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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma rosa para Daiane

Amanhã é o último dia de aula. Acabou o curso. Quem foi aprovado, muito que bem. Quem não foi, já era.
Agora só quero o meu certificado. Festa de formatura? Sai fora. Não vou desperdiçar dinheiro com besteira.
Todo mundo lá arrumadinho, sorridente, fazendo de conta. Eu, hein?
Quero meu certificado, mano. Chego na secretaria, pego o papel e vou-me embora pra nunca mais voltar. Nem olho pra trás.
Três anos terríveis. Professores lixos, colegas idiotas, escola caindo aos pedaços.
Alguém por acaso se lembra da menina que se matou no ano passado? Que pulou na frente do ônibus? Não, né?
Fui lá na diretoria e avisei: a Daiane está com depressão. Ela anda falando umas coisas que gente normal não fala. Avisa lá a família dela antes que seja tarde.
Jacaré avisou? Nem jacaré nem a diretora. Depois que chegou a notícia foi um tal de ai que horror pra cá, ai que pena pra lá, colega chorando no fundo da sala, professor fazendo discurso sobre o perigo das drogas. Que droga, mano? A Daiane nunca usou droga! Nesse dia quase parti pra ignorância.
Depois do chororô, ninguém mais tocou no assunto. Acho que só eu ainda me lembro disso nessa zorra de escola.
E a inspetora homofóbica? Foi dar bronca no sujeitinho que estava escrevendo na parede, até aí concordo que vandalismo não pode, mas precisava tanta falta de educação? Tanta gritaria? Não, né? E no final, igual à cereja em cima do bolo, chamou o cara de gayzinho sem noção.
Logo ela, mano! Logo ela que todo mundo sabe que é lésbica. Como pode isso?
Olha, foi dureza aguentar professor de português falando errado. Tipo: oucem aqui, pessoal, a prova é dia tal e tal! Juro, não tô inventando. O cara falou bem assim: oucem aqui!
E a professora que não dava aula porque mandava todo mundo apresentar trabalho? Toda vez tinha apresentação de trabalho. Ela ficava lá sentada assistindo. Quase nunca falava alguma coisa. Desse jeito até eu.
Sinceramente, mano? Cansei. Levar papel higiênico de casa, beber água direto da torneira, engolir merenda de bolacha seca, sentar em carteira quebrada.
E a galera fazendo zoeira sem parar. Quase não dava pra ouvir nada. Eu lá querendo anotar as coisas, entender a bagaça da matéria, levantando a mão para fazer pergunta, tudo pra depois aguentar a gozação. Olha aí a nerd! Essa daí vai pra NASA quando se formar! Quanto cê tá pagando pelas notas?
Ai, as meninas. Tão arrumadinhas, batonzinho na boca, chapinha no cabelo. Burras que nem uma porta. Porta ou porca? Sei lá. Aula de matemática: professor, por que o triângulo equilátero não tem hipotenusa?
Nessas horas eu ficava com dó do professor, apesar de ele também não ser lá grande coisa.
Os carinhas da classe, então, só ligados nos bagulhos que rolam na pracinha. Sabe a pracinha em frente à escola? Muita coisa acontece ali, principalmente na hora do intervalo. Todo mundo sabe, menos a direção. Sair no intervalo não pode, mas cadê que tem inspetor no portão? Sai quem quer, mano. Sai quem quer, entra quem quer, faz o que quer.
Amanhã é o último dia, por isso muita gente não vai. Eu vou. Pra sentir que terminei mesmo essa etapa. Que terminei para sempre. Tipo ir ao velório só pra ter a certeza de que o defunto morreu.
E também pra colocar uma rosa naquele cantinho do pátio, lá onde tem o pé de ipê amarelo. Uma rosa em homenagem à Daiane.
Nunca vou esquecer. Foi bem ali, naquele cantinho, perto do ipê amarelo, que trocamos o nosso primeiro e o nosso último beijo.
Adeus, Daiane. Fica na paz. <3


Imagem: http://resource4christians.blogspot.com.br

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Fergus e Brianna

    Brianna chegou e foi direto para o quarto. Já entrou tirando os sapatos.

