Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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domingo, 7 de março de 2021

Mais cinco minutinhos

Destrancamos a porta lentamente, com todo o cuidado para não assustá-la. Quando abrimos, ela estava sentada sobre um caixote de madeira, vestida com roupas que obviamente não eram suas. Ao redor, pedaços de pano e de papelão, alguns tijolos espalhados, desordem e poeira.

Em vez de uma reação de alegria ou de alívio, ela nos olhou com indiferença.  Nem sequer se levantou. Tive que tomar a iniciativa:

--- Vem, senhora. Pode sair. Já prendemos a quadrilha.

Ela, desinteressada:

--- Prenderam?

--- Prendemos todos. A senhora está segura. Pode vir conosco. Seu marido aguarda lá fora.

Ela nem se mexeu.

--- Ele pagou o resgate?

--- Não. Ele acionou a polícia. 

--- Entendo.

E ficou em silêncio, olhando para o nada. Deve ser trauma, pensei. Melhor conversar mais um pouco.

--- Então. Sua família está ansiosa. Vamos sair daqui agora? Seus pais viajaram pra cá e estão na sua casa esperando. 

--- Ah sim. Meus pais...

Meu Deus! Que entusiasmo contagiante! Resolvi ser mais assertiva e chamá-la pelo nome, com outro tom de voz:

--- Vamos agora, dona Cláudia. A perícia quer entrar pra fazer o trabalho deles. Não tem por que continuarmos aqui. A senhora precisa passar por exame e depois se alimentar e descansar.

Me encarou pela primeira vez:

--- Pode me fazer um favor?

--- Com certeza, dona Cláudia, é só dizer.

Ela olhou em volta. Suspirou como se estivesse se despedindo do lugar.

--- Me dá só mais cinco minutinhos?



terça-feira, 2 de março de 2021

Dourado ou azul?

Assim que entramos na sala o seu olhar foi atraído, como sempre, pela parede coberta de quadros. Aproximou-se de uma paisagem em duas cores, demonstrando grande interesse. Ficou lá parado, totalmente absorvido pela imagem. 

--- Bonito, né? disse eu só para quebrar o silêncio. 

Tive a impressão de que não me ouviu, mas algum tempo depois respondeu:

--- Esse quadro é novo. Não tava aqui antes.

Sou incapaz de imaginar como o meu filho consegue perceber essas coisas. A parede abarrotada de pinturas, uma bagunça de cores que parece uma salada de frutas, ou um arco-íris esfacelado, sei lá. Mesmo que frequentasse aquele ambiente todos os dias,  eu jamais iria perceber alguma mudança.

--- É a vida,  mãe. 

---- Me explica, filho. Só estou vendo duas figuras num barquinho.

--- Canoa, mãe. 

--- Que seja. Mas por que é a vida?

--- O remador precisa remar com atenção, sem perder tempo, porque se perder tempo vai ficar de noite, vai ficar tudo escuro.

--- Como você sabe?

--- A sombra. A sombra aumenta e vai chegando perto. Ele quer alcançar o outro lado antes da sombra escurecer o lago.

--- Ah, é um lago? Pensei que era um rio.

Na verdade eu não estava pensando nada, só queria incentivar a conversa. Ele, muito sério, sem tirar os olhos da imagem:

--- É um lago. Ele precisa chegar do outro lado antes de escurecer.

--- E a figura que está com ele, sentada atrás?

--- É a sabedoria,  mãe. 

--- Então não é uma pessoa?  É uma espécie de anjo? Tipo o anjo da sabedoria?

--- Anjo não. É a sabedoria que nasceu com ele. Aonde ele vai, a sabedoria vai junto.

--- Nesse caso ele é alguém especial, já que recebeu esse dom.

--- Todo mundo nasce com sabedoria. 

--- Mas nem todo mundo é sábio. Pouca gente demonstra sabedoria. 

--- É porque não é obrigado, mãe. Se não quiser usar não usa.

--- Entendi. Mas voltando pro quadro, me diga uma coisa. Se a escuridão chegar até ele antes de alcançar a margem do lago, o que acontece?

