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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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sábado, 30 de setembro de 2017

O gigante e a pombinha

Minha filha Vanessa, quando pequena, adorava ouvir histórias antes de dormir. Foi por causa dela que me tornei escritora.
Ao contrário das outras crianças, ela não gostava de histórias repetidas.
Às vezes, por falta de ideias, eu tentava reciclar velhos contos de fadas mudando um pouco os personagens e o enredo, mas ela sempre reconhecia e reclamava:
― Não, mamãe, esse não. Esse você já contou. É daquela menina que furou o dedo e caiu dormindo, não é?
Depois de ler para ela todos os livrinhos, depois de contar todas as histórias de que me lembrava, comecei a inventar. Mas logo compreendi que devia ter cuidado porque ela percebia as pontas soltas.
― Mamãe, onde foi parar o cavalinho? Aí no final você só falou do porco, da cabrita e da galinha. O cavalinho sumiu por quê? 
Por isso comecei a ter mais cuidado com os meus roteiros, a ponto de tomar notas das ideias e sempre compor um diagrama de blocos com muitas flechinhas subindo e descendo. Para jamais esquecer um personagem ou quebrar uma sequência.
Assim surgiu o primeiro dos vários livros que publiquei.
Vai daí, uma semana atrás eu estava com um problema. Participando de um desafio literário, precisava escrever um conto de fadas. O prazo prestes a se esgotar e ainda faltava o final da história. Esse final não me ocorria, por mais que pensasse e repensasse.
Tive a ideia de ler o texto para a minha filha ― agora adolescente ― e pedir-lhe sugestão.
Expliquei que era para o público infantojuvenil, portanto ela deveria relevar o vocabulário simplório, as repetições e também certas imprecisões e incongruências.
― Tá legal, mãe. Manda vê.
Então “mandei vê”.
“Sem título ainda”

Era uma vez um gigante que habitava um rico castelo no topo de uma montanha.
Certo dia ele acordou sentindo-se doente e pensou que estava velho e cansado demais para continuar cuidando de tudo sozinho. Resolveu procurar ajuda.
Desceu até a aldeia no sopé da montanha, mas não conseguiu falar com ninguém porque todos fugiam de medo, entravam em suas casas e trancavam as portas.
O gigante já estava pensando em desistir da ideia quando, ao passar por uma bica, encontrou uma moça enchendo de água os seus potes .
Sem mais demora ele agarrou a moça e a carregou para o castelo. Chegando lá, explicou tudo o que era preciso fazer e avisou para que não fugisse, porque ele iria atrás e tudo seria muito pior para ela.
A moça fingiu obediência, mas sabia que o seu noivo não ia se conformar com a situação e mais cedo ou mais tarde apareceria a fim de resgatá-la.
Todas as noites, depois de passar o dia trabalhando sem parar, ela subia para o seu quarto na torre do castelo e ficava olhando o horizonte, tentando ver se o noivo estava chegando.
Em vez do noivo ela sempre encontrava uma pombinha branca pousada no parapeito da janela. Não tendo ninguém para conversar, conversava com a pombinha. A cada frase dita, a pombinha arrulhava como se estivesse respondendo.
― Será que ela me entende? pensou a moça.
Então teve uma ideia. Escreveu um bilhete e disse à amiguinha:
― Por favor, pegue este papel com o seu bico e leve para o meu noivo. Ele é ferreiro, então você tem que se guiar pelo som que ele faz ao martelar as ferraduras. É assim: tóim! tóim! tóim! Não tem como errar.
A pombinha pegou o papel e foi embora voando em direção à aldeia. Na manhã seguinte voltou com outro papel no biquinho. Estava escrito: “Minha noiva, precisamos nos livrar do gigante. Todos os seres mágicos têm a vida guardada em algum lugar. Procure descobrir onde está a vida do gigante, que eu irei lá e a destruirei. Assim poderei libertá-la e viveremos felizes e despreocupados.”
Na primeira oportunidade a moça fez a pergunta. Ele estranhou.
― Pra que você quer saber onde fica a minha vida? Está planejando me matar?
Ela, fazendo cara de inocente, respondeu:
― Pelo contrário, mestre. Quero cuidar muito bem do lugar onde fica a sua vida para que o senhor viva muito e com saúde.
O gigante contou que a sua vida ficava no meio da raiz do grande carvalho ao lado do castelo.
Ela foi lá e limpou o terreno em volta da árvore, plantando flores perfumadas e coloridas.
O gigante ficou olhando e não disse nada.
À noite ela escreveu outro bilhetinho ao noivo. A pombinha levou e pela manhã trouxe a resposta: “Minha noiva, o gigante está te testando. A vida dele não deve ficar na raiz do carvalho. Espere alguns dias e repita a pergunta.”
Foi o que ela fez.
― Mestre, eu limpei e enfeitei o carvalho, mas a sua saúde não está melhor do que antes. O que eu posso fazer para ajudar?
O gigante respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho. Ela tem forma de pérola e está dentro de uma ostra no fundo do mar.
A moça dessa vez colheu muitas rosas, foi para a beira do regato que passava atrás do castelo e ficou despetalando as rosas, jogando as pétalas na água. Antes de jogar ela dava um beijo em cada uma.
O gigante perguntou:
― Por que está fazendo isso?
Ela respondeu:
― O regato corre para o rio e o rio corre para o mar. Cada pétala leva uma mensagem de boa sorte. Assim o mestre terá uma vida longa e com saúde.
Quando a noite chegou a moça mandou outro bilhete ao noivo. A resposta trazida pela pombinha dizia: “Ele ainda está te testando. Espere alguns dias e pergunte de novo.”
Depois de alguns dias ela disse ao gigante:
― Mestre, não percebi melhora na sua saúde. Devo jogar mais rosas no regato?
Ele respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho nem dentro de uma ostra no fundo do mar. Está no coração de uma pombinha que mora na torre do castelo.

