Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Conto de Natal

Capítulo do livro "Os meninos da Rua Beto"

Dezembro de 1964
      
          Mesmo quando não precisava ajudar no sustento da família, a maioria dos meninos arranjava algum trabalho a fim de ter um dinheirinho no bolso, já que o hábito da mesada não existia então. As meninas não podiam fazer o mesmo por causa das suas “obrigações” domésticas.
          Aos dez anos de idade o meu irmão e o Izaías vendiam pirulitos. Esses pirulitos nada mais eram do que açúcar caramelizado, despejado ainda quente e viscoso dentro de pequenos cones de papel. Enquanto o xarope grosso estava esfriando e se solidificando, espetavam-se palitinhos de madeira dentro de cada cone. Depois de frios, os pirulitos eram acomodados em orifícios redondos de tabuleiros de madeira chamados “bancas”.

Imagem: http://papjerimum.blogspot.com.br

          O fabricante de pirulitos “empregava” vários garotos que percorriam as ruas com as bancas dependuradas no pescoço por meio de cordinhas. Lá pelos meados dos anos sessentas, antes de as crianças tornarem-se consumidoras de produtos industrializados, esse tipo de mercadoria tinha ainda uma boa aceitação.
          Naquela véspera de Natal, já que não tinham nada melhor para fazer, o meu irmão e o Izaías resolveram passar o dia inteiro vendendo pirulitos. Junto com eles foi o Neno, garoto de uns sete anos.
          O dia estava ótimo para as vendas. Foram andando, andando, e quando se deram conta estavam muito longe de casa: no Largo São José do Belém, a vários quilômetros de distância.
          O tempo era chuvoso, e quando a chuva apertou eles entraram em uma pastelaria já cheia de gente que também tinha ido se abrigar do aguaceiro. Os pirulitos estavam no fim, mas na banca do Neno ainda havia alguns; então o pessoal começou a comprar os últimos.
          O chinês dono da pastelaria não gostou nem um pouco! Ele começou a dizer:
          ”Aqui patelalia! Aqui vende patel, não vende pilulito!”
          Os meninos compreenderam que estavam sendo convidados para sair, mas o Neno tinha um senso de humor digno de uma criança de sete anos, e ao invés de sair começou a imitar:
          ”Aqui patelalia! Aqui vende patel, não vende pilulito!”
          O chinês, demonstrando uma total incompreensão para com a infância trabalhadora, foi lá dentro, voltou com um canecão de água e jogou no Neno.
          Foram embora, o Neno pingando água e com cara de choro. O meu irmão e o Izaías, para confortar o coleguinha (que adorava frango assado), foram a uma padaria e compraram um frango, desses que ficam girando naquelas assadeiras verticais com porta de vidro.
          Estava tudo perfeito, mas onde iriam comê-lo? Na padaria não havia lugar para sentar, e os bancos do jardim da praça estavam todos molhados. Acabaram resolvendo o problema com simplicidade: já que a chuva tinha parado e o sol reaparecido, sentaram-se na escadaria da igreja, num cantinho onde estava seco e havia uma sombra agradável. Ficaram lá, destrinchando o frango com as mãos, comendo e se lambuzando pacificamente enquanto observavam o lindo chafariz que ainda existia naquele tempo, com seus jatos de água cristalina.
          Sendo véspera de Natal, todo o jardim estava decorado com lâmpadas coloridas e enfeites cintilantes, e na igreja havia missas seguidas. No fim de uma delas começou a sair uma pequena multidão. Foi com esta cena tocante que as pessoas se depararam: três garotos pobremente vestidos (não tinham planejado ir tão longe vendendo pirulitos, por isso saíram de casa vestindo calções, camiseta e sandálias), sentados na escada comendo frango − presumivelmente doado por alguma alma caridosa! Com os corações repletos de amor fraternal após a missa natalina a que haviam acabado de assistir, não tiveram dúvidas: começaram a dar esmolas!
          O Izaías ficou vexadíssimo! Levantou-se depressa e quis devolvê-las! Mas o Neno e o meu irmão, dois notórios caras-de-pau, não deixaram! Continuaram a receber as doações, cuja totalidade acabou superando o dinheiro da venda dos pirulitos. Resolveram na mesma hora comprar outro frango, que comeram no ônibus a caminho de casa.
          Durante a viagem de volta o Izaías, envergonhado com o procedimento dos colegas, sentou-se longe deles, fingindo não os conhecer. De vez em quando olhava para trás indignado, observando os dois porcalhões de mãos engorduradas que comiam despudoradamente o frango adquirido com dinheiro de esmolas.
          Serenai, psicólogos! Nenhum dos dois tornou-se pedinte. Foi a única vez na vida que aceitaram a caridade pública. E que comeram frangos em tão precárias condições de higiene.
Imagem: http://janallegra.blogspot.com.br