― Fergus! Deitado no meu travesseiro, né?
― É macio. Perfumado.
― Tá bom. Mas não acostuma, tá?
― Estou aquecendo pra você.

    A menina largou a bolsa em qualquer lugar e se atirou na cama.

― Ai que cansaço.
― Pode ir contando. Como foi a festa? Ela é bruxa mesmo?
― Ha ha ha! Se ela é bruxa eu sou a Deusa Aine.
― Pelo menos a comida foi boa?
― Foi. Batata frita, sanduíche e refrigerante. De sobremesa, pudim e brigadeiro.
― Sagrados chifres de Cernuno! Não tinha ervas para colocar nos pratos? Louro, erva-doce, alecrim...
― Não! Só ketchup e mostarda!
― Nem um pouquinho de hidromel?
― Nada! Só refrigerante e água.
― Por que ela pensa que é bruxa?
― Ela ganhou um livro sobre o tema. Leu, achou bonito e pá! virou bruxa.
― Se fosse assim eu lia um livro sobre panteras e virava uma pantera negra poderosa no meio de uma floresta selvagem.

    Brianna se espreguiçou toda como uma felina sonolenta.

― Ainda bem que eu já nasci maravilhosa. Não preciso me transformar em nada.
― Além da comida o que mais teve na festa? Dança em volta da fogueira?
― Ah isso teve sim. Foi na área de serviço, em volta de uma churrasqueira portátil cheia de carvão aceso.

    Normalmente impassível, Fergus se remexeu como se alguma coisa o incomodasse.

― Churrasqueira portátil? Não entendo.
― Uma dessas redondas, que parecem um caldeirão.
― Não tinha fogo? Só carvão aceso?
― Isso mesmo. A mãe dela disse que fogo era muito perigoso.

    Fergus abriu a boca mas não emitiu nenhum som. Ficou alguns instantes pensativo.

― Por que na área de serviço e não ao ar livre? Ela não tem um quintal, um jardim?
― Tem. Mas a mãe dela não deixou fazer a dança no quintal por causa da friagem da noite.

    Dessa vez Fergus não se conteve e soltou um grunhido. Imediatamente ouviram-se risadas endoidecidas vindas do corredor. Brianna levantou-se depressa e abriu a porta. Seu irmão mais novo e um coleguinha riam e faziam gestos desencontrados.

― Sai daqui, moleque! Vai procurar o que fazer!

    O garotinho continuou dando gargalhadas e cutucou o amigo:

― Eu não te falei, Felipe? Eu não te falei? A minha irmã conversa com o gato!

    Felipe, sem nenhuma cerimônia, correu para dentro do quarto. Sobre o travesseiro de rendas brancas, em pose majestosa, repousava um belíssimo gato preto. 

     Imóvel, Fergus o encarava com ar de reprovação, uma expressão quase humana nos olhos verdes, luminosos. O menino gritou de susto e saiu correndo. 

― O que foi, Felipe? O que foi? O que aconteceu?

    Sem parar de correr, já descendo as escadas, ele respondeu com voz estridente, carregada de pavor:

― O gato falou comiiiigo! O gato falou comiiiigo!


