Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Velhos deuses

Juntos estamos como há muito temos estado. Só nós dois.
Eu, deus.
Ele, meu derradeiro crente.
Ninguém mais.
Tanto tempo, tanto tempo, que as bordas se desvaneceram.
É ele aqui comigo onde habitam os deuses, entre as nuvens que vagam sobre os picos mais altos?
Ou sou eu lá com ele onde habitam os humanos, em meio aos charcos sombrios?
É dele a cabeça exausta que se apoia nos meus joelhos? Ou é nos joelhos dele que eu me inclino e desfaleço?
Não há mais diferença. Tudo se tornou indistinto. Como as montanhas distantes fundindo-se no azul do céu.
Ele tem me sustentado e eu a ele.
O último do seu povo. Todos os outros, mortos. Ele único. Ele e eu: sozinhos.
Não fosse por mim já teria morrido também. Liguei o fio de prata da sua vida às energias celestes. Etéreo cordão umbilical.
Muita energia escorreu por esse fio, energia vinda do nada. Passou por ele, retornou ao nada.
Pouco resta para ele próprio tornar-se nada.
Junto com ele, eu.
Que há de mais aterrorizante do que a não existência?
Esse terror agora nos domina.
Suportamos ao máximo. Estamos esgarçados.
Eu não existo sem ele, ele não existe sem mim. Mas nenhum de nós é eterno.
Nestes últimos instantes a razão não me basta. O que eu sei não me consola. A convivência me tornou humano. Tenho emoções. Sofro.
Eu não queria morrer. Não queria fazer você morrer. Porque quando eu me for, você irá comigo. Ao nada. Ao não ser. Ao nunca ter sido.
Mesmo assim, embora seja inútil insistir, reafirmo que te adorei. Que te glorificava a cada manhã. Que te agradecia pelos raios de sol, pelas gotas de chuva e pelas estrelas.
Porque sem você nada haveria neste mundo. Nada nem ninguém nem prazer nem dor e ainda na dor eu te agradecia. Por continuar vivo.
Agora não tenho mais dor, só tristeza. No fim de tudo, valeu a pena?
Ah, a dúvida. Por que agora a dúvida? Toda uma vida de crença e adoração.
Quem fez as leis a que obedeci? E se não as tivesse obedecido?
Meu entendimento se esvai. Minha mente se confunde. O sentido de tudo se desorganiza.
Sinto-me débil. Ele não pode me ajudar porque minha debilidade o contamina.
Perder tudo é a maior das dores. Ao menos a crença ― ou a ilusão da crença ― poderia restar.
A morte com dignidade: a morte com a certeza de que tudo valeu a pena.
Por que, deus, me negas esse último consolo?
Enxergo com os olhos dele. Seus olhos buscam as estrelas, âncoras da eternidade. Quer se unir a elas e permanecer.
É inútil. O fio de prata tornou-se névoa, dissipou-se no espaço.
Descansemos, meu criador, minha criação.
As estrelas estão se apagando. Quem se apaga? Elas ou nós?
Elas em nós.
Mergulhemos na escuridão. Unidos como sempre estivemos.
E não tenha medo, porque sempre fomos um único. E com Ele continuaremos a ser.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Lá, naquele lugar