sábado, 20 de setembro de 2014

Futebol de várzea

 Trecho do livro Os meninos da Rua Beto 

- - - Uma crônica dos anos setentas - - -

Antigamente a prática do futebol era mais acessível do que é hoje, porque em cada bairro havia pelo menos uns dois terrenos baldios com tamanho suficiente para abrigar o campo e a torcida.

Os clubes eram bem organizados e contavam com vários times: Dente de Leite, Juvenil, dos Veteranos, e os dois principais: o Primeiro Quadro, que era o titular, e o Segundo Quadro, composto pelos aspirantes e reservas. Nos domingos de manhã havia jogo entre os Dentes de Leite, depois os outros, culminando pelos principais.

Durante os campeonatos as partidas se distribuíam por vários bairros. Não eram numerosos os campos que dispunham de arquibancadas, mas a torcida não se importava se às vezes precisava assistir em pé ou sentada num barranco (ou mesmo sobre galhos de árvores).

Essa mania de futebol irritava as esposas, porque todo domingo de manhã os maridos saíam levando consigo os "filhos homens", dizendo que voltavam para o almoço, mas só apareciam lá pelas três ou quatro horas da tarde.

É que depois da vitória vinha a comemoração! E se o time não tivesse vencido era preciso desabafar as mágoas, espairecer com os amigos... Por um motivo ou por outro sempre acabavam indo para o bar em vez de voltarem para casa, preferindo tomar cerveja, comer linguiça frita e ovo cozido de casca amarela em lugar do caprichado macarrão com molho de tomate, polvilhado de queijo duro ralado.

Numa das tais manhãs de domingo estava se realizando um amistoso lá na Vila Formosa, periferia da Zona Leste de São Paulo. De repente, por alguma razão, os jogadores se desentenderam e começou uma briga feia entre os dois times.

Não se sabe se foi alguém que chamou a polícia ou se esta vinha passando e viu a desordem. O fato é que os policiais separaram a briga, apreenderam uma amostra dos que estavam batendo e uma amostra dos que estavam apanhando, e mandaram que entrassem na viatura, uma perua Veraneio pintada de preto e branco.

Como o bate-boca não parasse, resolveram levar os dois times completos para a delegacia, e pediram reforços. Chegaram outras "barcas" e todo mundo foi devidamente acomodado.

Estavam naquele vai-não-vai quando chega ao campinho o pai de um dos goleiros e vê o filho em uma das viaturas, no meio daquele monte de gente.

--- Ó Zezinho, que estás a fazer aí? Já pra casa que a comida está na mesa!

Como o filho não obedecesse, o homem foi ficando cada vez mais irritado.

--- Não obedeces teu pai, ó menino? Já pra casa que o almoço está a esfriar. Tua mãe vai se abespinhar com a tua demora!

O Zezinho bem que tentou explicar a situação ao pai, mas este se recusava a aceitar os fatos. Depois de brigar muito com o filho, resolveu tirar satisfação com os guardas. E tanto falou, e tanto discutiu, que eles não suportaram mais e resolveram soltar o Zezinho só para ficarem livres daquela criatura impossível.

Aí o pessoal que estava na mesma viatura não se conformou. Se ele podia ser solto por que os demais não podiam também? Que diferença de tratamento era aquela? Por acaso eles também não precisavam almoçar?

Protestaram, argumentaram, atazanaram, até que os policiais resolveram soltá-los.

Uma onda de revolta atingiu os outros detidos! Então havia desigualdade entre as viaturas? Que injustiça absurda! Os direitos não eram iguais? Ou todo mundo ou ninguém! Ora, onde é que já se viu?

Mais bate-boca, mais protestos, até que a polícia não aguentou mais. Abriu todas as portas e mandou que fossem embora. 

Acabou-se o jogo, acabou-se a briga, acabou-se a detenção. 