Vanessinha ficou me olhando.
― E depois, mãe?
― Parei aí. Não sei como terminar.
― É fácil. A moça deve matar a pombinha e pronto.
― Matar a pombinha?! Assim, friamente? Um ser inocente que a ajudava tanto?
― E daí? O plano não era matar o gigante? O que é a morte de uma pombinha perto da morte de um ser humano?
― Mas o gigante não é humano. É um ser fantástico e malvado.
Minha filha demonstrou impaciência:
― Ah mãe, quer saber mesmo o que eu acho? Acho que não era gigante nenhum. Era um homem velho, doente e sozinho. Ele foi à aldeia querendo contratar funcionários, mas os preguiçosos não estavam a fim de trabalhar. Daí ele encontrou a moça, que topou a parada já com segundas intenções. Vai ver, antes de subir a montanha ela trocou uma ideia com o tal noivo e os dois premeditaram o crime. A troca de bilhetinhos na verdade era só para combinar a melhor ocasião de ele entrar no castelo e assassinar o velho. Depois eles iam enterrar o corpo debaixo do carvalho. Se alguém perguntasse iam dizer que ele tinha morrido de causas naturais. E iam ficar com toda a fortuna pra eles, na maior tranquilidade.

Agora eu é que fiquei olhando para a minha filha, sem dizer nada.
Ela se levantou, pegou a mochila e foi saindo.
― Tchau, mãe. Boa sorte aí na finalização. Usa a minha ideia que vai ficar legal.
Já com a mão na maçaneta, ela virou e disse:
― A senhora não percebeu o que o velho queria dizer? A vida dele estava no coração de uma pombinha que morava na torre do castelo. Nunca vi uma declaração de amor mais explícita do que essa.

Não terminei o conto. Perdi o prazo para o envio do texto. Continuo sem saber como será o final. A moça mata friamente a pombinha? Ou manda bilhetinho para o noivo? Ele aproveita e estrangula no ato o ser inocente ou repete a ladainha de que a informação ainda não é a correta?
Vanessinha terá razão? Estará o gigante apaixonado pela moça? Ela fica com ele e esquece o noivo moleirão que só enrola e não vai salvá-la?
Alguém pode me ajudar? Como será o fim deste conto de fadas?



