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sábado, 30 de setembro de 2017

O gigante e a pombinha

Minha filha Vanessa, quando pequena, adorava ouvir histórias antes de dormir. Foi por causa dela que me tornei escritora.
Ao contrário das outras crianças, ela não gostava de histórias repetidas.
Às vezes, por falta de ideias, eu tentava reciclar velhos contos de fadas mudando um pouco os personagens e o enredo, mas ela sempre reconhecia e reclamava:
― Não, mamãe, esse não. Esse você já contou. É daquela menina que furou o dedo e caiu dormindo, não é?
Depois de ler para ela todos os livrinhos, depois de contar todas as histórias de que me lembrava, comecei a inventar. Mas logo compreendi que devia ter cuidado porque ela percebia as pontas soltas.
― Mamãe, onde foi parar o cavalinho? Aí no final você só falou do porco, da cabrita e da galinha. O cavalinho sumiu por quê? 
Por isso comecei a ter mais cuidado com os meus roteiros, a ponto de tomar notas das ideias e sempre compor um diagrama de blocos com muitas flechinhas subindo e descendo. Para jamais esquecer um personagem ou quebrar uma sequência.
Assim surgiu o primeiro dos vários livros que publiquei.
Vai daí, uma semana atrás eu estava com um problema. Participando de um desafio literário, precisava escrever um conto de fadas. O prazo prestes a se esgotar e ainda faltava o final da história. Esse final não me ocorria, por mais que pensasse e repensasse.
Tive a ideia de ler o texto para a minha filha ― agora adolescente ― e pedir-lhe sugestão.
Expliquei que era para o público infantojuvenil, portanto ela deveria relevar o vocabulário simplório, as repetições e também certas imprecisões e incongruências.
― Tá legal, mãe. Manda vê.
Então “mandei vê”.
“Sem título ainda”

Era uma vez um gigante que habitava um rico castelo no topo de uma montanha.
Certo dia ele acordou sentindo-se doente e pensou que estava velho e cansado demais para continuar cuidando de tudo sozinho. Resolveu procurar ajuda.
Desceu até a aldeia no sopé da montanha, mas não conseguiu falar com ninguém porque todos fugiam de medo, entravam em suas casas e trancavam as portas.
O gigante já estava pensando em desistir da ideia quando, ao passar por uma bica, encontrou uma moça enchendo de água os seus potes .
Sem mais demora ele agarrou a moça e a carregou para o castelo. Chegando lá, explicou tudo o que era preciso fazer e avisou para que não fugisse, porque ele iria atrás e tudo seria muito pior para ela.
A moça fingiu obediência, mas sabia que o seu noivo não ia se conformar com a situação e mais cedo ou mais tarde apareceria a fim de resgatá-la.
Todas as noites, depois de passar o dia trabalhando sem parar, ela subia para o seu quarto na torre do castelo e ficava olhando o horizonte, tentando ver se o noivo estava chegando.
Em vez do noivo ela sempre encontrava uma pombinha branca pousada no parapeito da janela. Não tendo ninguém para conversar, conversava com a pombinha. A cada frase dita, a pombinha arrulhava como se estivesse respondendo.
― Será que ela me entende? pensou a moça.
Então teve uma ideia. Escreveu um bilhete e disse à amiguinha:
― Por favor, pegue este papel com o seu bico e leve para o meu noivo. Ele é ferreiro, então você tem que se guiar pelo som que ele faz ao martelar as ferraduras. É assim: tóim! tóim! tóim! Não tem como errar.
A pombinha pegou o papel e foi embora voando em direção à aldeia. Na manhã seguinte voltou com outro papel no biquinho. Estava escrito: “Minha noiva, precisamos nos livrar do gigante. Todos os seres mágicos têm a vida guardada em algum lugar. Procure descobrir onde está a vida do gigante, que eu irei lá e a destruirei. Assim poderei libertá-la e viveremos felizes e despreocupados.”
Na primeira oportunidade a moça fez a pergunta. Ele estranhou.
― Pra que você quer saber onde fica a minha vida? Está planejando me matar?
Ela, fazendo cara de inocente, respondeu:
― Pelo contrário, mestre. Quero cuidar muito bem do lugar onde fica a sua vida para que o senhor viva muito e com saúde.
O gigante contou que a sua vida ficava no meio da raiz do grande carvalho ao lado do castelo.
Ela foi lá e limpou o terreno em volta da árvore, plantando flores perfumadas e coloridas.
O gigante ficou olhando e não disse nada.
À noite ela escreveu outro bilhetinho ao noivo. A pombinha levou e pela manhã trouxe a resposta: “Minha noiva, o gigante está te testando. A vida dele não deve ficar na raiz do carvalho. Espere alguns dias e repita a pergunta.”
Foi o que ela fez.
― Mestre, eu limpei e enfeitei o carvalho, mas a sua saúde não está melhor do que antes. O que eu posso fazer para ajudar?
O gigante respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho. Ela tem forma de pérola e está dentro de uma ostra no fundo do mar.
A moça dessa vez colheu muitas rosas, foi para a beira do regato que passava atrás do castelo e ficou despetalando as rosas, jogando as pétalas na água. Antes de jogar ela dava um beijo em cada uma.
O gigante perguntou:
― Por que está fazendo isso?
Ela respondeu:
― O regato corre para o rio e o rio corre para o mar. Cada pétala leva uma mensagem de boa sorte. Assim o mestre terá uma vida longa e com saúde.
Quando a noite chegou a moça mandou outro bilhete ao noivo. A resposta trazida pela pombinha dizia: “Ele ainda está te testando. Espere alguns dias e pergunte de novo.”
Depois de alguns dias ela disse ao gigante:
― Mestre, não percebi melhora na sua saúde. Devo jogar mais rosas no regato?
Ele respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho nem dentro de uma ostra no fundo do mar. Está no coração de uma pombinha que mora na torre do castelo.