Eu me sentia tão bem naquele lugar. Lá eu era quem realmente sou. Nada mais, nada menos. Apenas eu.
Enquanto vivia aqui, sempre fui o que queriam que eu fosse; sempre fiz o que queriam que eu fizesse.
Todos ficavam satisfeitos, me aprovavam e sorriam. Todos viviam contentes, menos eu.
Lá não. Lá eu era diferente. Não pensava em ninguém. Nem sequer me lembrava dos outros. Estava muito ocupado comigo mesmo. Sendo feliz pela primeira vez.
Me sentia aliviado, essa é verdade.
Agora que voltei, voltei diferente.  Consigo ver com clareza: sempre carreguei um peso nas costas. Era difícil, mas eu me esforçava. Até que não consegui mais.
Por isso fui para lá.
A vida inteira desejei duas coisas: um jardim e uma horta. 
Conversa de maluco, diziam meus pais. Você tem que estudar, não pode perder tempo chafurdando na terra. Essas coisas a gente compra na feira e na quitanda. Vai estudar, menino, larga de inventar histórias.
Estudei, me formei. Agora vou ter um jardim e uma horta, pensava. Jardim? Horta? Minha noiva estranhava. Um dia quem sabe, depois da aposentadoria. Agora temos outras prioridades.
Montamos casa, criamos nossa filha, me aposentei.
Jardim, pai? Horta? Pra quê? Com essa idade, fazer serviço pesado com pá e enxada? Tomar friagem? Melhor não. Olha a saúde.
Pois fiquem sabendo que lá, naquele lugar, eu tinha tudo isso. E ninguém para me criticar.
Plantei um jardim na frente da casa e uma horta nos fundos. Sim, porque eu tinha uma casa. Estão pensando o quê? Que eu vivia ao relento? Não senhor.
Era uma casinha pequena, simples, e eu nunca me senti tão confortável.
Plantei margaridas, rosas, gerânios e dálias.
E todas floriram em pouco tempo! Um colorido maravilhoso. As borboletas, abelhas e pássaros aprovaram o meu jardim. Coisa linda de se ver como o ar se enchia de asas e sons.
Ainda não contei sobre o meu amigo, o Francisco de Paula. Ele morava mora ainda na casa mais perto da minha. Não há muitas habitações por lá, mas o suficiente para a gente não se sentir só. Às tardes nos sentávamos na varanda e ficávamos observando as borboletas, abelhas e beija-flores. Bichinhos abençoados.
Francisco gostava do meu café. Ninguém da minha família gostava. Muito fraco, diziam. Pois o Francisco achava melhor assim, fraco e com bastante açúcar.
Me ajudou a plantar a horta. Eu não sabia bem o que era melhor plantar, então ele me trouxe sementes e mudas. Ervilha, cenoura,  tomate, espinafre e alface. E também ervas: manjericão, alecrim e orégano. Horta pequena, mas muito viçosa. A última coisa que plantei foi berinjela, e já estava quase ficando boa de colher quando voltei pra cá.
Não me conformo. Abandonei tudo aquilo pra quê?
Um dia acordei e não sei por que motivo comecei a pensar na família. Minha mulher, minha filha, genro e netos. Durante todo o tempo que fiquei lá nunca pensei neles, mas naquele dia me levantei preocupado.
Francisco me disse: se você acha que deve voltar, volte. Siga o seu coração.
No final das contas acabei seguindo o meu sentimento de culpa. Estava feliz longe deles. Não me preocupava a respeito de como se sentiam com a minha ausência. Sofriam? Eram indiferentes? Estariam satisfeitos? Pouco me interessava. Que pessoa egoísta eu era. Tinha que me penitenciar. Tinha que voltar e fingir que me importava.
Agora estou novamente entre eles, e mais infeliz do que nunca.
Todos em redor da minha cama.
A esposa, de olhar cansado, mal contendo a vontade de se lamentar. Não está propriamente feliz com o meu retorno. Seu pensamento é: quando ficarei livre de todo esse incômodo?
A filha preocupada, mas não muito. Sinto-a mais focada em sua própria vida, nos problemas com o marido e os filhos. Entendo. É natural que seja assim.
O genro irritado com a perda de tempo. Tantas tarefas urgentes e ele ali fazendo de conta.
Netos impacientes. Gostamos do vô, mas gostamos mais de fazer as nossas coisas.
Será que voltei com o poder de ler pensamentos? Ou voltei senil, paranoico?
Noite passada conversei em sonho com o Francisco de Paula.
Ele disse: você pode vir pra cá quando quiser, meu amigo, mas dessa vez vai ser definitivo. Não é permitido ficar viajando de um lugar para o outro assim, toda hora.
Preciso decidir. O que me faz mais feliz: minha família ou minha horta?
Tenho pensado muito naquelas berinjelas...