Imagem: Book for Red Chair Press, The Princess and the Giant

domingo, 31 de maio de 2015

Mesa Redonda em Tabaréu

Estamos no “Festival Literário da Cidade de Tabaréu”, ou, abreviadamente, “Feli Cidade de Tabaréu”. Neste momento realiza-se uma mesa redonda sobre “Literatura Brasileira na Contemporaneidade”, com participação de ilustres profissionais da palavra oriundos de diversas partes do Brasil.

Dentre estes, destacam-se uma importante presença e uma importante ausência.

A presença é do autor João Graveolens Neto, ganhador de vários prêmios incluindo o “Cágado” de melhor romance do ano anterior.

A ausência é da jovem escritora Deneb Dulfim cuja obra de estreia — o primeiro volume da trilogia “Petra” — está há três meses na lista dos best sellers nacionais.

Todos lamentam, mas não se mostram por demais surpresos diante da recusa ao convite feito pela organização do evento. Afinal, ela nunca se mostrou ao público. Sabe-se apenas que é jovem, e é mulher. E que sabe cativar a imaginação dos adolescentes. E que está ficando rica.

Ao final da mesa redonda é inevitável comentar sobre esse fenômeno do mercado literário. São feitos vários elogios, várias menções aos astronômicos números de exemplares vendidos, e também fala-se sobre um boato de o livro virar roteiro de filme a ser rodado em Hollywood.

Apenas uma pessoa mostra-se indiferente à discussão: João Graveolens Neto, justamente o nome mais importante da mesa. Tal atitude não passa despercebida a um repórter local que, farejando controvérsia, pergunta-lhe a opinião acerca do livro escrito pela promissora jovem.

Parece até que o consagrado autor estava esperando ser questionado. Apruma-se na cadeira, pigarreia, puxa o microfone para mais perto e começa elogiando a iniciativa e a coragem demonstrada por muitos jovens ao empreender a escrita de volumosos romances. Tal atividade os afasta de práticas indesejáveis e de companhias danosas. Além disso, aprendem mais por meio das necessárias pesquisas, preparam-se melhor para suas futuras profissões, etc. etc.

A certa altura o repórter pede licença e repete a pergunta, dizendo que gostaria da sua opinião sobre a obra daquela autora.

Sem esconder o seu desagrado, Graveolens Neto responde que algumas coisas podem ser consideradas literatura e outras não, sendo que a “obra” (faz com os dedos o gesto das aspas) da talentosa menina não pode ser considerada literatura.

“Mas se é talentosa, por que sua obra não é literatura?” pergunta o repórter.

“É talentosa no quesito ‘ganhar dinheiro’, o que não deixa de ser um importante talento, certo?” ironiza o autor.

Poupemo-nos dos pormenores da discussão acalorada que se segue a essa afirmação. Porém é interessante notar que, a despeito de sua opinião desfavorável, Graveolens Neto demonstra certa familiaridade com o estilo de Deneb Dulfim, uma vez que é capaz de tecer críticas como: “vocabulário pobre; abuso de verbos fracos e de clichês; excesso de adjetivos; profusão de gerundismos e advérbios; personagens sem substância; pieguice ilimitada”.

“Para alguém que despreza a obra o senhor está bem informado demais”, brada um homem da plateia, o qual justamente vem a ser o representante da editora de Deneb Dulfim.

“Na verdade eu li as primeiras cinco páginas do livro”, responde o insigne autor. “Gosto de saber o que movimenta o cenário do mercado editorial.”

A estas palavras segue-se uma dura polêmica entre os dois.

“Se o senhor leu apenas as cinco primeiras páginas, como pode ter certeza de que se trata do livro dessa autora? Pelas características mencionadas mais parece um texto de Paola Lepri, que, aliás, pertence ao catálogo da sua editora.”

Ao dizer “sua editora”, o representante aponta o dedo rudemente para o interlocutor.