Vanessinha ficou me olhando.
― E depois, mãe?
― Parei aí. Não sei como terminar.
― É fácil. A moça deve matar a pombinha e pronto.
― Matar a pombinha?! Assim, friamente? Um ser inocente que a ajudava tanto?
― E daí? O plano não era matar o gigante? O que é a morte de uma pombinha perto da morte de um ser humano?
― Mas o gigante não é humano. É um ser fantástico e malvado.
Minha filha demonstrou impaciência:
― Ah mãe, quer saber mesmo o que eu acho? Acho que não era gigante nenhum. Era um homem velho, doente e sozinho. Ele foi à aldeia querendo contratar funcionários, mas os preguiçosos não estavam a fim de trabalhar. Daí ele encontrou a moça, que topou a parada já com segundas intenções. Vai ver, antes de subir a montanha ela trocou uma ideia com o tal noivo e os dois premeditaram o crime. A troca de bilhetinhos na verdade era só para combinar a melhor ocasião de ele entrar no castelo e assassinar o velho. Depois eles iam enterrar o corpo debaixo do carvalho. Se alguém perguntasse iam dizer que ele tinha morrido de causas naturais. E iam ficar com toda a fortuna pra eles, na maior tranquilidade.

Agora eu é que fiquei olhando para a minha filha, sem dizer nada.
Ela se levantou, pegou a mochila e foi saindo.
― Tchau, mãe. Boa sorte aí na finalização. Usa a minha ideia que vai ficar legal.
Já com a mão na maçaneta, ela virou e disse:
― A senhora não percebeu o que o velho queria dizer? A vida dele estava no coração de uma pombinha que morava na torre do castelo. Nunca vi uma declaração de amor mais explícita do que essa.

Não terminei o conto. Perdi o prazo para o envio do texto. Continuo sem saber como será o final. A moça mata friamente a pombinha? Ou manda bilhetinho para o noivo? Ele aproveita e estrangula no ato o ser inocente ou repete a ladainha de que a informação ainda não é a correta?
Vanessinha terá razão? Estará o gigante apaixonado pela moça? Ela fica com ele e esquece o noivo moleirão que só enrola e não vai salvá-la?
Alguém pode me ajudar? Como será o fim deste conto de fadas?