Imagem: http://www.chickensmoothie.com

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ovelha negra

Ouvi barulho na minha porta e abri os olhos. Era o meu pai entrando no quarto. Sem bater, como sempre. Já cansei de reclamar da falta de privacidade, nem falo mais nada.
― Dormindo de dia, Rita?
― Não, pai. Tava lendo.
Mostrei a capa do livro. Ele encostou-se ao armário e cruzou os braços, a cara amarrada.
― Olha aqui, Rita, já faz um ano que você se formou no colégio. Não dá mais pra esperar, você tem que resolver a sua vida.
Conversa chata. Quantas vezes já falamos sobre isso sem chegarmos a nenhuma conclusão?
― Ainda não sei o que quero fazer, pai.
― Então vai fazer qualquer coisa. Chega de ficar aí parada. Você vai sair hoje e se matricular num cursinho. Ano que vem é faculdade, ou então não te sustento mais.
Nó na garganta. Olho cheio d’água. A voz tremeu ao responder:
― Pai, o senhor tem dinheiro. Não precisa do meu salário.
― Não é pelo dinheiro, é pela situação absurda. Todo mundo faz alguma coisa, você só lê e ouve música. Já fez teste vocacional, agora vai cuidar da vida.
Falou e saiu.
O teste vocacional deu Agronomia. Nem sei o que é Agronomia. Meu Deus... E agora?


Imagem: https://onmogul.com

Clique para ouvir: Ovelha Negra (Rita Lee)

terça-feira, 28 de julho de 2015

Maçã verde

Que delícia. Domingo, manhã de chuva. Friozinho gostoso. Adoro.
Nem precisava ter levantado tão cedo. Mas eu gosto de acordar, abrir os olhos e ver que estou aqui, no meu apartamento.
Tá bom, é quitinete, mas eu considero apartamento. E nem é meu, só aluguei, mas é como se fosse.
A prova de que estou no meu apartamento, meu e de mais ninguém, é esta maçã que estou comendo. Verde, bem grande, gostosíssima, sabor de pera misturada com maçã. Vou ficar aqui comendo e olhando pela janela e vendo essa paisagem que nem é tão bonita, mas não faz mal, porque só o prazer de estar sozinha, em paz, sem dar satisfação a ninguém, já compensa.
Se eu estivesse lá na casa dos meus pais logo logo a minha mãe ia aparecer dizendo: “Letícia, comer fruta crua em jejum não é bom pro estômago, você precisa tomar café com leite e comer um pãozinho.”
Hahahahahahaha! Olha eu aqui, mãe! Tô comendo maçã e bebendo água. Tá vendo aquele copo ali no parapeito? É água pura, fresquinha. Se eu quisesse café, estaria bebendo café, mas não quero. Agora sou eu quem manda no meu estômago, valeu?
Tive que esperar dezoito anos para começar a viver. Até que enfim. Meu quartinho-com-banheiro tem tudo o que preciso: a cama, o armário, um fogãozinho de duas bocas, a mesa com cadeira, um radinho e o filtro de água.
“Ai que pobreza, Letícia!”
Pobreza nada. É tudo limpo, arejado, sem insetos, não passo frio nem calor, não preciso de geladeira, computador uso o da faculdade, televisão nunca gostei mesmo, o chuveiro é bom e o colchão macio. Pronto, perfeito.
E para ficar mais perfeito ainda, estou fazendo o curso dos meus sonhos. Jornalismo! Em universidade pública! Só de pensar nisso me dá um arrepio de felicidade. Adoro todas as matérias, principalmente História da Comunicação.
Como não sou boba nem nada, consegui duas coisas bem legais: bolsa-alimentação e emprego de meio período. Daí que não tenho problema com grana. E a coisa só tende a melhorar, porque...
Droga! Tem gente batendo na porta. Odeio quando ficam batendo na porta do banheiro.
— Letícia! Sabe há quanto tempo você está nesse banheiro?
— É que estou lavando o cabelo, mãe!
— Mas precisa demorar tanto?
— Hoje é domingo, mãe!
— É domingo mas tem mais gente precisando usar o banheiro. Já tá formando fila aqui na porta.

Ai meu Deus. Nunca consigo chegar na parte mais legal, quando a chuva acaba e eu vou passear no parque. E depois volto pro apartamento e faço aquele macarrão delicioso com molho branco e brócolis. E depois estudo um pouco e então saio com a turma da faculdade. E a gente vai ver aquele filme brasileiro que tá bombando e depois...
— Leticia! Quantas vezes vou ter que te chamar?
— Já vou, mãe. Já tô indo.

