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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

          Difícil descrever o que ele era para mim. Não apenas um colega de trabalho, nem simplesmente um amigo. Talvez a melhor palavra fosse confidente. Todas as alternativas anteriores, e mais.
          Sua face de poeta sugeria uma vida contemplativa, preenchida por preocupações filosóficas. Assim ele vivia, exceto nos momentos em que interrompia seus devaneios para me dar atenção.
          No departamento em que trabalhávamos a atividade era incessante; todos estavam sempre ocupados, ninguém seria surpreendido olhando o vazio através da janela. Exceto ele. Não raramente, em meio ao cálculo mais árido, encontrava ideias escondidas entre os símbolos matemáticos as quais mereciam pelo menos dez minutos de reflexão.
          Era comum, ao entrar em sua sala, encontrá-lo em plena contemplação, as mãos esquecidas sobre o teclado do computador, fixando um ponto qualquer além da parede. Não se tratava de ociosidade; ele realmente precisava daqueles instantes para compor sua linha de pensamentos. A prova estava nos artigos publicados, criativos e muitíssimo bem elaborados. Infelizmente, não eram numerosos.
          Por esse motivo, de todos nós era ele quem ocupava a posição mais modesta. Enquanto trabalhávamos febrilmente tentando terminar logo o que começávamos, discutindo e muitas vezes brigando pelos nossos pontos de vista, disputando as posições de prestígio dentro do instituto, ele desenvolvia tranquilamente os seus trabalhos teóricos sem nenhuma pressa. Enquanto que a maioria dos cientistas daquele departamento ocupava-se também em dar aulas na universidade, meu amigo nem cogitava dessa possibilidade. Não tinha tempo, dizia.
          Àquela altura sua idade estava em tinha trinta e poucos anos. Rosto calmo, mãos delicadas, quase sempre usando o mesmo casaco escuro. Raramente sorria, mas isso não era necessário. Havia um sorriso subjacente em todos os seus atos, em todas as suas palavras. Assim eu achava.
          Como éramos diferentes! Eu, o típico carreirista, em constante atrito com certos colegas e principalmente com o chefe do departamento. Esse era quem mais me irritava, sempre achando que os meus projetos eram muito caros, ou inaplicáveis, ou absurdos. Às vezes eu me excedia na minha arrogância diante dele, mas sabia que estava a salvo. Minha competência era indiscutível. Mais de uma vez as minhas sugestões haviam salvado projetos aparentemente irrecuperáveis, e geralmente era eu quem enxergava erros nem sempre óbvios nos trabalhos dos outros. O nível do departamento cairia se me despedissem. Por isso o chefe e os outros tinham que me tolerar.
          Foi durante uma das diversas crises ─ a pior de todas ─ que conheci o meu querido amigo. Ele havia chegado de outra universidade para trabalhar conosco. Ninguém sabia, àquela altura, das suas tendências filosóficas. Numa época em que todos procuravam produzir mais e melhor, aperfeiçoando-se tecnicamente e apresentando resultados, ele dava-se ao luxo de questionar a natureza das coisas. Isso era filosofia, não era ciência.
          Surpreendentemente, nossas divergências de personalidade nunca foram problema. Desde o primeiro dia em que nos encontramos nos demos muitíssimo bem. Ele dizia admirar a minha ─ por assim dizer ─ agressividade, algo que não possuía; quanto a mim, sentia muita tranquilidade na presença dele e tinha um grande prazer em ouvi-lo falar, expondo suas ideias, suas dúvidas, suas aspirações.
          Mas, como estava dizendo, na época em que nos conhecemos eu estava empenhado em uma das minhas batalhas contra o chefe do departamento.
          Acontecia que o governo vinha encarregando os cientistas de certas tarefas cujos objetivos desconhecíamos. Eram tão específicas e tão diferentes entre si que se tornava impossível juntar o quebra-cabeça e desvendar que projeto havia por detrás de tudo aquilo. Para descobri-lo teríamos que promover uma reunião com todos os participantes ─ físicos, químicos, biólogos, engenheiros, médicos e biofísicos.
          Isso era impossível por dois motivos: não sabíamos quem estava envolvido, e os trabalhos eram confidenciais. Ninguém teria coragem de faltar à palavra dada, escrita e assinada de não divulgar o objeto de seu trabalho. Na época em que estávamos, não seria nada saudável para um pesquisador perder as boas graças com o governo.
          Pois bem, a divergência surgiu porque eu e o chefe adotamos posições contrárias na questão de aceitar ou não tais incumbências. Ele não queria aceitá-las alegando que estaríamos trabalhando para alguma coisa cujo fim desconhecíamos e que bem provavelmente reprovaríamos se conhecêssemos. Não fosse assim, dizia ele, qual o motivo de tanto mistério?
