Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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quinta-feira, 19 de março de 2015

A macarronada da dona Rosa

— Dona Rosa, vem cá. Me conte alguma coisa da sua vida, que eu quero escrever uma história pro meu blog.
— Uma história como? Comprida ou curta?
— De preferência curta, porque não quero gastar muito espaço na página.
— Uma história alegre ou triste?
— Conte uma história alegre porque o mundo já anda bem triste. Chega de tristeza.
— Tá bom. Uma história curta e alegre... Não precisa ser muito complicada, né?
— Não, quanto mais simples melhor. Vamos deixar de lado as complicações e as tristezas.
— Olha, o que eu me lembro agora, neste instante, é uma coisa que aconteceu quando eu era moça solteira, lá na casa do meu pai e da minha mãe. Se você quiser eu penso mais um pouco pra me lembrar de outras.
— Não precisa, dona Rosa, vai essa mesma.
— Então tá. Foi assim. Um dia o meu pai resolveu trocar o piso lá de casa, porque era um assoalho de madeira que já tava muito velho, cheio de cupim. Então ele chamou um pessoal que ele conhecia pra fazer o serviço. A minha mãe era meio louca, não gostava de gente estranha em casa, então ela falou que ia se trancar no quartinho do quintal e só ia sair quando os homens tivessem ido embora. Eu falei: “Mãe, o serviço vai levar o dia inteiro, como a senhora vai fazer pra se alimentar? Posso levar comida pra senhora?” Ela respondeu que não, que ia levar umas bolachas, uma garrafinha de chá, e não precisava de mais nada. Eu até acreditei, porque tinha dia que ela passava mesmo a bolacha e chá. Mas como ia fazer pra ir no banheiro? Ela disse: “Pode deixar que eu levo o penico comigo.”
— Cruz credo, dona Rosa! Trancada num quartinho, com chá, bolacha e penico?
— Eu falei que a minha mãe era meio louca, menina. Ela fazia coisas assim. Nem estranhei. Daí ela disse que já tinha comida feita pro almoço, era só pegar na geladeira. “Tem suficiente pra você e pro seu pai. Eu vou passar o dia com as bolachas, e de noite faço comida nova.” Concordei, né? Fazer o quê? Os trabalhadores chegaram às oito horas da manhã. Eram três. Eles falaram que até as seis da tarde o serviço ficava pronto, porque já tinham experiência e não perdiam tempo. E assim foi, eles trabalhavam bem depressa, não paravam pra nada. Quando chegou a hora do almoço eu perguntei: “Vocês trouxeram marmita ou vão sair pra comer?” Responderam que não iam fazer intervalo pro almoço porque não queriam perder tempo. “Mas vocês vão passar o dia trabalhando, sem parar nem pra comer?” Responderam que sim, que estavam acostumados. Mas eu não me conformei. Fui olhar na geladeira e vi que a comida era pouca, não dava pra cinco pessoas. Olhei pra cá, olhei pra lá, e pensei: “Não dá tempo de fazer comida complicada pra toda essa gente, vai demorar muito. Tenho que fazer alguma coisa rápida.” Então fui lá, peguei uns pacotes de macarrão e resolvi fazer macarronada. Mas macarronada sozinha era muita pobreza, eu precisava inventar alguma mistura. Resolvi caprichar no molho, porque assim ficava uma coisa gostosa e com sustância. Foi o que fiz. Refoguei cebola e alho no azeite, coloquei bastante tomate, bastante tempero, uns legumes e umas ervas. Despejei tudo numa panelona e chamei o pessoal. Eles ficaram meio sem jeito, mas eu disse: “Não vão me fazer essa desfeita, né? É só uma macarronada. Não demora nada pra comer. Depois o serviço vai render mais.” Então eles aceitaram e veio um de cada vez pra não interromper a labuta. Ainda coloquei na mesa o pouco de arroz, feijão e mistura que a minha mãe tinha deixado na geladeira, mas eles nem pegaram. Gostaram mesmo foi da macarronada. Eu vi muito bem que todos comeram com gosto, inclusive o meu pai, que era meio enjoado. Eu fui ficando pra trás, porque precisava prestar atenção se a comida estava suficiente pra todo mundo. Se não estivesse ia correr pra fritar um ovo ou qualquer coisa. Mas deu tudo certo, todo mundo comeu até se fartar, agradeceu, e no final ainda sobrou pra mim. Olha, vou te dizer, estava gostoso mesmo. Fui lavar a louça muito contente, e enquanto lavava fiquei pensando: “Que maravilha! Como é bom fazer comida e as pessoas aproveitarem tão bem.” Quando chegou as seis da tarde o serviço estava feito, a casa inteira de assoalho novo, tudo muito bonito. Foi um dia feliz na minha vida porque eu senti que tinha feito uma coisa boa, e descobri como adoro cuidar das pessoas. Pronto, menina, a história acabou.
— E a sua mãe, dona Rosa? Não houve nenhum problema com ela?
— Não. Ela saiu do quartinho, falou que nem tinha precisado usar o penico, e ainda aproveitou pra botar defeito no assoalho novo. Mas ela punha defeito em tudo, então a gente nem se admirou...
E dona Rosa deu uma risada feliz.