Imagem: Book for Red Chair Press, The Princess and the Giant

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O príncipe e a bruxa

          Eu era um príncipe, por isso tinha uma fada madrinha. Depois do falecimento prematuro dos meus pais devido a uma enfermidade desconhecida, ela se tornou ainda mais presente na minha vida. Fazia visitas frequentes e me orientava em todas as dúvidas e decisões importantes. Ela sempre afirmava que o grande amor que a minha mãe sentia por mim havia se transferido inteiro para o coração dela. E que amor de mãe é de todos o maior e o mais puro.
          Um dia enamorei-me, e tive sorte: aquela mulher extraordinária retribuiu plenamente os meus sentimentos. Tornamo-nos um casal perfeito. Assim todos afirmavam e nós concordávamos. O casamento parecia ser o único caminho a seguir.
          Eu também tinha uma amiga a quem conhecia desde a adolescência. Uma amizade normal e tranquila, sem sobressaltos. Minha namorada não demonstrava ter nenhum ciúme dessa amiga, nem esta daquela. Por isso a minha vida era totalmente pacífica e eu só esperava terminar os estudos para propor casamento à amada do meu coração.
          Foi quando a fada madrinha apareceu com um semblante preocupado e disse ter algo importante a me dizer; não poderia deixar de fazer esse alerta mesmo se quisesse porque era sua obrigação como madrinha e fada. Segundo suas palavras, o meu casamento aconteceria em breve, isso estava certo, mas era preciso tomar cuidado com uma bruxa que estava tentando amarrar o meu destino ao dela. Se conseguisse, eu seria muito infeliz em sua companhia e só um amor verdadeiro seria capaz de me libertar de tal vínculo. Após isso, um ato de grande coragem de minha parte seria necessário para me restituir a felicidade, caso contrário eu jamais voltaria a ser feliz.
          Desde esse dia uma inquietação corrosiva me dominou. Quem seria a bruxa que me desejava tanto assim? Certamente uma pessoa conhecida e exímia dissimuladora. Se demonstrasse ser capaz de semelhante maldade, seria possível identificá-la e evitá-la. Então deveria ser alguém aparentando justamente o contrário.
          Tornei-me pensativo e taciturno. Olhava em volta tentando identificar a malévola criatura, mas não tinha como descobrir. Pedi ajuda à fada madrinha. Ela respondeu estar proibida de me orientar sobre esse assunto porque envolvia livre arbítrio, o qual não poderia ser influenciado. Senti-me totalmente desamparado. Dúvidas absurdas foram se infiltrando em meu coração. No dia em que a minha namorada me ofereceu um doce e eu tive medo de aceitá-lo, precisei reconhecer dolorosamente: era dela que eu mais suspeitava.
          Nos dias subsequentes, graças a uma profunda reflexão, fui descobrindo vários indícios para apoiar tal hipótese. Por exemplo, ela sempre se mostrava preocupada com a minha alimentação e era normal me oferecer frutas e doces, que eu comia com muito gosto. No entanto, a aparente prova de afeto poderia ser outra coisa. Quais encantamentos haveria naqueles alimentos? Seria essa a fonte da enorme atração que eu sentia por ela?
          Uma vez a surpreendi desenhando, e era o meu rosto que ela desenhava de memória. No momento achei bonito e fiquei feliz com o gesto. Mas, pensando bem, a que se prestaria tal desenho? A um feitiço de amarração?
          E aquele dia quando planejamos nos encontrar na ponte de pedra sobre o lago, e caiu uma terrível tempestade com muito vento, raios e trovões? Eu cheguei atrasado porque esperei a tempestade passar, mas ela estava lá, toda molhada, pálida e com frio, me esperando. Fiquei com muita pena e remorso, e abracei-a para aquecê-la. Considerei um milagre que nada de ruim houvesse acontecido. Agora, olhando sob outro ponto de vista, acho bem estranho que ela, tão pequena e frágil, não tivesse tido medo de ficar exposta ao perigo só para me esperar. Talvez tivesse certeza da sua invulnerabilidade...
          Quanto mais pensava, mais indícios encontrava. Os sonhos tão vívidos com ela, o fato de nunca esquecê-la em nenhum momento, o mistério de haver me apaixonado tão perdidamente por uma pessoa que nada tinha de excepcional além da sua personalidade, a qual poderia muito bem ser falsa...
          Qual a razão de ela não ter ciúmes da minha amiga? Isso não era normal. Eu podia passar horas conversando com essa amiga, até fazer passeios e sessões de estudo, e mesmo assim a minha namorada não perdia a serenidade. Tratava a outra com educação e com um sorriso em todas as ocasiões. Até porque a amiga era mais jovem e mais bonita, algum ciúme seria compreensível. Porém jamais houve qualquer demonstração. De onde vinha tanta confiança?
