Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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domingo, 31 de agosto de 2014

Uma pessoa folgada

Que a Elza era uma chata e folgada, eu já sabia desde os primeiros dias depois da nossa lua-de-mel. Não fazia nada e estava sempre cansada, sempre reclamando que não tinha tempo para isso, que não tinha tempo para aquilo, que estava com dor de cabeça e outras baboseiras.

Mas que ela era uma bruxa só estou descobrindo agora. Digo e explico.

Nos cinco anos do nosso casamento ela só trabalhava meio-período, das sete da manhã até a uma da tarde. Em vez de voltar direto pra casa como uma mulher que sabe das suas responsabilidades, ela passava primeiro na casa da mãe dela. Isso todo santo dia. Para fazer faxina, fazer comida, levar a velha no médico, sei lá o que mais.

Eu dizia:

“Isso não está certo, filha. Você não é empregada da sua mãe. Ela que contrate alguém pra ficar lá com ela. Você não pode deixar de lado as obrigações da sua casa pra correr atrás dos problemas dos outros! Aquelas inúteis das suas irmãs podiam fazer a parte delas, não podiam?”

E ela:

“Não tem outro jeito não. Minha mãe não tem dinheiro pra contratar ninguém, e as minhas irmãs não estão nem aí. Nem pra ajudar no serviço da casa e nem pra pagar uma empregada. Que é que eu vou fazer? Não posso deixar a minha mãe sozinha, né?”

Nesse ponto eu desconversava porque já adivinhava onde ela estava querendo chegar: trazer a mocreia pra morar com a gente.

Daí o que acontecia? Eu chegava em casa do trabalho e a janta não estava pronta porque ela ainda estava lavando a roupa ou fazendo outra coisa qualquer. Eu até que tentei ser legal, passei a chegar mais tarde, ficava fazendo hora na rua só pra dar mais tempo pra ela terminar as coisas, mas não adiantava muito não.

E na hora do vamovê? “Ai, que estou cansada! Ai que estou com dor de cabeça!”

Não era só de noite que dava problema não. Quantas vezes não cheguei atrasado no trabalho porque tinha que ficar esperando ela passar a minha roupa? Que já devia estar passada e guardada, mas não! Ela ia lá na área de serviço pegar do varal pra passar bem na hora de eu sair.

Olha, nem sei como aguentei cinco anos.

Agora veja o que está acontecendo. Ela foi embora dizendo que não suportava mais, e coisa e tal. Tudo bem. Não sinto falta dela não, era uma chata e folgada. Mas ela rogou praga, tenho certeza. Quer uma prova?

Venha aqui no banheiro pra ver. Repare como está criando mofo por todo canto. Isso nunca aconteceu antes, quando ela morava aqui. Nunca teve o menor problema aqui no banheiro. Mas foi só ela ir embora que pouco tempo depois começou a apretejar tudo. Debaixo da pia da cozinha é a mesma coisa. Só pode ser praga, estou dizendo.

Sinceramente, não sei o que fiz pra merecer isso.

Imagem: http://www.thehousewifewannabe.com

sábado, 30 de agosto de 2014

Sem noção

Certa noite o jovem Thiago acessou uma sala de bate-papo diferente daquela em que sempre entrava.
O título era “Sem noção”.
Ele nunca havia notado esse título na lista das salas do portal, e quando viu ficou curioso.
Ao entrar, sob o nick Curioso, deu boa noite e ninguém respondeu. Havia muitos participantes, mas ninguém falava nada. Depois de esperar uns três minutos, perdeu a paciência e “gritou” em letras maiúsculas:
“QUALÉ, VOCÊS ESTÃO MORTOS?”
Recebeu esta resposta de alguém apelidado Anjo Tocheiro:
“kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!!!”
E ele:
“Não vejo qual é a graça!”
Resposta:
“Já vi que você é um típico sem noção!”
”Sem noção é a tua mãe, cara!”
”Mãe eu não tenho, mas já vi que você não faz a menor ideia.”
”Desculpa aí, foi mal. Menor ideia do quê, cara?”
”De que já morreu!”
”Tu tá fumando o quê, mano? Que papo besta é esse?”
”Só estou querendo te ajudar. Você tá sem noção de que já morreu e eu tô te informando.”
Thiago estava começando a se sentir desconfortável com aquela conversa.
”Já deu, cara. Tô indo nessa.”
”Tá indo pra onde, mano? Você tem que esperar que venham te buscar.”
Nesse ponto o Thiago ficou mesmo incomodado.
”Esse papo não tá levando a nada, então boa noite. Fica na paz.”
”Na paz eu já estou. Mas você vai voltar logo. Até daqui a pouco.”
Thiago saiu da sala mas continuou se sentindo incomodado. Olhou em volta e levou um grande susto com o que viu... ou com o que não viu! Voltou imediatamente para a sala! Foi recepcionado pelo Anjo Tocheiro: "kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!"