Imagem:http://www.tudogostoso.com.br

terça-feira, 17 de março de 2015

Abel e Floripes

Minha prima Patrícia é muito chata. Eu jamais escolheria uma menina como ela para ser minha amiga. Muito dramática e exagerada, meiguinha e sentimental até enjoar. Tem o costume idiota de só me chamar de “prima”.
Vira e mexe lá vem uma mensagem com uma oração anexada e a ameaça: “Mande para cinco pessoas. Três dias depois terá uma boa surpresa. Fulana ignorou esta mensagem e depois de três dias foi arrastada pela enxurrada. Nunca encontraram o corpo.”  Ou então coloca um vídeo de cachorrinho na rede social e pede: “Se achou esse cachorrinho fofo, compartilhe.” Como assim? O cachorrinho fofo está perdido, ou é pra compartilhar se eu o achei fofo? 
Um dia ela me liga toda espavorida:
Prima! Cê nem imagina o que aconteceu! Tô besta até agora!
Que ela estivesse besta eu nunca duvidaria, mas que fato a fez admitir essa verdade incontestável, isso eu nunca adivinharia mesmo.
“Que aconteceu, Patrícia?”
“Foi um livro que comprei. Descobri uma coisa incrível. Falar não adianta, vou levar aí pra te mostrar.”
Ai, meus deuses! Eu cheia de coisas para fazer, sem tempo nem paciência para futilidades. Mas sou frouxa demais para protestar, e meia hora depois ela está na minha frente me mostrando um livro antigo. “Histórias Românticas”, de Machado de Assis. Uma brochura envelhecida, capa amarelada com uma foto do autor. Abaixo do título as indicações:

W. M. Jackson Inc. - Editôres  
Rio de Janeiro, São Paulo, Pôrto Alegre, Recife. 

Assim mesmo: Editôres e Pôrto com acento circunflexo. Edição de 1957.
“Onde você arranjou isso, Patrícia?”
“Comprei num sebo. Quando vi que era do Machado de Assis, e “Histórias Românticas” ainda por cima, comprei na mesma hora. Só fui abrir em casa. Aí comecei a descobrir umas coisas intrigantes.”
Nem tentei fazer hipóteses. Sem tempo a perder com papo furado, perguntei que coisas eram essas. Ela pegou o livro da minha mão e foi apontando:
“Olha aqui, prima. Tá vendo essa dedicatória?”
Escritas com caneta-tinteiro, as letras caprichadas e desbotadas ainda deixavam ler:



Não vi nada de intrigante ali.
“O que tem de intrigante aqui, Patrícia?”
“Por enquanto nada. A esquisitice começa quando se descobre que a Floripes não leu o livro! Ela nem abriu e nem folheou! Recebeu o presente, guardou em algum lugar e nunca mais pegou! Aliás, o primeiro ser humano que abriu esse livro fui eu!”
“Mas como você sabe?”
“Eu sei porque tive que usar uma régua para cortar as páginas!”
“Como assim, criatura de Deus?”
“Coisa de publicações muito antigas! A encadernação era feita de um jeito que as folhas ficavam unidas duas a duas pela borda lateral, então a primeira pessoa que pegava para ler precisava separar as folhas. É só usar uma faca ou uma régua pequena e ir passando assim, de dentro pra fora.”
Ela ia dizendo e me mostrando. Realmente, as bordas não estavam retinhas, perfeitas, mas sim um pouquinho esfarrapadas. Patrícia continuava me explicando:
“Teve uma época em que era considerado anti-higiênico ler livro que já estava com as bordas cortadas.”
“Uai! Por quê?”
“Porque significava que outras pessoas já tinham lido e então ele podia estar contaminado.”
Fiquei um pouco admirada pela cultura livresca inútil da minha parenta.
“Caramba, que povo esquisito. Mas ainda não entendi qual é a coisa intrigante.”
“Veja você que o tal de Abel ofereceu um presente carinhoso para a prima Floripes e ela nem se incomodou em dar uma folheada. Devia ser uma ignorante, nem devia conhecer Machado de Assis.”
Eu estava incomodada com aquela perda de tempo e só por isso resolvi contrariar:
“Não necessariamente. Ela podia preferir poesia em vez de prosa. Ou podia conhecer o Machado mas não gostar. Ou então esse primo era um chato e ela estava irritada com ele.”
“Que seja, que seja. Mas me deixe continuar. Eu fui cortando as bordas e sabe o que encontrei escondidinho no meio de duas folhas ainda unidas?”
“Nem imagino.”
“Esta carta! Estava bem dobradinha, ela nunca foi lida.”
E me passou um papel amareladíssimo, com a mesma letra da dedicatória. Estava escrito:


Patrícia me observava com olhos ansiosos e deve ter notado que fui ficando cada vez mais espantada. Eu estava de queixo caído quando terminei.
“Esse Abel era um imbecil! Bem feito que ela não leu. Tomara que ele tenha se suicidado, um idiota a menos no mundo!”
Mas a prima meiguinha e romântica discordava.
“Como tem coragem de dizer isso, prima? Não vê que pode mesmo ter acontecido o pior?”
“Esse cara era covarde. Isso que ele fez foi uma tentativa de manipulação. Duvido que tenha cumprido a palavra.”
Mas ela estava melancólica:
“Sabe o que me deixa triste, prima? É que eu nunca vou saber o que aconteceu... Essa carta, que era para a Floripes ler, fui eu que li. Coitado do Abel. Pensou que tinha sido desprezado. Vai ver ela até gostava dele, mas era tímida. E no final, uma verdadeira tragédia...”
“Quem tá fazendo tragédia é você. Não deve ter acontecido nada. O manipulador imbecil não se matou, eles se casaram, tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.”
“Prima, você está dizendo isso só pra me consolar.”
Não era para consolar, era para ela ir embora logo e me deixar com os meus afazeres.
“Patrícia, tem um jeito de você descobrir o que aconteceu. É só fazer uma pesquisa nos jornais da época e ver se nessa data existe notícia de atropelamento por bonde. E se existir, qual o nome da vítima.”
Uma luz se acendeu nos olhos da prima! Ela me abraçou, me beijou, agradeceu e foi embora rapidinho.  Que alívio!
Dois dias se passaram em perfeita paz. No terceiro, logo de manhã, ela me liga.
“Prima, estive pesquisando sem parar. Até faltei na aula.”
Pausa. Eu tentando adivinhar o desfecho da história pelo tom da sua voz. Mas o tom era neutro.
“O que você descobriu, Patrícia?”
“Pesquisei tudo, prima. Todos os jornais daquela época que o acervo já foi digitalizado. Olhei tudo. Demorou.”
Pausa. Tom neutro. Eu começando a ficar nervosa.
“Mas qual foi o resultado da pesquisa, Patrícia?”
“Prima, que bom eu ter ido falar com você. Não sabe como me ajudou.”
Pausa. Eu francamente desesperada.
“Patrícia, pelo amor de Deus! O que você descobriu?”
Do outro lado da linha, silêncio. Uns dez segundos depois, o primeiro soluço.
"Você está chorando, Patrícia? Quer dizer que o Abel morreu?"
Cinco soluços depois:
"Morreeeeeeeeuuuu....."
Confesso que fiquei chateada. Tenho vergonha de confessar, mas fiquei.
"Não chore, Patrícia. Isso faz muito tempo."
"Prima, eu acho que sou a reencarnação da Floripes. É a única explicação para aquela carta ter vindo parar na minha mão."
"Nada a ver, é só coincidência."
Breve silêncio. Uma fungadela.
"Prima..."
(Dai-me paciência, Senhor!)
"Que é, Patrícia?"
"Me ajuda numa coisa? Depois não te peço mais nada, prometo."
(Já vi que é mais amolação que vem por aí.)
"O que você quer?"
"Me ajuda a localizar o túmulo do Abel?"


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Conto de Natal

Capítulo do livro "Os meninos da Rua Beto"

Dezembro de 1964
      
          Mesmo quando não precisava ajudar no sustento da família, a maioria dos meninos arranjava algum trabalho a fim de ter um dinheirinho no bolso, já que o hábito da mesada não existia então. As meninas não podiam fazer o mesmo por causa das suas “obrigações” domésticas.
          Aos dez anos de idade o meu irmão e o Izaías vendiam pirulitos. Esses pirulitos nada mais eram do que açúcar caramelizado, despejado ainda quente e viscoso dentro de pequenos cones de papel. Enquanto o xarope grosso estava esfriando e se solidificando, espetavam-se palitinhos de madeira dentro de cada cone. Depois de frios, os pirulitos eram acomodados em orifícios redondos de tabuleiros de madeira chamados “bancas”.