Droga de vida.

Letícia sai do banheiro. Os dois pirralhos que ela chama de irmãos estavam mesmo fazendo fila na porta, estapeando-se enquanto esperavam. Ela vai pro quarto, começa a secar os cabelos com a toalha.
— Vem logo tomar café, Letícia! Hoje você vai pra feira comigo.
— Não quero café, mãe. Não tem aí uma maçã?
— Maçã em jejum? Vai te fazer mal. Come primeiro um pãozinho.



Imagem: https://www.realbuzz.com


domingo, 22 de março de 2015

Primeiro dia de aula

Fevereiro. Início do segundo colegial. Minha colega Helena veio correndo me encontrar assim que cruzei o portão da escola. Devia estar me esperando. Eram tempos sem internet; mesmo o telefone comum era raro nas residências. As notícias não circulavam com tanta rapidez, mas sempre se podia contar com a Helena, que sabia tudo de todos o tempo todo. Nem me cumprimentou apesar dos quase três meses de separação e foi perguntando afobada:
— Você já viu a Rafaela? Hein? Já viu?
— Qual das duas? A Cabelinho ou a Narizinho?
Pausa para uma nota explicativa.
Havia duas Rafaelas na nossa classe.
1) Rafaela Cabelinho: ela cortava o cabelo muito curto, quase careca, estilo bem masculino. Sentava-se na última carteira da fila da parede. Nunca fazia perguntas, nunca pedia pra ir ao banheiro, nunca nada. Só se levantava do lugar na hora do intervalo e na hora da saída. Suspeitava-se que era lésbica e que estava apaixonada pela professora de Português, dona Mirtes, a mais jovem e bonita da escola. A suspeita de tal paixão vinha do fato de que ninguém — na escola inteira — tirava notas tão altas em Português como a Cabelinho.
2) Rafaela Narizinho: essa menina era bonita, bem cuidada, participativa. Mas tinha o nariz encurvado, o que lhe causava complexo de feiura. Aquilo não era um defeito, era apenas herança genética devido à etnia da sua família. Mas ela não enxergava assim. Quando ninguém estava pensando em nariz, lá vinha ela com algum assunto relacionado a nariz. Principalmente ao próprio. Ô coisa chata.
Fim da nota explicativa.
Voltando ao assunto, Helena respondeu:
— A Narizinho! Você já viu?
— Não.
— Então se prepare! Você não imagina o que ela fez!
— Me conta aí!
— Ela fez plástica no nariz! Ficou ridículo!
E começou a rir tanto que as lágrimas escorriam. Comecei a rir também só de ver.
— Ridículo por quê? Ridículo por quê?
Fazendo grande esforço, ela interrompeu as gargalhadas:
— Sabe o triângulo retângulo? Aquele do ângulo reto, do teorema de Pitágoras?
— Sei, sei! O que tem a ver?
— O cirurgião plástico deve ser fã do Pitágoras! A parte de cima do nariz da Rafaela ficou igual a uma hipotenusa!
E voltou a gargalhar feito louca.
Descontado o exagero da minha colega, tive que concordar com a descrição. Parecia que o médico havia aplainado o encurvamento do nariz seguindo o traçado de uma régua. Ficou retinho, apontando pra baixo num ângulo de quarenta e cinco graus.
Foi muito duro ter de cumprimentar a Narizinho fazendo cara de admiração e dizer:
— Como você está bem, Rafaela! Sua plástica ficou ótima!
E a coitada sorrindo feliz, acreditando piamente. Enquanto isso a peste da Helena, de costas, não parava de tossir. Disfarçando a gargalhada, é claro.
Tudo isso aconteceu antes de entrarmos na classe. Mal sabia eu como aquele dia seria longo...
A primeira aula era de Biologia. Dona Valquíria, geralmente bem humorada, estava com cara de poucos amigos. Paramos de cochichar sobre a hipotenusa de Narizinho e ficamos bem quietos. Coisa esquisita: era o primeiro dia de aula, nem tinha dado tempo de aprontarmos nada, então por que a professora estava com aquela cara?
Dona Valquíria nos cumprimentou e disse que estava muito triste por ter de nos receber, no primeiro dia letivo, com uma notícia grave. Céus, pensei eu, será que ela vai embora da escola?
— Pessoal, lembram do Sérgio, aquele menino loirinho que foi transferido para cá no fim do ano passado?
Todo mundo ficou parado, na expectativa da notícia. Esse menino, o Sérgio, era muito bonito. Loiro, esbelto, olhos cor de mel. Não era da nossa classe, mas não passou despercebido pelas meninas. Pena que já tinha namorada lá na outra escola, segundo informações levantadas na época pela Helena. A professora continuou:
— Infelizmente o Sérgio faleceu.
Ela esperou a surpresa se consolidar, os comentários diminuírem, e prosseguiu:
— Foi um acidente. Está fazendo uma semana. A missa de sétimo dia é hoje.
Mais comentários. Acidente? Que acidente? Como assim?
— Ele foi mexer na arma do pai e ela disparou acidentalmente. Uma tragédia.
Mais comentários. Por que ele foi mexer na arma? Por que o pai dele tinha uma arma? Por que a arma não estava guardada fora de alcance?
— Não temos resposta para essas perguntas. Só nos resta orar por ele e dar apoio à família. A missa de sétimo dia é hoje, no final da tarde. Quem puder ir, faça essa caridade. Pela família, principalmente para dar aos pais o consolo de saberem que o filho tinha muitos amigos.
Nessa altura várias meninas já estavam chorando. Nenhum dos meninos chorou, porém mostravam semblantes muito sérios, até os mais gozadores da turma. Pude observar tudo isso por ser uma adolescente imatura, sem experiência de vida, capaz de analisar friamente a situação e incapaz de entender o motivo de se chorar por alguém praticamente desconhecido.
Dona Valquíria falou por muito tempo sobre a morte, segundo ela “esse fato inevitável da vida”, e quanto mais ela falava mais o pessoal se acalmava. Hoje reconheço como ela foi admirável nos ensinando, naquele momento delicado — e sem que percebêssemos — coisas importantes para o resto de nossas existências.
Não me lembro das outras aulas daquela manhã. Só sei que todos deixaram de lado a hipotenusa de Rafaela Narizinho. A morte do colega virou o único assunto. Mas Helena tinha que "enriquecer a discussão", como sempre. Na hora do intervalo ela veio com a história de que não havia sido acidente.
— Como assim, não foi acidente?
— Fiquei sabendo que ele brigou com a namorada, chegou em casa, foi direto pegar a arma de cima do guarda-roupa do pai, e se suicidou.
— Helena, pelo amor de Deus, como você pôde ter ficado sabendo de uma coisa dessa?
— Uma funcionária escutou os professores comentando, contou pra outra, e eu escutei a conversa das duas.
Nessa hora eu fiquei com muita, mas muita raiva da Helena. Podia ser mentira da tal funcionária. Tem gente que adora inventar história só pra aparecer. Mesmo que fosse verdade, não era coisa para se espalhar. Será que ela não percebia isso? Falei tudo com a maior calma possível mas com bastante ênfase. Ela respondeu que estava fora do seu alcance porque outras pessoas também tinham ouvido e já estavam espalhando. A partir daí, falsa ou verdadeira, foi a versão que predominou.
No fim da tarde fui à igreja. Cheguei atrasada e tive que sentar bem atrás. O lugar estava cheio de gente que eu não conhecia; deviam ser os parentes e também os colegas da outra escola. Consegui ver dona Valquíria lá na frente, junto com outros professores e a diretora.
Como foi triste aquela missa. Na hora em que o coral começou a cantar, a música era de uma tristeza tão profunda como eu jamais tinha ouvido. Quase todo mundo caiu em prantos. Ao perceber que eu também estava quase chorando, forcei-me a pensar que não conhecia o Sérgio, que o fato era lamentável mas não ia afetar a minha vida em nada, e que eu estava sendo mais uma vítima da estratégia maquiavélica daquele coral para obrigar todo mundo a chorar. Então olhei fixamente o lustre mais próximo para que a luz represasse e secasse alguma lágrima inoportuna. Fiquei assim um bom tempo, e dessa maneira pude assistir à missa bem quietinha, sem chorar nenhuma vez.
Quando acabou lá veio a Helena, que tinha me localizado na multidão. Percebi que ela também não havia chorado.
— Sabe quem estava aí? A namoradinha do Sérgio, coitada. Foi ela quem mais chorou a missa toda. A Rafaela Cabelinho sentou bem do lado da professora Mirtes, você viu? E adivinha quem também veio? A Rafaela Narizinho, com hipotenusa e tudo.
E escondeu o rosto no meu ombro como se chorasse. Mas aquilo não era choro.
Estava mesmo era rindo até não poder mais.