          O mais grave de tudo era o fato de que ela parecia adivinhar os meus pensamentos. Apenas um olhar era suficiente. Qual outra resposta para isso, senão bruxaria?
          Eu sofri muito, mas não sabia como me desvencilhar daquela situação. Principalmente porque uma parte de mim rejeitava todas essas conclusões e queria esquecer tudo, casar com ela e ser feliz. Porém a outra parte gritava alto dentro de minha mente, era impossível ignorar.
          Por que a fada madrinha se sentiu obrigada a me dar aquele aviso? Por que precisou envenenar a minha alma? Tão mais felizes são as pessoas comuns, a quem ninguém avisa de nada e assim podem viver plenamente o que têm de viver sem sofrimentos antecipados.
          Não sabendo o que fazer, não fiz nada. Fui me tornando cada vez mais indiferente à presença da minha namorada, cada vez mais frio e apático; nada do que ela fazia ou dizia modificava a minha atitude. Quando questionado, eu respondia que algo estranho estava acontecendo comigo, mas que ainda gostava dela da mesma forma. Era apenas uma fase, provavelmente uma longa fase, mas que certamente iria passar. Só não sabia quando.
          Ela esperou durante longos meses, sem me cobrar nem me recriminar. Eu a vi definhando dia a dia perante os meus olhos e senti uma sombra de culpa, mas não o suficiente para ter compaixão. Finalmente ela percebeu que era inútil esperar mais e foi embora em silêncio. Ao vê-la afastar-se, sabendo que nunca mais a veria, uma parte de mim (o coração) sofreu, mas a outra parte (a mente) ficou aliviada. Estava livre da bruxa.
          Quem me ajudou nessa fase tão conturbada foi a minha amiga. Soube me ouvir com muita paciência, me apoiou e me ajudou a superar as mágoas. A maior de todas era o resíduo de dúvida que eu ainda carregava: a de ter sido injusto e ter cometido um grande erro. Ela me convenceu de que eu havia agido acertadamente e que precisava esquecer tudo isso. Vida nova era a melhor atitude dali em diante. Não entendo muito bem como aconteceu, mas pouco tempo depois estávamos noivos.
          Tal como havia dito a fada madrinha, casei-me menos de um ano depois de suas previsões. Embora não sentisse pela amiga a paixão que havia sentido pela namorada, acreditei que um grande amor (o que a amiga sentia por mim) me havia libertado, exatamente como o previsto.
          Tudo estava perfeito. Então de onde vinha aquela infelicidade? De onde vinha aquele desassossego? E a repulsa que crescia mais e mais pela amiga agora esposa?
          Por que jurei amá-la para sempre, se não a amei nunca? Por que a pedi em casamento?
          Como pude deixar ir embora a única pessoa que me completava, que me fazia sentir plenamente vivo, cheio de alegria, de paz e de esperanças? Como pude me convencer de que ela me faria algum mal? Como pude me deixar manipular assim? Como pude me casar com uma bruxa?!
          Ao perceber tudo isso, imediatamente fui embora do castelo. Nenhuma bruxaria, por mais poderosa, seria capaz de me arrastar de volta. O amor verdadeiro (aquele que eu sentia pela minha namorada) me libertou.
          Abandonei tudo e todos, nunca mais quis voltar e nem tornar a ver ninguém. Odeio a bruxa, odeio a fada madrinha. Sinto-me traído e traidor.
          Minha madrinha envenenou a minha alma e depois negou ajuda; minha amiga aproveitou-se da situação e não disse a única coisa que eu precisava e queria ouvir: “siga o seu coração”. Quanto a mim, fui covarde e medroso, deixei-me manipular vergonhosamente.
          Até hoje, a segunda condição para a reconquista da felicidade, o ato de coragem que eu deveria praticar, não aconteceu. Nunca tive coragem de procurar a minha amada, e jamais terei. Como poderia me apresentar diante dela e pedir o seu perdão? Eu a julguei, condenei e apliquei a pena sem nunca lhe ter dado a chance de defesa.
          Consigo agora enxergar o quanto fui egoísta não pensando uma vez sequer, com seriedade, no seu sofrimento. Que deve ter sido imenso. Afinal, nunca me expliquei. Nunca disse adeus. Nunca a libertei para que ela pudesse procurar a felicidade com outra pessoa.
          Ainda assim, é melhor que tudo continue como está. Se eu aparecer diante dela e disser que a desprezei por acreditar que era uma bruxa, será mais um punhal no seu coração. Melhor será que me esqueça ou que me odeie. Eu viverei assim como mereço: infeliz para sempre.

