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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A maldição de Rosalina

Aqui é o lugar perfeito . 
No alto da escadaria, no conforto deste assento macio, consigo observar todo o salão. 
Não faz diferença ele estar mascarado. 
Cada pessoa tem o seu jeito; o dele é inconfundível.

Muitas coisas ele não sabe. Nem suspeita.

Não sabe o quanto penso nele. 
Não sabe que posso reconhecê-lo na multidão. 
Não sabe o motivo de eu estar usando esta máscara tão delgada, incapaz de esconder minhas feições. 
Não sabe que me sentei aqui a fim de ser vista com facilidade.  

Tudo para que, ao chegar, venha ao meu encontro.
Tudo para ficarmos juntos.

Tudo para vê-lo entrar e no mesmo instante ocupar-se daquela menina fantasiada de santinha. 

Não olhou em volta. 
Não me procurou. 
Sequer se lembrou de mim. 

É isso o que você quer? 
É isso o que você escolheu? 

Assim seja. 

Nunca saberá que esta seria a nossa noite.
A noite tão aguardada.
A noite inesquecível. 
A noite destinada a durar para sempre.  

Não importa.
Não ficarei no seu caminho.
Não me lamentarei. 

Siga o seu destino.

Seja feliz, Romeu. 

Se puder.

domingo, 6 de agosto de 2017

Começo, meio e fim

Como era charmoso o meu Otacílio!
Me lembro com tanta clareza do dia em que nos conhecemos!
Foi na entrevista para o meu primeiro emprego.
Entrei na sala e lá estava ele atrás daquela escrivaninha enorme de madeira escura toda entalhada em belos arabescos, coisa linda mesmo. Combinava com a elegância da sala e dele próprio.
Falou pra eu me sentar e aquela voz forte, tão masculina, me impressionou. De nervosa que estava fiquei mais nervosa ainda.
Ele só me olhando e sorrindo de leve. Parecia reparar na minha aparência.
“Será que estou bem vestida? Meu cabelo está em ordem? O decote não extrapolou?”
Pra encurtar a história, fui contratada. Fiquei sendo secretária do Otacílio.
Ele disse que não fazia mal eu não ter experiência; às vezes era até melhor pegar alguém sem experiência e ir ensinando tudo aos poucos, do jeito certo. Assim a pessoa fica bem treinada e “com a cara da empresa”.
O Otacílio me treinou bem demais. Se é que vocês me entendem. Fiquei do jeitinho que ele queria. Em tudo.
Quatro ou cinco meses depois de contratada eu me considerava namorada dele. Todo mundo da firma sabia do nosso caso. Por que não? Nós dois éramos solteiros, não havia nada a esconder. Tudo bem que na questão da idade tinha lá uma diferença de uns vinte anos, mas paixão não escolhe idade.
Foi isso o que ele me falou logo na minha primeira semana de trabalho. E também de como eu estava linda no dia da entrevista e como ele quase não conseguiu disfarçar o interesse por mim. Naquele instante ele teve certeza de que tudo ia dar certo.
Deu mesmo.
Só uma coisa me incomodava. Não muito, só um pouco. Ele nunca tinha me pedido em namoro. A gente saía, jantava, namorava, até viagem de fim de semana fizemos umas vezes. Mas nunca me pediu em namoro e muito menos falou “eu te amo”. Uma vez eu falei pra ele, porque era verdade, mas não tive resposta. Não com palavras. Me respondeu com beijos, e isso compensou.
Homem não gosta de se abrir tanto assim, pensei. Palavras não têm importância. São os atos que demonstram amor, não umas poucas palavrinhas que o vento leva.
Depois de um tempo comecei a ouvir fofocas. Engraçado não ter percebido antes: as meninas do escritório cochichavam sobre mim e o Otacílio. Só podia ser inveja, das bravas. Uma vez fui à copa pegar café para ele e ouvi umas risadas. Alguém estava dizendo que era incrível uma  menina como eu me contentar com aquele barrigudo careca; as outras caíram na risada. Elas não me viram, então dei meia volta e fui para a minha mesa.
Barrigudo careca? Nunca! Ele estava um pouco acima do peso, mas quem não está? E careca jamais! É normal os homens ficarem meio calvos, diz que é por causa dos hormônios. Qual o problema de ele estar com o cabelo um pouco ralinho no topo? Não atrapalhava em nada a estética.
Elas não viam como ele era inteligente, charmoso, gentil e perfumado. Ou melhor: viam sim, por isso tanta inveja.
Não foi a única vez que ouvi coisas ruins sobre o meu Otacílio. A pior foi que ele havia despedido uma funcionária grávida sem ligar que ela era arrimo de família e solteira. Eu não quis saber dos detalhes, por exemplo se ela tinha entrado na justiça do trabalho e coisas do tipo. Não estiquei a conversa porque era absurdo demais e eu tinha mais o que fazer.
Aí vieram me falar que ele tinha sido grosso com o motorista da firma. Que o motorista ficou tão revoltado que saiu xingando: “Seu narigudo! Seu ignorante! Seu besta!”
Não acreditei nessa história. Outra maledicência. E aquela parte do “narigudo”, então! Ridículo. O nariz dele não era grande, era masculino. Queriam que ele tivesse narizinho feminino, então?
Dias depois dessa última fofoca ele amanheceu com conjuntivite e não pôde ir trabalhar.
Seu Armando, chefe do departamento pessoal, me chamou e disse que eu precisava levar uns papéis para o Otacílio assinar. Coisa urgente: era a rescisão do motorista.
Levar aonde? Ao apartamento dele? Meu coração começou a bater forte. Nunca eu tinha ido ao apartamento do meu namorado, nem sabia onde ele morava.
Seu Armando me entregou uma pasta de documentos, o papel com o endereço, e disse que era lá pertinho, dava pra ir andando. Já estava tudo combinado, e que eu tomasse cuidado porque conjuntivite pega.
Fui caminhando sem pressa. Não queria chegar suada e descabelada, e também precisava me acalmar. Finalmente ia conhecer o lugar onde morava o meu Otacílio. Com certeza um apartamento charmoso e elegante como ele.
Na portaria do edifício encontrei uma mulher bonitona conversando com o porteiro.
― Pode uma coisa dessas, seu Aparecido? Ele nem me falou nada. Fiquei sabendo por acaso. Liguei no celular dele mas estava desligado. Ele não quer que eu ligue na empresa, mas desta vez não teve jeito porque fiquei preocupada.  Lá me disseram que ele não tinha ido trabalhar por causa de uma conjuntivite. Coitado, deve estar precisando de ajuda, mas é um fofo e não quis me incomodar. Olha, não tem necessidade do senhor avisar que estou subindo. Tenho a chave, vou abrir a porta sem fazer barulho e dar uma espiada nas coisas…
O porteiro me viu parada esperando ser atendida.
― A moça é a secretária do seu Otacílio? Pode subir, ele já autorizou. Vai junto com a senhora aqui.
A bonitona virou pra mim com um sorriso bem grande, estendendo a mão.
― Você é a secretária do Otacílio? Muito prazer! Sou a noiva dele, meu nome é Mariana, qual é o seu?
O mundo girou à minha volta e tive de apoiar a mão na mesa do porteiro para me equilibrar. Fingi que estava só depositando a pasta de documentos pra liberar a mão e cumprimentá-la. Ela não percebeu o meu choque, continuou a falar toda animada.
― Vamos subir juntas. Estou preocupada, sabe? Conjuntivite não é grave, mas a pessoa não pode sair de casa. Vou ver se não precisa comprar alguma coisa, algum remédio, alguma comida. A diarista dele só vem na sexta, veja só a situação.
A música do elevador era “Começo, meio e fim” do Roupa Nova. Ela falava, falava, e eu não queria ouvir. Me concentrei na música, fui cantando mentalmente como se estivesse num karaokê.