--- A vida acaba. A sabedoria tá falando o que ele tem que fazer. Se fizer, a vida acaba só na outra margem. Se não fizer, a escuridão alcança ele e ele morre no meio da travessia. 

--- Então é melhor ouvir os conselhos da sabedoria. 

Nesse momento ele se virou e, para minha surpresa, me olhou nos olhos.

--- Por quê, mãe?

Fui salva pela recepcionista:

--- Vocês já podem entrar, a doutora está esperando.

Eu sei que ele não vai esquecer a pergunta. Uma hora vou ter que responder por que a jornada mais longa é melhor que a mais curta. 

Não sei a resposta agora. 

Espero que me surja alguma inspiração durante a nossa consulta de rotina, com a psiquiatra preferida do meu filho.



Imagem: Johannes Plenio

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A maldição de Rosalina

Aqui é o lugar perfeito . 
No alto da escadaria, no conforto deste assento macio, consigo observar todo o salão. 
Não faz diferença ele estar mascarado. 
Cada pessoa tem o seu jeito; o dele é inconfundível.

Muitas coisas ele não sabe. Nem suspeita.

Não sabe o quanto penso nele. 
Não sabe que posso reconhecê-lo na multidão. 
Não sabe o motivo de eu estar usando esta máscara tão delgada, incapaz de esconder minhas feições. 
Não sabe que me sentei aqui a fim de ser vista com facilidade.  

Tudo para que, ao chegar, venha ao meu encontro.
Tudo para ficarmos juntos.

Tudo para vê-lo entrar e no mesmo instante ocupar-se daquela menina fantasiada de santinha. 

Não olhou em volta. 
Não me procurou. 
Sequer se lembrou de mim. 

É isso o que você quer? 
É isso o que você escolheu? 

Assim seja. 

Nunca saberá que esta seria a nossa noite.
A noite tão aguardada.
A noite inesquecível. 
A noite destinada a durar para sempre.  

Não importa.
Não ficarei no seu caminho.
Não me lamentarei. 

Siga o seu destino.

Seja feliz, Romeu. 

Se puder.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Velhos deuses

Juntos estamos como há muito temos estado. Só nós dois.
Eu, deus.
Ele, meu derradeiro crente.
Ninguém mais.
Tanto tempo, tanto tempo, que as bordas se desvaneceram.
É ele aqui comigo onde habitam os deuses, entre as nuvens que vagam sobre os picos mais altos?
Ou sou eu lá com ele onde habitam os humanos, em meio aos charcos sombrios?
É dele a cabeça exausta que se apoia nos meus joelhos? Ou é nos joelhos dele que eu me inclino e desfaleço?
Não há mais diferença. Tudo se tornou indistinto. Como as montanhas distantes fundindo-se no azul do céu.
Ele tem me sustentado e eu a ele.
O último do seu povo. Todos os outros, mortos. Ele único. Ele e eu: sozinhos.
Não fosse por mim já teria morrido também. Liguei o fio de prata da sua vida às energias celestes. Etéreo cordão umbilical.
Muita energia escorreu por esse fio, energia vinda do nada. Passou por ele, retornou ao nada.
Pouco resta para ele próprio tornar-se nada.
Junto com ele, eu.
Que há de mais aterrorizante do que a não existência?
Esse terror agora nos domina.
Suportamos ao máximo. Estamos esgarçados.
Eu não existo sem ele, ele não existe sem mim. Mas nenhum de nós é eterno.
Nestes últimos instantes a razão não me basta. O que eu sei não me consola. A convivência me tornou humano. Tenho emoções. Sofro.
Eu não queria morrer. Não queria fazer você morrer. Porque quando eu me for, você irá comigo. Ao nada. Ao não ser. Ao nunca ter sido.
Mesmo assim, embora seja inútil insistir, reafirmo que te adorei. Que te glorificava a cada manhã. Que te agradecia pelos raios de sol, pelas gotas de chuva e pelas estrelas.
Porque sem você nada haveria neste mundo. Nada nem ninguém nem prazer nem dor e ainda na dor eu te agradecia. Por continuar vivo.
Agora não tenho mais dor, só tristeza. No fim de tudo, valeu a pena?
Ah, a dúvida. Por que agora a dúvida? Toda uma vida de crença e adoração.
Quem fez as leis a que obedeci? E se não as tivesse obedecido?
Meu entendimento se esvai. Minha mente se confunde. O sentido de tudo se desorganiza.
Sinto-me débil. Ele não pode me ajudar porque minha debilidade o contamina.
Perder tudo é a maior das dores. Ao menos a crença ― ou a ilusão da crença ― poderia restar.
A morte com dignidade: a morte com a certeza de que tudo valeu a pena.
Por que, deus, me negas esse último consolo?
Enxergo com os olhos dele. Seus olhos buscam as estrelas, âncoras da eternidade. Quer se unir a elas e permanecer.
É inútil. O fio de prata tornou-se névoa, dissipou-se no espaço.
Descansemos, meu criador, minha criação.
As estrelas estão se apagando. Quem se apaga? Elas ou nós?
Elas em nós.
Mergulhemos na escuridão. Unidos como sempre estivemos.
E não tenha medo, porque sempre fomos um único. E com Ele continuaremos a ser.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Lá, naquele lugar