Imagem: http://www.kevinalfredstrom.com

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A pedra azul

Há muito tempo, em uma aldeia distante, existia uma mocinha órfã de pai e mãe que vivia com a sua madrasta. Essa mulher fazia-se de muito boa para todo mundo, mas dentro de casa era uma verdadeira peste. Ao ficar viúva não pôde colocar para fora a enteada porque a esta pertencia a casinha onde moravam. Então resolveu fazê-la de escrava, obrigando-a a trabalhar dia e noite para sustentar a ambas.
Além das responsabilidades da casa, a menina tinha que cuidar da horta e do pomar e também levar as verduras, legumes e frutas para o mercado. À noite, em vez de descansar, era obrigada a fazer trabalhos de costura.
Para piorar tudo, sua madrasta a mandava para o quarto com um toco de vela que não durava quase nada, por isso seus trabalhos de costura estavam sempre incompletos no dia seguinte. Dessa maneira a malvada tinha pretexto para recriminá-la e castigá-la.
Um dia a menina caminhava para o mercado equilibrando sobre a cabeça uma cesta pesada de hortaliças e frutas. Ia muito triste, pensando na vida, sem saber como mudar tudo aquilo. De repente, em uma curva da estrada, encontrou uma velhinha. Embora não a conhecesse, cumprimentou-a educadamente e ofereceu-lhe uma laranja, já que fazia muito calor e a senhora parecia estar com sede.
“Obrigada, filha. Você tem bom coração. Mas me diga: por que está assim tão triste?”
Normalmente a menina não se abriria a uma estranha, mas aquela senhora parecia tão confiável que ela lhe contou tudo. Então a velhinha tirou da sacola uma caixa de madeira já bem desgastada e disse:
“À noite, quando a vela acabar, abra esta caixa que o seu quarto vai ficar clarinho e você vai poder terminar o serviço. Assim a sua madrasta não vai ter motivo para te atormentar.”
A menina aceitou o presente mesmo sem entender como aquela caixa poderia iluminar a escuridão. Agradeceu e seguiu para o mercado.
À noite, como sempre, recebeu uma boa quantidade de serviço para fazer e o costumeiro toco de vela, que cada vez vinha mais curto. Porém sentia-se excepcionalmente despreocupada. Logo que a vela acabou, abriu a caixa de madeira e para sua grande surpresa havia uma pedra luminosa dentro! A pedra emanava uma luz azul muito bonita, clareando tudo com suavidade.
Nessa noite ela fez o serviço completo. Misteriosamente foi tudo muito rápido e ela não se sentiu exausta e com os olhos ardendo, como sempre acontecia. Pelo contrário, estava descansada e tranquila. Dormiu bem e acordou revigorada.
A madrasta ficou irritadíssima ao ver que não tinha como recriminar a menina, mas não falou uma palavra. Estava intrigada sem entender como o trabalho, além de completo, se apresentava mais bem feito do que de costume.
No dia seguinte aconteceu a mesma coisa, então ela resolveu investigar. Nessa noite foi espiar pelo buraco da fechadura e viu quando a menina tirou da caixa aquela linda pedra azul e luminosa. Imediatamente decidiu furtá-la. Queria aquela luz tão bonita no seu próprio quarto, e também queria de volta os motivos para azucrinar a enteada.
Na primeira ocasião em que ficou sozinha em casa, foi ao quarto da menina. Procurou e logo encontrou a caixa de madeira debaixo do colchão. Ali mesmo a abriu com intenção de levar a pedra embora e deixar a caixa vazia no mesmo lugar. Porém algo estranho aconteceu...
Em vez da pedra, ela encontrou uma cobrinha azul.
A cobrinha saltou para fora e imediatamente a picou. A malvada morreu na mesma hora.
Ao voltar para casa, a menina encontrou a madrasta caída, picada de cobra, com a caixa vazia ao lado.
Apesar de todo o sofrimento que havia passado, ela perdoou aquela mulher, rezou por sua alma e providenciou um sepultamento digno.
Nunca reencontrou a pedra azul, mas agora não precisava mais porque só trabalhava de dia. Alugou o quarto da madrasta para a velhinha da estrada, a qual nunca explicou o mistério. Mas a menina não se preocupou com isso, e viveu em paz e harmonia dali para a frente.