          Eu, por meu lado, estava disposto a aceitar o que me dessem para fazer, porque, afinal de contas, não só dependíamos deles para obter as nossas subvenções como também − qualquer que fosse o misterioso projeto − jamais poderia ser nocivo ao nosso povo e ao nosso país. Hoje me admiro por não ter considerado o fato de que o governo era autoritário, uma ditadura que já durava três décadas. Portanto de nada se podia ter certeza.
          Resumindo a história, o instituto aceitou as incumbências e vários pesquisadores daquele departamento se dispuseram a colaborar. Logo tornou-se óbvio que à minha equipe havia sido confiada uma parte importante do trabalho, visto que a verba destinada era muito alta.
          Passamos a desenvolver as atividades em um setor isolado, cuja segurança era garantida pela presença de guardas armados. Nosso equipamento chegava em caixas fechadas sem nenhuma indicação do seu conteúdo. Somente a mim e aos meus assistentes era dado conhecer o que acontecia naquela dependência. Ainda assim não saberíamos dizer a que se prestaria o produto dos nossos esforços. Alguém ou algum grupo em íntimo contato com o governo havia idealizado uma coisa grande e importante, e tão inédita que nem mesmo nós, com a nossa experiência, podíamos deduzir.
          Foi então que o chefe fez algumas tentativas de se aproximar de mim para saber o que eu fazia. Não direi que quase o tenha conseguido, mas confesso que era difícil não sucumbir à impressão de quase fascínio que sempre me causou. Ele era uma pessoa atraente, quer pelo seu porte, quer pela fisionomia de tranquila inteligência, quer pelo modo de fixar aqueles intrigantes olhos azuis nos olhos da gente.
          Quando fui trabalhar no seu departamento eu era um estudante recém-graduado, ao passo que ele já ocupava uma posição importante. Ao andar pelos corredores carregando peças ou aparelhos, com o jaleco amarrotado e não raramente sujo de graxa, algumas vezes eu o encontrava. Ele se detinha e me esperava passar. Essa habitual precedência na passagem era para mim motivo secreto de um certo orgulho, bobagem típica de principiante inseguro.
          Fui aos poucos crescendo na profissão, sempre trabalhando muito e tentando ignorar a presença daquele homem importante que me assustava um pouco e me fascinava um pouco. Assim, quando ele tentou se aproximar fiquei bastante inquieto, temendo que a velha admiração dos tempos de estudante viesse a prejudicar o meu estado de alerta e deixar escapar alguma coisa do que ele estava pretendendo ouvir. Por isso sempre ficava de sobreaviso quando ele vinha conversar sobre assuntos muito distantes daquele que preocupava a nós ambos. Nessas ocasiões a minha petulância crescia de tal modo que chegava a incomodar até mesmo a mim.
          Foi então que apareceu o meu futuro grande amigo. Nada de extraordinário, nada de especial aconteceu na primeira vez em que nos vimos. Cenário: copa do departamento. Circunstâncias: ele tentando saber em qual garrafa estava o chá. Conhecimento só para iniciados, já que o chá ficava na garrafa verde e o café na garrafa vermelha, sem nenhum rótulo indicativo. Apontei a garrafa certa e pensei comigo que ele devia ser teórico, porque um físico experimental descobriria bem depressa sem precisar perguntar a ninguém.
          Depois de dois minutos de conversa já nos sentíamos muito à vontade um com o outro.
          Ele jamais perguntou no que eu estava trabalhando. Creio que mesmo um poeta solitário como ele devia ter ouvido sobre o tal projeto confidencial, e por isso não tocava no assunto. Mas se eu tivesse dito alguma coisa ele teria ouvido silenciosamente sem fazer outras perguntas. Seria um ouvinte e não um inquisidor.
          Nunca saberei quanto tempo a nossa amizade singela teria durado se numa tarde eu não tivesse surpreendido uma cena absolutamente chocante.
          Precisando de um certo componente que ainda demoraria a chegar, lembrei-me de que havia alguns exemplares no armário de um laboratório fora das nossas instalações. Fui para lá pensando em repor a retirada quando o meu pedido chegasse. Ignorei consecutivamente vários avisos de “entrada proibida” que antes não existiam. Estranhei mas não me detive; obviamente aqueles avisos não se referiam a mim.
          Ao passar por um corredor, através de uma porta entreaberta vi claramente o meu amigo na mais estranha das atitudes. Ele estava de pé, sem o seu habitual casaco escuro, segurando as abas da própria camisa de forma a mantê-la aberta e com o tórax exposto.