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa entender
que um amor de verdade
é feito canção,
qualquer coisa assim, 
que tem seu começo,
seu meio e seu fim.”

Essa parte da música não ajudou em nada, garanto. Depois da subida de elevador mais penosa da minha vida, chegamos ao apartamento. Era tão lindo quanto eu tinha imaginado. Mariana chamou:
― Otacílio, meu amor! Está no quarto?
Nem esperou a resposta e já foi entrando. Fiquei lá parada na antessala, abestalhada da minha vida.
Logo voltou a noiva do meu namorado:
― O Otacílio pediu pra você me dar os papéis que ele vai assinar lá no quarto. Ele está com vergonha de aparecer com os olhos vermelhos e inchados.
Dei pra ela a pasta e continuei no mesmo lugar, catatônica.
Não demorou e ela estava de volta.
― Menina, por que não se sentou? Quer uma água? Um cafezinho antes de ir?
Eu não quis nada. Só agradeci e fui embora. Meu coração doía a ponto de estourar.
Entrei no elevador e comecei a ouvir a música. Sem querer comecei a cantar mentalmente, como tinha feito na subida. Estava neste trecho:

“A vida tem sons
que pra gente ouvir
precisa aprender
a começar de novo.
É como tocar o mesmo violão,
e nele compor
uma nova canção.”

Devagar, devagarzinho, me veio uma coisa estranha. Alívio. Uma sensação boa que aumentava enquanto o elevador descia. A tristeza foi sumindo. Nem deu tempo de ficar com raiva do Otacílio. Nem raiva, nem decepção, nem ressentimento. Quando o elevador chegou ao térreo, era isso o que eu sentia: nada.
Quem era aquele namorado que nunca me pediu em namoro e que tinha uma noiva? Ele não era ninguém. Se não era ninguém, por que me importaria com ele?
Nenhuma razão para sofrer. Nada.
Meu amor pelo Otacílio morreu numa viagem de elevador.
Morreu, evaporou, se desfez no ar. Nem restos mortais deixou.
Fui embora cantando mentalmente o resto da música:

“Ah! Coração
se apronta pra recomeçar.
Ah! Coração
esquece esse medo de amar de novo.”

Uma semana depois, quando ele voltou da licença médica e eu entrei na sala dele para levar a minha carta de demissão, não encontrei o meu Otacílio..
Só vi um homem de meia-idade calvo, barrigudo e de nariz proeminente ao lado da escrivaninha enorme de madeira escura, toda entalhada em belos arabescos.

(Clique para ouvir)




domingo, 11 de dezembro de 2016

A bela e a megera

Eu me considero um cara educado. Uso com frequência as palavrinhas mágicas “por favor”, “obrigado”, "me desculpe" e “dá licença”. Me visto com asseio e discrição. Nunca jogo o lixo fora do lixo. Nos transportes públicos evito me sentar nos bancos reservados. A não ser quando estou exausto ou quero aproveitar para ler mais algumas páginas do livro, porque sempre carrego um livro. Mas fico ligado: em todas as paradas suspendo a leitura para ver se não chegou um passageiro precisando mais daquele assento do que eu.
Dias atrás, voltando do trabalho, entrei num vagão de metrô onde os únicos lugares vagos eram os reservados. Como não havia ninguém em pé, achei que não fazia mal descansar um pouco. Tirei da mochila o “Barba ensopada de sangue” do Daniel Galera. Estava ansioso pra saber se o protagonista ia achar o avô maluco que virou ermitão e vivia numa caverna, lá nas montanhas de Garopaba. Corajoso, o protagonista. Eu mesmo ia querer distância dessa figura. Gente louca me apavora.
Duas estações depois, ao levantar os olhos da página, vi na minha frente uma senhora idosa. Parecia saudável, mas já tinha passado dos sessenta há muito tempo. Nem guardei o livro, levantei imediatamente e disse:
― Faz favor, senhora. Senta aqui.
A mulher me olhou como se tivesse ouvido um palavrão. E falou de um jeito bruto, com uma voz aguda que doía no ouvido:
― Tá me dando o lugar por quê? Tá me achando velha demais pra ficar em pé?
Fiquei sem saber como responder. A hesitação durou só um segundo; apelei para a minha criatividade de escritor iniciante:
― Não, de jeito nenhum. É porque a senhora é mulher. Faz parte da educação dar o assento para as mulheres.
A velhinha não desfez a careta de raiva.
― Quer dizer que o senhor acha que nós mulheres somos fracas e temos que ficar sentadas?
Dessa vez nem a minha criatividade de escritor me serviu. Olhei em volta procurando ajuda e reparei numa moça loira, alta, muito bonita, com a mão na boca segurando o riso.
A velhinha doida continuou, com sua voz insuportavelmente aguda:
― Vocês homens são muito engraçados. Acham que a gente é fraca demais pra ficar em pé, mas não é fraca demais pra parir os filhos cabeçudos que vocês fazem na gente. Nem é fraca demais pra esfregar cueca com freada de caminhão.
Disse isso e ficou me encarando com aquela expressão horripilante, aguardando uma resposta só pra ter a chance de continuar com a humilhação. Olhei para a loira. Agora ela ria abertamente, sem disfarçar. Cheguei à conclusão de que não havia o que fazer. Pedi licença e desci na parada seguinte, bem antes da minha estação. Até porque não gostei da maneira com que ela balançava o guarda-chuva (nada feminino) que carregava.
No dia seguinte rezei para não topar com a velhinha doida de novo. Era improvável e não aconteceu. Porém, quarenta e oito horas depois do incidente, com quem me deparei? Com a loira alta, bonita e risonha, aquela que em vez de me ajudar se divertiu com a situação. Assim que me viu aproximou-se e me abordou sem nenhum constrangimento:
― Oi! Foi você que a minha tia importunou anteontem, não foi?
Disse isso sorrindo, como se ainda estivesse achando graça.
― Ela é sua tia?
― Irmã da minha mãe. Mora na minha casa. É completamente maluca.
E começou a rir.
― Ela tem Alzheimer? (Fiz a pergunta estranhando que alguém pudesse dar risada de uma pessoa doente.)
― Não! Sempre foi maluca. Ninguém aguenta ela. Implica com tudo, é impressionante.
― Deve ser algum problema mental.
― Não, é gênio ruim mesmo. Teve uma época que o meu pai colocou ela num asilo, e sabe o que aconteceu?
― Não faço ideia.
Começou a rir de novo e teve que forçar uma pausa para responder:
― Devolveram ela! Nem eles aguentaram!
Na próxima estação muita gente desceu, e nos sentamos lado a lado. Ela disse que havia gostado do meu cavalheirismo e do fato de eu não ter respondido mal às provocações. Achou engraçada a cara que eu fazia enquanto tentava apaziguar a velhinha. E tinha notado o livro na minha mão (ela também gostava de ler). E queria me encontrar de novo no dia seguinte.
Fiquei admirado com a desenvoltura da moça. Par perfeito para um cara tímido como eu, pensei sem querer (querendo). Combinamos nos encontrar na estação onde ela sempre embarcava, ao lado das cadeiras da plataforma.  
Fizemos isso durante uma semana. Entrávamos juntos no trem e íamos conversando durante o percurso. Ela descia três estações antes de mim, mesmo assim tínhamos vinte e cinco minutos de conversa. Na maior parte do tempo falávamos sobre livros, planos para o futuro e os nossos empregos. E também sobre a tia maluca. Ela achava tudo hilário, mas aquelas histórias bizarras me metiam medo. Nem queria imaginar a sensação de conviver com uma pessoa tão desequilibrada. Uma única vez bastou para me deixar traumatizado.
Isso durou até ontem. Ela, que sempre se despedia com um beijo rápido no rosto, dessa vez me deu um selinho. E disse, sem o menor embaraço:
― Amanhã vou te pedir em namoro. Vai pensando, tá?
Uma piscadinha, um beliscãozinho no meu braço, e lá se foi ela, toda maravilhosa a bordo do seu scarpin vermelho de salto alto.
E agora? Uma moça linda e loira, alegre e inteligente, está interessada em mim. Mas como lidar com a tia maluca que mora com ela? Que me apavora até a medula dos ossos?
Preciso dar a resposta daqui a duas horas.
Universo, seu sacana!  Tinha que me trollar desse jeito?!  :(

