eu o esperasse lá fora com o saco, ele foi a uma das garrafas, quebrou o gargalo e despejou o vinho. Entendi o que ele queria fazer. Depositei na grama o tesouro de cristal e fui ajudá-lo. Não deixamos intacta uma única garrafa, derramamos até a última gota. Feito isso, trancamos a porta e deixamos aquele ser abjeto desacordado no meio dos cacos de vidro e poças de bebida. Que lambesse o chão, se quisesse tomá-la.

O saco era muito pesado. A necessidade de voltarmos a tempo e a satisfação pelo êxito do plano nos deram forças. Ajudamo-nos um ao outro, revezamo-nos, encorajamo-nos mutuamente, e tudo deu certo.

Partimos de madrugada no horário combinado. Chegamos à Inglaterra e lá ficamos durante um curto período. Logo viajamos novamente, desta vez com Benjamin, rumo ao Brasil, onde ficaríamos a salvo do nazismo.

Hoje o lustre está restaurado, embora sem a mesma perfeição. Nenhum artífice conseguiu reproduzir as espirais e os cálices com o esmero e o brilho dos originais. É compreensível. Ninguém no mundo possui a maestria, muito menos a paixão do vidreiro de Murano. Sentimos, mesmo assim, grande alegria ao contemplar a sua obra de arte. Alegria por termos conseguido resgatar até a última gota de cristal. Elas representam as lágrimas do nosso povo e também a sua tenacidade.

Brindemos ao eterno renascimento! Venham todos beber conosco, que a vida é bela e a nossa adega generosa!
Imagem: Crystal Raindrop

domingo, 11 de dezembro de 2016

A bela e a megera

Eu me considero um cara educado. Uso com frequência as palavrinhas mágicas “por favor”, “obrigado”, "me desculpe" e “dá licença”. Me visto com asseio e discrição. Nunca jogo o lixo fora do lixo. Nos transportes públicos evito me sentar nos bancos reservados. A não ser quando estou exausto ou quero aproveitar para ler mais algumas páginas do livro, porque sempre carrego um livro. Mas fico ligado: em todas as paradas suspendo a leitura para ver se não chegou um passageiro precisando mais daquele assento do que eu.
Dias atrás, voltando do trabalho, entrei num vagão de metrô onde os únicos lugares vagos eram os reservados. Como não havia ninguém em pé, achei que não fazia mal descansar um pouco. Tirei da mochila o “Barba ensopada de sangue” do Daniel Galera. Estava ansioso pra saber se o protagonista ia achar o avô maluco que virou ermitão e vivia numa caverna, lá nas montanhas de Garopaba. Corajoso, o protagonista. Eu mesmo ia querer distância dessa figura. Gente louca me apavora.
Duas estações depois, ao levantar os olhos da página, vi na minha frente uma senhora idosa. Parecia saudável, mas já tinha passado dos sessenta há muito tempo. Nem guardei o livro, levantei imediatamente e disse:
― Faz favor, senhora. Senta aqui.
A mulher me olhou como se tivesse ouvido um palavrão. E falou de um jeito bruto, com uma voz aguda que doía no ouvido:
― Tá me dando o lugar por quê? Tá me achando velha demais pra ficar em pé?
Fiquei sem saber como responder. A hesitação durou só um segundo; apelei para a minha criatividade de escritor iniciante:
― Não, de jeito nenhum. É porque a senhora é mulher. Faz parte da educação dar o assento para as mulheres.
A velhinha não desfez a careta de raiva.
― Quer dizer que o senhor acha que nós mulheres somos fracas e temos que ficar sentadas?
Dessa vez nem a minha criatividade de escritor me serviu. Olhei em volta procurando ajuda e reparei numa moça loira, alta, muito bonita, com a mão na boca segurando o riso.
A velhinha doida continuou, com sua voz insuportavelmente aguda:
― Vocês homens são muito engraçados. Acham que a gente é fraca demais pra ficar em pé, mas não é fraca demais pra parir os filhos cabeçudos que vocês fazem na gente. Nem é fraca demais pra esfregar cueca com freada de caminhão.
Disse isso e ficou me encarando com aquela expressão horripilante, aguardando uma resposta só pra ter a chance de continuar com a humilhação. Olhei para a loira. Agora ela ria abertamente, sem disfarçar. Cheguei à conclusão de que não havia o que fazer. Pedi licença e desci na parada seguinte, bem antes da minha estação. Até porque não gostei da maneira com que ela balançava o guarda-chuva (nada feminino) que carregava.
No dia seguinte rezei para não topar com a velhinha doida de novo. Era improvável e não aconteceu. Porém, quarenta e oito horas depois do incidente, com quem me deparei? Com a loira alta, bonita e risonha, aquela que em vez de me ajudar se divertiu com a situação. Assim que me viu aproximou-se e me abordou sem nenhum constrangimento:
― Oi! Foi você que a minha tia importunou anteontem, não foi?
Disse isso sorrindo, como se ainda estivesse achando graça.
― Ela é sua tia?
― Irmã da minha mãe. Mora na minha casa. É completamente maluca.
E começou a rir.
― Ela tem Alzheimer? (Fiz a pergunta estranhando que alguém pudesse dar risada de uma pessoa doente.)
― Não! Sempre foi maluca. Ninguém aguenta ela. Implica com tudo, é impressionante.
― Deve ser algum problema mental.
― Não, é gênio ruim mesmo. Teve uma época que o meu pai colocou ela num asilo, e sabe o que aconteceu?
― Não faço ideia.
Começou a rir de novo e teve que forçar uma pausa para responder:
― Devolveram ela! Nem eles aguentaram!
Na próxima estação muita gente desceu, e nos sentamos lado a lado. Ela disse que havia gostado do meu cavalheirismo e do fato de eu não ter respondido mal às provocações. Achou engraçada a cara que eu fazia enquanto tentava apaziguar a velhinha. E tinha notado o livro na minha mão (ela também gostava de ler). E queria me encontrar de novo no dia seguinte.
Fiquei admirado com a desenvoltura da moça. Par perfeito para um cara tímido como eu, pensei sem querer (querendo). Combinamos nos encontrar na estação onde ela sempre embarcava, ao lado das cadeiras da plataforma.  
Fizemos isso durante uma semana. Entrávamos juntos no trem e íamos conversando durante o percurso. Ela descia três estações antes de mim, mesmo assim tínhamos vinte e cinco minutos de conversa. Na maior parte do tempo falávamos sobre livros, planos para o futuro e os nossos empregos. E também sobre a tia maluca. Ela achava tudo hilário, mas aquelas histórias bizarras me metiam medo. Nem queria imaginar a sensação de conviver com uma pessoa tão desequilibrada. Uma única vez bastou para me deixar traumatizado.
Isso durou até ontem. Ela, que sempre se despedia com um beijo rápido no rosto, dessa vez me deu um selinho. E disse, sem o menor embaraço:
― Amanhã vou te pedir em namoro. Vai pensando, tá?
Uma piscadinha, um beliscãozinho no meu braço, e lá se foi ela, toda maravilhosa a bordo do seu scarpin vermelho de salto alto.
E agora? Uma moça linda e loira, alegre e inteligente, está interessada em mim. Mas como lidar com a tia maluca que mora com ela? Que me apavora até a medula dos ossos?
Preciso dar a resposta daqui a duas horas.
Universo, seu sacana!  Tinha que me trollar desse jeito?!  :(