terça-feira, 31 de julho de 2018

Ser ou não ser

Moleque ainda, eu trabalhava na venda do meu tio. Ano de mil, novecentos e quarenta, se tanto.
À tarde ficava sozinho por longo tempo, já que o tio saía para almoçar e se demorava bastante nos seus comeres e beberes.
Certa ocasião, só eu na venda, entrou um freguês e já foi apontando para a manta de carne dependurada ao lado do balcão:
― O que é isso?
― É carne seca.
Ele ajeitou os óculos e chegou mais perto, demonstrando interesse.
― Deixe ver como está.
E passou o dedo sobre a manta.
― Isto aqui não é carne seca.
― Como não? É carne seca sim senhor.
― Mas está molhada.
― Molhada? Pode estar úmida por causa desse tempo abafado. Mas é carne seca.
― Se está úmida, não é carne seca.
Senti falta do tio. Aquele freguês ia ter coragem de azucrinar a paciência de gente grande do mesmo jeito que azucrinava a paciência de uma criança?
― Olha, senhor, ela está úmida agora, mas é carne seca legítima. Todo mundo compra e ninguém nunca reclamou.
― Mas estou te dizendo, menino. Ou é uma coisa, ou é outra. Se é seca, é seca. Se é molhada, é molhada. Isto aqui é carne molhada.
Fiquei sem resposta. Só consegui dizer:
― Faz assim: o senhor compra e depois enxuga ela.
― Pois então não fique dizendo para as pessoas que é seca. Se o freguês precisa enxugar, então é molhada.
Meu tio que não aparecia. Resolvi concordar.
― É verdade, o senhor tem toda a razão.
Ele se mostrou satisfeito:
― Ainda bem que reconhece. Me vê aí um filão de pão.
― E quanto o senhor vai levar de carne seca? Quer dizer, molhada?
― Quem falou que eu quero comprar carne, menino? Só vim mesmo pra comprar um filão de pão!
Depois de receber o troco foi embora resmungando.
― Cada uma! Querendo me empurrar carne molhada. Eu, hein?


Imagem: https://asimplicidadedascoisas.wordpress.com

sábado, 30 de setembro de 2017

O gigante e a pombinha

Minha filha Vanessa, quando pequena, adorava ouvir histórias antes de dormir. Foi por causa dela que me tornei escritora.
Ao contrário das outras crianças, ela não gostava de histórias repetidas.
Às vezes, por falta de ideias, eu tentava reciclar velhos contos de fadas mudando um pouco os personagens e o enredo, mas ela sempre reconhecia e reclamava:
― Não, mamãe, esse não. Esse você já contou. É daquela menina que furou o dedo e caiu dormindo, não é?
Depois de ler para ela todos os livrinhos, depois de contar todas as histórias de que me lembrava, comecei a inventar. Mas logo compreendi que devia ter cuidado porque ela percebia as pontas soltas.
― Mamãe, onde foi parar o cavalinho? Aí no final você só falou do porco, da cabrita e da galinha. O cavalinho sumiu por quê? 
Por isso comecei a ter mais cuidado com os meus roteiros, a ponto de tomar notas das ideias e sempre compor um diagrama de blocos com muitas flechinhas subindo e descendo. Para jamais esquecer um personagem ou quebrar uma sequência.
Assim surgiu o primeiro dos vários livros que publiquei.
Vai daí, uma semana atrás eu estava com um problema. Participando de um desafio literário, precisava escrever um conto de fadas. O prazo prestes a se esgotar e ainda faltava o final da história. Esse final não me ocorria, por mais que pensasse e repensasse.
Tive a ideia de ler o texto para a minha filha ― agora adolescente ― e pedir-lhe sugestão.
Expliquei que era para o público infantojuvenil, portanto ela deveria relevar o vocabulário simplório, as repetições e também certas imprecisões e incongruências.
― Tá legal, mãe. Manda vê.
Então “mandei vê”.
“Sem título ainda”

