Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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domingo, 19 de outubro de 2014

O monstro no armário

Não sei por que me fazem tantas perguntas. Parece até que eu tenho alguma culpa no que aconteceu. Pelo contrário, tentei evitar. Mas ela não me acreditava.
Toda noite eu dizia: “Babá, tranque a porta desse armário senão eu não durmo aqui.”
E ela: “Não seja medroso, menino. Não tem nada no armário.”
E eu: “Tem sim. Tem um monstro que vai sair se a porta ficar destrancada.”
E ela: “Então por que ele não sai de dia? A porta fica aberta e escancarada o dia inteiro. Por que ele nunca saiu?”
E eu: "É porque ele não suporta a claridade. Quando todas as luzes estão apagadas, aí sim é a hora em que ele gosta de sair.”
E ela: “Você já viu esse monstro alguma vez, pra ter tanta certeza?”
E eu: “Não vi com os meus olhos nem ouvi com os meus ouvidos, mas sei que ele está lá. Tenho certeza.”
E ela: “Agora me explique, menino. Esse armário é pequeno, atrás dele só tem a parede, embaixo só tem o chão. Onde é que o monstro se esconde, que a gente nunca vê nem quando tira tudo de dentro pra fazer limpeza?”
E eu: “Não tenho a explicação. Só sei o que sei.”
E ela: “Então durma com a luz acesa, oras.”
E eu: “Não consigo dormir com luz acesa, você sabe muito bem.”
E ela: “Me responda uma pergunta. Se o monstro é assim poderoso, por que não arromba essa fechadura tão fraquinha? É a coisa mais fácil do mundo, até eu consigo se quiser.”
E eu: “Não sei, babá. Isso também não sei responder. Coisas de monstros.”
Ela não me acreditava. Eu dizia e repetia, e ela nunca acreditou. Nessa noite entrou aqui enquanto eu estava dormindo e só de teimosa foi lá e abriu o armário. Acho que queria me provar que não tinha nada lá dentro. Aí aconteceu o que aconteceu e não pude evitar. Só tive tempo de acender a luz bem depressa quando acordei com os gritos. O monstro fugiu por causa da claridade, mas já era tarde demais.
Coitada da babá... Era meio burra, mas bem boazinha. Coisa chata, não?