Imagem:http://bloodedkuni.deviantart.com


terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Skyline Pigeon"

Há algumas coisas nesta vida que não entendo.
Vivo aqui nesta casa desde sempre, todos me tratam bem, me trazem brinquedos, brincam comigo e contam histórias. Mas sou proibida de passear sozinha. Há sempre alguém segurando a minha mão quando estamos lá fora. Não posso nem correr atrás das pombinhas, nem subir em árvores, nem nada. Apanhar flores e catar pedrinhas com as duas mãos também é impossível.
Uma noite, quando todos estavam dormindo, tentei sair por uma das janelas. Então percebi: todas têm grades de ferro.
Uma única vez fomos até o limite do jardim, isso depois de eu pedir muito. Só concordaram quando perceberam lágrimas nos meus olhos. Fiquei admirada com a altura do muro. "Para que um muro tão alto?" perguntei. Nenhuma resposta.
Há algum tempo comecei a ter vontade de sair daqui. Eles afirmam que nada existe para além do jardim, mas acho difícil acreditar.
Hoje tentei largar a mão do meu acompanhante. Ele percebeu na hora e segurou mais forte ainda, chegou a doer. Voltamos logo para dentro.
Quando eu era mais jovem não pensava nessas coisas, porém agora vivo atormentada por dúvidas e curiosidades que nunca são esclarecidas.
              Meu desejo é voar para longe daqui. Se pudesse iria agora mesmo. Isso me lembra um dos grandes mistérios que me cercam: por que as outras pessoas não têm asas?

Imagem: http://serialkiller07.deviantart.com

Clique para ouvir: Elton John's "Skyline Pigeon"

domingo, 19 de outubro de 2014

O monstro no armário

Não sei por que me fazem tantas perguntas. Parece até que eu tenho alguma culpa no que aconteceu. Pelo contrário, tentei evitar. Mas ela não me acreditava.
Toda noite eu dizia: “Babá, tranque a porta desse armário senão eu não durmo aqui.”
E ela: “Não seja medroso, menino. Não tem nada no armário.”
E eu: “Tem sim. Tem um monstro que vai sair se a porta ficar destrancada.”
E ela: “Então por que ele não sai de dia? A porta fica aberta e escancarada o dia inteiro. Por que ele nunca saiu?”
E eu: "É porque ele não suporta a claridade. Quando todas as luzes estão apagadas, aí sim é a hora em que ele gosta de sair.”
E ela: “Você já viu esse monstro alguma vez, pra ter tanta certeza?”
E eu: “Não vi com os meus olhos nem ouvi com os meus ouvidos, mas sei que ele está lá. Tenho certeza.”
E ela: “Agora me explique, menino. Esse armário é pequeno, atrás dele só tem a parede, embaixo só tem o chão. Onde é que o monstro se esconde, que a gente nunca vê nem quando tira tudo de dentro pra fazer limpeza?”
E eu: “Não tenho a explicação. Só sei o que sei.”
E ela: “Então durma com a luz acesa, oras.”
E eu: “Não consigo dormir com luz acesa, você sabe muito bem.”
E ela: “Me responda uma pergunta. Se o monstro é assim poderoso, por que não arromba essa fechadura tão fraquinha? É a coisa mais fácil do mundo, até eu consigo se quiser.”
E eu: “Não sei, babá. Isso também não sei responder. Coisas de monstros.”
Ela não me acreditava. Eu dizia e repetia, e ela nunca acreditou. Nessa noite entrou aqui enquanto eu estava dormindo e só de teimosa foi lá e abriu o armário. Acho que queria me provar que não tinha nada lá dentro. Aí aconteceu o que aconteceu e não pude evitar. Só tive tempo de acender a luz bem depressa quando acordei com os gritos. O monstro fugiu por causa da claridade, mas já era tarde demais.
Coitada da babá... Era meio burra, mas bem boazinha. Coisa chata, não?

