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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Essas pessoas sensíveis

           Eu tinha um amigo chamado Gabriel. Ele era funcionário lá da faculdade.
           Gabriel era gordo. Descendente de italianos, apreciava uma boa massa. Adorava as rosquinhas caseiras que eu levava de vez em quando. E retribuía com tortinhas de morango.
          Ele era separado, com uma filha. O imóvel do casal ficou com a ex-esposa, que conservou a guarda da menina. O sonho do Gabriel era comprar um imóvel para ele, por isso economizava tudo o que podia.
          Muito culto, o Gabriel. Com um senso de humor às vezes corrosivo, mas sempre inteligente. Ele vivia estudando francês. Planejava uma viagem para a França e queria aproveitar ao máximo, então achava imprescindível falar a língua do país.
          Foi o Gabriel quem me iniciou nos mistérios da torta de ricota com passas, do patê de beringela e das HQs francesas, pelo que sempre lhe serei grata.
          Ele tinha juntado quase todo o dinheiro necessário para a compra da sua casa quando aconteceu o confisco das cadernetas de poupança. O choque foi grande demais, sofreu um infarto. Não morreu, mas ficou debilitado física e emocionalmente.
          Quando voltou a trabalhar ele me disse: “Agora não tenho mais esperança de um dia comprar a minha casa. Acabou-se tudo.”
          Pessimismo exagerado, mas vindo de uma pessoa em estado depressivo dava pra compreender.
          Pouco tempo depois ele teve outro infarto, e dessa vez foi fatal.
          Ah Gabriel, querido amigo... de quem foi a culpa por você ter morrido tão cedo?
          Quem mandou comer tanta comida italiana?
          Por que não fez exercícios? Por que não fez dieta?
          E por que se estressou tanto quando sequestraram todas as suas economias? Hein?
          Ah, essas pessoas sensíveis...
Imagem: http://thefatgoddesslife.blogspot.com.br

sábado, 5 de julho de 2014

Milagre do Amor

Esta é a história do Cristiano, um rapaz bonzinho que estudava lá na faculdade. Ele tinha uma característica muito especial: não tomava banho!
Se você conseguisse, com algum esforço, abstrair o seu revestimento de sujidade, descobriria que ele era bem bonito, com cabelos loiros ondulados, olhos azuis de bela tonalidade e pele rosada sem imperfeições. Além disso tinha um bom peso para a sua altura e nenhum defeito físico aparente.
Porém tudo isso se encontrava semioculto pela sujeira. Os cabelos ensebados, a roupa em péssimas condições, os pés mal cuidados nas sandálias havaianas cheias de poeira. Ele também não fazia a barba, porque achava antinatural se barbear.
Ouvi dizer que o problema era um trauma. Havia sido obrigado a servir o exército, e lá o forçaram a fazer coisas totalmente contra os seus princípios, como cortar o cabelo e as unhas, fazer a barba e tomar banho todos os dias. Tudo isso o deixou traumatizado, e agora que estava livre só fazia as coisas que o seu coração mandava.
Uma das coisas que o seu coração não mandava era estudar. Ele assistia às aulas e meditava. Afirmava que se você "meditar" não precisará passar horas e horas estudando (como nós outros fazíamos), porque vai entender tudo com muito maior facilidade já que a sua mente estará descansada e disciplinada.
Não sei se a mente do Cristiano era disciplinada, mas descansada certamente era. Todo mundo reparava na expressão os seus olhos, absolutamente tranquilos. Parecia que ele estava sempre contemplando alguma paisagem distante, em total relaxamento e despreocupação.
Uma vez ele me convenceu a assistir a uma palestra lá no instituto de meditações que ele frequentava. O palestrante falou um bom tempo (não me lembro de nada), e no final, para exemplificar a excelência do hábito, perguntou ao meu colega, notório e conhecido meditador:
"Não é verdade que depois que você começou a meditar passou a obter notas muito melhores?"
O Cristiano, que só levava pau em todas as matérias, respondeu:
"Eu exagerei um pouco e meditei demais, por isso não consegui bons resultados..."
O palestrante não se deu por vencido:
"É, realmente, tem que haver uma certa moderação, senão os efeitos benéficos são prejudicados."
O que me lembro bem daquele dia é que na hora de irmos embora tivemos a companhia de uma meditadora conhecida dele. Ela foi contando pelo caminho a sua rotina de meditação, incluindo o fato de comer uma "banana nanica" depois de fazê-lo. Fiquei maravilhada (no sentido da Bíblia) com a preocupação da menina em informar que a banana era nanica. Acabei concluindo que a meditação não era para o meu perfil.
O tempo foi passando e tudo continuava no mesmo. Mas de repente algo extraordinário aconteceu!
Uma colega chegou um tanto assustada e disse:
"Adivinhe quem eu acabo de ver no ônibus!"
"Não faço ideia."
"Vou dizer três palavras e você vai adivinhar na hora: limpo, arrumado, perfumado!
"Cristiano!"
Era o Cristiano. Consta que passou a tomar banho, vestir roupas limpas e até usar desodorante.
Como já deu pra suspeitar, ele estava apaixonado. Finalmente encontrou alguém que o fez esquecer totalmente os seus princípios e ficou interessado apenas em ser aceito como um ser humano comum.
Dizem até que começou a estudar a sério. E todos foram felizes para sempre :)

Imagem: http://www.peanuts.com

terça-feira, 24 de junho de 2014

Para onde vão os sonhos?