          Diante dele, inclinando-se para frente, o chefe tinha a mão direita estendida em direção ao seu peito, sendo que a esquerda segurava alguma coisa que parecia ser um dispositivo eletrônico.
          Enquanto um olhava fixamente a parede, o outro estava compenetrado no que fazia; por isso não notaram que havia alguém no corredor. Assim pude me aproximar o suficiente para ver... um tórax de robô exibindo uma inconcebível complicação de fios, mostradores, plaquinhas de circuitos e uma variedade de LEDs.
          Fiquei tão chocado que não pude impedir uma exclamação de susto. No ínfimo momento que se passou desde que eles me olharam até que eu começasse a correr, tudo ficou claro em minha mente.
          O que era o meu querido amigo, afinal? Um ciborgue controlado pelo chefe? Todos nós sabíamos das suas pesquisas sobre biofísica e biocibernética. Mas daí a conviver com um ciborque real sem nunca suspeitar... era inacreditável!
          Então o plano era me espionar através do meu amigo. O que haveria nos seus ouvidos ─ microfones? Quem conversava comigo horas seguidas naquelas noites? Quem ouvia sobre os meus problemas, quem me dava apoio emocional? Qual dos dois? Seria devido à sua condição de organismo cibernético que ele possuía aqueles olhos perdidos, aquela atitude absorta, e ─ sobretudo ─ seria por isso que jamais fizera aproximações amorosas? Que fingia não perceber que eu o amava?
          Corri dali tão depressa que não puderam me alcançar. Peguei o meu carro e fugi, a princípio sem saber para onde. O que aconteceria se o chefe me apanhasse? Não tinha dúvida de que me mataria.
          Só sei que queria fugir, e continuei dirigindo. Muito tempo depois notei que me seguiam, não o chefe mas sim a polícia!
          Compreendi perfeitamente: ele havia me denunciado, dizendo que eu estava tentando sair do país para levar informações sobre o projeto.
          A fronteira internacional estava bem perto. O que eu poderia fazer? Abandonei o carro de portas abertas e motor ligado à margem do córrego que naquele trecho delimitava a fronteira. Queria induzi-los a pensar que havia passado para o outro lado. Entrei na mata e segui a pé, sem rumo definido. Por que não voltar e tentar provar a culpa do chefe? Eu não queria voltar. Não poderia tornar a ver o meu amigo sabendo agora que ele era um ciborgue. Precisava fugir de tudo, esquecer tudo, atravessar a fronteira, mudar de nome, de ocupação, de personalidade. Mas não agora, porque me encontrariam facilmente.
          Continuei avançando para dentro da mata. Já amanhecia quando cheguei a um pequeno povoado. Umas dez casas de madeira muito modestas, porém bem cuidadas e cercadas de jardins. Algumas pessoas me viram chegar e vieram ao meu encontro. Contei que a polícia estava atrás de mim para me impedir de atravessar a fronteira. As autoridades não eram bem vistas por aquela gente; julgaram que eu era um perseguido político e me esconderam. O plano era deixar as coisas se normalizarem para depois eu seguir adiante.
          Passei algum tempo naquele povoado, vendo os homens saírem pela manhã carregados de enxadas e foices, indo trabalhar na roça, e voltando à noitinha pouco antes de escurecer. A maioria das mulheres cuidava da casa, das crianças, das hortas e jardins. Eu ajudava em tudo o que podia, principalmente fazendo consertos e cuidando das hortas. Não estava feliz, mas me sentia entorpecido; havia superado o sofrimento dos primeiros dias. Perto dali ficava um campo coberto de flores, depois um capinzal. Mais além, a fronteira, a liberdade!
          Não sei quantos dias fiquei lá. Só me lembro de que saí da apatia quando uma tarde, perto do pôr-do-sol, vi chegar o meu amigo! A mesma face de poeta, o mesmo casaco escuro, os mesmos olhos tranquilos.
          Isso significava que eles sempre souberam onde eu estava. Não foram enganados pela minha ingênua estratégia de abandonar o carro. Ou teria alguém me denunciado?
          Eu não queria lhe falar, mas ele me prendeu pelas mãos (eram quentes e macias, genuínas mãos humanas) e me obrigou a ouvi-lo.
          Disse-me que não era um robô, não era um ciborgue, apenas possuía implantes eletrônicos no tórax devido a um acidente grave, e fora justamente o nosso chefe quem havia feito tais implantes. Depois da sua recuperação o havia recomendado para trabalhar no instituto porque assim poderia estar próximo para prestar assistência em caso de necessidade.
          Quando citei espionagem ele negou, mostrou-se magoado, argumentou, tentou expor evidências, pediu-me para retornarmos juntos. Mas eu não estava ouvindo nada, não estava acreditando em nada.
          Então ele me beijou.
          Então ele me levou de volta.