Imagem: http://papjerimum.blogspot.com.br

          O fabricante de pirulitos “empregava” vários garotos que percorriam as ruas com as bancas dependuradas no pescoço por meio de cordinhas. Lá pelos meados dos anos sessentas, antes de as crianças tornarem-se consumidoras de produtos industrializados, esse tipo de mercadoria tinha ainda uma boa aceitação.
          Naquela véspera de Natal, já que não tinham nada melhor para fazer, o meu irmão e o Izaías resolveram passar o dia inteiro vendendo pirulitos. Junto com eles foi o Neno, garoto de uns sete anos.
          O dia estava ótimo para as vendas. Foram andando, andando, e quando se deram conta estavam muito longe de casa: no Largo São José do Belém, a vários quilômetros de distância.
          O tempo era chuvoso, e quando a chuva apertou eles entraram em uma pastelaria já cheia de gente que também tinha ido se abrigar do aguaceiro. Os pirulitos estavam no fim, mas na banca do Neno ainda havia alguns; então o pessoal começou a comprar os últimos.
          O chinês dono da pastelaria não gostou nem um pouco! Ele começou a dizer:
          ”Aqui patelalia! Aqui vende patel, não vende pilulito!”
          Os meninos compreenderam que estavam sendo convidados para sair, mas o Neno tinha um senso de humor digno de uma criança de sete anos, e ao invés de sair começou a imitar:
          ”Aqui patelalia! Aqui vende patel, não vende pilulito!”
          O chinês, demonstrando uma total incompreensão para com a infância trabalhadora, foi lá dentro, voltou com um canecão de água e jogou no Neno.
          Foram embora, o Neno pingando água e com cara de choro. O meu irmão e o Izaías, para confortar o coleguinha (que adorava frango assado), foram a uma padaria e compraram um frango, desses que ficam girando naquelas assadeiras verticais com porta de vidro.
          Estava tudo perfeito, mas onde iriam comê-lo? Na padaria não havia lugar para sentar, e os bancos do jardim da praça estavam todos molhados. Acabaram resolvendo o problema com simplicidade: já que a chuva tinha parado e o sol reaparecido, sentaram-se na escadaria da igreja, num cantinho onde estava seco e havia uma sombra agradável. Ficaram lá, destrinchando o frango com as mãos, comendo e se lambuzando pacificamente enquanto observavam o lindo chafariz que ainda existia naquele tempo, com seus jatos de água cristalina.
          Sendo véspera de Natal, todo o jardim estava decorado com lâmpadas coloridas e enfeites cintilantes, e na igreja havia missas seguidas. No fim de uma delas começou a sair uma pequena multidão. Foi com esta cena tocante que as pessoas se depararam: três garotos pobremente vestidos (não tinham planejado ir tão longe vendendo pirulitos, por isso saíram de casa vestindo calções, camiseta e sandálias), sentados na escada comendo frango − presumivelmente doado por alguma alma caridosa! Com os corações repletos de amor fraternal após a missa natalina a que haviam acabado de assistir, não tiveram dúvidas: começaram a dar esmolas!
          O Izaías ficou vexadíssimo! Levantou-se depressa e quis devolvê-las! Mas o Neno e o meu irmão, dois notórios caras-de-pau, não deixaram! Continuaram a receber as doações, cuja totalidade acabou superando o dinheiro da venda dos pirulitos. Resolveram na mesma hora comprar outro frango, que comeram no ônibus a caminho de casa.
          Durante a viagem de volta o Izaías, envergonhado com o procedimento dos colegas, sentou-se longe deles, fingindo não os conhecer. De vez em quando olhava para trás indignado, observando os dois porcalhões de mãos engorduradas que comiam despudoradamente o frango adquirido com dinheiro de esmolas.
          Serenai, psicólogos! Nenhum dos dois tornou-se pedinte. Foi a única vez na vida que aceitaram a caridade pública. E que comeram frangos em tão precárias condições de higiene.
Imagem: http://janallegra.blogspot.com.br

terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Skyline Pigeon"