Imagem: http://www.coolweirdo.com

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Amor de mãe

Esta história é verdadeira. Aconteceu há muito tempo. Quem me contou ouviu de alguém que testemunhou o fato.

          Era uma senhora com vários filhos que enviuvou logo depois do nascimento do caçulinha. Trabalhava como lavadeira, e passou a trabalhar ainda mais já que agora precisava cuidar sozinha da prole.
          Na região onde morava havia uma família que, se não era rica, estava muito bem de vida.
          Aquelas pessoas adoravam o bebê, saudável e gracioso, da lavadeira. Então um dia pediram para passar alguns dias com ele, que o tratariam muito bem.
          Ela concordou porque confiava naquela família. Além disso seria, durante algum tempo, uma preocupação a menos. E uma despesa a menos.
          No dia combinado ela foi buscá-lo, mas em vez de trazerem o bebê a levaram para o quarto onde ele estava.
          A lavadeira ficou admirada com o luxo do lugar. Seu filho estava dormindo em um bercinho maravilhoso. Suas roupinhas haviam sido trocadas por outras, muito melhores e mais bonitas.
          Então veio a proposta:
           “Por que a senhora não dá pra gente o seu nenê? Está vendo como ele está sendo bem tratado? Se ficar aqui conosco ele terá tudo do bom e do melhor. Quando crescer vai estudar e vai ter um futuro muito melhor do que a senhora pode lhe dar. Além disso é uma boca a menos na sua casa. Sobrará mais para os seus outros filhos.”
          A lavadeira ficou paralisada. Nunca pensara em se separar de filho nenhum, nem nos momentos de maior desespero. Era um absurdo tão grande que ela não tinha palavras pra responder. A outra continuou:
           “Pense bem. É bom pra todo mundo. Para nós, que gostamos tanto do seu filho, será uma felicidade tê-lo aqui para sempre! Para a senhora, que vai ficar mais aliviada, vai ser bom também. Para os outros filhos nem se fala, que vão ter mais do que têm agora. E principalmente para o nenê, que a gente vai criar como se fosse nosso. Ele nem precisa ficar sabendo que é adotado, porque a senhora ainda não registrou. O maior beneficiado será ele. Está nas suas mãos dar-lhe um futuro.”
          A lavadeira olhava, olhava, silenciosa e pensativa.
          Depois de contemplar fixamente o seu bebê durante algum tempo, ela simplesmente virou as costas e foi embora, sem dizer uma palavra.
          Nunca mais voltou àquela casa.
Imagem: http://inloveheart.wordpress.com