Imagem: https://jeffwendell.wordpress.com
"Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem; pomba minha, tu que te recolhes nas aberturas da pedra, na concavidade do muro, mostra-me a tua face, ressoe a tua voz aos meus ouvidos, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

"Cântico dos Cânticos de Salomão", Capítulo 2 - Antigo Testamento

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Exobacterjulian

          Quando o meu noivo me trocou por uma vagabunda desclassificada, a dor que passei a sentir chegava a ser física. Forte e profunda, quase insuportável, me obrigou a desenvolver estratégias de autopreservação. Durante o dia eu trabalhava obsessivamente. À noite criava imagens mentais que me confortassem.
          Minha profissão é técnica, o trabalho é complexo, exige grande concentração. O que acabou sendo conveniente, pois não sobrava neurônio desocupado para me fazer lembrar daquela pessoa absurda que, de um momento para o outro, me eliminou de sua vida como se eu fosse um objeto descartável.
          Analisando objetivamente, foi assim que conquistei o que tenho agora. Onde estaria se não tivesse trabalhado tanto ao longo daqueles meses? Certamente não teria recebido o convite para participar desta missão e estaria, talvez, sentada em um sofá, calçando chinelos macios, lendo o best seller do momento, sentindo o cheiro do chocolate quente na xícara de bordas douradas sobre a graciosa mesinha...
          Não, não! Foco na realidade! Foco na realidade! Sem chinelos, sem chocolate, sem livrinho romântico. Agora é a aridez vermelha, o oxigênio controlado, os equipamentos de proteção.
          Lá atrás, naquelas noites sem sonhos, a imagem que mais me aliviava o sofrimento era a fantasia de ser um micro-organismo em um muro em ruínas. Não um muro qualquer: esse ficava em um planeta de outra galáxia. Sem receber energia suficiente do seu velho sol, o planeta havia perdido as condições de vida. Sobreviviam apenas algumas bactérias, como eu. Minha espécie não precisava de energia solar, bastava a radiação de alguns elementos químicos. Esse muro estava lá há milhões de anos, construído por uma civilização extinta. Resto de um palácio, de uma fábrica, de um templo, sei lá.
          Só sei que aquele muro arruinado abrigava alguns organismos inertes, silenciosos, tranquilos. Aconchegados ao calor da radioatividade, não sentiam dor, não tinham necessidades nem desejos, nem anseios nem esperanças, nem mágoas nem frustrações. Talvez nem tivessem memória ou poder de raciocínio. Não sabiam quando tinham surgido, não imaginavam seu próprio fim.
          Eu era um desses micro-organismos. Nada ouvia, nada sentia, nada pensava.
          E assim conseguia dormir.
          Agora (quem poderia imaginar?!) aqui estou eu diante desse mesmo muro! Não na forma de bactéria mas na minha própria forma humana, contemplando o repositório das últimas criaturas vivas deste mundo agonizante.
          Será que existem realmente? Embora sem ter examinado ainda as pedras, eu sei que vou encontrá-las. Aqui é o mesmo lugar que fantasiei: o mesmo céu avermelhado, a mesma poeira fina, a mesma aurora boreal estranhamente amarela, a mesma luminosidade fantástica.
          Mesma, mesma, mesma... resma! lesma! quaresma! tesma!
          − Ei, não existe tesma!!! (disse eu atirando nele um pãozinho parcialmente comido)
          Brincadeira boba que o Juliano e eu fazíamos às vezes: encontrar palavras que rimassem. Ganhava quem se lembrava de mais palavras. No final, risadas e abracinhos.
          Trocada por uma vagabunda com cara de sonsa que se fez de amiguinha até o último momento. Sem explicações, sem um adeus, sem nada. Nem pediu de volta a aliança. Que joguei fora. Dentro estava escrito “Sempre seu, Juliano”.
          Sempre. O que é sempre? O que é para sempre? O que é eterno? Certo estava Einstein, o tempo é relativo. A eternidade é relativa.
          Tempo me lembra oxigênio. O recipiente de oxigênio pesa. Aqui a gravidade é quase igual à da Terra, mas um pouco maior, suficiente para se fazer sentir. O recipiente tem volume limitado. Então não posso desperdiçar tempo. Foco, menina! Foco! Não se perca em devaneios. Tempo é oxigênio, e oxigênio é vida. Vida é...?
          O que é vida? Meu trabalho em exobiologia? Se isso não for vida então estou mais morta-viva do que as bactérias do muro, porque tudo o que tenho é o meu trabalho. E as minhas lembranças.
          Mudei de país para fugir de você, Juliano. Deixei tudo para trás, suportei anos de treinamento intenso para esta missão. O que eu queria na verdade era me enfiar dentro de um Buraco de Minhoca (obrigada, Einstein!) e mudar de galáxia.
          Mentira que estou pesquisando vida alienígena! Mentira que estou interessada em altas descobertas científicas. É tudo pra ficar longe de você. Mas você sempre vem junto. Você está em todos os lugares. Você preenche todas as galáxias.
          Pronto, desperdicei mais alguns minutos preciosos. Saí sozinha apenas pra olhar essa aurora boreal amarela. Prova de que o planeta ainda tem núcleo ativo. Aí está a magnestosfera para protegê-lo. Muito fraca, porém. A incidência de raios cósmicos é grande. Estou em ambiente perigoso para a vida humana. Por que fui me afastar da base? Nem percebi o quanto me afastava. Todos aqueles anos de capacitação e agora quebro o procedimento mais elementar de segurança. Se me perder nem saberão onde me encontrar, porque deixei o anel localizador no alojamento. O que acontece comigo, a funcionária padrão do projeto?
          Se me perder nem saberão onde me encontrar. Se me deitar aqui, ao lado desse muro e ficar bem quieta... O oxigênio se esgotando lentamente... Meu sistema saturado de dióxido de carbono... vou ficar com sono, vou dormir...
          Que absurdo seria. Que absurdo seria ficar aqui deitada, contemplando com os olhos da mente o rosto do Juliano. Que está a milhões de anos-luz. Luz. Os olhos do Juliano. Escuros, grandes, tão expressivos.
          Foco! Foco! Qual o motivo dessa cor na aurora boreal? Sódio em suspensão na ionosfera? O solo é vermelho de ferrugem, como em Marte. Mas esse brilho amarelo no céu me lembra luz de sódio. Preciso perguntar a alguém quando voltar à base. Não posso demorar. Tanta aridez me deprime. Um planeta inteiro sem vida vegetal. Nenhuma árvore, nenhuma flor. Só as bactérias no muro, se é que existem.
          Um planeta sem flor deve morrer mesmo. Merece ser vaporizado por uma estrela em explosão. De que vale a vida sem flores? Por insignificantes que sejam, como aquelas violetas pequeninas que se abrem escondidas no meio da folhagem. É preciso ir lá, agachar no chão e afastar as folhas para achar as florezinhas. Violetinhas cor de violeta, perfumadinhas. Mas é preciso procurar e prestar atenção para ver a beleza e sentir o perfume.
          Exatamente como Juliano. No meio de uma multidão ele passa despercebido, uma pessoa completamente comum. Prestando atenção é que se vê como o seu rosto é harmonioso, parece ter sido desenhado por Michelangelo. Nunca vi nariz tão perfeito. Os lábios são lindos. Ficam mais lindos quando ele sorri. Não o sorriso banal das situações cotidianas, mas sim aquele sorriso espontâneo que vem antes de uma risada gostosa ou de uma insinuação marota. Aquele sorriso sempre me trouxe à mente a imagem de um lírio crescendo à beira de um riacho: alvo, puro, cheio de vida, cheio de frescor.
          Nada há de alvo, puro, cheio de vida e frescor aqui onde estou. Somente aridez. Óxido de ferro, sódio, radiação, perguntas sem respostas.
          Eu também sou uma estrela agonizante. Já brilhei mas agora estou me apagando. Meu coração é o planeta sem vida que a estrela já não aquece. E você, Juliano, é a bactéria que resiste nas reentrâncias das pedras, dentro deste coração. De onde vem a radioatividade que te alimenta?
          Meu desejo é deitar no chão, encostada no muro. Fechar os olhos e imaginar que estou à beira daquele riacho contornado pelos lírios-sorrisos. Sono. Nada.