Eu me sentia tão bem naquele lugar. Lá eu era quem realmente sou. Nada mais, nada menos. Apenas eu.
Enquanto vivia aqui, sempre fui o que queriam que eu fosse; sempre fiz o que queriam que eu fizesse.
Todos ficavam satisfeitos, me aprovavam e sorriam. Todos viviam contentes, menos eu.
Lá não. Lá eu era diferente. Não pensava em ninguém. Nem sequer me lembrava dos outros. Estava muito ocupado comigo mesmo. Sendo feliz pela primeira vez.
Me sentia aliviado, essa é verdade.
Agora que voltei, voltei diferente.  Consigo ver com clareza: sempre carreguei um peso nas costas. Era difícil, mas eu me esforçava. Até que não consegui mais.
Por isso fui para lá.
A vida inteira desejei duas coisas: um jardim e uma horta. 
Conversa de maluco, diziam meus pais. Você tem que estudar, não pode perder tempo chafurdando na terra. Essas coisas a gente compra na feira e na quitanda. Vai estudar, menino, larga de inventar histórias.
Estudei, me formei. Agora vou ter um jardim e uma horta, pensava. Jardim? Horta? Minha noiva estranhava. Um dia quem sabe, depois da aposentadoria. Agora temos outras prioridades.
Montamos casa, criamos nossa filha, me aposentei.
Jardim, pai? Horta? Pra quê? Com essa idade, fazer serviço pesado com pá e enxada? Tomar friagem? Melhor não. Olha a saúde.
Pois fiquem sabendo que lá, naquele lugar, eu tinha tudo isso. E ninguém para me criticar.
Plantei um jardim na frente da casa e uma horta nos fundos. Sim, porque eu tinha uma casa. Estão pensando o quê? Que eu vivia ao relento? Não senhor.
Era uma casinha pequena, simples, e eu nunca me senti tão confortável.
Plantei margaridas, rosas, gerânios e dálias.
E todas floriram em pouco tempo! Um colorido maravilhoso. As borboletas, abelhas e pássaros aprovaram o meu jardim. Coisa linda de se ver como o ar se enchia de asas e sons.
Ainda não contei sobre o meu amigo, o Francisco de Paula. Ele morava mora ainda na casa mais perto da minha. Não há muitas habitações por lá, mas o suficiente para a gente não se sentir só. Às tardes nos sentávamos na varanda e ficávamos observando as borboletas, abelhas e beija-flores. Bichinhos abençoados.
Francisco gostava do meu café. Ninguém da minha família gostava. Muito fraco, diziam. Pois o Francisco achava melhor assim, fraco e com bastante açúcar.
Me ajudou a plantar a horta. Eu não sabia bem o que era melhor plantar, então ele me trouxe sementes e mudas. Ervilha, cenoura,  tomate, espinafre e alface. E também ervas: manjericão, alecrim e orégano. Horta pequena, mas muito viçosa. A última coisa que plantei foi berinjela, e já estava quase ficando boa de colher quando voltei pra cá.
Não me conformo. Abandonei tudo aquilo pra quê?
Um dia acordei e não sei por que motivo comecei a pensar na família. Minha mulher, minha filha, genro e netos. Durante todo o tempo que fiquei lá nunca pensei neles, mas naquele dia me levantei preocupado.
Francisco me disse: se você acha que deve voltar, volte. Siga o seu coração.
No final das contas acabei seguindo o meu sentimento de culpa. Estava feliz longe deles. Não me preocupava a respeito de como se sentiam com a minha ausência. Sofriam? Eram indiferentes? Estariam satisfeitos? Pouco me interessava. Que pessoa egoísta eu era. Tinha que me penitenciar. Tinha que voltar e fingir que me importava.
Agora estou novamente entre eles, e mais infeliz do que nunca.
Todos em redor da minha cama.
A esposa, de olhar cansado, mal contendo a vontade de se lamentar. Não está propriamente feliz com o meu retorno. Seu pensamento é: quando ficarei livre de todo esse incômodo?
A filha preocupada, mas não muito. Sinto-a mais focada em sua própria vida, nos problemas com o marido e os filhos. Entendo. É natural que seja assim.
O genro irritado com a perda de tempo. Tantas tarefas urgentes e ele ali fazendo de conta.
Netos impacientes. Gostamos do vô, mas gostamos mais de fazer as nossas coisas.
Será que voltei com o poder de ler pensamentos? Ou voltei senil, paranoico?
Noite passada conversei em sonho com o Francisco de Paula.
Ele disse: você pode vir pra cá quando quiser, meu amigo, mas dessa vez vai ser definitivo. Não é permitido ficar viajando de um lugar para o outro assim, toda hora.
Preciso decidir. O que me faz mais feliz: minha família ou minha horta?
Tenho pensado muito naquelas berinjelas...