“Nada tenho contra ou a favor da senhora Paola Lepri, cujo nome nem deveria ter sido mencionado já que não está aqui, mas posso provar que o livro era, sem sombra de dúvida, o primeiro volume de ‘Petra’. Não é verdade que se trata da história de uma certa adolescente da classe média alta do Rio de Janeiro, que tendo perdido os pais num acidente descobre-se totalmente falida? Sendo obrigada a se mudar, juntamente com a avó, para uma comunidade instalada sobre um dos morros daquela cidade? Que vai morar em um barraco construído junto a uma grande rocha, que lhe serve de parede no lado norte? Que a cama da jovem é colocada perto dessa rocha? Que a jovem se encosta nela a fim de se refrescar, durante as noites quentes? Que nesse processo acaba descobrindo uma série de inscrições em baixo relevo, cujo significado —“

Nesse ponto o representante o interrompe.

“Está bem, está bem, o senhor já provou que era o livro correto. Agradeço pela leitura crítica das cinco páginas. Lamento que a obra não lhe agrade, mas essa opinião é apenas sua. O resto do Brasil ama Deneb Dulfim e continuará lendo tudo o que ela publicar.”

Graveolens Neto poderia ter adotado a altivez do silêncio, mas retruca:

“Tenho certeza de que o sucesso de vendas continuará inabalável. Afinal é disso que se trata, certo? O mercado, a fama, o dinheiro. A literatura? Ora, a literatura...”

“O senhor deve mesmo ter alguma coisa contra o dinheiro, afinal quanto vendeu o seu romance premiado? Mil cópias? Mil e duzentas? Não muito mais do que isso, imagino.”

O presidente da mesa sente-se obrigado a intervir.

“Senhores, senhores, esse tipo de discussão não cabe neste encontro! Por favor deixem os seus assuntos para mais tarde. Falando nisso, está na hora de encerrar a sessão.”

Depois dos agradecimentos e das palavras finais, a plateia levanta-se para ir embora e algumas pessoas vão conversar com os autores. Na saída encontram-se os dois oponentes. O representante da editora de Deneb Dulfim dirige-se a Graveolens Neto:

“O senhor aceita uma carona? No caminho podemos acabar de falar dos nossos assuntos.”

Ao que o outro responde:

“Agradeço a oportunidade. Somos pessoas razoáveis, certo?”

Quem ouve a conversa acha aquele comportamento tão apropriado, tão civilizado, que a má impressão quase se dissipa. O repórter, sempre atento, tem agora uma conclusão satisfatória para a sua matéria.

Já no carro, o tom do diálogo muda:

“E então, Graveolens, como vai o segundo volume?”

“Está saindo, estou quase terminando. Seguindo o gancho do volume um, Petra entra na rocha em viagem astral e encontra Badezir. O volume dois está centrado no romance, ele tentando ganhar a confiança da menina, que não se lembra da sua encarnação como rainha de Agharta. No desfecho ela é convencida a segui-lo pelo império subterrâneo para ajudar no plano de salvação da humanidade. Esse vai ser o gancho para o volume três. O problema é que ainda não resolvi se ela vai para Agharta com o corpo físico ou com o corpo astral. Isso é que está me atrasando um pouco.”

“Tudo bem, ainda temos tempo. E a literatura, como vai?”

Graveolens Neto acaricia o cavanhaque grisalho e pensa um pouco antes de responder.

“A literatura? Ora, a literatura...”


Imagem: http://www.stlucianewsonline.com

sábado, 6 de setembro de 2014

Como se escreve um best seller?