Era uma vez um gigante que habitava um rico castelo no topo de uma montanha.
Certo dia ele acordou sentindo-se doente e pensou que estava velho e cansado demais para continuar cuidando de tudo sozinho. Resolveu procurar ajuda.
Desceu até a aldeia no sopé da montanha, mas não conseguiu falar com ninguém porque todos fugiam de medo, entravam em suas casas e trancavam as portas.
O gigante já estava pensando em desistir da ideia quando, ao passar por uma bica, encontrou uma moça enchendo de água os seus potes .
Sem mais demora ele agarrou a moça e a carregou para o castelo. Chegando lá, explicou tudo o que era preciso fazer e avisou para que não fugisse, porque ele iria atrás e tudo seria muito pior para ela.
A moça fingiu obediência, mas sabia que o seu noivo não ia se conformar com a situação e mais cedo ou mais tarde apareceria a fim de resgatá-la.
Todas as noites, depois de passar o dia trabalhando sem parar, ela subia para o seu quarto na torre do castelo e ficava olhando o horizonte, tentando ver se o noivo estava chegando.
Em vez do noivo ela sempre encontrava uma pombinha branca pousada no parapeito da janela. Não tendo ninguém para conversar, conversava com a pombinha. A cada frase dita, a pombinha arrulhava como se estivesse respondendo.
― Será que ela me entende? pensou a moça.
Então teve uma ideia. Escreveu um bilhete e disse à amiguinha:
― Por favor, pegue este papel com o seu bico e leve para o meu noivo. Ele é ferreiro, então você tem que se guiar pelo som que ele faz ao martelar as ferraduras. É assim: tóim! tóim! tóim! Não tem como errar.
A pombinha pegou o papel e foi embora voando em direção à aldeia. Na manhã seguinte voltou com outro papel no biquinho. Estava escrito: “Minha noiva, precisamos nos livrar do gigante. Todos os seres mágicos têm a vida guardada em algum lugar. Procure descobrir onde está a vida do gigante, que eu irei lá e a destruirei. Assim poderei libertá-la e viveremos felizes e despreocupados.”
Na primeira oportunidade a moça fez a pergunta. Ele estranhou.
― Pra que você quer saber onde fica a minha vida? Está planejando me matar?
Ela, fazendo cara de inocente, respondeu:
― Pelo contrário, mestre. Quero cuidar muito bem do lugar onde fica a sua vida para que o senhor viva muito e com saúde.
O gigante contou que a sua vida ficava no meio da raiz do grande carvalho ao lado do castelo.
Ela foi lá e limpou o terreno em volta da árvore, plantando flores perfumadas e coloridas.
O gigante ficou olhando e não disse nada.
À noite ela escreveu outro bilhetinho ao noivo. A pombinha levou e pela manhã trouxe a resposta: “Minha noiva, o gigante está te testando. A vida dele não deve ficar na raiz do carvalho. Espere alguns dias e repita a pergunta.”
Foi o que ela fez.
― Mestre, eu limpei e enfeitei o carvalho, mas a sua saúde não está melhor do que antes. O que eu posso fazer para ajudar?
O gigante respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho. Ela tem forma de pérola e está dentro de uma ostra no fundo do mar.
A moça dessa vez colheu muitas rosas, foi para a beira do regato que passava atrás do castelo e ficou despetalando as rosas, jogando as pétalas na água. Antes de jogar ela dava um beijo em cada uma.
O gigante perguntou:
― Por que está fazendo isso?
Ela respondeu:
― O regato corre para o rio e o rio corre para o mar. Cada pétala leva uma mensagem de boa sorte. Assim o mestre terá uma vida longa e com saúde.
Quando a noite chegou a moça mandou outro bilhete ao noivo. A resposta trazida pela pombinha dizia: “Ele ainda está te testando. Espere alguns dias e pergunte de novo.”
Depois de alguns dias ela disse ao gigante:
― Mestre, não percebi melhora na sua saúde. Devo jogar mais rosas no regato?
Ele respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho nem dentro de uma ostra no fundo do mar. Está no coração de uma pombinha que mora na torre do castelo.