terça-feira, 31 de julho de 2018

Ser ou não ser

Moleque ainda, eu trabalhava na venda do meu tio. Ano de mil, novecentos e quarenta, se tanto.
À tarde ficava sozinho por longo tempo, já que o tio saía para almoçar e se demorava bastante nos seus comeres e beberes.
Certa ocasião, só eu na venda, entrou um freguês e já foi apontando para a manta de carne dependurada ao lado do balcão:
― O que é isso?
― É carne seca.
Ele ajeitou os óculos e chegou mais perto, demonstrando interesse.
― Deixe ver como está.
E passou o dedo sobre a manta.
― Isto aqui não é carne seca.
― Como não? É carne seca sim senhor.
― Mas está molhada.
― Molhada? Pode estar úmida por causa desse tempo abafado. Mas é carne seca.
― Se está úmida, não é carne seca.
Senti falta do tio. Aquele freguês ia ter coragem de azucrinar a paciência de gente grande do mesmo jeito que azucrinava a paciência de uma criança?
― Olha, senhor, ela está úmida agora, mas é carne seca legítima. Todo mundo compra e ninguém nunca reclamou.
― Mas estou te dizendo, menino. Ou é uma coisa, ou é outra. Se é seca, é seca. Se é molhada, é molhada. Isto aqui é carne molhada.
Fiquei sem resposta. Só consegui dizer:
― Faz assim: o senhor compra e depois enxuga ela.
― Pois então não fique dizendo para as pessoas que é seca. Se o freguês precisa enxugar, então é molhada.
Meu tio que não aparecia. Resolvi concordar.
― É verdade, o senhor tem toda a razão.
Ele se mostrou satisfeito:
― Ainda bem que reconhece. Me vê aí um filão de pão.
― E quanto o senhor vai levar de carne seca? Quer dizer, molhada?
― Quem falou que eu quero comprar carne, menino? Só vim mesmo pra comprar um filão de pão!
Depois de receber o troco foi embora resmungando.
― Cada uma! Querendo me empurrar carne molhada. Eu, hein?