Imagem: http://yanareku.deviantart.com

sábado, 18 de outubro de 2014

A mãe-do-ouro

Minha mãe morreu quando eu nasci, então o meu pai me trouxe para ser criada aqui no sítio dos meus avós maternos, enquanto ele voltou à cidade, para a sua vida de solteiro.
Tive uma infância maravilhosa. Minha avó sempre me contava histórias sobre a minha mãe, mostrava retratos, e me colocava para dormir no quarto que tinha sido dela. Por tudo isso, e principalmente pelo carinho que me dava, não cheguei a sentir falta do afeto materno.
Meu pai nunca foi próximo. Eu só me lembrava da sua existência duas vezes por ano, no Natal e no meu aniversário, porque nessas datas ele mandava algum presentinho. Deve ter me visitado algumas vezes, só que não guardei na memória nenhuma dessas visitas.
Quando eu tinha quatro anos vieram me dizer que ele ia se casar de novo e que eu seria a daminha de honra do casamento. Disso me lembro perfeitamente. Fiquei admirada, curiosa, e com um pouco de medo. O que era daminha de honra?
Minha avó disse que fiquei bem bonita com aquele vestidinho branco enfeitado com botões de rosa e lacinhos de seda, mas só me lembro da noiva, que me abraçou e me beijou efusivamente. Fiquei assustada, não só com aquela descabida demonstração de ternura mas também por causa do cabelo vermelho e da pele muito branca, cheia de sardas. Nunca tinha visto alguém de cabelo vermelho e nem com tantas sardas.
Voltamos para o sítio, esqueci completamente o fato, até que, passado algum tempo, fiquei sabendo que tinha um irmãozinho. Não me interessei em saber os detalhes, mesmo assim disseram que ele se chamava Narciso.
“Narciso? Que nome feio!”
“Não é feio não. É o nome de uma flor muito bonita.”
Continuei achando feio, mas já que o assunto não era importante, deixei pra lá.
Mais ou menos por essa época começou a acontecer uma coisa estranha. Era estranha mas não era assustadora.
Depois que a minha avó me colocava na cama ela sempre se deitava ao meu lado, pegava a minha mão e juntas ficávamos olhando o teto, onde havia uma porção de estrelinhas cintilantes. Ficávamos olhando as estrelinhas e ela conversava um pouco comigo, me contando uma historinha, algum caso da minha mãe, ou falando sobre qualquer acontecimento daquele dia. Então eu dormia sem perceber.
Mas uma noite acordei com o barulho que ela fez ao sair e, estando virada para o lado da janela, notei uma luminosidade lá fora. Não uma luminosidade qualquer. Era uma luz verde que se movia, e eu podia vê-la pelas fendas da veneziana.
Não fiquei com medo e voltei a dormir tranquilamente. No outro dia perguntei à minha avó o que era aquilo. Ela respondeu que devia ser um vaga-lume. Fiquei quieta mas não acreditei, porque vaga-lume não tinha uma luz tão forte. Só se fosse um vaga-lume gigante, coisa que não existia.
Todas as noites a partir de então eu via a luz verde movendo-se diante da janela. Só aparecia após a minha avó ter saído do quarto. Nunca me incomodei com aquilo. Muito tempo passou. Uma noite, quando eu já tinha uns nove anos, resolvi abrir a janela para olhar de perto.
Jamais me esquecerei. Empurrei devagar as folhas da veneziana, com cuidado para não espantar a luz. Deu certo, porque ela não fugiu. Era uma linda bola luminosa do tamanho de um coco verde. Uma esfera translúcida, imaterial, de um verde cambiante com reflexos azuis. Fiquei lá quieta, olhando, enquanto ela pairava à minha frente oscilando suavemente para cima e para baixo, para um lado e para o outro. Não tive medo nenhum. Quando cansei, fechei a janela e fui dormir.
Virou um hábito. Sempre que a minha avó ia embora pensando que a sua neta dormia, eu me levantava silenciosamente e abria devagarinho a janela. Às vezes conversava com a bola luminosa. Não me respondia com palavras, mas alterava ligeiramente a cor e a oscilação. Eu interpretava esses sinais como bem me convinha, achando que ela estava concordando comigo, ou sugerindo alguma coisa, ou dando uma resposta.
Um dia ouvi certa conversa entre o meu avô e um empregado do sítio. Era sobre uma coisa chamada “mãe-do-ouro”. Fiquei prestando atenção porque nunca poderia imaginar que ouro tivesse mãe. O homem estava dizendo ao meu avô que alguém tinha visto uma “mãe-do-ouro” ali perto. Meu avô respondeu simplesmente que se continuasse acontecendo ele ia investigar.