* * * *

          Nunca se descobriu por que a doutora Juliana saiu sozinha da base usando no dedo, em vez do anel localizador, uma aliança de ouro. Nela estava escrito: “Sempre seu, Juliano”.
          O primeiro ser vivo genuinamente alienígena descoberto pela humanidade foi denominado, em sua homenagem, “Exobacterjulian radiophilus”.



* * * *
Imagem: http://jjcanvas.deviantart.com

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

"Terrarium"

Minha tribo vive dentro desta bolha há milhares de anos. Mas nem sempre foi assim.
Tudo começou quando uma epidemia manifestou-se nesta região do planeta.
Escrituras antigas dizem que éramos uma nação numerosa, em plena harmonia com a natureza.
Porém um dia a floresta engendrou um vírus mortal. Inúmeros nativos foram afetados, e todos os que se aproximaram tentando ajudar morreram também.
Depois de muitos estudos, o povo lá de fora concluiu que não havia salvação para nós.
Não podiam deixar o vírus disseminar-se até as regiões ainda sãs do planeta, e procuraram com urgência uma resposta.
A solução encontrada foi nos confinar dentro desta enorme bolha construída em torno da aldeia e sob o próprio solo: garantia de que ninguém conseguisse sair e de que o vírus não atingisse os lençóis freáticos.
Foi por receio de se aproximarem da parte infectada da floresta que desenharam e edificaram uma estrutura de tão grandes dimensões. A intenção de preservar o restante da humanidade os motivou a investir riquezas e esforços de muitos países. Isolar a floresta e seus habitantes o mais rapidamente possível, o mais completamente possível, essa era a única maneira.
Os nativos não reagiram devido à apatia da doença e também porque não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Quando vieram a perceber, tudo estava pronto.
O povo lá de fora informou, através da comunicação por ondas magnéticas, que haviam construído um “terrarium”: ecossistema hermético com satisfatórias condições de subsistência para os seres nele encerrados. Não se recomendava tentar sair já que o material empregado – embora tivesse aparência de vidro comum – era composto por uma estrutura cristalina indestrutível.
Foi a única e derradeira comunicação que recebemos.
O tempo passou e alguns resistiram à doença, dando origem a descendentes imunes ao vírus. Nossa tribo voltou a se desenvolver. Nunca mais a floresta nos castigou. Aqui permanecemos e evoluímos. A redoma passou a ser vista como proteção, não mais como segregação. Tornamo-nos autossuficientes e tão felizes quanto seres humanos podem ser. Não fosse pela recente descoberta da situação do povo de fora, tudo continuaria perfeito.
A informação foi trazida por um grupo de pesquisadores que, durante uma caminhada, chegou até o limite da redoma. Raramente alguém vai até lá. Não há objetivo nenhum em contemplar um mundo que já não é nosso e que nunca voltará a ser. O que descobriram era – até então – inimaginável.
Toda a terra além da redoma está devastada e estéril. Não há mais quase nenhuma vida lá fora. Vegetação rara e debilitada, pequenos animais aparecendo rápida e esporadicamente, solo arenoso, luminosidade forte e áspera.
Após essa constatação, os pesquisadores decidiram verificar todo o contorno da redoma. Não suspeitavam que visões ainda mais chocantes iriam surgir. Em diversos pontos encontraram pessoas tentando entrar. Ao verem os pesquisadores, fizeram sinais desesperados implorando ajuda. Uma ajuda impossível de conceder.
Não raramente depararam-se com esqueletos jazendo encostados à redoma. Ferramentas e resíduos em torno deles testemunhavam que haviam tentado de tudo.
Deveras lastimável a situação. Parece que o Terrarium é o único lugar no planeta onde a vida continua existindo em sua normalidade.
Os pesquisadores fizeram reuniões para discutir o que poderia ser feito para ajudar os de fora. Não chegaram a nenhuma conclusão.
Eu sou um desses pesquisadores. Eu sei como abrir uma passagem para o mundo externo. Descobri há muitos anos, mas não disse nada a ninguém. Para que perturbar uma situação perfeita?
Vou permanecer em silêncio. Quem garante que os de fora, entrando na redoma, não trarão agentes infecciosos para os quais os nossos organismos não têm proteção? É muito perigoso.
Jamais direi uma palavra. É para o nosso bem.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Pequeno incidente no Sistema Solar