Vanessinha ficou me olhando.
― E depois, mãe?
― Parei aí. Não sei como terminar.
― É fácil. A moça deve matar a pombinha e pronto.
― Matar a pombinha?! Assim, friamente? Um ser inocente que a ajudava tanto?
― E daí? O plano não era matar o gigante? O que é a morte de uma pombinha perto da morte de um ser humano?
― Mas o gigante não é humano. É um ser fantástico e malvado.
Minha filha demonstrou impaciência:
― Ah mãe, quer saber mesmo o que eu acho? Acho que não era gigante nenhum. Era um homem velho, doente e sozinho. Ele foi à aldeia querendo contratar funcionários, mas os preguiçosos não estavam a fim de trabalhar. Daí ele encontrou a moça, que topou a parada já com segundas intenções. Vai ver, antes de subir a montanha ela trocou uma ideia com o tal noivo e os dois premeditaram o crime. A troca de bilhetinhos na verdade era só para combinar a melhor ocasião de ele entrar no castelo e assassinar o velho. Depois eles iam enterrar o corpo debaixo do carvalho. Se alguém perguntasse iam dizer que ele tinha morrido de causas naturais. E iam ficar com toda a fortuna pra eles, na maior tranquilidade.

Agora eu é que fiquei olhando para a minha filha, sem dizer nada.
Ela se levantou, pegou a mochila e foi saindo.
― Tchau, mãe. Boa sorte aí na finalização. Usa a minha ideia que vai ficar legal.
Já com a mão na maçaneta, ela virou e disse:
― A senhora não percebeu o que o velho queria dizer? A vida dele estava no coração de uma pombinha que morava na torre do castelo. Nunca vi uma declaração de amor mais explícita do que essa.

Não terminei o conto. Perdi o prazo para o envio do texto. Continuo sem saber como será o final. A moça mata friamente a pombinha? Ou manda bilhetinho para o noivo? Ele aproveita e estrangula no ato o ser inocente ou repete a ladainha de que a informação ainda não é a correta?
Vanessinha terá razão? Estará o gigante apaixonado pela moça? Ela fica com ele e esquece o noivo moleirão que só enrola e não vai salvá-la?
Alguém pode me ajudar? Como será o fim deste conto de fadas?