Depois que o empregado saiu perguntei-lhe quem era essa tal “mãe-do-ouro”. Ele explicou que se tratava apenas de uma crendice popular. Seriam bolas luminosas que aparecem em lugares onde há minas de ouro desconhecidas ou então tesouros enterrados.
“Tudo besteira. Esse povo vê vaga-lume ou fogo-fátuo e fica inventando histórias.”
Eu sabia que não era crendice, mas não falei nada. Ao invés, perguntei-lhe o que era fogo-fátuo.
Nessa noite pulei a janela para chegar mais perto da “mãe-do-ouro”. Não toquei nela, mas achei maravilhoso andar em torno, aproximar o rosto, andar com ela ao lado. Era como se fôssemos amigas.
Noite após noite, perambulando pelo jardim em torno da casa, íamos parar perto de um pessegueiro que, segundo a minha avó, havia sido plantado pela minha mãe ainda quando criança. Eu achava perfeito me sentar apoiando as costas no pessegueiro da minha mãe enquanto “conversava” com a amiga luminosa.
Tudo transcorria muito bem até chegar aquela notícia: o meu irmão vinha passar uns dias conosco. Meu irmão? Quem? Ah, o Narciso. É verdade, eu tinha um irmão com nome de flor. Ele não ia dormir comigo no meu quarto, né? Não? Que bom, pelo menos isso.
Quando ele chegou com o meu pai e a sua mulher de cabelo vermelho, senti antipatia à primeira vista. Enquanto os meus avós sorriam e diziam “Ah que gracinha! Oh que bonitinho!” eu pensava: “Que moleque feio! Sardento e de cabelo vermelho! E tem cara de bobo também.”
Os adultos passaram dois dias conosco e depois foram embora para a segunda lua de mel (fosse lá o que fosse tal coisa), deixando o moleque para os meus avós cuidarem. Ele já tinha quase seis anos, era bastante independente e muito malcriado. Quando eu me queixava com a minha avó, ela dizia para eu ter paciência, que faltavam só mais uns dias. Gostaria que ela me ensinasse como ter paciência com aquele sardento que ficava me seguindo por todo canto, fazendo caretas e mostrando a língua quando ninguém estava olhando.
Uma noite, quando todos já estavam dormindo, pulei a janela para me encontrar com a amiga luminosa. Não tinha me afastado nem cinco metros de casa quando, ao olhar pra trás, vi o moleque dentro do meu quarto, diante da janela, olhando admirado a bola de luz. Fiquei muito zangada. Voltei depressa e falei para ele sair dali e ir dormir. Ele só olhava a bola, espantado. Quando ela se aproximou, ele saiu correndo de medo.
Certamente ia contar para os meus avós no dia seguinte. Mas eu negaria e pronto, tudo resolvido. Quem acreditaria no pirralho?
Voltei ao passeio. Quando a situação estava novamente tranquila, apareceu de repente o moleque. Ele havia voltado, pulado a janela e nos seguido. Fiquei mais zangada ainda e ordenei que ele voltasse imediatamente. Em vez de voltar, ele se abaixou, pegou uma pedra e atirou. Não sei em quem ele pretendia acertar, só sei que atingiu a bola em cheio.
O que houve em seguida foi uma explosão silenciosa. A bola dividiu-se em milhares de faíscas, que de verde tornaram-se vermelhas. Eu gritei de susto e o moleque correu dali. Aqueles pontos luminosos foram se afastando uns dos outros, tornando-se uma nuvem cada vez mais rarefeita. Restou apenas o miolo: uma névoa esbranquiçada, disforme, quase transparente. A névoa dirigiu-se lentamente para o pessegueiro e eu a segui, com o coração em sobressalto. Chegando lá, foi descendo para o chão em direção às raízes. Pareceu mergulhar com suavidade no solo, e extinguiu-se por completo.
Sentei-me, encostando-me no tronco da árvore, e chorei. Minha amiga luminosa havia morrido. Tudo por causa daquele moleque malcriado. E agora? Fazer o quê?
Comecei a roçar a mão na grama bem no lugar onde a névoa tinha desaparecido, e senti uma pontinha dura. Ao olhar, vi algo que brilhava à luz da lua. Seria um fragmento solidificado da bola luminosa? Cavei devagarinho, com cuidado, e desenterrei um objeto que estava preso a uma correntinha. Era uma correntinha de ouro com um coraçãozinho.
No dia seguinte o meu irmão parecia um anjo, como se nada houvesse acontecido na noite anterior. Quando mostrei a correntinha à minha avó, ela ficou muito emocionada.
“Era da sua mãe! Ela ganhou de aniversário e nunca tirava do pescoço, mas perdeu quando tinha a sua idade, e nunca mais encontramos. Onde você achou, minha filha?”
Perdoei o meu irmão. Não fosse por ele, talvez nunca tivesse descoberto a joia. A “mãe-do-ouro” havia cumprido a sua missão. Agora a correntinha fica no meu pescoço. No coraçãozinho está escrito o nome da minha mãe. Já contei que o meu nome é igual ao dela?