Imagens:
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quarta-feira, 16 de julho de 2014

A bruxa, o dragão, a sapinha e a princesinha

          Há muito, muito tempo, na época em que os bichos falavam, existia uma bruxa neurótica e desagradável que morava em uma campina verde e florida. Toda vez que ela se irritava com alguém ou com alguma coisa, fazia a mágica da transformação só para se vingar.
          Uma vez, por exemplo, deu uma topada numa pedra e machucou o dedão. Não foi culpa da pedra, é claro, mas ela se irritou e... PLAFT!!! Transformou a pedra num monte de cocô. Bem feito que a varinha dela ficou toda suja de cocô, mas aí ela transformou a sujeira em uma nuvem de moscas que voaram para longe, deixando a varinha limpa de novo.
          Todo mundo tinha medo da bruxa neurótica porque ela era imprevisível e malvada. Já havia um monte de coisas transformadas por ali, o que não era nada legal.
          Então um dia ela recebeu uma carta anônima que dizia assim: “Dona bruxa, a senhora vive irritada por um motivo muito simples: as belezas desta terra não combinam com a sua pessoa. Um local muito melhor para a senhora viver é lá na cratera do vulcão. Não existem criaturas vivas, só pedras, e o ar tem cheiro de enxofre dia e noite porque nem ventinho entra lá.”
          A bruxa ficou irritada porque a ideia era muito boa e alguém tinha pensado naquilo antes dela. Fez uma bruxaria para descobrir o autor da carta, foi lá e disse:
           “Você é muito enxerido, viu? Só por causa disso vou te transformar num dragão!” ZAPT!!! Transformou o autor da carta em um dragão!
           “Dona bruxa - perguntou ele, deveras chateado - como se desfaz este encantamento?”
           “Você só vai voltar ao que era se uma princesa der um beijo no teu focinho! Mas qual princesa vai ter coragem de chegar perto de um dragão? Ha ha ha ha ha ha ha!!!“
          Gargalhando feito louca ela montou na vassoura e foi embora voando, direto para a cratera do vulcão.
          Enquanto isso acontecia, uma sapinha observava de longe, bem escondida. Quando o dragão ficou sozinho ela se aproximou e disse:
           “Meu príncipe! Que maldade ela fez com você! Como posso te ajudar?”
          O dragão, todo triste, contou sobre o método de desencantamento, dizendo que nenhuma princesa ia querer beijar o seu focinho. Mas a sapinha afirmou que ia ajudá-lo.
           “Como vai me ajudar, querida sapinha?”
           “Vou até o castelo da princesa, conto para ela o que aconteceu, e ela vem aqui te desencantar.”
           “Mas é uma viagem muito longa e perigosa!”
           “Não faz mal. Sou corajosa e vou te ajudar, meu príncipe!”
          Disse e fez. Superou todos os obstáculos e conseguiu chegar ao jardim do palácio da princesa. Ficou lá quietinha perto do lago onde a princesa ia brincar todos os dias. Esperou pacientemente, e por fim conseguiu se aproximar e contar a ela toda a história do dragão.
          A princesa mostrou-se bastante interessada:
           “Quer dizer que o seu príncipe foi transformado em dragão? Coitado! Claro que vou ajudar. Ele era bonito antes da transformação?”
           “Muito bonito! O mais bonito de todos!”
          Imediatamente a princesa pegou a sapinha, colocou-a lá no alto da cabeça, bem no meio da sua coroa, e falou:
           “Então você me ensina o caminho que vamos agora mesmo!”
          Dessa vez a viagem foi bem mais rápida porque a princesa tinha pernas muito mais compridas que a sapinha, e além disso estava apressada.
          Chegando lá, a sapinha chamou:
           “Meu príncipe, saia de onde estiver que a princesa já está aqui pra te desencantar!”
          O dragão saiu de trás de uma grande pedra onde estivera escondido e se aproximou devagarinho, meio envergonhado. Mas a princesa não se intimidou, foi até ele e lhe deu um grande beijo no focinho. TÓIMMMM!!! O dragão desencantou!!!
          A princesinha levou um susto e não entendeu nada.
           “Sapinha, o que saiu errado? Ele virou sapo!!!”
           “Não, princesinha, eu não virei sapo! Eu sempre fui sapo. A bruxa malvada me transformou em dragão mas eu era um sapo.”
          Enquanto isso a sapinha já tinha corrido para abraçá-lo, e não parava de dizer:
           “Meu príncipe! Meu príncipe!”
          Final da história: apesar da decepção, a princesa acabou achando muito fofo aquele casalzinho de sapos e os convidou para morarem lá no lago do palácio. Eles foram e povoaram tudo aquilo com muitos sapinhos graciosos. E a princesa ficou feliz.
          A bruxa também ficou feliz morando na cratera do vulcão. Os únicos seres viventes que lhe faziam companhia eram as moscas que surgiram daquele cocô grudado em sua varinha.
          Os habitantes daquele lugar bonito também ficaram felizes. Todas as coisas e seres transformados se destransformaram, e todos viveram felizes para sempre.

Imagem: http://kiddiescornerdeals.com