           Imagem: http://www.paraisofeminino.com.br

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Doçura

Para
Alessandra

Tão menininha ainda, mas já a dúvida:
― Será que ele gosta de mim?
A cartomante pode dizer, mas a minha mãe não me deixa ir.
Tenho que saber. Pulo o muro e vou escondido.
Chego lá, bato na porta.
― A senhora pode ver aí nas cartas se ele gosta de mim?
A cartomante fica me olhando, parada.
― Você é muito nova para essas coisas, menininha.
Percebe a minha decepção e acrescenta, sorrindo:
― Mas sempre será bem-vinda para me visitar e tomar um lanche comigo. Porque para você o tempo ainda é de bolo com guaraná. :)


Imagem: http://www.solalimentos.com.br

sábado, 15 de outubro de 2016

O "Seio de Tétis"

     O governador da ilha demonstrava impaciência e certa irritação, embora estivéssemos conversando havia poucos minutos.
     ― O senhor desculpe, não é má vontade, mas eu sei de antemão que a sua pesquisa não vai ter sucesso. Já recebemos dezenas de geólogos, e todos foram embora do mesmo jeito que chegaram: sem conclusão nenhuma.
     ― É pena eu não ter encontrado nada na literatura científica sobre essas visitas anteriores. Teria chegado aqui com mais preparo.
     ― O senhor não encontrou nada porque não existem publicações. Como não conseguiram explicar o fenômeno, todos resolveram fazer de conta que nunca estiveram aqui.
     Decepcionado, me apeguei à ideia de que os outros não possuíam conhecimentos tão profundos como os meus. Nem instrumentos tão modernos.
     ― O guia vai conduzir o senhor. Esteja à vontade. Quando quiser partir da ilha, venha avisar. Boa sorte.
     Lá fomos nós, o guia e eu, em direção à montanha que jorrava água. Idêntica a um vulcão, porém ― em vez de lava ― expelia água fresca e doce. Ininterruptamente.
     De onde surgia aquele manancial? Como se mantinha à baixa temperatura? Que força projetava a água para cima, à semelhança de um chafariz gigantesco? Por que a montanha não desmoronava apesar do atrito constante com o jorro volumoso?
     O guia disse que jamais chovia ali. A névoa fina e incessante era responsável pelo verde da vegetação. Contou também que certo pesquisador quis perfurar um túnel atravessando a montanha lado a lado; foi expulso imediatamente. Outro se jogou no orifício usando um escafandro; o jato o lançou para fora e ele quase morreu. Essa e outras histórias bizarras me foram relatadas à medida que nos aproximávamos do “Seio de Tétis”, nome da misteriosa montanha.
     A tarde ia caindo. De repente fez-se noite. Não se viam mais os contornos das árvores e das rochas, transformadas em sombras. Tudo escuro, apenas uma luminosidade azul e difusa. O guia parou de repente e eu segui o seu olhar. Estávamos diante de um cone negro que projetava ao céu inacreditáveis esguichos luminosos.
     O magnífico "Seio de Tétis". 
     ― A água é luminescente? Ninguém me disse isso. Como é possível?
     Voltei-me para ele, esperando resposta. Não era mais o guia, e sim o governador ali do meu lado. Olhava-me com a expressão séria e cansada.
     ― Não te falei, geólogo?
     ― Não entendo... Como...?
     ― Você sabe a explicação.
     Sim, eu sabia a explicação. Mas não queria pronunciá-la em voz alta. Deixei que ele falasse.
     ― É muito simples. Você está sonhando.
     Naquele momento percebi no seu olhar um brilho sutil, repentino, que durou menos de um segundo.  Não havia sido reflexo das águas luminosas.
     Meu espírito foi atravessado por uma suspeita. De que a solução para aquele mistério não era, afinal de contas, algo tão simples assim. 


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