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Exobacterjulian

          Quando o meu noivo me trocou por uma vagabunda desclassificada, a dor que passei a sentir chegava a ser física. Forte e profunda, quase insuportável, me obrigou a desenvolver estratégias de autopreservação. Durante o dia eu trabalhava obsessivamente. À noite criava imagens mentais que me confortassem.
          Minha profissão é técnica, o trabalho é complexo, exige grande concentração. O que acabou sendo conveniente, pois não sobrava neurônio desocupado para me fazer lembrar daquela pessoa absurda que, de um momento para o outro, me eliminou de sua vida como se eu fosse um objeto descartável.
          Analisando objetivamente, foi assim que conquistei o que tenho agora. Onde estaria se não tivesse trabalhado tanto ao longo daqueles meses? Certamente não teria recebido o convite para participar desta missão e estaria, talvez, sentada em um sofá, calçando chinelos macios, lendo o best seller do momento, sentindo o cheiro do chocolate quente na xícara de bordas douradas sobre a graciosa mesinha...
          Não, não! Foco na realidade! Foco na realidade! Sem chinelos, sem chocolate, sem livrinho romântico. Agora é a aridez vermelha, o oxigênio controlado, os equipamentos de proteção.
          Lá atrás, naquelas noites sem sonhos, a imagem que mais me aliviava o sofrimento era a fantasia de ser um micro-organismo em um muro em ruínas. Não um muro qualquer: esse ficava em um planeta de outra galáxia. Sem receber energia suficiente do seu velho sol, o planeta havia perdido as condições de vida. Sobreviviam apenas algumas bactérias, como eu. Minha espécie não precisava de energia solar, bastava a radiação de alguns elementos químicos. Esse muro estava lá há milhões de anos, construído por uma civilização extinta. Resto de um palácio, de uma fábrica, de um templo, sei lá.
          Só sei que aquele muro arruinado abrigava alguns organismos inertes, silenciosos, tranquilos. Aconchegados ao calor da radioatividade, não sentiam dor, não tinham necessidades nem desejos, nem anseios nem esperanças, nem mágoas nem frustrações. Talvez nem tivessem memória ou poder de raciocínio. Não sabiam quando tinham surgido, não imaginavam seu próprio fim.
          Eu era um desses micro-organismos. Nada ouvia, nada sentia, nada pensava.
          E assim conseguia dormir.
          Agora (quem poderia imaginar?!) aqui estou eu diante desse mesmo muro! Não na forma de bactéria mas na minha própria forma humana, contemplando o repositório das últimas criaturas vivas deste mundo agonizante.
          Será que existem realmente? Embora sem ter examinado ainda as pedras, eu sei que vou encontrá-las. Aqui é o mesmo lugar que fantasiei: o mesmo céu avermelhado, a mesma poeira fina, a mesma aurora boreal estranhamente amarela, a mesma luminosidade fantástica.
          Mesma, mesma, mesma... resma! lesma! quaresma! tesma!
          − Ei, não existe tesma!!! (disse eu atirando nele um pãozinho parcialmente comido)
          Brincadeira boba que o Juliano e eu fazíamos às vezes: encontrar palavras que rimassem. Ganhava quem se lembrava de mais palavras. No final, risadas e abracinhos.
          Trocada por uma vagabunda com cara de sonsa que se fez de amiguinha até o último momento. Sem explicações, sem um adeus, sem nada. Nem pediu de volta a aliança. Que joguei fora. Dentro estava escrito “Sempre seu, Juliano”.
          Sempre. O que é sempre? O que é para sempre? O que é eterno? Certo estava Einstein, o tempo é relativo. A eternidade é relativa.
          Tempo me lembra oxigênio. O recipiente de oxigênio pesa. Aqui a gravidade é quase igual à da Terra, mas um pouco maior, suficiente para se fazer sentir. O recipiente tem volume limitado. Então não posso desperdiçar tempo. Foco, menina! Foco! Não se perca em devaneios. Tempo é oxigênio, e oxigênio é vida. Vida é...?