Todo mundo (até a polícia) foi pra casa almoçar.  

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A expedição subterrânea - "Os meninos da Rua Beto"

Numa bela manhã de novembro aquele grupo de garotos tomou uma resolução radical!
Entrar na tubulação subterrânea de drenagem das águas pluviais!
Para quê? Para ver como era por dentro, oras!
E não tiveram medo das baratas, aranhas, ratos e escorpiões? Nãããão!!!
Mas quando um agente da lei se intrometeu nos planos dos garotos, tudo mudou!
Como terminou essa aventura?

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

(a) Conseguiram sair sãos e salvos daquela tubulação escura e úmida?
(b) Foram apreendidos pelo agente da lei?
(c) Suas mães descobriram a travessura?
(d) Todas as opções acima estão corretas?
(e) Nenhuma das anteriores?

Veja a resposta correta em "Os meninos da Rua Beto"!

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h

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Um anjinho meio torto - "Os meninos da Rua Beto"

Abril de 1958

Havia uma casa na rua de baixo com um jardim cheio de roseiras. Ali morava a Clarice, menina da minha idade, que tinha uma irmã ainda bebê chamada Sônia.

Minha mãe era madrinha da Sônia. Bonitinha mas de rostinho triste, ela sofria de alguma doença que a levou para o céu com cerca de um ano, vítima do atraso da medicina e da ignorância generalizada. Foi a primeira morte, o primeiro velório, o primeiro caixãozinho que vi na vida.

Clarice e eu brincávamos juntas muitas vezes. Minha suspeita era de que havia ali um certo retardo mental, já que se conseguia enganá-la nas brincadeiras com demasiada facilidade.

Além disso, ela apresentava certas atitudes estranhas.

Quando se zangava com alguém, disparava a gritar os palavrões e impropérios mais absurdos, coisas que eu jamais tinha ouvido ou imaginado existir. Ela acompanhava os insultos com gestos que às vezes eram ainda piores que as palavras. Lembro-me de ficar olhando aquilo de boca aberta e olhos arregalados, tamanho o espanto que me causava.

Certo dia eu estava comendo uma fatia de pão quando, perdendo a vontade, simplesmente joguei fora. Clarice foi lá, pegou aquela sobra toda suja de terra e disse:

”Não pode jogar fora assim, é pecado.”

Então deu um beijinho no pão e jogou no mesmo lugar.

Fiquei admiradíssima. Tanto com a ausência de nojo na menina, que nem ligou para a sujeira na hora de dar o beijinho, como pelo conceito novo que ela me apresentou: nunca tinha escutado falar e nem pensado no pão, ou qualquer outro alimento, como algo a se reverenciar.

No final, considero que a Clarice me ensinou duas coisas importantes.

Primeira: falar palavrão é uma coisa muito feia. Quando existe uma pendência a ser resolvida, quem tem razão não é necessariamente aquele que fala os piores insultos ou grita mais alto. É preciso conversar com calma, expondo claramente os argumentos. Se a outra pessoa não quiser ouvir, ou então responder com falta de educação, melhor que fique falando sozinha. Ou que fale com o nosso advogado.

Segunda: todo alimento é sagrado, jamais deveria ser tratado com desdém. Plantar, cuidar, colher, processar e preparar alimentos é um processo longo e trabalhoso que merece ser valorizado e respeitado. Não devemos ser gulosos, pegando mais do que conseguimos comer. Não devemos ser dissipadores, consumindo mais do que o necessário - alimentos ou o que quer que seja.

Em suma, podem-se aprender coisas boas e importantes tanto pelos bons quanto pelos maus exemplos. Até “um anjo torto desses que vivem nas sombras” (*), tem algo a nos ensinar. Basta prestar atenção.

(*) In “Poema de Sete Faces”, Carlos Drummond de Andrade

Imagem: http://fineartamerica.com

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ascensão e queda da galinha Kátia - "Os meninos da Rua Beto"

Nunca houve uma galinha como Kátia. Nenhuma outra foi tão amada em vida e tão pranteada em seu passamento.

Da história de Kátia faz parte o coleguinha Izaías, que morava quase em frente à nossa casa e tinha oito anos na época. Sua mãe, senhora previdente, mantinha uma criação doméstica de galinhas para enriquecer a alimentação dos seus vários filhos.