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A pedra azul

Há muito tempo, em uma aldeia distante, existia uma mocinha órfã de pai e mãe que vivia com a sua madrasta. Essa mulher fazia-se de muito boa para todo mundo, mas dentro de casa era uma verdadeira peste. Ao ficar viúva não pôde colocar para fora a enteada porque a esta pertencia a casinha onde moravam. Então resolveu fazê-la de escrava, obrigando-a a trabalhar dia e noite para sustentar a ambas.
Além das responsabilidades da casa, a menina tinha que cuidar da horta e do pomar e também levar as verduras, legumes e frutas para o mercado. À noite, em vez de descansar, era obrigada a fazer trabalhos de costura.
Para piorar tudo, sua madrasta a mandava para o quarto com um toco de vela que não durava quase nada, por isso seus trabalhos de costura estavam sempre incompletos no dia seguinte. Dessa maneira a malvada tinha pretexto para recriminá-la e castigá-la.
Um dia a menina caminhava para o mercado equilibrando sobre a cabeça uma cesta pesada de hortaliças e frutas. Ia muito triste, pensando na vida, sem saber como mudar tudo aquilo. De repente, em uma curva da estrada, encontrou uma velhinha. Embora não a conhecesse, cumprimentou-a educadamente e ofereceu-lhe uma laranja, já que fazia muito calor e a senhora parecia estar com sede.
“Obrigada, filha. Você tem bom coração. Mas me diga: por que está assim tão triste?”
Normalmente a menina não se abriria a uma estranha, mas aquela senhora parecia tão confiável que ela lhe contou tudo. Então a velhinha tirou da sacola uma caixa de madeira já bem desgastada e disse:
“À noite, quando a vela acabar, abra esta caixa que o seu quarto vai ficar clarinho e você vai poder terminar o serviço. Assim a sua madrasta não vai ter motivo para te atormentar.”
A menina aceitou o presente mesmo sem entender como aquela caixa poderia iluminar a escuridão. Agradeceu e seguiu para o mercado.
À noite, como sempre, recebeu uma boa quantidade de serviço para fazer e o costumeiro toco de vela, que cada vez vinha mais curto. Porém sentia-se excepcionalmente despreocupada. Logo que a vela acabou, abriu a caixa de madeira e para sua grande surpresa havia uma pedra luminosa dentro! A pedra emanava uma luz azul muito bonita, clareando tudo com suavidade.
Nessa noite ela fez o serviço completo. Misteriosamente foi tudo muito rápido e ela não se sentiu exausta e com os olhos ardendo, como sempre acontecia. Pelo contrário, estava descansada e tranquila. Dormiu bem e acordou revigorada.
A madrasta ficou irritadíssima ao ver que não tinha como recriminar a menina, mas não falou uma palavra. Estava intrigada sem entender como o trabalho, além de completo, se apresentava mais bem feito do que de costume.
No dia seguinte aconteceu a mesma coisa, então ela resolveu investigar. Nessa noite foi espiar pelo buraco da fechadura e viu quando a menina tirou da caixa aquela linda pedra azul e luminosa. Imediatamente decidiu furtá-la. Queria aquela luz tão bonita no seu próprio quarto, e também queria de volta os motivos para azucrinar a enteada.
Na primeira ocasião em que ficou sozinha em casa, foi ao quarto da menina. Procurou e logo encontrou a caixa de madeira debaixo do colchão. Ali mesmo a abriu com intenção de levar a pedra embora e deixar a caixa vazia no mesmo lugar. Porém algo estranho aconteceu...
Em vez da pedra, ela encontrou uma cobrinha azul.
A cobrinha saltou para fora e imediatamente a picou. A malvada morreu na mesma hora.
Ao voltar para casa, a menina encontrou a madrasta caída, picada de cobra, com a caixa vazia ao lado.
Apesar de todo o sofrimento que havia passado, ela perdoou aquela mulher, rezou por sua alma e providenciou um sepultamento digno.
Nunca reencontrou a pedra azul, mas agora não precisava mais porque só trabalhava de dia. Alugou o quarto da madrasta para a velhinha da estrada, a qual nunca explicou o mistério. Mas a menina não se preocupou com isso, e viveu em paz e harmonia dali para a frente.

Imagens:
http://galleryhip.com
http://freevintagedigistamps.blogspot.com.br

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A expedição subterrânea - "Os meninos da Rua Beto"

Numa bela manhã de novembro aquele grupo de garotos tomou uma resolução radical!
Entrar na tubulação subterrânea de drenagem das águas pluviais!
Para quê? Para ver como era por dentro, oras!
E não tiveram medo das baratas, aranhas, ratos e escorpiões? Nãããão!!!
Mas quando um agente da lei se intrometeu nos planos dos garotos, tudo mudou!
Como terminou essa aventura?

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

(a) Conseguiram sair sãos e salvos daquela tubulação escura e úmida?
(b) Foram apreendidos pelo agente da lei?
(c) Suas mães descobriram a travessura?
(d) Todas as opções acima estão corretas?
(e) Nenhuma das anteriores?

Veja a resposta correta em "Os meninos da Rua Beto"!

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h

HiStÓrIaS dE uM tEmPo Em QuE aS cRiAnÇaS bRiNcAvAm Na RuA

Um anjinho meio torto - "Os meninos da Rua Beto"

Abril de 1958

Havia uma casa na rua de baixo com um jardim cheio de roseiras. Ali morava a Clarice, menina da minha idade, que tinha uma irmã ainda bebê chamada Sônia.