          O que é vida? Meu trabalho em exobiologia? Se isso não for vida então estou mais morta-viva do que as bactérias do muro, porque tudo o que tenho é o meu trabalho. E as minhas lembranças.
          Mudei de país para fugir de você, Juliano. Deixei tudo para trás, suportei anos de treinamento intenso para esta missão. O que eu queria na verdade era me enfiar dentro de um Buraco de Minhoca (obrigada, Einstein!) e mudar de galáxia.
          Mentira que estou pesquisando vida alienígena! Mentira que estou interessada em altas descobertas científicas. É tudo pra ficar longe de você. Mas você sempre vem junto. Você está em todos os lugares. Você preenche todas as galáxias.
          Pronto, desperdicei mais alguns minutos preciosos. Saí sozinha apenas pra olhar essa aurora boreal amarela. Prova de que o planeta ainda tem núcleo ativo. Aí está a magnestosfera para protegê-lo. Muito fraca, porém. A incidência de raios cósmicos é grande. Estou em ambiente perigoso para a vida humana. Por que fui me afastar da base? Nem percebi o quanto me afastava. Todos aqueles anos de capacitação e agora quebro o procedimento mais elementar de segurança. Se me perder nem saberão onde me encontrar, porque deixei o anel localizador no alojamento. O que acontece comigo, a funcionária padrão do projeto?
          Se me perder nem saberão onde me encontrar. Se me deitar aqui, ao lado desse muro e ficar bem quieta... O oxigênio se esgotando lentamente... Meu sistema saturado de dióxido de carbono... vou ficar com sono, vou dormir...
          Que absurdo seria. Que absurdo seria ficar aqui deitada, contemplando com os olhos da mente o rosto do Juliano. Que está a milhões de anos-luz. Luz. Os olhos do Juliano. Escuros, grandes, tão expressivos.
          Foco! Foco! Qual o motivo dessa cor na aurora boreal? Sódio em suspensão na ionosfera? O solo é vermelho de ferrugem, como em Marte. Mas esse brilho amarelo no céu me lembra luz de sódio. Preciso perguntar a alguém quando voltar à base. Não posso demorar. Tanta aridez me deprime. Um planeta inteiro sem vida vegetal. Nenhuma árvore, nenhuma flor. Só as bactérias no muro, se é que existem.
          Um planeta sem flor deve morrer mesmo. Merece ser vaporizado por uma estrela em explosão. De que vale a vida sem flores? Por insignificantes que sejam, como aquelas violetas pequeninas que se abrem escondidas no meio da folhagem. É preciso ir lá, agachar no chão e afastar as folhas para achar as florezinhas. Violetinhas cor de violeta, perfumadinhas. Mas é preciso procurar e prestar atenção para ver a beleza e sentir o perfume.
          Exatamente como Juliano. No meio de uma multidão ele passa despercebido, uma pessoa completamente comum. Prestando atenção é que se vê como o seu rosto é harmonioso, parece ter sido desenhado por Michelangelo. Nunca vi nariz tão perfeito. Os lábios são lindos. Ficam mais lindos quando ele sorri. Não o sorriso banal das situações cotidianas, mas sim aquele sorriso espontâneo que vem antes de uma risada gostosa ou de uma insinuação marota. Aquele sorriso sempre me trouxe à mente a imagem de um lírio crescendo à beira de um riacho: alvo, puro, cheio de vida, cheio de frescor.
          Nada há de alvo, puro, cheio de vida e frescor aqui onde estou. Somente aridez. Óxido de ferro, sódio, radiação, perguntas sem respostas.
          Eu também sou uma estrela agonizante. Já brilhei mas agora estou me apagando. Meu coração é o planeta sem vida que a estrela já não aquece. E você, Juliano, é a bactéria que resiste nas reentrâncias das pedras, dentro deste coração. De onde vem a radioatividade que te alimenta?
          Meu desejo é deitar no chão, encostada no muro. Fechar os olhos e imaginar que estou à beira daquele riacho contornado pelos lírios-sorrisos. Sono. Nada.