Há algumas coisas nesta vida que não entendo.
Vivo aqui nesta casa desde sempre, todos me tratam bem, me trazem brinquedos, brincam comigo e contam histórias. Mas sou proibida de passear sozinha. Há sempre alguém segurando a minha mão quando estamos lá fora. Não posso nem correr atrás das pombinhas, nem subir em árvores, nem nada. Apanhar flores e catar pedrinhas com as duas mãos também é impossível.
Uma noite, quando todos estavam dormindo, tentei sair por uma das janelas. Então percebi: todas têm grades de ferro.
Uma única vez fomos até o limite do jardim, isso depois de eu pedir muito. Só concordaram quando perceberam lágrimas nos meus olhos. Fiquei admirada com a altura do muro. "Para que um muro tão alto?" perguntei. Nenhuma resposta.
Há algum tempo comecei a ter vontade de sair daqui. Eles afirmam que nada existe para além do jardim, mas acho difícil acreditar.
Hoje tentei largar a mão do meu acompanhante. Ele percebeu na hora e segurou mais forte ainda, chegou a doer. Voltamos logo para dentro.
Quando eu era mais jovem não pensava nessas coisas, porém agora vivo atormentada por dúvidas e curiosidades que nunca são esclarecidas.
              Meu desejo é voar para longe daqui. Se pudesse iria agora mesmo. Isso me lembra um dos grandes mistérios que me cercam: por que as outras pessoas não têm asas?

Imagem: http://serialkiller07.deviantart.com

Clique para ouvir: Elton John's "Skyline Pigeon"

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nosso filho nonato

Meu amor, sei que é zero a chance de você ler esta carta. Não faz mal, é apenas uma conversa comigo mesma. Você é meu leitor imaginário. Imaginar que estou falando com você me ajuda a colocar em ordem os pensamentos.
Quem sabe um dia, por simples curiosidade, você lance o meu nome (caso dele ainda se lembre) em uma máquina de busca - et voilà! Descobre este texto. “Tudo é possível neste mundo de maravilhas!” - já dizia Dona Benta lá no Sítio do Picapau Amarelo, na época em que pica-pau não tinha hífen.
Mas, voltando ao assunto, leia ou não leia tanto faz. Nada mudará no universo.
O caso é o seguinte. Estive pensando naquele ditado: “D’us escreve certo por linhas tortas”. Pensando em como isso é verdadeiro. Existem coisas que parecem ser horríveis e são mesmo, porém evitam que outras piores aconteçam.
Exemplo: quando nos separamos foi horrível (para mim), mas talvez tenha sido melhor para todos, inclusive para a sociedade. Motivo? O nosso filho. O nosso filho que não nasceu e nem ao menos foi concebido. O nosso filho nonato.
Não entendeu nada, aposto. Explicarei em detalhes.
Se tivéssemos ficado juntos certamente teríamos tido pelo menos um filho. Por duas razões. Primeiro, que você sempre foi muito vaidoso e tem em alta conta a sua genética. Lembro-me de comentários seus a esse respeito. Sem dúvida ia querer um filho para perpetuar essa maravilha que você sempre se considerou.
Segundo, que eu sou saudável e fértil. Minha ginecologista diz que os meus ultrassons são obras de arte, dada a perfeição que ela enxerga lá naquelas sombras informes.
O nosso filho seria muito bonito, tenho certeza. Porque você é muito bonito. Cheguei a ver as suas fotos de bebê e posso dizer que nunca houve uma criança tão linda. Eu também fui bonitinha quando pequena. Não tenho provas porque todas as fotos sumiram, mas é o que dizem. Enfim, com toda a probabilidade o nosso nonatinho seria uma graça. Herdaria os nossos olhos claros, a nossa pele boa e os seus cabelos cacheados.
Bonito, saudável, inteligente e rico. Rico sim, porque a profissão que você escolheu é muito lucrativa para quem domina a parte técnica e tem criatividade. E você, além de bonito, é também inteligente e criativo. Maldito seja. Tanta coisa boa em uma só pessoa chega a ser obsceno. O que te salva são os defeitos, tipo essa irritante imaturidade de criança mimada e a falta de educação que você pratica acreditando ser sofisticado. Não fosse isso, eu não te amaria. Seria apaixonada como sempre fui, mas não sentiria amor. Quem consegue amar uma criatura perfeita?
Pois então, já que o nonatinho herdaria tanta coisa boa, qual o problema?
O problema é que ele seria psicopata. Sabe quanta infelicidade um psicopata espalha pelo mundo? Muita.
Está chocado, meu amor? Quer que eu te prove? Provarei.
Começando pela minha família. O meu avô paterno era um sádico asqueroso que gostava de espancar os filhos sem motivo nenhum, só para se desestressar. Traumatizou todos, é óbvio, e ainda chegou ao fim da vida convicto de que havia sido um bom pai. Que tipo de gente é essa? Isso é gente?
Ainda na linhagem paterna, há vários casos de alcoolismo e de mau-caratismo, não necessariamente na mesma pessoa, mas inclusive. Imagine uma frase do tipo: “A que horas vai terminar o enterro da minha mãe? Estou atrasado para um churrasco.” Essa foi proferida por um primo meu. Que ganha rios de dinheiro com atividades ilícitas.
Do lado da minha mãe, as pessoas são emocionalmente frias. Não existe esse negócio de afeto entre irmãos, carinho de mãe pra filho, lealdade, gratidão e coisas do gênero. Lembra-se das minhas fotos que sumiram? Desconfio que a minha mãe jogou todas fora. Quando ela se irrita - o que é frequente - faz coisas assim. Esconde objetos que sabe serem necessários, como óculos ou chaves. Ou que são sentimentalmente importantes, como presentes e lembranças. Quebra outros “por acidente”, joga fora “sem querer”... Eu poderia ficar aqui listando exemplos e mais exemplos. Só pra finalizar, existem casos comprovados de pedofilia desse lado da família.
Pra você ver, meu amor: sou portadora desses genes execráveis que o pobre nonatinho receberia em suas adoráveis e rechonchudas células.
E você não está muito melhor do que eu, se quer saber. Não conheci muito o seu pessoal, mas sei que a sua mãe criava vinte gatos dentro de casa. Acha isso normal?
Aquela vez que você ficou semanas sem falar comigo, lembra? Não lembra? Mas foi o que aconteceu. Parou de falar comigo sem qualquer justificativa. Quando eu perguntava o que estava acontecendo (nas raras vezes em que conseguia chegar perto o suficiente para fazer perguntas) você respondia que “não era nada”. Depois que passou, veio com a história de que tal comportamento não tinha nada de mais, que havia sido apenas "uma fase”.
Uma fase o caramba! Foi quando, após reavaliar todas as suas atitudes estranhas - que foram muitas - compreendi que você tinha problemas mentais. Não bastassem a imaturidade e a falta de educação, você tinha problemas mentais.
Então, amor da minha vida, veja como foi bom não termos tido nenhum filho. Já pensou que estragos irreparáveis poderia fazer um jovem tão belo, tão rico e tão psicopata como ele teria sido?
Melhor que nunca tenha chegado a existir. Nonatinho está lá onde deveria estar, junto com o nosso amor: em lugar nenhum.