           Imagem: http://www.paraisofeminino.com.br

sábado, 2 de julho de 2016

A batalha do padre Antônio

Tio Antônio era padre. Especializou-se na “unção dos enfermos”. Ou “extrema unção”, como se dizia antigamente.
Nunca entendi a solicitude do meu tio. Quando recebia um chamado ele largava tudo, vestia os paramentos, pegava o frasco de óleo bento, a bíblia, e saía apressado. De dia ou de noite, com sol ou com chuva, calor ou frio, são ou doente.
Era como se gostasse daquilo. Mas não gostava, ele sofria fazendo os atendimentos.   
Sempre retornava abatido. Ia direto para o quarto e passava horas ajoelhado no chão, rezando pela alma da pessoa a quem havia acabado de ungir.
Eu via tudo isso porque ele morava conosco. Minha mãe dizia que o cunhado não regulava bem: estava sempre calado e jamais sorria. Meu pai não dizia nada, aceitava o irmão do jeito que ele era.
Tio Antônio abandonara a faculdade de filosofia para ser padre. Vocação tardia que ninguém entendeu. Seu falecimento foi há oito anos. Não quis receber extrema unção. Disse que não merecia.
Fiquei ao seu lado a maior parte do tempo enquanto esteve no hospital. A doença não o impedia de falar, mas ― como sempre ― permaneceu calado. Minutos antes do passamento é que se manifestou. E falou tudo, falou aos borbotões.
Leigo que sou, confessou-se a mim, única pessoa ao seu alcance. Queria ser perdoado.
― Perdoado de quê, meu tio?
― Eu matei uma pessoa.
Delírio de moribundo? Já ia começar a contradizê-lo quando ele apontou para a sua velha bíblia na mesa de cabeceira.
―Me dê a bíblia.
Menos mal, pensei. Rezar é melhor do que delirar. Mas ele não queria rezar. Abriu o livro e retirou um recorte de jornal. Era uma foto amarelada. Mostrava jovens brigando. Um deles agachado, protegido por um grupo à esquerda, enquanto outros à direita tentavam atingi-lo com objetos em riste. Acima, o título: “De repente, a violência".
― O que é isso, tio?
― Esse moço aí no chão. Era o Fabrício.
Falou como se eu devesse conhecer o cara.
― Que Fabrício?
― Foi ele que eu matei.
Não falei nada. Falar o quê?
Ele prosseguiu, sem olhar para mim. Fixava os pés da cama, os olhos parados, sem expressão.
― Ninguém sabe que eu matei. Por isso não fui preso. Mas eu sei. Ele sabe. E Deus sabe. Matei por motivo fútil. Por ciúmes. Destruí uma vida só porque estava louco de ciúmes.
Fiquei quieto. Deixei o tio falar. Em nenhum momento o interrompi. Ele continuou. Falou tudo, de um jorro só.
― Ele era da engenharia do Mackenzie, eu era da filosofia da USP. Eles apoiavam a ditadura, nós não. Nunca tínhamos conversado, eu só o conhecia de vista. Na hora do almoço a minha turma ia no bar do Carioca, e a turma dele também. Uma turma não conversava com a outra. Só fui trocar duas palavras com o Fabrício lá no Clube Paulistano. Não foi pela minha vontade nem pela vontade dele, mas sim porque tínhamos um amigo em comum, o Manolo. Grande vagabundo, o Manolo. Não fazia nada na vida porque o pai era rico. Passava os dias zanzando, alegre, simpático, bem apessoado. Generoso também. Nunca se negava a ajudar quem precisasse de um dinheiro ou de um ombro para se apoiar. Impossível não gostar do Manolo. Um dia me convidou pra passar uma tarde no clube. Eu fui; lá chegando o encontrei em conversa animada com aquele mackenzista de direita. Aí que fiquei sabendo do nome e do sobrenome, Fabrício Alexandre do Couto e Magalhães. Assim mesmo: “do Couto e Magalhães”. Família aristocrática. Ele também me reconheceu. Não trocamos mais que duas palavras, apesar da insistência do Manolo em nos entrosar. Passamos o resto da tarde meio emburrados, com o Manolo de permeio fazendo as suas gracinhas.
Aqui ele deu uma pausa. Para descansar ou talvez para rever, com os olhos da mente, as cenas que descrevia. Logo continuou.
― Na semana seguinte passamos a fingir que não nos conhecíamos quando as nossas turmas se cruzavam lá no bar do Carioca. Mas em seguida veio outro convite. Aceitei porque o clube era muito aprazível. Qual não foi minha decepção quando vi o Fabrício lá de novo! Dessa vez conversamos um pouco mais para não fazer desfeita ao Manolo. Sem tocar em política. Depois disso passamos a nos cumprimentar com um aceno de cabeça, sem ninguém perceber, sempre que nos víamos na hora do almoço.
Outra pausa. Tive certeza de que não era cansaço, era uma revisitação ao passado.
― O Manolo parecia empenhado em nos aproximar, porque os convites para o clube continuaram. No encontro seguinte ele disse claramente que o Fabrício e eu devíamos nos tornar amigos, já que éramos muito parecidos. Absurdo! Um uspiano de esquerda confraternizando com um mackenzista de direita? Trocamos olhares de desprezo, mas não falamos nada. Nosso amigo era um alienado, não sabia o que estava acontecendo no país. Ou não se importava. Mais uma vez procuramos nos tratar como pessoas civilizadas em consideração ao Manolo, que no final das contas era um ótimo parceiro.
Agora ele demonstrava cansaço. A respiração estava ofegante.
― Na vez seguinte, Fabrício apareceu no clube com uma moça. Chamava-se Vera Lúcia. Linda, muito linda. Parecia aquela artista de cinema, a Claudia Cardinale. Quando vi os dois ali de mãos dadas, e notei como ela era bonita e como os dois combinavam, tive um sentimento que nunca havia tido na vida. Inveja, tristeza, frustração, desespero, vontade de chorar! Mas homem não chora nem demonstra sentimento. Fiquei impassível, mesmo depois da revelação devastadora. Continuei firme, naquele fim de semana e nos outros. Até hoje não sei como consegui fingir indiferença. Fabrício ao lado da Vera Lúcia, os dois bonitos, jovens, alegres, se dando tão bem. Eu tinha que conviver com a minha inveja, com o ciúme, com a completa desesperança.
O final da frase quase não ouvi porque o tom de voz foi baixando até terminar em um arquejo. Recuperou-se e retomou a narrativa.
― O auge da minha neurose coincidiu com o agravamento das brigas entre mackenzistas e uspianos. No dia em que tudo aconteceu eu tinha amanhecido muito mal, depois de varar a madrugada sem dormir. Homem não chora, mas naquela noite não me segurei. Tanta raiva eu tinha de mim mesmo. Raiva por estar sentindo aquilo. E a certeza de que nunca poderia ser feliz. Então, na parte da tarde, estourou o confronto. Por causa da campanha da UNE. Uma turma de secundaristas foi lá fazer comício para a eleição e a coisa desandou. Os inimigos partiram pra cima dos garotos e a gente resolveu ajudar. Acabou virando guerra. Jogaram bomba incendiária no nosso prédio, nós invadimos o território deles, e daí pra frente não deu pra controlar mais nada. Foi quando vi o Fabrício do outro lado da calçada com um tijolo na mão, pronto pra atirar em alguém. Me juntei ao grupo que foi enfrentá-los. Esse moço aí da fotografia, levantando o guarda-chuva, bateu na cabeça do Fabrício e ele caiu. Nessa hora peguei o tijolo do chão. Os meus colegas saíram correndo, mas eu fiquei. Vi que o Fabrício ia se levantar, a guarda-chuvada só tinha deixado ele tonto.  Aí fiquei louco. Enxerguei um jeito de me livrar do problema que me atormentava. Foi inspiração do demônio, mas sou culpado do mesmo jeito porque me deixei levar. Não pensei duas vezes: dei com o tijolo na cabeça dele.
Ao chegar nesse ponto ele parou novamente. Vi que fez esforço para retomar. As lembranças estavam ficando mais penosas.
― Dessa vez ele caiu pra não se levantar mais. Fugi pensando que o havia matado, mas ele não estava morto. No hospital descobriram uma trinca na coluna, logo abaixo do pescoço. Ficou tetraplégico. Morreu pouco tempo depois. A causa da morte foi pneumonia, consequência da imobilidade. Meu sofrimento, desde a tijolada até o desfecho fatal, não dá pra descrever. Culpa misturada com tristeza mas também com alívio, o alívio aumentando a culpa. Eu não sabia o que fazer. Larguei tudo e fui me penitenciar. Virei padre, tentei ajudar as pessoas para mostrar a Deus o meu arrependimento. Porque eu me arrependi. Mil vezes viver na dor e na vergonha do que no remorso e no arrependimento. É por causa desse arrependimento que peço perdão a ti, sobrinho. Você representa Deus para mim neste momento.
Tio Antônio ficou me fitando em silêncio. O que eu podia fazer? Estava chocado, mas coloquei a mão em sua testa. Não sei de onde tirei as palavras:
― O senhor está perdoado, padre Antônio. Eu lhe concedo o perdão pleno e eterno. Fique em paz.
Ele suspirou, agradecido. Voltou o olhar para os pés da cama. Nesse momento seu rosto se iluminou. Sorriu. Parecia estar vendo alguém. E pronunciou, alto e claro, suas últimas palavras:
― Fabrício, você veio me buscar! Já estou indo, meu amor.