* * * *

          Nunca se descobriu por que a doutora Juliana saiu sozinha da base usando no dedo, em vez do anel localizador, uma aliança de ouro. Nela estava escrito: “Sempre seu, Juliano”.
          O primeiro ser vivo genuinamente alienígena descoberto pela humanidade foi denominado, em sua homenagem, “Exobacterjulian radiophilus”.



* * * *
Imagem: http://jjcanvas.deviantart.com

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

"Terrarium"

Minha tribo vive dentro desta bolha há milhares de anos. Mas nem sempre foi assim.
Tudo começou quando uma epidemia manifestou-se nesta região do planeta.
Escrituras antigas dizem que éramos uma nação numerosa, em plena harmonia com a natureza.
Porém um dia a floresta engendrou um vírus mortal. Inúmeros nativos foram afetados, e todos os que se aproximaram tentando ajudar morreram também.
Depois de muitos estudos, o povo lá de fora concluiu que não havia salvação para nós.
Não podiam deixar o vírus disseminar-se até as regiões ainda sãs do planeta, e procuraram com urgência uma resposta.
A solução encontrada foi nos confinar dentro desta enorme bolha construída em torno da aldeia e sob o próprio solo: garantia de que ninguém conseguisse sair e de que o vírus não atingisse os lençóis freáticos.
Foi por receio de se aproximarem da parte infectada da floresta que desenharam e edificaram uma estrutura de tão grandes dimensões. A intenção de preservar o restante da humanidade os motivou a investir riquezas e esforços de muitos países. Isolar a floresta e seus habitantes o mais rapidamente possível, o mais completamente possível, essa era a única maneira.
Os nativos não reagiram devido à apatia da doença e também porque não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Quando vieram a perceber, tudo estava pronto.
O povo lá de fora informou, através da comunicação por ondas magnéticas, que haviam construído um “terrarium”: ecossistema hermético com satisfatórias condições de subsistência para os seres nele encerrados. Não se recomendava tentar sair já que o material empregado – embora tivesse aparência de vidro comum – era composto por uma estrutura cristalina indestrutível.
Foi a única e derradeira comunicação que recebemos.
O tempo passou e alguns resistiram à doença, dando origem a descendentes imunes ao vírus. Nossa tribo voltou a se desenvolver. Nunca mais a floresta nos castigou. Aqui permanecemos e evoluímos. A redoma passou a ser vista como proteção, não mais como segregação. Tornamo-nos autossuficientes e tão felizes quanto seres humanos podem ser. Não fosse pela recente descoberta da situação do povo de fora, tudo continuaria perfeito.
A informação foi trazida por um grupo de pesquisadores que, durante uma caminhada, chegou até o limite da redoma. Raramente alguém vai até lá. Não há objetivo nenhum em contemplar um mundo que já não é nosso e que nunca voltará a ser. O que descobriram era – até então – inimaginável.
Toda a terra além da redoma está devastada e estéril. Não há mais quase nenhuma vida lá fora. Vegetação rara e debilitada, pequenos animais aparecendo rápida e esporadicamente, solo arenoso, luminosidade forte e áspera.
Após essa constatação, os pesquisadores decidiram verificar todo o contorno da redoma. Não suspeitavam que visões ainda mais chocantes iriam surgir. Em diversos pontos encontraram pessoas tentando entrar. Ao verem os pesquisadores, fizeram sinais desesperados implorando ajuda. Uma ajuda impossível de conceder.
Não raramente depararam-se com esqueletos jazendo encostados à redoma. Ferramentas e resíduos em torno deles testemunhavam que haviam tentado de tudo.
Deveras lastimável a situação. Parece que o Terrarium é o único lugar no planeta onde a vida continua existindo em sua normalidade.
Os pesquisadores fizeram reuniões para discutir o que poderia ser feito para ajudar os de fora. Não chegaram a nenhuma conclusão.
Eu sou um desses pesquisadores. Eu sei como abrir uma passagem para o mundo externo. Descobri há muitos anos, mas não disse nada a ninguém. Para que perturbar uma situação perfeita?
Vou permanecer em silêncio. Quem garante que os de fora, entrando na redoma, não trarão agentes infecciosos para os quais os nossos organismos não têm proteção? É muito perigoso.
Jamais direi uma palavra. É para o nosso bem.


sábado, 20 de setembro de 2014

Futebol de várzea

 Trecho do livro Os meninos da Rua Beto 

- - - Uma crônica dos anos setentas - - -

Antigamente a prática do futebol era mais acessível do que é hoje, porque em cada bairro havia pelo menos uns dois terrenos baldios com tamanho suficiente para abrigar o campo e a torcida.