Imagem: http://www.thebabycotshop.com

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O príncipe e a bruxa

          Eu era um príncipe, por isso tinha uma fada madrinha. Depois do falecimento prematuro dos meus pais devido a uma enfermidade desconhecida, ela se tornou ainda mais presente na minha vida. Fazia visitas frequentes e me orientava em todas as dúvidas e decisões importantes. Ela sempre afirmava que o grande amor que a minha mãe sentia por mim havia se transferido inteiro para o coração dela. E que amor de mãe é de todos o maior e o mais puro.
          Um dia enamorei-me, e tive sorte: aquela mulher extraordinária retribuiu plenamente os meus sentimentos. Tornamo-nos um casal perfeito. Assim todos afirmavam e nós concordávamos. O casamento parecia ser o único caminho a seguir.
          Eu também tinha uma amiga a quem conhecia desde a adolescência. Uma amizade normal e tranquila, sem sobressaltos. Minha namorada não demonstrava ter nenhum ciúme dessa amiga, nem esta daquela. Por isso a minha vida era totalmente pacífica e eu só esperava terminar os estudos para propor casamento à amada do meu coração.
          Foi quando a fada madrinha apareceu com um semblante preocupado e disse ter algo importante a me dizer; não poderia deixar de fazer esse alerta mesmo se quisesse porque era sua obrigação como madrinha e fada. Segundo suas palavras, o meu casamento aconteceria em breve, isso estava certo, mas era preciso tomar cuidado com uma bruxa que estava tentando amarrar o meu destino ao dela. Se conseguisse, eu seria muito infeliz em sua companhia e só um amor verdadeiro seria capaz de me libertar de tal vínculo. Após isso, um ato de grande coragem de minha parte seria necessário para me restituir a felicidade, caso contrário eu jamais voltaria a ser feliz.
          Desde esse dia uma inquietação corrosiva me dominou. Quem seria a bruxa que me desejava tanto assim? Certamente uma pessoa conhecida e exímia dissimuladora. Se demonstrasse ser capaz de semelhante maldade, seria possível identificá-la e evitá-la. Então deveria ser alguém aparentando justamente o contrário.
          Tornei-me pensativo e taciturno. Olhava em volta tentando identificar a malévola criatura, mas não tinha como descobrir. Pedi ajuda à fada madrinha. Ela respondeu estar proibida de me orientar sobre esse assunto porque envolvia livre arbítrio, o qual não poderia ser influenciado. Senti-me totalmente desamparado. Dúvidas absurdas foram se infiltrando em meu coração. No dia em que a minha namorada me ofereceu um doce e eu tive medo de aceitá-lo, precisei reconhecer dolorosamente: era dela que eu mais suspeitava.
          Nos dias subsequentes, graças a uma profunda reflexão, fui descobrindo vários indícios para apoiar tal hipótese. Por exemplo, ela sempre se mostrava preocupada com a minha alimentação e era normal me oferecer frutas e doces, que eu comia com muito gosto. No entanto, a aparente prova de afeto poderia ser outra coisa. Quais encantamentos haveria naqueles alimentos? Seria essa a fonte da enorme atração que eu sentia por ela?
          Uma vez a surpreendi desenhando, e era o meu rosto que ela desenhava de memória. No momento achei bonito e fiquei feliz com o gesto. Mas, pensando bem, a que se prestaria tal desenho? A um feitiço de amarração?
          E aquele dia quando planejamos nos encontrar na ponte de pedra sobre o lago, e caiu uma terrível tempestade com muito vento, raios e trovões? Eu cheguei atrasado porque esperei a tempestade passar, mas ela estava lá, toda molhada, pálida e com frio, me esperando. Fiquei com muita pena e remorso, e abracei-a para aquecê-la. Considerei um milagre que nada de ruim houvesse acontecido. Agora, olhando sob outro ponto de vista, acho bem estranho que ela, tão pequena e frágil, não tivesse tido medo de ficar exposta ao perigo só para me esperar. Talvez tivesse certeza da sua invulnerabilidade...
          Quanto mais pensava, mais indícios encontrava. Os sonhos tão vívidos com ela, o fato de nunca esquecê-la em nenhum momento, o mistério de haver me apaixonado tão perdidamente por uma pessoa que nada tinha de excepcional além da sua personalidade, a qual poderia muito bem ser falsa...
          Qual a razão de ela não ter ciúmes da minha amiga? Isso não era normal. Eu podia passar horas conversando com essa amiga, até fazer passeios e sessões de estudo, e mesmo assim a minha namorada não perdia a serenidade. Tratava a outra com educação e com um sorriso em todas as ocasiões. Até porque a amiga era mais jovem e mais bonita, algum ciúme seria compreensível. Porém jamais houve qualquer demonstração. De onde vinha tanta confiança?