Imagem: https://asimplicidadedascoisas.wordpress.com

sábado, 30 de setembro de 2017

O gigante e a pombinha

Minha filha Vanessa, quando pequena, adorava ouvir histórias antes de dormir. Foi por causa dela que me tornei escritora.
Ao contrário das outras crianças, ela não gostava de histórias repetidas.
Às vezes, por falta de ideias, eu tentava reciclar velhos contos de fadas mudando um pouco os personagens e o enredo, mas ela sempre reconhecia e reclamava:
― Não, mamãe, esse não. Esse você já contou. É daquela menina que furou o dedo e caiu dormindo, não é?
Depois de ler para ela todos os livrinhos, depois de contar todas as histórias de que me lembrava, comecei a inventar. Mas logo compreendi que devia ter cuidado porque ela percebia as pontas soltas.
― Mamãe, onde foi parar o cavalinho? Aí no final você só falou do porco, da cabrita e da galinha. O cavalinho sumiu por quê? 
Por isso comecei a ter mais cuidado com os meus roteiros, a ponto de tomar notas das ideias e sempre compor um diagrama de blocos com muitas flechinhas subindo e descendo. Para jamais esquecer um personagem ou quebrar uma sequência.
Assim surgiu o primeiro dos vários livros que publiquei.
Vai daí, uma semana atrás eu estava com um problema. Participando de um desafio literário, precisava escrever um conto de fadas. O prazo prestes a se esgotar e ainda faltava o final da história. Esse final não me ocorria, por mais que pensasse e repensasse.
Tive a ideia de ler o texto para a minha filha ― agora adolescente ― e pedir-lhe sugestão.
Expliquei que era para o público infantojuvenil, portanto ela deveria relevar o vocabulário simplório, as repetições e também certas imprecisões e incongruências.
― Tá legal, mãe. Manda vê.
Então “mandei vê”.
“Sem título ainda”

Era uma vez um gigante que habitava um rico castelo no topo de uma montanha.
Certo dia ele acordou sentindo-se doente e pensou que estava velho e cansado demais para continuar cuidando de tudo sozinho. Resolveu procurar ajuda.
Desceu até a aldeia no sopé da montanha, mas não conseguiu falar com ninguém porque todos fugiam de medo, entravam em suas casas e trancavam as portas.
O gigante já estava pensando em desistir da ideia quando, ao passar por uma bica, encontrou uma moça enchendo de água os seus potes .
Sem mais demora ele agarrou a moça e a carregou para o castelo. Chegando lá, explicou tudo o que era preciso fazer e avisou para que não fugisse, porque ele iria atrás e tudo seria muito pior para ela.
A moça fingiu obediência, mas sabia que o seu noivo não ia se conformar com a situação e mais cedo ou mais tarde apareceria a fim de resgatá-la.
Todas as noites, depois de passar o dia trabalhando sem parar, ela subia para o seu quarto na torre do castelo e ficava olhando o horizonte, tentando ver se o noivo estava chegando.
Em vez do noivo ela sempre encontrava uma pombinha branca pousada no parapeito da janela. Não tendo ninguém para conversar, conversava com a pombinha. A cada frase dita, a pombinha arrulhava como se estivesse respondendo.
― Será que ela me entende? pensou a moça.
Então teve uma ideia. Escreveu um bilhete e disse à amiguinha:
― Por favor, pegue este papel com o seu bico e leve para o meu noivo. Ele é ferreiro, então você tem que se guiar pelo som que ele faz ao martelar as ferraduras. É assim: tóim! tóim! tóim! Não tem como errar.
A pombinha pegou o papel e foi embora voando em direção à aldeia. Na manhã seguinte voltou com outro papel no biquinho. Estava escrito: “Minha noiva, precisamos nos livrar do gigante. Todos os seres mágicos têm a vida guardada em algum lugar. Procure descobrir onde está a vida do gigante, que eu irei lá e a destruirei. Assim poderei libertá-la e viveremos felizes e despreocupados.”
Na primeira oportunidade a moça fez a pergunta. Ele estranhou.
― Pra que você quer saber onde fica a minha vida? Está planejando me matar?
Ela, fazendo cara de inocente, respondeu:
― Pelo contrário, mestre. Quero cuidar muito bem do lugar onde fica a sua vida para que o senhor viva muito e com saúde.
O gigante contou que a sua vida ficava no meio da raiz do grande carvalho ao lado do castelo.
Ela foi lá e limpou o terreno em volta da árvore, plantando flores perfumadas e coloridas.
O gigante ficou olhando e não disse nada.
À noite ela escreveu outro bilhetinho ao noivo. A pombinha levou e pela manhã trouxe a resposta: “Minha noiva, o gigante está te testando. A vida dele não deve ficar na raiz do carvalho. Espere alguns dias e repita a pergunta.”
Foi o que ela fez.
― Mestre, eu limpei e enfeitei o carvalho, mas a sua saúde não está melhor do que antes. O que eu posso fazer para ajudar?
O gigante respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho. Ela tem forma de pérola e está dentro de uma ostra no fundo do mar.
A moça dessa vez colheu muitas rosas, foi para a beira do regato que passava atrás do castelo e ficou despetalando as rosas, jogando as pétalas na água. Antes de jogar ela dava um beijo em cada uma.
O gigante perguntou:
― Por que está fazendo isso?
Ela respondeu:
― O regato corre para o rio e o rio corre para o mar. Cada pétala leva uma mensagem de boa sorte. Assim o mestre terá uma vida longa e com saúde.
Quando a noite chegou a moça mandou outro bilhete ao noivo. A resposta trazida pela pombinha dizia: “Ele ainda está te testando. Espere alguns dias e pergunte de novo.”
Depois de alguns dias ela disse ao gigante:
― Mestre, não percebi melhora na sua saúde. Devo jogar mais rosas no regato?
Ele respondeu:
― A minha vida não está na raiz do carvalho nem dentro de uma ostra no fundo do mar. Está no coração de uma pombinha que mora na torre do castelo.