Minha mãe era madrinha da Sônia. Bonitinha mas de rostinho triste, ela sofria de alguma doença que a levou para o céu com cerca de um ano, vítima do atraso da medicina e da ignorância generalizada. Foi a primeira morte, o primeiro velório, o primeiro caixãozinho que vi na vida.

Clarice e eu brincávamos juntas muitas vezes. Minha suspeita era de que havia ali um certo retardo mental, já que se conseguia enganá-la nas brincadeiras com demasiada facilidade.

Além disso, ela apresentava certas atitudes estranhas.

Quando se zangava com alguém, disparava a gritar os palavrões e impropérios mais absurdos, coisas que eu jamais tinha ouvido ou imaginado existir. Ela acompanhava os insultos com gestos que às vezes eram ainda piores que as palavras. Lembro-me de ficar olhando aquilo de boca aberta e olhos arregalados, tamanho o espanto que me causava.

Certo dia eu estava comendo uma fatia de pão quando, perdendo a vontade, simplesmente joguei fora. Clarice foi lá, pegou aquela sobra toda suja de terra e disse:

”Não pode jogar fora assim, é pecado.”

Então deu um beijinho no pão e jogou no mesmo lugar.

Fiquei admiradíssima. Tanto com a ausência de nojo na menina, que nem ligou para a sujeira na hora de dar o beijinho, como pelo conceito novo que ela me apresentou: nunca tinha escutado falar e nem pensado no pão, ou qualquer outro alimento, como algo a se reverenciar.

No final, considero que a Clarice me ensinou duas coisas importantes.

Primeira: falar palavrão é uma coisa muito feia. Quando existe uma pendência a ser resolvida, quem tem razão não é necessariamente aquele que fala os piores insultos ou grita mais alto. É preciso conversar com calma, expondo claramente os argumentos. Se a outra pessoa não quiser ouvir, ou então responder com falta de educação, melhor que fique falando sozinha. Ou que fale com o nosso advogado.

Segunda: todo alimento é sagrado, jamais deveria ser tratado com desdém. Plantar, cuidar, colher, processar e preparar alimentos é um processo longo e trabalhoso que merece ser valorizado e respeitado. Não devemos ser gulosos, pegando mais do que conseguimos comer. Não devemos ser dissipadores, consumindo mais do que o necessário - alimentos ou o que quer que seja.

Em suma, podem-se aprender coisas boas e importantes tanto pelos bons quanto pelos maus exemplos. Até “um anjo torto desses que vivem nas sombras” (*), tem algo a nos ensinar. Basta prestar atenção.

(*) In “Poema de Sete Faces”, Carlos Drummond de Andrade

Imagem: http://fineartamerica.com

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Emilianismos

Certa vez a boneca Emília ficou sozinha no Sítio do Pica-Pau Amarelo quando todos os demais moradores foram fazer uma viagem. Então, sem ter ninguém para atrapalhar, ela resolveu colocar em prática algo que já vinha planejando há tempos: uma reforma na natureza.
Quando os outros voltaram fizeram com que ela revertesse a reforma; afinal, entre outras coisas, era um absurdo abóboras nascendo em árvores. Já pensou você sentado sob uma árvore lendo um livro e de repente uma abóbora cai na sua cabeça?
A única novidade mantida foi o apito do leite ao ferver, porque a Tia Nastácia gostou da facilidade.
Essa história me faz pensar em como seria bom podermos fazer reformas sem ter os empecilhos da fria lógica e da crua realidade a nos impedir.
Tudo isso para dizer que - muito emilianamente - eu sei como resolver os problemas do mundo. A ideia é simples: conectar todas as mentes humanas, de maneira que o prazer de um passe a ser o prazer de todos, e a dor de um também passe a ser a dor de todos.
Dessa forma, para que todos pudessem ser felizes, todos teriam que ser felizes.
O egoísmo humano faria com que todas as infelicidades fossem prontamente rastreadas, identificadas e solucionadas. Só assim o conforto geral seria preservado.
Infelizmente não vivemos no Sítio do Pica-Pau Amarelo, então essa reforma não é possível.
Só resta mesmo seguir aquele antigo conselho: amar ao próximo como a si mesmo. Complicado...

Imagem: http://blogdositiodopicapauamarelo.blogspot.com.br