          O mais grave de tudo era o fato de que ela parecia adivinhar os meus pensamentos. Apenas um olhar era suficiente. Qual outra resposta para isso, senão bruxaria?
          Eu sofri muito, mas não sabia como me desvencilhar daquela situação. Principalmente porque uma parte de mim rejeitava todas essas conclusões e queria esquecer tudo, casar com ela e ser feliz. Porém a outra parte gritava alto dentro de minha mente, era impossível ignorar.
          Por que a fada madrinha se sentiu obrigada a me dar aquele aviso? Por que precisou envenenar a minha alma? Tão mais felizes são as pessoas comuns, a quem ninguém avisa de nada e assim podem viver plenamente o que têm de viver sem sofrimentos antecipados.
          Não sabendo o que fazer, não fiz nada. Fui me tornando cada vez mais indiferente à presença da minha namorada, cada vez mais frio e apático; nada do que ela fazia ou dizia modificava a minha atitude. Quando questionado, eu respondia que algo estranho estava acontecendo comigo, mas que ainda gostava dela da mesma forma. Era apenas uma fase, provavelmente uma longa fase, mas que certamente iria passar. Só não sabia quando.
          Ela esperou durante longos meses, sem me cobrar nem me recriminar. Eu a vi definhando dia a dia perante os meus olhos e senti uma sombra de culpa, mas não o suficiente para ter compaixão. Finalmente ela percebeu que era inútil esperar mais e foi embora em silêncio. Ao vê-la afastar-se, sabendo que nunca mais a veria, uma parte de mim (o coração) sofreu, mas a outra parte (a mente) ficou aliviada. Estava livre da bruxa.
          Quem me ajudou nessa fase tão conturbada foi a minha amiga. Soube me ouvir com muita paciência, me apoiou e me ajudou a superar as mágoas. A maior de todas era o resíduo de dúvida que eu ainda carregava: a de ter sido injusto e ter cometido um grande erro. Ela me convenceu de que eu havia agido acertadamente e que precisava esquecer tudo isso. Vida nova era a melhor atitude dali em diante. Não entendo muito bem como aconteceu, mas pouco tempo depois estávamos noivos.
          Tal como havia dito a fada madrinha, casei-me menos de um ano depois de suas previsões. Embora não sentisse pela amiga a paixão que havia sentido pela namorada, acreditei que um grande amor (o que a amiga sentia por mim) me havia libertado, exatamente como o previsto.
          Tudo estava perfeito. Então de onde vinha aquela infelicidade? De onde vinha aquele desassossego? E a repulsa que crescia mais e mais pela amiga agora esposa?
          Por que jurei amá-la para sempre, se não a amei nunca? Por que a pedi em casamento?
          Como pude deixar ir embora a única pessoa que me completava, que me fazia sentir plenamente vivo, cheio de alegria, de paz e de esperanças? Como pude me convencer de que ela me faria algum mal? Como pude me deixar manipular assim? Como pude me casar com uma bruxa?!
          Ao perceber tudo isso, imediatamente fui embora do castelo. Nenhuma bruxaria, por mais poderosa, seria capaz de me arrastar de volta. O amor verdadeiro (aquele que eu sentia pela minha namorada) me libertou.
          Abandonei tudo e todos, nunca mais quis voltar e nem tornar a ver ninguém. Odeio a bruxa, odeio a fada madrinha. Sinto-me traído e traidor.
          Minha madrinha envenenou a minha alma e depois negou ajuda; minha amiga aproveitou-se da situação e não disse a única coisa que eu precisava e queria ouvir: “siga o seu coração”. Quanto a mim, fui covarde e medroso, deixei-me manipular vergonhosamente.
          Até hoje, a segunda condição para a reconquista da felicidade, o ato de coragem que eu deveria praticar, não aconteceu. Nunca tive coragem de procurar a minha amada, e jamais terei. Como poderia me apresentar diante dela e pedir o seu perdão? Eu a julguei, condenei e apliquei a pena sem nunca lhe ter dado a chance de defesa.
          Consigo agora enxergar o quanto fui egoísta não pensando uma vez sequer, com seriedade, no seu sofrimento. Que deve ter sido imenso. Afinal, nunca me expliquei. Nunca disse adeus. Nunca a libertei para que ela pudesse procurar a felicidade com outra pessoa.
          Ainda assim, é melhor que tudo continue como está. Se eu aparecer diante dela e disser que a desprezei por acreditar que era uma bruxa, será mais um punhal no seu coração. Melhor será que me esqueça ou que me odeie. Eu viverei assim como mereço: infeliz para sempre.