Eles formavam uma boa dupla de estudo: a moça idealista e o rapaz pragmático.
Ela queria fazer relevantes contribuições para a sociedade por meio do seu trabalho; ele só queria um ótimo emprego.
O ponto em comum entre eles era a convicção de que precisavam de conhecimentos profundos sobre a carreira que desejavam seguir. Por isso estudavam muito.
Certo semestre cursaram uma disciplina que lhes pareceu tediosa, difícil de entender, cansativa e chata. O professor, inexperiente, não ajudava em nada.
Quando saíram as notas da última prova os dois colegas viram que tinham sido aprovados. Mas, estranhamente, não ficaram felizes. O diálogo foi mais ou menos assim:
“Passei, mas não sei nada.”
“Eu também. Sinto que não aprendi nada, apesar de tudo o que estudamos.”
“Já me falaram que essa matéria é muito importante. Se a gente não souber, vai ter dificuldade em um monte de coisas.”
“Melhor se tivéssemos sido reprovados. Pelo menos poderíamos cursar de novo, com outro professor. Quem sabe aí daria pra aprender alguma coisa.”
“Concordo. Afinal passar sem saber não adianta nada.”
“Isso mesmo. Tirar o diploma pra depois virar um profissional medíocre não vale a pena.”
“Eu por mim prefiro jamais me formar a me tornar um profissional medíocre.”
“Eu também!”
“Então vamos até a sala dele pedir para sermos reprovados.”
“Vamos agora mesmo!”
E foram.
Pessoas ajuizadas não teriam feito isso, mas aqueles dois tinham ideias peculiares. Não pensaram por um segundo nos sentimentos do professor quando recebesse um pedido tão fora do normal. Simplesmente foram lá e reproduziram para ele o diálogo que tiveram, quase com as mesmas palavras. O sujeito ficou com a cara no chão, mas concordou em reprová-los.
No final do semestre seguinte, bem mais confiantes, foram aprovados sentindo-se merecedores. Afinal desejavam ter carreiras bem sucedidas, e para isso o conhecimento era essencial.
Formaram-se.
Nenhum dos dois conseguiu seguir carreira.
Ele faleceu prematuramente.
Ela precisou desistir dos sonhos porque a família, com vários casos de doenças graves, precisou de sua atenção e cuidados.
Suas ausências não foram notadas e menos ainda lamentadas pelos colegas de profissão.

Imagem: http://www.deviantart.com

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tráfico de gerimboca

A uma certa altura do curso universitário, o meu amigo Valter e eu concluímos que as nossas respectivas situações financeiras estavam igualmente alarmantes, e resolvemos arranjar um emprego de meio período. Acabamos indo trabalhar como recepcionistas no Aeroporto de Congonhas, depois de transferir as nossas matrículas do diurno para o noturno. O Valter na VASP e eu na VARIG.
Eis que um dia, após jantarmos no restaurante central da universidade, inventamos de catar sementes de lírio no jardim que ficava ao lado. Os lírios amarelos, depois de florescerem, haviam deixado centenas de cápsulas carregadas de sementes pretas e brilhantes. Por que resolvemos colher as sementes? Por nada. Só porque eram bonitas.
Quando chegamos à faculdade encontramos um colega nosso cujo apelido era Li. O nome dele não me lembro; o apelido era Li porque ele tinha vindo da cidade de Limeira.
Esse jovem era alto, moreno, vestia-se muito bem e usava colônias masculinas de ótima qualidade. Um galã. Seu único problema era uma certa lentidão de raciocínio...
Não sei de onde o Valter tirou a ideia, mas com a maior naturalidade do mundo perguntou ao Li se ele não estava interessado em um pouco de gerimboca da Amazônia.
"Gerimboca da Amazônia? O que é isso?"
"Você não sabe?! Pensei que fosse mais bem informado! Foi um comandante da VASP que trouxe de Manaus. É mais potente do que qualquer droga conhecida, e é natural. Dizem que os índios curtem adoidado!"
E colocou na mão do Li um bom punhado de sementes pretas, dizendo que naquele estado bruto não produzia efeitos tão grandes, mas quando refinado... era incrível!
O Li deu um sorriso maravilhado (e um tanto aparvalhado) e pediu mais um pouco. O Valter deu, avisando que não era pra se acostumar com tal generosidade.
Entramos para assistir às aulas e esquecemos o assunto. Na hora do intervalo encontramos o Li sentado no mesmo banco onde o havíamos deixado antes. Estava com cara infeliz e a mão sobre o estômago.
"O que foi, Li?"
"Valter, acho que te enganaram. Comi toda aquela gerimboca e não aconteceu nada. Só me deu uma bruta dor de estômago!"
Graças ao Li aprendemos duas coisas:
1) Gerimboca da Amazônia, isto é, sementes de lírio amarelo, provocam indigestão mas não são letais.
2) Pode ser perigoso fazer certas brincadeiras com pessoas reconhecidamente subdotadas. Elas podem ser muito mais subdotadas do que supõe a mais ousada das suposições.
Imagem: http://www.dondrup.com