Quando Kátia nasceu era um pintinho como outro qualquer, mas ao se tornar franguinha chamou a atenção do Izaías devido ao colorido de suas penas, tendendo ao vermelho. Ele resolveu tomá-la sob sua proteção e “pediu” a franguinha para a mãe, que a “deu”, distraída, sem pensar no significado emocional daquele pedido. Nessa ocasião Kátia recebeu seu charmoso nome.

À medida que o tempo passava, Izaías ia cuidando da sua galinha de estimação com todo o carinho, tanto que esta se tornou grande, gorda e vermelha.

O amor é um sentimento cheio de mistérios, cuja existência é sentida até pelos animais irracionais. Mesmo contando com tão poucos neurônios, Kátia percebeu que havia um vínculo entre ela e o menino, e o seguia como se fosse um cachorrinho. Quando ele fazia questão de sair desacompanhado, precisava dar altos e repetido berros: “Volta, Kátia!” para conseguir fechar o portão e sair à rua.

Tudo caminhava normalmente até o dia em que desabou um enorme temporal. O céu tornou-se escuro, o vento soprava furioso, raios começaram a riscar a atmosfera, e pavorosos trovões explodiam.

Por algum insondável motivo, ao invés de refugiar-se no galinheiro com as suas companheiras Kátia voou para cima do telhado do banheiro. Talvez, sentindo-se carente naquele dia, tenha agido assim para chamar a atenção do Izaías. Este, quando a viu em tão perigosa situação gritou várias vezes: “Desce, Kátia!” mas a galinha fingiu não entender e continuou empoleirada no telhado.

Izaías encostou uma escada na parede do banheiro e subiu para salvá-la. Já a tinha pegado e estava prestes a descer, quando um raio caiu a dez metros. O susto foi tão grande que ele despencou lá de cima! O telhado era baixo e por isso ele não se machucou, mas infelizmente aterrissou sobre a desventurada galinha, que teve morte instantânea.

Chorando em total desconsolo, Izaías resolveu enterrá-la com todas as honras que se dispensam a um animal de estimação, mas sua mãe, com aquele espírito prático de dona de casa, decidiu preparar e servir Kátia na janta.

Isso provocou uma enorme revolta no menino. Ele tomou a resolução de fugir de casa, e só não o fez porque o meu irmão conseguiu dissuadi-lo depois de exaustivas conversas. No entanto Izaías passou algum tempo magoado com sua mãe e jamais esqueceu a saudosa galinha.

Por uma dessas coincidências da vida, sua primeira namoradinha chamou-se Kátia. Era uma mocinha gorda e avermelhada, e trabalhava em uma avícola...

Imagem: http://galeria.colorir.com

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O desastre das galinhas - "Os meninos da Rua Beto"

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

Olha aí o Isaque!
Ele tinha doze anos e era vendedor de galinhas, mas não conseguia vender uma sequer!
Para que não perdesse o emprego, dois amigos tentaram ajudá-lo, mas o que aconteceu?!
Um terrível desastre!!!
Pobres galinhas! Salvaram-se ou foram para o céu dos galináceos? E os meninos, saíram ilesos ou não?
Isaque conservou o seu emprego? Recebeu promoção? Ou foi despedido por justa causa?

As respostas para estas e outras intrigantes questões estão em "Os meninos da Rua Beto"!

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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O caso da minhoca - "Os meninos da Rua Beto"

Janeiro de 1969

Meses antes de completarem quinze anos o meu irmão e o Izaías trabalharam em uma metalúrgica que fazia parte de uma conhecida fábrica de chuveiros, a qual empregava menores de idade sem registro em carteira inclusive para trabalhos perigosos e insalubres com solda, prensa, cromação, etc.

O serviço do meu irmão não oferecia perigo porque era na linha de montagem, mas o Izaías trabalhava em uma prensa. O único treinamento em segurança que recebeu foi a exibição de um vidro cheio de formol contendo fragmentos de dedos e tecidos humanos, com a advertência de que “se você não tomar cuidado, olha só o que pode acontecer!”.

O chefe da seção onde eles trabalhavam era um rapaz que tinha cara de minhoca, pelo menos na opinião dos dois: olhos baixos demais em relação ao nariz, boca pequena e redonda, ombros estreitos e caídos. E além disso tudo era careca.