Imagem: Book for Red Chair Press, The Princess and the Giant

domingo, 6 de agosto de 2017

Começo, meio e fim

Como era charmoso o meu Otacílio!
Me lembro com tanta clareza do dia em que nos conhecemos!
Foi na entrevista para o meu primeiro emprego.
Entrei na sala e lá estava ele atrás daquela escrivaninha enorme de madeira escura toda entalhada em belos arabescos, coisa linda mesmo. Combinava com a elegância da sala e dele próprio.
Falou pra eu me sentar e aquela voz forte, tão masculina, me impressionou. De nervosa que estava fiquei mais nervosa ainda.
Ele só me olhando e sorrindo de leve. Parecia reparar na minha aparência.
“Será que estou bem vestida? Meu cabelo está em ordem? O decote não extrapolou?”
Pra encurtar a história, fui contratada. Fiquei sendo secretária do Otacílio.
Ele disse que não fazia mal eu não ter experiência; às vezes era até melhor pegar alguém sem experiência e ir ensinando tudo aos poucos, do jeito certo. Assim a pessoa fica bem treinada e “com a cara da empresa”.
O Otacílio me treinou bem demais. Se é que vocês me entendem. Fiquei do jeitinho que ele queria. Em tudo.
Quatro ou cinco meses depois de contratada eu me considerava namorada dele. Todo mundo da firma sabia do nosso caso. Por que não? Nós dois éramos solteiros, não havia nada a esconder. Tudo bem que na questão da idade tinha lá uma diferença de uns vinte anos, mas paixão não escolhe idade.
Foi isso o que ele me falou logo na minha primeira semana de trabalho. E também de como eu estava linda no dia da entrevista e como ele quase não conseguiu disfarçar o interesse por mim. Naquele instante ele teve certeza de que tudo ia dar certo.
Deu mesmo.
Só uma coisa me incomodava. Não muito, só um pouco. Ele nunca tinha me pedido em namoro. A gente saía, jantava, namorava, até viagem de fim de semana fizemos umas vezes. Mas nunca me pediu em namoro e muito menos falou “eu te amo”. Uma vez eu falei pra ele, porque era verdade, mas não tive resposta. Não com palavras. Me respondeu com beijos, e isso compensou.
Homem não gosta de se abrir tanto assim, pensei. Palavras não têm importância. São os atos que demonstram amor, não umas poucas palavrinhas que o vento leva.
Depois de um tempo comecei a ouvir fofocas. Engraçado não ter percebido antes: as meninas do escritório cochichavam sobre mim e o Otacílio. Só podia ser inveja, das bravas. Uma vez fui à copa pegar café para ele e ouvi umas risadas. Alguém estava dizendo que era incrível uma  menina como eu me contentar com aquele barrigudo careca; as outras caíram na risada. Elas não me viram, então dei meia volta e fui para a minha mesa.
Barrigudo careca? Nunca! Ele estava um pouco acima do peso, mas quem não está? E careca jamais! É normal os homens ficarem meio calvos, diz que é por causa dos hormônios. Qual o problema de ele estar com o cabelo um pouco ralinho no topo? Não atrapalhava em nada a estética.
Elas não viam como ele era inteligente, charmoso, gentil e perfumado. Ou melhor: viam sim, por isso tanta inveja.
Não foi a única vez que ouvi coisas ruins sobre o meu Otacílio. A pior foi que ele havia despedido uma funcionária grávida sem ligar que ela era arrimo de família e solteira. Eu não quis saber dos detalhes, por exemplo se ela tinha entrado na justiça do trabalho e coisas do tipo. Não estiquei a conversa porque era absurdo demais e eu tinha mais o que fazer.
Aí vieram me falar que ele tinha sido grosso com o motorista da firma. Que o motorista ficou tão revoltado que saiu xingando: “Seu narigudo! Seu ignorante! Seu besta!”
Não acreditei nessa história. Outra maledicência. E aquela parte do “narigudo”, então! Ridículo. O nariz dele não era grande, era masculino. Queriam que ele tivesse narizinho feminino, então?
Dias depois dessa última fofoca ele amanheceu com conjuntivite e não pôde ir trabalhar.
Seu Armando, chefe do departamento pessoal, me chamou e disse que eu precisava levar uns papéis para o Otacílio assinar. Coisa urgente: era a rescisão do motorista.
Levar aonde? Ao apartamento dele? Meu coração começou a bater forte. Nunca eu tinha ido ao apartamento do meu namorado, nem sabia onde ele morava.
Seu Armando me entregou uma pasta de documentos, o papel com o endereço, e disse que era lá pertinho, dava pra ir andando. Já estava tudo combinado, e que eu tomasse cuidado porque conjuntivite pega.
Fui caminhando sem pressa. Não queria chegar suada e descabelada, e também precisava me acalmar. Finalmente ia conhecer o lugar onde morava o meu Otacílio. Com certeza um apartamento charmoso e elegante como ele.
Na portaria do edifício encontrei uma mulher bonitona conversando com o porteiro.
― Pode uma coisa dessas, seu Aparecido? Ele nem me falou nada. Fiquei sabendo por acaso. Liguei no celular dele mas estava desligado. Ele não quer que eu ligue na empresa, mas desta vez não teve jeito porque fiquei preocupada.  Lá me disseram que ele não tinha ido trabalhar por causa de uma conjuntivite. Coitado, deve estar precisando de ajuda, mas é um fofo e não quis me incomodar. Olha, não tem necessidade do senhor avisar que estou subindo. Tenho a chave, vou abrir a porta sem fazer barulho e dar uma espiada nas coisas…
O porteiro me viu parada esperando ser atendida.
― A moça é a secretária do seu Otacílio? Pode subir, ele já autorizou. Vai junto com a senhora aqui.
A bonitona virou pra mim com um sorriso bem grande, estendendo a mão.
― Você é a secretária do Otacílio? Muito prazer! Sou a noiva dele, meu nome é Mariana, qual é o seu?
O mundo girou à minha volta e tive de apoiar a mão na mesa do porteiro para me equilibrar. Fingi que estava só depositando a pasta de documentos pra liberar a mão e cumprimentá-la. Ela não percebeu o meu choque, continuou a falar toda animada.
― Vamos subir juntas. Estou preocupada, sabe? Conjuntivite não é grave, mas a pessoa não pode sair de casa. Vou ver se não precisa comprar alguma coisa, algum remédio, alguma comida. A diarista dele só vem na sexta, veja só a situação.
A música do elevador era “Começo, meio e fim” do Roupa Nova. Ela falava, falava, e eu não queria ouvir. Me concentrei na música, fui cantando mentalmente como se estivesse num karaokê.