Então um dia fui a um evento literário. Palestras com temas interessantes: uma sobre microcontos, outra sobre mercado literário, outra sobre criação, etc.
Durou o dia todo. Palestrantes muito carismáticos que pareciam entender do que falavam.
Um deles se sobressaiu pela fluência e simpatia; jovem autor de sucesso que, generosamente, expôs toda a sua trajetória dando informações e dicas.
O evento encerrou-se com uma feira de livros. Comprei vários, incluindo o volume 1 da saga sobre anjos escrita pelo palestrante simpático.
Comecei a ler no metrô, mas a viagem foi curta demais e o ambiente não favorecia a concentração, por isso achei o início da história um pouco desinteressante. Em casa havia melhores condições para apreciar a obra.
Já em casa, reinicio a leitura.
“Ele era um jovem muito bonito. Tinha longos cabelos loiros e olhos tão azuis que lembravam um céu sem nuvens. Alto e forte, de pele rosada e dentes alvos como pérolas. Sua esposa também era linda. Possuía cabelos castanhos e encaracolados, sua pele era morena, suave como uma seda, e os seus olhos eram verdes e brilhantes.
Naquela manhã ele se levantou, preparou o café e chamou a esposa, que estava tomando banho:
- Venha, meu amor. Hoje preparei as panquecas que você tanto gosta.
Ela saiu do banho ainda enrolada na macia toalha cor-de-rosa decorada com lindas flores vermelhas. Estava adorável com os cabelos envoltos por uma toalha azul, como se fosse um turbante, pois tinha acabado de lavar os cabelos com um xampu muito cheiroso. “
- Ah, meu querido! disse ela. O que seria de mim se não eu não tivesse você?
Mal sabia a bela jovem que aquele seria o último dia de vida do seu amado esposo.”

Para tudo! Para tudo!
Está certo que o autor é uma graça de pessoa, mas é assim que começa o seu best seller?
Avanço mais algumas páginas. Quem sabe melhora lá na frente.
Ele não podia se conformar com aquela situação. Outros, em seu lugar, estariam felizes por terem sido alçados ao paraíso, aquele lugar divino que todos almejam e sonham em conquistar pelas suas boas ações. Mas não ele, que pensava somente em sua linda esposa, agora uma viúva inconsolável que não cessava de derramar mornas e cristalinas lágrimas de pesar e de saudade.
- Jamais desistirei de voltar aos braços daquela a quem tanto amo! bradava ele à fresca brisa que soprava suavemente à beira daquele lago tranquilo, colorido pelas luzes de um maravilhoso arco-íris, na colônia celeste para onde fôra enviado.

Parei nesse ponto. Nunca terminei a leitura. Doei o livro. Jamais saberei como se escreve um best seller.

Imagens:
http://www.taossagewaters.com
http://www.photofacefun.com
Interessante artigo sobre o assunto "best-seller"
escrito por Paulo Rónai, pode ser lido aqui.





sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Vendendo poesia

Lá estava eu num ponto de ônibus cheio de gente, vendendo os meus livros de poesia.
Escrevi três até hoje. O primeiro foi à mão. Mandei xerocar e eu mesmo grampeei as folhas.
O segundo bati à máquina lá no serviço. Depois xeroquei e grampeei.
Este terceiro levei para uma gráfica. Ficou muito bom o acabamento.
Sou um rapaz pardo. Sofro preconceito porque as pessoas não acreditam que preto também escreve poesia.
Preto pode fazer música, mas fazer poesia não faz. É isso o que a maioria acha.
Então eu estava lá oferecendo os livros para o pessoal que esperava os ônibus. Passam diversos naquele ponto, cada um pra um lugar, por isso não tem fila, só um aglomerado de gente.
Vai daí ofereci os livros para uma moça que parecia preocupada. O ônibus dela estava demorando demais, deu pra perceber.
Ela respondeu: “Não, obrigada.”
Eu insisti: “Mas por que não quer? Não gosta de poesia?”
Ela nem olhava pra mim, ficava prestando atenção pra ver se o ônibus estava chegando. Falou: “Pra dizer a verdade não gosto de poesia não.”
Mas eu estava decidido a vender alguma coisa pra ela, então apelei:
“Já sei por que você não quer comprar. É porque eu sou negro.”
Ela se sensibilizou. Não queria que eu pensasse que ela era racista. Respondeu: “Não tem nada a ver, é que não gosto de poesia mesmo, mas tudo bem, vou levar um livro seu.”
Me deu a impressão de que ela estava só querendo se livrar da amolação. Dei o livro, ela pagou, e nesse instante o ônibus dela chegou.
Na pressa de embarcar, e não tendo como ajeitar o livro no meio das coisas que carregava, ela o empurrou de volta para a minha mão e foi embora.
Ela não gostava mesmo de poesia. E acabou que me deu uma esmola para eu calar a boca.
Não gostei de ganhar esmola.

Imagens:
http://blog.serialreaders.com
http://www.mobilize.org.br