Imagem: "De repente, a violência" 
Fotógrafo: Gil Passarelli

Esta foto registrou confronto entre grupos de alunos do Mackenzie 
devido às eleições para a União Estadual dos Estudantes de SP. 
Venceu o Prêmio Esso de Fotografia em 1968.

sábado, 10 de outubro de 2015

Espera

Parado aqui na porta da minha choupana, fitando a imensidão do céu, tenho visto o mundo se transformar. 
Sentei nesta soleira há muito tempo e nunca mais levantei. A não ser uma vez, quando peguei doença e me carregaram para dentro. Mas depois voltei e aqui estou como sempre, espiando a estradinha de terra.
Enquanto isso, o sol nasce, o sol se põe, e tudo vai mudando. 
Os morros eram verdes de tanta árvore. Aí derrubaram tudo. O verde sumiu. Só se via a terra e a poeira que o vento esparramava. 
O tempo passou, a terra verdejou outra vez. Mas não é como antes, só cresceu mato rasteiro. 
O riacho também modificou. A água, de clarinha que era, escureceu.  Agora nem enxergo mais a correnteza, deve ter secado tudo.
Quando os morros eram verdes e as águas eram claras, tinha bastante gente morando por aqui. Disso me recordo bem. 
Então veio aquele dia. Cheguei do eito e estranhei a porta aberta. Tudo escuro lá dentro. Saí procurando ela, mas ela não estava em lugar nenhum. Me disseram que tinha ido embora de manhã cedo, carregando a mala. Enveredou pela estradinha e desapareceu sem falar com ninguém.
Duvidei, fui pra casa e encontrei o guarda-roupa vazio. Era verdade, ela tinha fugido. O motivo, levou junto com ela.  
Vim aqui e sentei na soleira, esperando ela voltar. 
As pessoas chegavam e me diziam pra entrar pra dentro, que estava de noite, fazia frio e eu ia perder a pouca saúde que tinha. Me traziam comida, sentavam do meu lado e me obrigavam a comer pelo menos um pouco. Até cobertor arrumavam pra me cobrir, porque entrar eu não entrava. 
Aí fiquei doente. Eles me pegaram e me puseram na cama.
Esqueci o que aconteceu. Só sei que voltei pra cá e ninguém tornou a falar comigo. Passavam reto na estrada sem virar a cabeça nesta direção. 
Não fiz conta, prefiro estar sozinho. Acostumei. Nunca mais senti frio nem fome nem sede.
Sumiu o arvoredo dos morros, o riacho secou, e todo o povo foi pra longe. 
Só restou eu aqui, sem outra labuta além de olhar o sol nascer e o sol morrer.
Um dia, quando ela apontar na curva logo ali depois da cerca, vai me ver neste mesmo lugar, esperando. 
Vai ficar bem contente, que eu sei. E vai apertar o passo, com vontade de me abraçar.