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa entender
que um amor de verdade
é feito canção,
qualquer coisa assim, 
que tem seu começo,
seu meio e seu fim.”

Essa parte da música não ajudou em nada, garanto. Depois da subida de elevador mais penosa da minha vida, chegamos ao apartamento. Era tão lindo quanto eu tinha imaginado. Mariana chamou:
― Otacílio, meu amor! Está no quarto?
Nem esperou a resposta e já foi entrando. Fiquei lá parada na antessala, abestalhada da minha vida.
Logo voltou a noiva do meu namorado:
― O Otacílio pediu pra você me dar os papéis que ele vai assinar lá no quarto. Ele está com vergonha de aparecer com os olhos vermelhos e inchados.
Dei pra ela a pasta e continuei no mesmo lugar, catatônica.
Não demorou e ela estava de volta.
― Menina, por que não se sentou? Quer uma água? Um cafezinho antes de ir?
Eu não quis nada. Só agradeci e fui embora. Meu coração doía a ponto de estourar.
Entrei no elevador e comecei a ouvir a música. Sem querer comecei a cantar mentalmente, como tinha feito na subida. Estava neste trecho:

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa aprender
a começar de novo.
É como tocar o mesmo violão,
e nele compor
uma nova canção.”

Devagar, devagarzinho, me veio uma coisa estranha. Alívio. Uma sensação boa que aumentava enquanto o elevador descia. A tristeza foi sumindo. Nem deu tempo de ficar com raiva do Otacílio. Nem raiva, nem decepção, nem ressentimento. Quando o elevador chegou ao térreo, era isso o que eu sentia: nada.
Quem era aquele namorado que nunca me pediu em namoro e que tinha uma noiva? Ele não era ninguém. Se não era ninguém, por que me importaria com ele?
Nenhuma razão para sofrer. Nada.
Meu amor pelo Otacílio morreu numa viagem de elevador.
Morreu, evaporou, se desfez no ar. Nem restos mortais deixou.
Fui embora cantando mentalmente o resto da música:

“Ah! Coração
se apronta pra recomeçar.
Ah! Coração
esquece esse medo de amar de novo.”

Uma semana depois, quando ele voltou da licença médica e eu entrei na sala dele para levar a minha carta de demissão, não o encontrei.
Só vi um homem de meia-idade calvo, barrigudo e de nariz proeminente ao lado da escrivaninha enorme de madeira escura, toda entalhada em belos arabescos.

(Clique para ouvir)




quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma rosa para Daiane

Amanhã é o último dia de aula. Acabou o curso. Quem foi aprovado, muito que bem. Quem não foi, já era.
Agora só quero o meu certificado. Festa de formatura? Sai fora. Não vou desperdiçar dinheiro com besteira.
Todo mundo lá arrumadinho, sorridente, fazendo de conta. Eu, hein?
Quero meu certificado, mano. Chego na secretaria, pego o papel e vou-me embora pra nunca mais voltar. Nem olho pra trás.
Três anos terríveis. Professores lixos, colegas idiotas, escola caindo aos pedaços.
Alguém por acaso se lembra da menina que se matou no ano passado? Que pulou na frente do ônibus? Não, né?
Fui lá na diretoria e avisei: a Daiane está com depressão. Ela anda falando umas coisas que gente normal não fala. Avisa lá a família dela antes que seja tarde.
Jacaré avisou? Nem jacaré nem a diretora. Depois que chegou a notícia foi um tal de ai que horror pra cá, ai que pena pra lá, colega chorando no fundo da sala, professor fazendo discurso sobre o perigo das drogas. Que droga, mano? A Daiane nunca usou droga! Nesse dia quase parti pra ignorância.
Depois do chororô, ninguém mais tocou no assunto. Acho que só eu ainda me lembro disso nessa zorra de escola.
E a inspetora homofóbica? Foi dar bronca no sujeitinho que estava escrevendo na parede, até aí concordo que vandalismo não pode, mas precisava tanta falta de educação? Tanta gritaria? Não, né? E no final, igual à cereja em cima do bolo, chamou o cara de gayzinho sem noção.
Logo ela, mano! Logo ela que todo mundo sabe que é lésbica. Como pode isso?
Olha, foi dureza aguentar professor de português falando errado. Tipo: oucem aqui, pessoal, a prova é dia tal e tal! Juro, não tô inventando. O cara falou bem assim: oucem aqui!
E a professora que não dava aula porque mandava todo mundo apresentar trabalho? Toda vez tinha apresentação de trabalho. Ela ficava lá sentada assistindo. Quase nunca falava alguma coisa. Desse jeito até eu.
Sinceramente, mano? Cansei. Levar papel higiênico de casa, beber água direto da torneira, engolir merenda de bolacha seca, sentar em carteira quebrada.
E a galera fazendo zoeira sem parar. Quase não dava pra ouvir nada. Eu lá querendo anotar as coisas, entender a bagaça da matéria, levantando a mão para fazer pergunta, tudo pra depois aguentar a gozação. Olha aí a nerd! Essa daí vai pra NASA quando se formar! Quanto cê tá pagando pelas notas?
Ai, as meninas. Tão arrumadinhas, batonzinho na boca, chapinha no cabelo. Burras que nem uma porta. Porta ou porca? Sei lá. Aula de matemática: professor, por que o triângulo equilátero não tem hipotenusa?
Nessas horas eu ficava com dó do professor, apesar de ele também não ser lá grande coisa.
Os carinhas da classe, então, só ligados nos bagulhos que rolam na pracinha. Sabe a pracinha em frente à escola? Muita coisa acontece ali, principalmente na hora do intervalo. Todo mundo sabe, menos a direção. Sair no intervalo não pode, mas cadê que tem inspetor no portão? Sai quem quer, mano. Sai quem quer, entra quem quer, faz o que quer.
Amanhã é o último dia, por isso muita gente não vai. Eu vou. Pra sentir que terminei mesmo essa etapa. Que terminei para sempre. Tipo ir ao velório só pra ter a certeza de que o defunto morreu.
E também pra colocar uma rosa naquele cantinho do pátio, lá onde tem o pé de ipê amarelo. Uma rosa em homenagem à Daiane.
Nunca vou esquecer. Foi bem ali, naquele cantinho, perto do ipê amarelo, que trocamos o nosso primeiro e o nosso último beijo.
Adeus, Daiane. Fica na paz. <3


Imagem: http://resource4christians.blogspot.com.br

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Aniquilação

Era uma vez um elétron depressivo, profundamente negativo, que vagava sozinho sem ter para onde ir.
Nem sempre fora assim.
Houve época em que ele se sentia feliz, fortemente ligado a um átomo, vivendo em um confortável orbital p junto com outros cinco companheiros. Um inesperado raio cósmico, porém, produziu a sua ionização, e o elétron foi repentinamente lançado à solidão do espaço intermolecular. 
O destino, imprevisível como sempre, reservou-lhe uma surpresa colocando em seu caminho um pósitron!  
Com toda a sua deslumbrante positividade, essa partícula rara emergiu de um radioisótopo e disparou em sua direção a uma velocidade relativística.
Foi paixão à primeira troca de fótons...
O elétron acreditou, durante aqueles maravilhosos nanossegundos, que seria novamente uma partícula ligada. Não sabia, o inocente, que estava indo ao encontro da sua antipartícula... Aquela que tinha o poder de aniquilá-lo para sempre...
Ao se tocarem, algo quântico aconteceu! Uma completa fusão! Uma absoluta, total e irreversível entrega.
Sim, porque eles entregaram um ao outro suas massas, suas cargas, seus números quânticos e suas energias cinéticas. Ou seja, tudo o que possuíam. Como se não houvesse amanhã.
E amanhã realmente não houve. Para nenhum dos dois...
Após um flash infinitesimalmente breve, dois raios gama emergiram.
Exatamente iguais, de mesma energia, porém separados por um ângulo de 180 graus.
Propagando-se em sentidos diametralmente opostos, afastaram-se à velocidade da luz.
Para nunca mais se reencontrarem.

FIM


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