Vanessinha ficou me olhando.
― E depois, mãe?
― Parei aí. Não sei como terminar.
― É fácil. A moça deve matar a pombinha e pronto.
― Matar a pombinha?! Assim, friamente? Um ser inocente que a ajudava tanto?
― E daí? O plano não era matar o gigante? O que é a morte de uma pombinha perto da morte de um ser humano?
― Mas o gigante não é humano. É um ser fantástico e malvado.
Minha filha demonstrou impaciência:
― Ah mãe, quer saber mesmo o que eu acho? Acho que não era gigante nenhum. Era um homem velho, doente e sozinho. Ele foi à aldeia querendo contratar funcionários, mas os preguiçosos não estavam a fim de trabalhar. Daí ele encontrou a moça, que topou a parada já com segundas intenções. Vai ver, antes de subir a montanha ela trocou uma ideia com o tal noivo e os dois premeditaram o crime. A troca de bilhetinhos na verdade era só para combinar a melhor ocasião de ele entrar no castelo e assassinar o velho. Depois eles iam enterrar o corpo debaixo do carvalho. Se alguém perguntasse iam dizer que ele tinha morrido de causas naturais. E iam ficar com toda a fortuna pra eles, na maior tranquilidade.

Agora eu é que fiquei olhando para a minha filha, sem dizer nada.
Ela se levantou, pegou a mochila e foi saindo.
― Tchau, mãe. Boa sorte aí na finalização. Usa a minha ideia que vai ficar legal.
Já com a mão na maçaneta, ela virou e disse:
― A senhora não percebeu o que o velho queria dizer? A vida dele estava no coração de uma pombinha que morava na torre do castelo. Nunca vi uma declaração de amor mais explícita do que essa.

Não terminei o conto. Perdi o prazo para o envio do texto. Continuo sem saber como será o final. A moça mata friamente a pombinha? Ou manda bilhetinho para o noivo? Ele aproveita e estrangula no ato o ser inocente ou repete a ladainha de que a informação ainda não é a correta?
Vanessinha terá razão? Estará o gigante apaixonado pela moça? Ela fica com ele e esquece o noivo moleirão que só enrola e não vai salvá-la?
Alguém pode me ajudar? Como será o fim deste conto de fadas?



Imagem: Book for Red Chair Press, The Princess and the Giant