Imagem: http://portalbigtrails.com.br

segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

          Difícil descrever o que ele era para mim. Não apenas um colega de trabalho, nem simplesmente um amigo. Talvez a melhor palavra fosse confidente. Todas as alternativas anteriores, e mais.
          Sua face de poeta sugeria uma vida contemplativa, preenchida por preocupações filosóficas. Assim ele vivia, exceto nos momentos em que interrompia seus devaneios para me dar atenção.
          No departamento em que trabalhávamos a atividade era incessante; todos estavam sempre ocupados, ninguém seria surpreendido olhando o vazio através da janela. Exceto ele. Não raramente, em meio ao cálculo mais árido, encontrava ideias escondidas entre os símbolos matemáticos as quais mereciam pelo menos dez minutos de reflexão.
          Era comum, ao entrar em sua sala, encontrá-lo em plena contemplação, as mãos esquecidas sobre o teclado do computador, fixando um ponto qualquer além da parede. Não se tratava de ociosidade; ele realmente precisava daqueles instantes para compor sua linha de pensamentos. A prova estava nos artigos publicados, criativos e muitíssimo bem elaborados. Infelizmente, não eram numerosos.
          Por esse motivo, de todos nós era ele quem ocupava a posição mais modesta. Enquanto trabalhávamos febrilmente tentando terminar logo o que começávamos, discutindo e muitas vezes brigando pelos nossos pontos de vista, disputando as posições de prestígio dentro do instituto, ele desenvolvia tranquilamente os seus trabalhos teóricos sem nenhuma pressa. Enquanto que a maioria dos cientistas daquele departamento ocupava-se também em dar aulas na universidade, meu amigo nem cogitava dessa possibilidade. Não tinha tempo, dizia.
          Àquela altura sua idade estava em tinha trinta e poucos anos. Rosto calmo, mãos delicadas, quase sempre usando o mesmo casaco escuro. Raramente sorria, mas isso não era necessário. Havia um sorriso subjacente em todos os seus atos, em todas as suas palavras. Assim eu achava.
          Como éramos diferentes! Eu, o típico carreirista, em constante atrito com certos colegas e principalmente com o chefe do departamento. Esse era quem mais me irritava, sempre achando que os meus projetos eram muito caros, ou inaplicáveis, ou absurdos. Às vezes eu me excedia na minha arrogância diante dele, mas sabia que estava a salvo. Minha competência era indiscutível. Mais de uma vez as minhas sugestões haviam salvado projetos aparentemente irrecuperáveis, e geralmente era eu quem enxergava erros nem sempre óbvios nos trabalhos dos outros. O nível do departamento cairia se me despedissem. Por isso o chefe e os outros tinham que me tolerar.
          Foi durante uma das diversas crises ─ a pior de todas ─ que conheci o meu querido amigo. Ele havia chegado de outra universidade para trabalhar conosco. Ninguém sabia, àquela altura, das suas tendências filosóficas. Numa época em que todos procuravam produzir mais e melhor, aperfeiçoando-se tecnicamente e apresentando resultados, ele dava-se ao luxo de questionar a natureza das coisas. Isso era filosofia, não era ciência.
          Surpreendentemente, nossas divergências de personalidade nunca foram problema. Desde o primeiro dia em que nos encontramos nos demos muitíssimo bem. Ele dizia admirar a minha ─ por assim dizer ─ agressividade, algo que não possuía; quanto a mim, sentia muita tranquilidade na presença dele e tinha um grande prazer em ouvi-lo falar, expondo suas ideias, suas dúvidas, suas aspirações.
          Mas, como estava dizendo, na época em que nos conhecemos eu estava empenhado em uma das minhas batalhas contra o chefe do departamento.
          Acontecia que o governo vinha encarregando os cientistas de certas tarefas cujos objetivos desconhecíamos. Eram tão específicas e tão diferentes entre si que se tornava impossível juntar o quebra-cabeça e desvendar que projeto havia por detrás de tudo aquilo. Para descobri-lo teríamos que promover uma reunião com todos os participantes ─ físicos, químicos, biólogos, engenheiros, médicos e biofísicos.
          Isso era impossível por dois motivos: não sabíamos quem estava envolvido, e os trabalhos eram confidenciais. Ninguém teria coragem de faltar à palavra dada, escrita e assinada de não divulgar o objeto de seu trabalho. Na época em que estávamos, não seria nada saudável para um pesquisador perder as boas graças com o governo.
          Pois bem, a divergência surgiu porque eu e o chefe adotamos posições contrárias na questão de aceitar ou não tais incumbências. Ele não queria aceitá-las alegando que estaríamos trabalhando para alguma coisa cujo fim desconhecíamos e que bem provavelmente reprovaríamos se conhecêssemos. Não fosse assim, dizia ele, qual o motivo de tanto mistério?
          Eu, por meu lado, estava disposto a aceitar o que me dessem para fazer, porque, afinal de contas, não só dependíamos deles para obter as nossas subvenções como também − qualquer que fosse o misterioso projeto − jamais poderia ser nocivo ao nosso povo e ao nosso país. Hoje me admiro por não ter considerado o fato de que o governo era autoritário, uma ditadura que já durava três décadas. Portanto de nada se podia ter certeza.
          Resumindo a história, o instituto aceitou as incumbências e vários pesquisadores daquele departamento se dispuseram a colaborar. Logo tornou-se óbvio que à minha equipe havia sido confiada uma parte importante do trabalho, visto que a verba destinada era muito alta.
          Passamos a desenvolver as atividades em um setor isolado, cuja segurança era garantida pela presença de guardas armados. Nosso equipamento chegava em caixas fechadas sem nenhuma indicação do seu conteúdo. Somente a mim e aos meus assistentes era dado conhecer o que acontecia naquela dependência. Ainda assim não saberíamos dizer a que se prestaria o produto dos nossos esforços. Alguém ou algum grupo em íntimo contato com o governo havia idealizado uma coisa grande e importante, e tão inédita que nem mesmo nós, com a nossa experiência, podíamos deduzir.
          Foi então que o chefe fez algumas tentativas de se aproximar de mim para saber o que eu fazia. Não direi que quase o tenha conseguido, mas confesso que era difícil não sucumbir à impressão de quase fascínio que sempre me causou. Ele era uma pessoa atraente, quer pelo seu porte, quer pela fisionomia de tranquila inteligência, quer pelo modo de fixar aqueles intrigantes olhos azuis nos olhos da gente.
          Quando fui trabalhar no seu departamento eu era um estudante recém-graduado, ao passo que ele já ocupava uma posição importante. Ao andar pelos corredores carregando peças ou aparelhos, com o jaleco amarrotado e não raramente sujo de graxa, algumas vezes eu o encontrava. Ele se detinha e me esperava passar. Essa habitual precedência na passagem era para mim motivo secreto de um certo orgulho, bobagem típica de principiante inseguro.