A estrela Sol levava um papo com o seu vizinho mais próximo, o planeta Mercúrio.
“Poxa, cara, hoje eu estou mal.”
“O que você está sentindo, Sol?”
“Uma queimação danada.”
“Deve ter sido alguma coisa que você comeu.”
“Acho que você está certo. Isso começou depois que engoli um satélite.”
“E desde quando satélite dá azia?”
“Esse era um satélite artificial construído por aqueles microbiosinhos tecnológicos do planeta Terra. Eles colocaram dentro um reatorzinho nuclear recheado de urânio com cobertura de chumbo. Sou alérgico a esses dois elementos químicos. Se pelo menos passasse por aqui algum cometa bem gelado, rico em água no estado sólido... ”
“Chi... então complicou, porque não estou vendo nenhum cometa se aproximando."
Coitado do Sol. Estava mal mesmo, com cara de que ia vomitar. Suas erupções estavam aumentando visivelmente. O planeta Mercúrio não gostou nada da ideia de ser inundado por um jato de radiação eletromagnética misturado com um monte de partículas atômicas.
“Vira pra lá, Sol! Já chega eu ter de viver nessa temperatura infernal. Mais radiação ainda não vai me fazer bem nenhum.”
O Sol, daquele tamanhão, não conseguia se virar, coitado. Mas tentou dirigir o jato pra longe de Mercúrio.
E atingiu em cheio o planeta Terra!!!
Depois desse vômito estelar ele começou a sentir bem de novo. E gritou para o planeta Terra:
“Desculpa aí, Terra! Foi sem querer! Acho que acidentalmente eliminei aquela raça de microbiosinhos tecnológicos que infestava a sua superfície.”
O planeta Terra gritou de volta:
“Tudo bem, Sol. Não se preocupe não, porque aquilo é uma praga. Deve haver milhares ainda, alojados dentro das cavernas, no fundo do mar, e em lugares que nem ouso imaginar. Logo logo vai estar tudo contaminado outra vez. Pelo menos você me livrou temporariamente daquela terrível coceira.”
Estando felizes e aliviados a estrela Sol e os planetas Mercúrio e Terra, tudo voltou ao normal no Sistema Solar.

Imagem: http://thelandofenglish.blogspot.com.br

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Voltar para casa

Não, não nego nenhuma das acusações. Todas são verdadeiras nos seus pormenores. Eu fiz tudo isso e muito mais.
Exibicionismo? Talvez. Leviandade? É possível. Sempre fui um pouco leviana. Quem sabe um desejo de subverter tudo, de chocar as pessoas. Um desejo inconsciente de ser descoberta. Como fui.
Em outras épocas as imprudências podiam nos custar a vida, e realmente custaram. Mas agora as coisas estão evoluindo rapidamente e a situação tornou-se irreversível. Apesar disso reconheço que não devia ter posto em risco um projeto tão importante. Sim, vou explicar. Não importa mais esconder. Ninguém vai poder fazer nada, ainda que acredite. E eu sei que ninguém vai acreditar.
Quando eu era criança ficava horas trancada no quarto, explorando todas as reentrâncias das paredes, os pequenos recantos dentro dos móveis, o buraco da fechadura... Na adolescência, gostava de sair nas noites claras. Grudava-me na vidraça das casas e escorria por elas feito gelatina. Era engraçado quando alguém conseguia me ver.
Lembro quando entrei numa rosa pela primeira vez. É muito agradável dentro de uma rosa. Mas não gostei quando entrei numa laranja. Já entrei também num cachorro. Cachorro é bom, é suave. Gato não. Só uma vez entrei num gato, e ele percebeu, ficou inquieto. Tive que sair logo.
Quanto às pessoas, nem todas são sensíveis. A maioria não é. Pode-se entrar e sair à vontade quantas vezes se queira, que elas continuam quietas, impassíveis, com a mesma cara abestalhada. Exatamente como o cachorro. As outras, as felinas, capazes de captar o invisível, são poucas.
Bruxa, eu? Não, Senhor Inquisidor, nunca houve bruxas. A realidade não é tão simples.
O senhor quer saber sobre os sabás? Existiram, sim. Eram tentativas de abrir um canal espaço-temporal para que pudéssemos voltar ao nosso lugar de origem. Pensava-se na época que um esforço mental coletivo seria bastante forte para abrir o canal. Passaram-se alguns séculos até que se descobrisse o verdadeiro meio, o único meio de se conseguir isso.
De onde somos? Não sei responder. Sei que há muito tempo um grupo de exploradores estava investigando uma abertura no espaço-tempo quando foram puxados para cá. Nunca conseguiram voltar. O canal deixa passar matéria em um único sentido.
Os mais antigos, nossos ancestrais, quase enlouqueceram de desespero, porque o seu conhecimento não era suficiente para resolver o problema. Obrigados a permanecer na humanidade, fizeram o possível para se manter despercebidos.
Tem sido difícil, sim. Mas agora não vai demorar. Está tudo preparado e quase pronto. Foi necessário interferir muitas vezes no curso da história. Tivemos que manipular os homens, jogar com as suas vaidades, influenciar algumas mentes criativas... Uma pequena parte do nosso conhecimento científico foi sendo revelado pouco a pouco, cautelosamente. O que a raça humana iria fazer com essas informações foi facilmente previsto.
Agora o arsenal nuclear mundial está com a potência que precisamos. Vai ser fácil deflagrar a guerra total. Só uma liberação de energia tão grande quanto a explosão do planeta será capaz de inverter a inclinação gravitacional do canal.
Então nós nos libertaremos destes corpos humanos e seremos sugados de volta ao nosso próprio universo.