A uma certa altura de um certo dia, em plena hora do expediente, o Izaías chegou para o meu irmão e contou a seguinte piada, com palavras mais ou menos assim: um minhoco colocou a cabeça para fora do buraco e viu, saindo de um buraco vizinho, uma forma roliça e insinuante. Como era um conquistador, o minhoco disse, fazendo voz de galã: “Olá, querida! Como vai?” Ouviu então a seguinte resposta irritada: “Não seja imbecil! Não tá vendo que eu sou o seu rabo?!”

"QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ!!!!!" (O meu irmão não era nada discreto quando dava risada.)

O chefe escutou e resolveu verificar o que estava acontecendo. Enquanto o meu irmão ria, de olhos quase fechados, o Izaías viu o cara-de-minhoca se aproximando e começou a rir também. O meu irmão olhou para o chefe e pensou a mesma coisa. Riu mais ainda. Em seguida os dois se entreolharam, um adivinhou o que o outro estava pensando, e a gargalhada foi em uníssono.

Pelo resto do dia, quando os dois viam o chefe, começavam a rir feito loucos. Uma hora o homem não aguentou mais. Chegou para os indisciplinados e disse que eles eram esperados no departamento pessoal para assinar uma advertência.

Se ele os tivesse deixado ir sozinhos o fim da história seria outro; mas ele foi junto, e portanto os garotos assinaram as advertências dando gargalhadas. Aquele comportamento era tão fora do normal que o pessoal do DP achou que eles estavam loucos. Resolveram despedi-los na mesma hora.

"Izaías, você está despedido!"
"QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ!!!"

Foi aí que tiveram certeza de que os rapazes estavam mesmo loucos, e despediram o meu irmão em seguida. Os dois foram embora se chacoalhando de tanto rir.

Moral da história: a minhoca é um animal muito útil. Fertiliza o solo, serve como isca nas pescarias, aumenta o conteúdo proteico dos hambúrgueres de carne bovina, e no caso relatado acima salvou dois jovens do perigo de se tornarem vítimas mutiladas do capitalismo selvagem.

Ah sim! Minhoca também serve para fazer poesia:

Ao ver uma velha coroca
fritando um filé de minhoca
o Zé Minhocão
falou pro irmão:
“Não achas melhor ir pra toca?”

Poema sem título
Tatiana Belinky

“Limeriques das coisas boas”, 1987

Imagem: http://www.studyblue.com

terça-feira, 29 de julho de 2014

O estranho bolo que sangrou - "Os meninos da rua Beto"

Imagem: http://loveswah.com
O que poderia explicar este fato extraordinário?!

A festa de casamento transcorria em clima de paz, alegria e fraternidade, mas de repente...

Aquele lindo e inocente bolo transformou-se em fonte de terror e medo!!!

Por que teria sangrado o bolo de casamento?

Que bruxaria era aquela?

Que terrível vingança estaria sendo perpetrada?

Quais foram as consequências desse ato de pura maldade?

Os culpados foram descobertos?
Ou não?
Foram castigados?
Ou não?!

Descubra a solução deste mistério em

"Os meninos da Rua Beto"

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Barquinho furado - "Os meninos da rua Beto"

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

O que terá acontecido a esses dois jovens sem noção do perigo que saíram da periferia da zona leste de São Paulo e foram à represa de Guarapiranga (do outro lado da cidade) escondidos dos pais?
E que navegaram em uma canoa furada, e ainda acharam legal?
Saíram vivos da aventura? Ou não? Os pais descobriram a traquinagem? Ou não? Os meninos levaram umas boas palmadas? Ou não?
Descubra o final deste emocionante episódio, baseado em fatos reais, em "Os meninos da Rua Beto"!

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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Os meninos da Rua Beto: capa do livro