          Fui aos poucos crescendo na profissão, sempre trabalhando muito e tentando ignorar a presença daquele homem importante que me assustava um pouco e me fascinava um pouco. Assim, quando ele tentou se aproximar fiquei bastante inquieto, temendo que a velha admiração dos tempos de estudante viesse a prejudicar o meu estado de alerta e deixar escapar alguma coisa do que ele estava pretendendo ouvir. Por isso sempre ficava de sobreaviso quando ele vinha conversar sobre assuntos muito distantes daquele que preocupava a nós ambos. Nessas ocasiões a minha petulância crescia de tal modo que chegava a incomodar até mesmo a mim.
          Foi então que apareceu o meu futuro grande amigo. Nada de extraordinário, nada de especial aconteceu na primeira vez em que nos vimos. Cenário: copa do departamento. Circunstâncias: ele tentando saber em qual garrafa estava o chá. Conhecimento só para iniciados, já que o chá ficava na garrafa verde e o café na garrafa vermelha, sem nenhum rótulo indicativo. Apontei a garrafa certa e pensei comigo que ele devia ser teórico, porque um físico experimental descobriria bem depressa sem precisar perguntar a ninguém.
          Depois de dois minutos de conversa já nos sentíamos muito à vontade um com o outro.
          Ele jamais perguntou no que eu estava trabalhando. Creio que mesmo um poeta solitário como ele devia ter ouvido sobre o tal projeto confidencial, e por isso não tocava no assunto. Mas se eu tivesse dito alguma coisa ele teria ouvido silenciosamente sem fazer outras perguntas. Seria um ouvinte e não um inquisidor.
          Nunca saberei quanto tempo a nossa amizade singela teria durado se numa tarde eu não tivesse surpreendido uma cena absolutamente chocante.
          Precisando de um certo componente que ainda demoraria a chegar, lembrei-me de que havia alguns exemplares no armário de um laboratório fora das nossas instalações. Fui para lá pensando em repor a retirada quando o meu pedido chegasse. Ignorei consecutivamente vários avisos de “entrada proibida” que antes não existiam. Estranhei mas não me detive; obviamente aqueles avisos não se referiam a mim.
          Ao passar por um corredor, através de uma porta entreaberta vi claramente o meu amigo na mais estranha das atitudes. Ele estava de pé, sem o seu habitual casaco escuro, segurando as abas da própria camisa de forma a mantê-la aberta e com o tórax exposto.
          Diante dele, inclinando-se para frente, o chefe tinha a mão direita estendida em direção ao seu peito, sendo que a esquerda segurava alguma coisa que parecia ser um dispositivo eletrônico.
          Enquanto um olhava fixamente a parede, o outro estava compenetrado no que fazia; por isso não notaram que havia alguém no corredor. Assim pude me aproximar o suficiente para ver... um tórax de robô exibindo uma inconcebível complicação de fios, mostradores, plaquinhas de circuitos e uma variedade de LEDs.
          Fiquei tão chocado que não pude impedir uma exclamação de susto. No ínfimo momento que se passou desde que eles me olharam até que eu começasse a correr, tudo ficou claro em minha mente.
          O que era o meu querido amigo, afinal? Um ciborgue controlado pelo chefe? Todos nós sabíamos das suas pesquisas sobre biofísica e biocibernética. Mas daí a conviver com um ciborque real sem nunca suspeitar... era inacreditável!
          Então o plano era me espionar através do meu amigo. O que haveria nos seus ouvidos ─ microfones? Quem conversava comigo horas seguidas naquelas noites? Quem ouvia sobre os meus problemas, quem me dava apoio emocional? Qual dos dois? Seria devido à sua condição de organismo cibernético que ele possuía aqueles olhos perdidos, aquela atitude absorta, e ─ sobretudo ─ seria por isso que jamais fizera aproximações amorosas? Que fingia não perceber que eu o amava?
          Corri dali tão depressa que não puderam me alcançar. Peguei o meu carro e fugi, a princípio sem saber para onde. O que aconteceria se o chefe me apanhasse? Não tinha dúvida de que me mataria.
          Só sei que queria fugir, e continuei dirigindo. Muito tempo depois notei que me seguiam, não o chefe mas sim a polícia!
          Compreendi perfeitamente: ele havia me denunciado, dizendo que eu estava tentando sair do país para levar informações sobre o projeto.
          A fronteira internacional estava bem perto. O que eu poderia fazer? Abandonei o carro de portas abertas e motor ligado à margem do córrego que naquele trecho delimitava a fronteira. Queria induzi-los a pensar que havia passado para o outro lado. Entrei na mata e segui a pé, sem rumo definido. Por que não voltar e tentar provar a culpa do chefe? Eu não queria voltar. Não poderia tornar a ver o meu amigo sabendo agora que ele era um ciborgue. Precisava fugir de tudo, esquecer tudo, atravessar a fronteira, mudar de nome, de ocupação, de personalidade. Mas não agora, porque me encontrariam facilmente.
          Continuei avançando para dentro da mata. Já amanhecia quando cheguei a um pequeno povoado. Umas dez casas de madeira muito modestas, porém bem cuidadas e cercadas de jardins. Algumas pessoas me viram chegar e vieram ao meu encontro. Contei que a polícia estava atrás de mim para me impedir de atravessar a fronteira. As autoridades não eram bem vistas por aquela gente; julgaram que eu era um perseguido político e me esconderam. O plano era deixar as coisas se normalizarem para depois eu seguir adiante.
          Passei algum tempo naquele povoado, vendo os homens saírem pela manhã carregados de enxadas e foices, indo trabalhar na roça, e voltando à noitinha pouco antes de escurecer. A maioria das mulheres cuidava da casa, das crianças, das hortas e jardins. Eu ajudava em tudo o que podia, principalmente fazendo consertos e cuidando das hortas. Não estava feliz, mas me sentia entorpecido; havia superado o sofrimento dos primeiros dias. Perto dali ficava um campo coberto de flores, depois um capinzal. Mais além, a fronteira, a liberdade!
          Não sei quantos dias fiquei lá. Só me lembro de que saí da apatia quando uma tarde, perto do pôr-do-sol, vi chegar o meu amigo! A mesma face de poeta, o mesmo casaco escuro, os mesmos olhos tranquilos.
          Isso significava que eles sempre souberam onde eu estava. Não foram enganados pela minha ingênua estratégia de abandonar o carro. Ou teria alguém me denunciado?
          Eu não queria lhe falar, mas ele me prendeu pelas mãos (eram quentes e macias, genuínas mãos humanas) e me obrigou a ouvi-lo.
          Disse-me que não era um robô, não era um ciborgue, apenas possuía implantes eletrônicos no tórax devido a um acidente grave, e fora justamente o nosso chefe quem havia feito tais implantes. Depois da sua recuperação o havia recomendado para trabalhar no instituto porque assim poderia estar próximo para prestar assistência em caso de necessidade.
          Quando citei espionagem ele negou, mostrou-se magoado, argumentou, tentou expor evidências, pediu-me para retornarmos juntos. Mas eu não estava ouvindo nada, não estava acreditando em nada.
          Então ele me beijou.
          Então ele me levou de volta.