Imagem: http://lacaidadeconstantinopla2.blogspot.com.br

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ataque da batata mutante

Era uma vez um ET que morria de vontade de comer batata frita.
Os seres humanos abduzidos, levados lá para o seu planeta, viviam dizendo que sentiam muita falta de batata frita. Por isso o extraterrestre chegou à conclusão de que só podia tratar-se de algo muito delicioso. A curiosidade foi aumentando e ele resolveu obter esse alimento dos deuses durante a sua próxima missão na Terra.
Infelizmente o comandante da nave não o deixou sobrevoar nenhuma lanchonete devido ao perigo de o ovni (Objeto Voador Não Identificado) ser visto por alguém. Porém esse ET era muito espertinho, e aproveitou a chance quando o comandante ordenou que fossem a uma plantação a fim de fazer alguns “crop circles”. Então ele deu um jeito de sobrevoar justamente uma plantação de batatas. O seu plano era abduzir algumas e fritá-las sobre a carapaça de uma válvula Klystron na casa das máquinas da nave.
Pena que não deu certo. Na horinha em que o raio abdutor havia sido acionado, o comandante apareceu e perguntou, demonstrando grande irritação:
― XVBUTPWQ!!! O que você está fazendo com esse raio abdutor ligado?? Desligue já! Nós não vamos abduzir ninguém desta vez! Não leu o plano da missão?
O pobre XVBUTPWQ, muito decepcionado, desligou o raio. Mal sabia ele que já havia atingido uma planta, a qual fez um breve movimento ascendente mas logo caiu de volta. Até aí tudo bem. O problema é que o DNA do pé de batata havia sido alterado pela ação do raio.
Dias depois, quando todos os ufólogos da região já haviam examinado aqueles “crop circles” e ido embora finalmente, para alívio dos agricultores, as batatas puderam ser colhidas. A planta com DNA modificado produziu uma única, bem grande e lisinha, que foi colocada junto com as demais no depósito.
Porém uma coisa estranha aconteceu de madrugada! A batata mutante criou dois bracinhos, duas perninhas e abriram-se em sua “cabeça” dois olhos e uma grande boca.
Ela sentou-se, olhou em volta e gritou:
― Levantem-se, suas estúpidas! Vamos dominar o mundo!
As suas colegas não fizeram nada. Ficaram lá paradas, como se fossem um monte de... batatas!
A mutante ficou exasperada. Deu uns chutes naquelas mais próximas, atirou outras lá do alto do monte, gritou e berrou, mas não conseguiu ser ouvida. Por isso tomou uma decisão radical:
― Não querem fazer nada, suas idiotas? Vão ficar aí para serem devoradas pelos humanos? Já que é assim, eu vou sozinha vingar a nossa raça!
Nesse instante ela começou a crescer, a crescer, e transformou-se em uma batata monstro. Quebrou a parede do depósito e foi embora em direção à cidade. Estava a fim de devorar alguns humanos, por isso tomou o rumo da lanchonete de “fast food” mais próxima.
Enquanto ia andando pela estrada, os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, muito assustados, batiam uns nos outros, aceleravam tentando fugir, alguns desmaiavam, e uma grande bagunça se estabeleceu. Alguém com mais presença de espírito telefonou à polícia avisando sobre o grande perigo prestes a se abater sobre a cidade.
Nesse meio tempo a batata monstro avançava com alguma dificuldade porque os bombeiros já estavam jogando jatos de água sobre ela, tentando detê-la. Apesar de tudo, não perdia a prosápia:
― Isso mesmo, humanos estúpidos! Eu adoro banho de água fria!
E continuava em frente, devagar porém resoluta. Ao atingir o centro da cidade os aviões da força aérea já a sobrevoavam.
― Pare onde está, batata monstro, ou seremos obrigados a jogar uma bomba sobre você!
Ela olhou para cima, fez um gesto obsceno na direção dos aviões, e continuou seu caminho.
Não tiveram escolha. Jogaram o projétil sobre a batatona. Numa demonstração de que não estava nem aí, ela abriu a enorme boca e simplesmente o engoliu. Depois ainda deu uma lambida nos beiços e disse:
― Delicioso! Quero mais!
Pobre e infeliz tubérculo. Toda aquela arrogância não lhe serviu de nada. Assim que chegou à sua barriga, a bomba explodiu.
O que aconteceu em seguida? Uma grande quantidade de batata frita voou em todas as direções. Uma nuvem de batata frita obscureceu o céu. Começou a chover batata frita e o povo correu a fim de recolher a maior quantidade possível.
― Batata mutante é muito mais gostosa, diziam todos.
O entusiasmo era tanto que ninguém percebeu um ovni parado logo acima do local da explosão. E ninguém ― nem mesmo o comandante ― reparou quando um bracinho longo se espichou para fora da janelinha redonda, e uma mão cinzenta com três dedos muito compridos catou uma bela porção de batata frita. 