Imagem: http://yanareku.deviantart.com

sábado, 30 de agosto de 2014

Sem noção

Certa noite o jovem Thiago acessou uma sala de bate-papo diferente daquela em que sempre entrava.
O título era “Sem noção”.
Ele nunca havia notado esse título na lista das salas do portal, e quando viu ficou curioso.
Ao entrar, sob o nick Curioso, deu boa noite e ninguém respondeu. Havia muitos participantes, mas ninguém falava nada. Depois de esperar uns três minutos, perdeu a paciência e “gritou” em letras maiúsculas:
“QUALÉ, VOCÊS ESTÃO MORTOS?”
Recebeu esta resposta de alguém apelidado Anjo Tocheiro:
“kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!!!”
E ele:
“Não vejo qual é a graça!”
Resposta:
“Já vi que você é um típico sem noção!”
”Sem noção é a tua mãe, cara!”
”Mãe eu não tenho, mas já vi que você não faz a menor ideia.”
”Desculpa aí, foi mal. Menor ideia do quê, cara?”
”De que já morreu!”
”Tu tá fumando o quê, mano? Que papo besta é esse?”
”Só estou querendo te ajudar. Você tá sem noção de que já morreu e eu tô te informando.”
Thiago estava começando a se sentir desconfortável com aquela conversa.
”Já deu, cara. Tô indo nessa.”
”Tá indo pra onde, mano? Você tem que esperar que venham te buscar.”
Nesse ponto o Thiago ficou mesmo incomodado.
”Esse papo não tá levando a nada, então boa noite. Fica na paz.”
”Na paz eu já estou. Mas você vai voltar logo. Até daqui a pouco.”
Thiago saiu da sala mas continuou se sentindo incomodado. Olhou em volta e levou um grande susto com o que viu... ou com o que não viu! Voltou imediatamente para a sala! Foi recepcionado pelo Anjo Tocheiro: "kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!"