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Mariazinha e seus amores

Em um dos estágios que fiz durante o tempo da graduação conheci uma moça muito simpática chamada Mariazinha. Ela era apaixonada por um rapaz que veio do interior para estudar em São Paulo, mas era uma paixão meio sofrida porque o tal cara, José Carlos, tinha uma namorada firme na sua cidade de origem e não fazia segredo do fato. Para ele era muito natural ter uma moça de plantão lá no interior enquanto fazia os seus biscates por aqui.
Claro que a Mariazinha tinha esperanças de que o José mudasse de ideia, embora nada indicasse tal possibilidade.
Falando assim dá a impressão de que a minha colega era ignorante e simplória, mas na realidade ela era uma aluna brilhante, tinha sido criada em uma família respeitadíssima em sua cidade, era católica praticante, cozinhava muito bem e era notavelmente bonita.
Com tantos atributos, havia vários admiradores na fila de espera. O mais assíduo era o João Luiz, um rapazinho cá entre nós bastante sem graça (ele tinha o jeito desses meninos meio bobos que, apesar de crescidos, só andam na rua de mãos dadas com suas mamães).
Pois é, o João Luiz mandava flores, visitava, choramingava. Enquanto isso a Mariazinha arrastava o seu bonde pelo José, o qual usava e abusava (da Mariazinha, não do bonde) e não estava nem aí.
Um dia finalmente ela se convenceu de que não tinha chance. Com uma expressão bastante triste contou que, depois de uma conversa muito sincera com o José, resolveu colocar um fim naquela situação incerta. E acrescentou, com cara de sofredora:
"Já que eu nunca vou poder ser feliz, vou procurar fazer feliz outra pessoa!"
Bem estranho que uma garota de vinte e dois anos esteja convencida de que nunca na vida "vai ser feliz" (tradução: ter o homem desejado). Bem estranho também que se julgasse obrigada a "fazer outra pessoa feliz" (tradução: ceder ao assédio de outrem).
Agora, mais estranho ainda, foi ela ter selecionado o João Luiz como beneficiário desse auto-sacrifício. Suspeito que tal procedimento tenha algo a ver com as suas crenças religiosas, naquela parte que fala da caridade cristã...
Em todo caso, ela encarou o desafio com muita coragem, e numa segunda-feira chegou pra mim e disse que no dia anterior tinha saído com o João.
"Ah é?" perguntei fingindo grande interesse.
"E ele me beijou." disse ela fazendo uma cara de repugnância como se tivesse bebido água do Rio Tietê.
E prosseguiu:
"Foi horrível! Nunca senti tanto nojo em toda a minha vida!"
"Então para de sair com ele, ora!"
"Não! Já que eu nunca vou ser feliz na vida, vou fazer outra pessoa feliz."
Que estômago! Que coragem! Que auto-anulação! Que aviltamento!
Bem, cada um sabe de si e ninguém tem nada a ver com isso.
Ela continuou a namorar o sujeitinho, até que um dia apareceu toda sorridente:
"Descobri que estou apaixonada pelo João Luiz."
"Tem certeza?"
"Tenho! A mais completa certeza. É maravilhoso!"
Toda aquela repugnância havia se transformado em paixão avassaladora. E foi aquela loucura!
O rapazinho se transformou. Começou a andar de cabeça erguida, a voz até engrossou. Isso ia acontecendo enquanto a Mariazinha ficava cada vez mais dependente, mais anulada. Então começaram a ter problemas. Não demorou muito, ele declarou que não estava mais interessado em continuar aquela relação porque achava que eles não tinham nada a ver um com o outro.
Choro! Desespero! Chantagem emocional!
Nada fez o João Luiz voltar atrás. Mariazinha tornou-se chata, paranoica, chorona, briguenta. Não se conformava em ter sido usada e jogada fora.
Até que um dia, um pouco mais calma, declarou:
"Eu amo tanto o João Luiz que para não incomodá-lo mais sou capaz de deixar de amar."
"Como assim?!"
"É verdade! O meu amor é tão grande que por amor sou capaz de deixar de amar."
Nessas alturas perdi o contato com ela porque mudei de estágio, e, para falar a verdade, estava um tanto cansada de dar "apoio moral". Além do que, tinha os meus próprios problemas a resolver.
Meses depois a encontrei por acaso. Ela estava tranquila, sorridente e praticamente de volta ao normal.
Tinha se apaixonado perdidamente por um colega do curso de Inglês.



Imagem: http://www.mipasa.com