Imagem: http://cryptid-creations.deviantart.com

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Aula de anatomia

“Veja! Veja, aprendiz! Eu mesmo não acreditaria se não estivesse vendo! Como pode ter vida uma criatura possuidora de um projeto corporal-fisiológico tão mal-acabado?! Pra começar, este espécime tem apenas dois olhos! Sendo que os dois ficam do mesmo lado da esfera superior! Nenhum atrás! Nenhum dos lados!”

”Calma, mestre. Quem sabe não foi algum acidente que o privou dos outros olhos?”

”Não há marcas de cicatrização, aprendiz. Esta espécie não se regenera; quando perde alguma coisa, fica a marca. Não, eu te digo: este aqui nasceu com apenas dois olhos.”

”Será um mutante, mestre?”

”Não é mutante não. Os observadores-coletores disseram que são todos assim.”

”Então é de se lamentar mesmo. Aliás parece que o número dois se repete bastante nessa estrutura. Existem dois orifícios de finalidade desconhecida diametralmente opostos na esfera, dois membros superiores e dois membros inferiores.”

"Bem observado. Absurdos compatíveis com a escassez de olhos. Este pobre ser tem de se equilibrar sobre dois membros compridos e frágeis, e precisa girar a esfera superior quando quer enxergar o que está atrás ou ao lado. Como consegue se defender de predadores?”

”Mestre, tenho uma pergunta e uma observação. Primeiro a pergunta: está este ser exposto a muitos predadores, lá no seu planeta de origem?”

”Segundo os observadores-coletores, sim. Além de outras espécies hostis, há também um fato desconcertante: eles são predadores de si mesmos!”

”Mestre, não entendi! Significa que atacam-se uns aos outros? Como assim? Para quê? Não, não posso acreditar.”

”Eu também tive essa reação quando soube. Então me mostraram imagens obtidas naquele planeta. Não queira vê-las, aprendiz. Passei mal e tive que ser medicado.”

”Só me responda isto, mestre: por quais motivos atacam-se uns aos outros?”

”Para se apoderarem de pertences. Ou de territórios. Ou dos corpos uns dos outros...
Calma, calma, aprendiz! Não fique assim! Lembre-se de que eles são uma raça inferior. Não se pode esperar muito de seres inferiores.”

”Desculpe, mestre. Não queria ter tido essa reação. É penoso, mas tenho que ser forte, faz parte do aprendizado. E falando em primitivismo, a observação que eu queria fazer é esta: reparou que a esfera superior não gira 360 graus?”

”Tem certeza? Já fez o teste?”

”Fiz, mestre. A esfera gira apenas 90 graus para cada lado. É uma estrutura muito tosca, realmente. E ainda tem um fato mais grave. Ao que tudo indica, o centro de processamento de informações está localizado exatamente nessa esfera superior.”

”Já ouvi tal hipótese, aprendiz, mas preciso de maiores evidências para acreditar. Seria um inaceitável erro de projeto que o órgão mais importante da criatura ficasse localizado em sua parte mais exposta e vulnerável. Se for assim, qualquer objeto que atinja a esfera com suficiente força pode fazer a criatura perecer.“

"Mestre, posso dar uma sugestão? Que tal interrompermos por hoje o exame deste espécime? Foram informações chocantes demais para uma única sessão. Que acha de pegarmos outra criatura para estudar?”

"Está bem. Eu mesmo me sinto um pouco abalado. Faça o seguinte, aprendiz: devolva este humano ao arquivo morto e traga para cá a chamada borboleta.”

”Borboleta, mestre? Aquele ser minúsculo com asas coloridas?”

”Esse mesmo, aprendiz. Há um grande mistério relacionado a essa criatura. Dizem que nunca foi observado um filhote de borboleta!”

Imagem: https://www.etsy.com