Imagem: http://www.coolweirdo.com

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ataque da batata mutante

Era uma vez um ET que morria de vontade de comer batata frita.
Os seres humanos abduzidos, levados lá para o seu planeta, viviam dizendo que sentiam muita falta de batata frita. Por isso o extraterrestre chegou à conclusão de que só podia tratar-se de algo muito delicioso. A curiosidade foi aumentando e ele resolveu obter esse alimento dos deuses durante a sua próxima missão na Terra.
Infelizmente o comandante da nave não o deixou sobrevoar nenhuma lanchonete devido ao perigo de o ovni (Objeto Voador Não Identificado) ser visto por alguém. Porém esse ET era muito espertinho, e aproveitou a chance quando o comandante ordenou que fossem a uma plantação a fim de fazer alguns “crop circles”. Então ele deu um jeito de sobrevoar justamente uma plantação de batatas. O seu plano era abduzir algumas e fritá-las sobre a carapaça de uma válvula Klystron na casa das máquinas da nave.
Pena que não deu certo. Na horinha em que o raio abdutor havia sido acionado, o comandante apareceu e perguntou, demonstrando grande irritação:
― XVBUTPWQ!!! O que você está fazendo com esse raio abdutor ligado?? Desligue já! Nós não vamos abduzir ninguém desta vez! Não leu o plano da missão?
O pobre XVBUTPWQ, muito decepcionado, desligou o raio. Mal sabia ele que já havia atingido uma planta, a qual fez um breve movimento ascendente mas logo caiu de volta. Até aí tudo bem. O problema é que o DNA do pé de batata havia sido alterado pela ação do raio.
Dias depois, quando todos os ufólogos da região já haviam examinado aqueles “crop circles” e ido embora finalmente, para alívio dos agricultores, as batatas puderam ser colhidas. A planta com DNA modificado produziu uma única, bem grande e lisinha, que foi colocada junto com as demais no depósito.
Porém uma coisa estranha aconteceu de madrugada! A batata mutante criou dois bracinhos, duas perninhas e abriram-se em sua “cabeça” dois olhos e uma grande boca.
Ela sentou-se, olhou em volta e gritou:
― Levantem-se, suas estúpidas! Vamos dominar o mundo!
As suas colegas não fizeram nada. Ficaram lá paradas, como se fossem um monte de... batatas!
A mutante ficou exasperada. Deu uns chutes naquelas mais próximas, atirou outras lá do alto do monte, gritou e berrou, mas não conseguiu ser ouvida. Por isso tomou uma decisão radical:
― Não querem fazer nada, suas idiotas? Vão ficar aí para serem devoradas pelos humanos? Já que é assim, eu vou sozinha vingar a nossa raça!
Nesse instante ela começou a crescer, a crescer, e transformou-se em uma batata monstro. Quebrou a parede do depósito e foi embora em direção à cidade. Estava a fim de devorar alguns humanos, por isso tomou o rumo da lanchonete de “fast food” mais próxima.
Enquanto ia andando pela estrada, os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, muito assustados, batiam uns nos outros, aceleravam tentando fugir, alguns desmaiavam, e uma grande bagunça se estabeleceu. Alguém com mais presença de espírito telefonou à polícia avisando sobre o grande perigo prestes a se abater sobre a cidade.
Nesse meio tempo a batata monstro avançava com alguma dificuldade porque os bombeiros já estavam jogando jatos de água sobre ela, tentando detê-la. Apesar de tudo, não perdia a prosápia:
― Isso mesmo, humanos estúpidos! Eu adoro banho de água fria!
E continuava em frente, devagar porém resoluta. Ao atingir o centro da cidade os aviões da força aérea já a sobrevoavam.
― Pare onde está, batata monstro, ou seremos obrigados a jogar uma bomba sobre você!
Ela olhou para cima, fez um gesto obsceno na direção dos aviões, e continuou seu caminho.
Não tiveram escolha. Jogaram o projétil sobre a batatona. Numa demonstração de que não estava nem aí, ela abriu a enorme boca e simplesmente o engoliu. Depois ainda deu uma lambida nos beiços e disse:
― Delicioso! Quero mais!
Pobre e infeliz tubérculo. Toda aquela arrogância não lhe serviu de nada. Assim que chegou à sua barriga, a bomba explodiu.
O que aconteceu em seguida? Uma grande quantidade de batata frita voou em todas as direções. Uma nuvem de batata frita obscureceu o céu. Começou a chover batata frita e o povo correu a fim de recolher a maior quantidade possível.
― Batata mutante é muito mais gostosa, diziam todos.
O entusiasmo era tanto que ninguém percebeu um ovni parado logo acima do local da explosão. E ninguém ― nem mesmo o comandante ― reparou quando um bracinho longo se espichou para fora da janelinha redonda, e uma mão cinzenta com três dedos muito compridos catou uma bela porção de batata frita. 

Imagem: http://cryptid-creations.deviantart.com