Imagem: http://www.kevinalfredstrom.com

domingo, 26 de outubro de 2014

A moça de vestido florido

Estava eu em uma livraria, na seção de Infantojuvenis, pesquisando editoras. Queria descobrir quais publicavam o tipo de história que eu tinha escrito para encaminhar o meu “original”.

Encontro um livro sobre Ciências, paradidático muito bonito, bem produzido, com lindas ilustrações. Começo a folhear e vejo que não é apenas bonito: o conteúdo também é ótimo. Viro-me para a colega que me acompanhava, mostro-lhe o livro e comento a boa impressão que me causou.

Uma moça perto de nós, ao ouvir a conversa, disse:

“Eu conheço o autor. Trabalho com ele. É professor da matéria e entende bastante do assunto. Uma ótima pessoa, e escreve muito bem.”

No mesmo instante me veio uma pergunta à mente. Pergunta que não poderia fazer:

“Ele sabe que você o ama?”

Esquisito adivinhar o que vai pela cabeça ou pelo coração de outra pessoa. Algumas vezes não dá para explicar, como saber o sexo do bebê antes da ultrassonografia. Nesse caso, porém, era fácil. O tom de voz, a expressão no olhar, até a gesticulação. O sorriso triste.

Não precisei perguntar, ela não precisou responder. Ela o amava e ele nem suspeitava.

Depois de alguns comentários nos despedimos, mas nunca me esqueci daquela moça clarinha de vestido florido que tinha um amor secreto. Que ela pensava ser secreto, porque os olhos diziam tudo. Só ele não via nada...

Imagem: http://favim.com