Imagem: https://jeffwendell.wordpress.com
"Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem; pomba minha, tu que te recolhes nas aberturas da pedra, na concavidade do muro, mostra-me a tua face, ressoe a tua voz aos meus ouvidos, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

"Cântico dos Cânticos de Salomão", Capítulo 2 - Antigo Testamento

domingo, 29 de março de 2015

Adeus à Ilha das Flores

O que faz o jovem Melker Öberg lá no meio da campina, deitado sobre a relva, em plena meia-noite?
Está esperando o mundo acabar.
Ele esteve até as 11 da noite, hora do por-do-sol de verão, orando em companhia dos tios e primos. Agora que anoiteceu e todos foram descansar pela última vez em suas camas, ele resolveu esperar o fim do mundo ali, em contato com a natureza, a fim de usufruir plenamente o que está para acontecer. Seja para o bem, seja para o mal.
Vildablommorö é a ilha das flores silvestres. Por isso Melker está rodeado de flores. A luminosidade crepuscular vai durar até as 5 da manhã, hora do nascer do sol. Não é possível ver as estrelinhas mais fracas. Mesmo assim o céu está bonito, o ar está fresquinho, a grama está macia.
Ele abre os braços, fica olhando o céu e pensando em Hedvig Falk. Se ela fosse sua namorada estaria aqui com ele, de mãos dadas, esperando juntos o fim do mundo. Mas ela não retribui seus olhares, então como pode ele se aproximar e conversar? Uma pena que acabe tudo assim, cada um no seu canto, separados para sempre.
Seria preferível que Hampus Holmgren não tivesse voltado com a notícia e que ninguém ficasse sabendo do que estava para acontecer. Acabar tudo de surpresa seria melhor.
O velho comerciante viajava regularmente a Estocolmo, onde vendia os produtos da ilha e providenciava as encomendas. Desta vez voltou com uma novidade. Ouviu de um pastor, durante o culto em um templo da cidade, que um cometa se aproximava da Terra. Não ia colidir, mas a sua incomensurável cauda tóxica envenenaria toda a atmosfera. A data para o acontecimento era entre hoje e amanhã, provavelmente de madrugada. Todos morreriam asfixiados, não havia como escapar.
Melker pensava que era uma sorte os seus pais terem falecido anos atrás. Não suportaria vê-los passar por essa agonia. Fechou os olhos levemente mas abriu depressa, não queria dormir. Queria ver tudo acontecer. Será que o ar se tornaria brilhante, cheio de fagulhas? Talvez escuro como fumaça? Talvez opaco e esbranquiçado como vapor?
Fechou os olhos de novo, para pensar em Hedvig. Foi quando sentiu-se subindo ao espaço. Com toda a leveza. Flutuando. Morrer era assim tão suave?
Acordou de repente com o sol no rosto. Olhou em volta. Estranho, tudo estava normal. O mundo não havia acabado.
Voltou para casa e descobriu que todos estavam muito zangados com Hampus Holmgren por ter pregado uma peça de tão grande mau gosto. Quase toda a população da ilha (umas duzentas pessoas) foi bater à porta do comerciante.
— Vocês estão zangados comigo porque o mundo não acabou? Não tenho culpa! Foi o pastor quem disse!
Melker achou engraçado as pessoas estarem irritadas por não terem morrido. Ele mesmo estava irritado, mas era por ter sido tão ingênuo. Tomou uma resolução. Não queria mais viver assim longe de tudo, sem conhecimento das coisas, tornando-se vulnerável a qualquer bobagem trazida de fora por um ignorante. Com certeza o povo de Estocolmo não tinha passado a noite orando e esperando o fim do mundo.
— Vovô Melker, foi assim que o senhor resolveu vir para o Brasil?
— Foi. Tomei a resolução nesse mesmo dia.
— Mas por que não escolheu morar em Estocolmo, que era muito mais perto?
— Porque eu estava cansado do frio, dos verões sem noite, dos invernos sem dia, da mesmice das coisas, de tudo. Eu queria movimento, aventura, cores e calores, frutas tropicais e animais exóticos.
— E a senhora, vovó Hedvig? Nunca sentiu saudade da sua vida lá em Vildablommorö?
— Só tenho saudade de uma coisa. Daquela campina verdinha, extensa, coberta de flores silvestres...

(Vovó disse isso sorrindo, olhando para o vovô com um brilho no olhar que não deixava a menor dúvida sobre o verdadeiro motivo da saudade...)
Imagem: http://www.masterfile.com

quarta-feira, 25 de março de 2015

Amor rima com estupor

Vou chegando no bar e vejo que o meu amigo já está lá.
— Desculpa, me atrasei.
— Não faz mal, sem problema.
— O que você está escrevendo aí?
— Nada importante. Quando não tenho nada pra fazer fico procurando rimas.
— Tipo amor com dor?
(Me arrependo depois de falar, porque ele está na fase de luto após um namoro que não deu certo. Mas ele responde serenamente.)
— Amor com dor é muito fácil. Estou escrevendo palavras que rimam com ilha.
(Começa a ler.)
— Quilha, bilha, filha, virilha, pilha, Sevilha, quadrilha, braguilha, sextilha, trilha, matilha, maravilha, guerrilha, gargantilha...
(Aqui faz uma pausa, levanta a cabeça e contempla o vazio.)
— Quando cheguei nessa palavra, gargantilha, eu não conseguia lembrar de mais nenhuma. Pensei: se ela ainda me ama, vou me lembrar de mais uma agora mesmo.
(Percebo que vai ser uma noite muito chata. O cara ainda está com ideia fixa na menina e não tem pudor em escancarar. Acho que vou ter uma cólica terrível, pedir desculpa e ir pra casa. Mas tenho que aguentar mais um pouco.)
— E aí, lembrou de alguma?
— Lembrei de baunilha.
— Que bom.
— Só tem um problema.
(Santa Paciência, Batman!)
— Que problema?
— Logo depois lembrei de um monte.
(Volta a ler.)
— Andarilha, manilha, pastilha, maltrapilha, redondilha, partilha, planilha, cartilha, presilha.
(Muito cedo ainda para ter a cólica, tenho que enrolar mais um pouco.)
— E isso não é bom? Qual é o problema?
— É que fiquei com uma dúvida. Lembrar não de uma, mas de um monte de palavras, significa que ela me ama muito, ou significa que eu ia lembrar mesmo que não tivesse pensado nela?
(Pela primeira vez me olha nos olhos. Expressão triste e aparvalhada. Tenho pena mas também tenho raiva. Como tu é imbecil, cara.)
— Aaaai, estou morrendo de cólica!
Imagem: http://mcclellandsforchrist.blogspot.com.br

terça-feira, 17 de março de 2015

Abel e Floripes

Minha prima Patrícia é muito chata. Eu jamais escolheria uma menina como ela para ser minha amiga. Muito dramática e exagerada, meiguinha e sentimental até enjoar. Tem o costume idiota de só me chamar de “prima”.
Vira e mexe lá vem uma mensagem com uma oração anexada e a ameaça: “Mande para cinco pessoas. Três dias depois terá uma boa surpresa. Fulana ignorou esta mensagem e depois de três dias foi arrastada pela enxurrada. Nunca encontraram o corpo.”  Ou então coloca um vídeo de cachorrinho na rede social e pede: “Se achou esse cachorrinho fofo, compartilhe.” Como assim? O cachorrinho fofo está perdido, ou é pra compartilhar se eu o achei fofo? 
Um dia ela me liga toda espavorida:
Prima! Cê nem imagina o que aconteceu! Tô besta até agora!
Que ela estivesse besta eu nunca duvidaria, mas que fato a fez admitir essa verdade incontestável, isso eu nunca adivinharia mesmo.
“Que aconteceu, Patrícia?”
“Foi um livro que comprei. Descobri uma coisa incrível. Falar não adianta, vou levar aí pra te mostrar.”
Ai, meus deuses! Eu cheia de coisas para fazer, sem tempo nem paciência para futilidades. Mas sou frouxa demais para protestar, e meia hora depois ela está na minha frente me mostrando um livro antigo. “Histórias Românticas”, de Machado de Assis. Uma brochura envelhecida, capa amarelada com uma foto do autor. Abaixo do título as indicações:

W. M. Jackson Inc. - Editôres  
Rio de Janeiro, São Paulo, Pôrto Alegre, Recife. 

Assim mesmo: Editôres e Pôrto com acento circunflexo. Edição de 1957.
“Onde você arranjou isso, Patrícia?”
“Comprei num sebo. Quando vi que era do Machado de Assis, e “Histórias Românticas” ainda por cima, comprei na mesma hora. Só fui abrir em casa. Aí comecei a descobrir umas coisas intrigantes.”
Nem tentei fazer hipóteses. Sem tempo a perder com papo furado, perguntei que coisas eram essas. Ela pegou o livro da minha mão e foi apontando:
“Olha aqui, prima. Tá vendo essa dedicatória?”
Escritas com caneta-tinteiro, as letras caprichadas e desbotadas ainda deixavam ler:



Não vi nada de intrigante ali.
“O que tem de intrigante aqui, Patrícia?”
“Por enquanto nada. A esquisitice começa quando se descobre que a Floripes não leu o livro! Ela nem abriu e nem folheou! Recebeu o presente, guardou em algum lugar e nunca mais pegou! Aliás, o primeiro ser humano que abriu esse livro fui eu!”
“Mas como você sabe?”
“Eu sei porque tive que usar uma régua para cortar as páginas!”
“Como assim, criatura de Deus?”
“Coisa de publicações muito antigas! A encadernação era feita de um jeito que as folhas ficavam unidas duas a duas pela borda lateral, então a primeira pessoa que pegava para ler precisava separar as folhas. É só usar uma faca ou uma régua pequena e ir passando assim, de dentro pra fora.”
Ela ia dizendo e me mostrando. Realmente, as bordas não estavam retinhas, perfeitas, mas sim um pouquinho esfarrapadas. Patrícia continuava me explicando:
“Teve uma época em que era considerado anti-higiênico ler livro que já estava com as bordas cortadas.”
“Uai! Por quê?”
“Porque significava que outras pessoas já tinham lido e então ele podia estar contaminado.”
Fiquei um pouco admirada pela cultura livresca inútil da minha parenta.
“Caramba, que povo esquisito. Mas ainda não entendi qual é a coisa intrigante.”
“Veja você que o tal de Abel ofereceu um presente carinhoso para a prima Floripes e ela nem se incomodou em dar uma folheada. Devia ser uma ignorante, nem devia conhecer Machado de Assis.”
Eu estava incomodada com aquela perda de tempo e só por isso resolvi contrariar:
“Não necessariamente. Ela podia preferir poesia em vez de prosa. Ou podia conhecer o Machado mas não gostar. Ou então esse primo era um chato e ela estava irritada com ele.”
“Que seja, que seja. Mas me deixe continuar. Eu fui cortando as bordas e sabe o que encontrei escondidinho no meio de duas folhas ainda unidas?”
“Nem imagino.”
“Esta carta! Estava bem dobradinha, ela nunca foi lida.”
E me passou um papel amareladíssimo, com a mesma letra da dedicatória. Estava escrito:


Patrícia me observava com olhos ansiosos e deve ter notado que fui ficando cada vez mais espantada. Eu estava de queixo caído quando terminei.
“Esse Abel era um imbecil! Bem feito que ela não leu. Tomara que ele tenha se suicidado, um idiota a menos no mundo!”
Mas a prima meiguinha e romântica discordava.
“Como tem coragem de dizer isso, prima? Não vê que pode mesmo ter acontecido o pior?”
“Esse cara era covarde. Isso que ele fez foi uma tentativa de manipulação. Duvido que tenha cumprido a palavra.”
Mas ela estava melancólica:
“Sabe o que me deixa triste, prima? É que eu nunca vou saber o que aconteceu... Essa carta, que era para a Floripes ler, fui eu que li. Coitado do Abel. Pensou que tinha sido desprezado. Vai ver ela até gostava dele, mas era tímida. E no final, uma verdadeira tragédia...”
“Quem tá fazendo tragédia é você. Não deve ter acontecido nada. O manipulador imbecil não se matou, eles se casaram, tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.”
“Prima, você está dizendo isso só pra me consolar.”
Não era para consolar, era para ela ir embora logo e me deixar com os meus afazeres.
“Patrícia, tem um jeito de você descobrir o que aconteceu. É só fazer uma pesquisa nos jornais da época e ver se nessa data existe notícia de atropelamento por bonde. E se existir, qual o nome da vítima.”
Uma luz se acendeu nos olhos da prima! Ela me abraçou, me beijou, agradeceu e foi embora rapidinho.  Que alívio!
Dois dias se passaram em perfeita paz. No terceiro, logo de manhã, ela me liga.
“Prima, estive pesquisando sem parar. Até faltei na aula.”
Pausa. Eu tentando adivinhar o desfecho da história pelo tom da sua voz. Mas o tom era neutro.
“O que você descobriu, Patrícia?”
“Pesquisei tudo, prima. Todos os jornais daquela época que o acervo já foi digitalizado. Olhei tudo. Demorou.”
Pausa. Tom neutro. Eu começando a ficar nervosa.
“Mas qual foi o resultado da pesquisa, Patrícia?”
“Prima, que bom eu ter ido falar com você. Não sabe como me ajudou.”
Pausa. Eu francamente desesperada.
“Patrícia, pelo amor de Deus! O que você descobriu?”
Do outro lado da linha, silêncio. Uns dez segundos depois, o primeiro soluço.
"Você está chorando, Patrícia? Quer dizer que o Abel morreu?"
Cinco soluços depois:
"Morreeeeeeeeuuuu....."
Confesso que fiquei chateada. Tenho vergonha de confessar, mas fiquei.
"Não chore, Patrícia. Isso faz muito tempo."
"Prima, eu acho que sou a reencarnação da Floripes. É a única explicação para aquela carta ter vindo parar na minha mão."
"Nada a ver, é só coincidência."
Breve silêncio. Uma fungadela.
"Prima..."
(Dai-me paciência, Senhor!)
"Que é, Patrícia?"
"Me ajuda numa coisa? Depois não te peço mais nada, prometo."
(Já vi que é mais amolação que vem por aí.)
"O que você quer?"
"Me ajuda a localizar o túmulo do Abel?"