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

O caminhãozinho do Porpeta

Trecho do livro Os meninos da Rua Beto

Janeiro de 1960

          Morava lá no bairro um jovem de origem italiana que atendia pelo apelido de Porpeta. Certa vez ele comprou um caminhãozinho Ford 38 em muito mau estado, e no dia seguinte, quando foi dar partida, constatou que o veículo não andava. Chamou então a molecada para empurrá-lo e fazê-lo pegar no tranco.
          Empurraram sem dificuldade, e assim conseguiram subir e descer a rua algumas vezes, com o caminhãozinho “pegando” e “morrendo” intermitentemente.
          Uma hora, quando estavam descendo, o Porpeta perdeu o breque! Para mal de seus pecados no fim da rua ficava um córrego, e foi lá mesmo que ele caiu.
          Esse córrego era estreito e raso, de maneira que apenas as rodas dianteiras mergulharam na água suja; o chassi ficou apoiado no barranco com as rodas traseiras no ar. O rapaz, que por sorte não tinha se machucado, pôde sair com facilidade.
          Aquele não era mesmo um dia promissor, porque ia passando uma viatura de polícia, e os policiais foram investigar aquele ajuntamento de gente. Não gostaram muito do que viram e requisitaram os documentos do veículo.
          Ora, o Porpeta era um rapaz honesto, e não hesitou em apresentar “os documentos”. Era um papel comum onde estava escrito, em letras de mão:
Este caminhão pertence ao Porpeta.
Assinado, Galocha.

          A polícia achou aquilo um tanto irregular e resolveu guinchar o veículo e levá-lo para as devidas averiguações. O Porpeta começava a ficar muitíssimo chateado com o rumo dos acontecimentos...
          Veio o guincho, mas não tiveram sucesso em retirar o caminhãozinho porque, onde quer que prendessem o gancho, na hora de arrastar só conseguiam arrancar o respectivo pedaço, de forma que na margem do córrego foram se empilhando partes e mais partes do infeliz veículo. O objeto mais volumoso de toda a pilha era o eixo junto com as rodas, porque o resto ficou totalmente fragmentado.
          O coitado do Porpeta ia assistindo à depenação do seu querido caminhãozinho e não podia fazer nada. Mas ninguém é de ferro: chegou uma hora em que ele não aguentou mais e começou a xingar, e a cada xingamento jogava alguma peça de volta no córrego. A molecada, solidária com o amigo, ajudava quando a peça era pesada demais.
          Nessas alturas a polícia desistiu de tomar outras providências, achando melhor ir embora e esquecer o assunto. Ficou lá o Porpeta, entulhando o córrego com sucatas e desabafando os seus mais íntimos sentimentos.
          Acabou-se o caminhãozinho. Em compensação, estava criado um verdadeiro parque de diversões, porque o córrego sendo raso permitia acesso a todas aquelas preciosidades: volante de direção, pneus, cabine, carroceria, etc.
          Durante um bom tempo aquele entulho ficou lá, para alegria geral da molecada.

Imagem: arquivo pessoal

terça-feira, 8 de julho de 2014

O mistério do Cascão

Trecho do livro "Os meninos da Rua Beto"

Junho de 1967

Havia por lá um homem cujo apelido era Cascão; seu nome verdadeiro nunca ninguém ficou sabendo. Ele tinha cerca de cinquenta anos, era baixinho e andava encurvado, como se carregasse alguma coisa pesada no bolso interno do paletó azul-marinho que nunca trocava.

Cascão se mudara para as redondezas havia uns três anos e morava num quartinho do cortiço do Seu Alfeu, na rua de baixo. Ele não tinha fontes de renda visíveis; nunca se soube de onde vinha o dinheiro com o qual sobrevivia.

Os adultos o consideravam retardado mental e não repreendiam as crianças que faziam gozações quando ele passava. Quando isso acontecia o Cascão dizia às crianças:

”Vocês não podem me tratar assim, porque não me conhecem e não sabem quem eu sou!”

Mas todo mundo “sabia” que ele não tinha estudos, não tinha emprego e não tinha família. Ele, no entanto, afirmava que era muito rico e que guardava um tesouro lá no quartinho. Ninguém, nem mesmo as crianças, acreditava em tais maluquices.

Um dia porém aconteceu um fato estranho. Parou na frente do cortiço um “Galaxy” azul, carro luxuoso da época, e dele desceram dois homens. Um deles era alto, de pele clara e avermelhada, parecendo estrangeiro; o outro era mais abrasileirado; os dois muito bem vestidos. Entraram no cortiço e saíram em companhia do Cascão.

Os três andaram juntos por certo tempo, conversando sobre algum assunto que parecia importante. O Cascão falava e gesticulava, e os outros dois prestavam muita atenção.

Quando voltaram desse pequeno passeio ele foi lá dentro e saiu carregando um bauzinho. Entraram todos no carro luxuoso e foram embora.

Desde esse dia o Cascão nunca mais foi visto.

Imagem: http://produto.mercadolivre.com.br