Os clubes eram bem organizados e contavam com vários times: Dente de Leite, Juvenil, dos Veteranos, e os dois principais: o Primeiro Quadro, que era o titular, e o Segundo Quadro, composto pelos aspirantes e reservas. Nos domingos de manhã havia jogo entre os Dentes de Leite, depois os outros, culminando pelos principais.

Durante os campeonatos as partidas se distribuíam por vários bairros. Não eram numerosos os campos que dispunham de arquibancadas, mas a torcida não se importava se às vezes precisava assistir em pé ou sentada num barranco (ou mesmo sobre galhos de árvores).

Essa mania de futebol irritava as esposas, porque todo domingo de manhã os maridos saíam levando consigo os "filhos homens", dizendo que voltavam para o almoço, mas só apareciam lá pelas três ou quatro horas da tarde.

É que depois da vitória vinha a comemoração! E se o time não tivesse vencido era preciso desabafar as mágoas, espairecer com os amigos... Por um motivo ou por outro sempre acabavam indo para o bar em vez de voltarem para casa, preferindo tomar cerveja, comer linguiça frita e ovo cozido de casca amarela em lugar do caprichado macarrão com molho de tomate, polvilhado de queijo duro ralado.

Numa das tais manhãs de domingo estava se realizando um amistoso lá na Vila Formosa, periferia da Zona Leste de São Paulo. De repente, por alguma razão, os jogadores se desentenderam e começou uma briga feia entre os dois times.

Não se sabe se foi alguém que chamou a polícia ou se esta vinha passando e viu a desordem. O fato é que os policiais separaram a briga, apreenderam uma amostra dos que estavam batendo e uma amostra dos que estavam apanhando, e mandaram que entrassem na viatura, uma perua Veraneio pintada de preto e branco.

Como o bate-boca não parasse, resolveram levar os dois times completos para a delegacia, e pediram reforços. Chegaram outras "barcas" e todo mundo foi devidamente acomodado.

Estavam naquele vai-não-vai quando chega ao campinho o pai de um dos goleiros e vê o filho em uma das viaturas, no meio daquele monte de gente.

--- Ó Zezinho, que estás a fazer aí? Já pra casa que a comida está na mesa!

Como o filho não obedecesse, o homem foi ficando cada vez mais irritado.

--- Não obedeces teu pai, ó menino? Já pra casa que o almoço está a esfriar. Tua mãe vai se abespinhar com a tua demora!

O Zezinho bem que tentou explicar a situação ao pai, mas este se recusava a aceitar os fatos. Depois de brigar muito com o filho, resolveu tirar satisfação com os guardas. E tanto falou, e tanto discutiu, que eles não suportaram mais e resolveram soltar o Zezinho só para ficarem livres daquela criatura impossível.

Aí o pessoal que estava na mesma viatura não se conformou. Se ele podia ser solto por que os demais não podiam também? Que diferença de tratamento era aquela? Por acaso eles também não precisavam almoçar?

Protestaram, argumentaram, atazanaram, até que os policiais resolveram soltá-los.

Uma onda de revolta atingiu os outros detidos! Então havia desigualdade entre as viaturas? Que injustiça absurda! Os direitos não eram iguais? Ou todo mundo ou ninguém! Ora, onde é que já se viu?

Mais bate-boca, mais protestos, até que a polícia não aguentou mais. Abriu todas as portas e mandou que fossem embora. 

Acabou-se o jogo, acabou-se a briga, acabou-se a detenção. 

Todo mundo (até a polícia) foi pra casa almoçar.  

sábado, 13 de setembro de 2014

Palácio de cristal

Ah, que bom que você parou aqui para conversar! É verdade que recebo muitas visitas, mas são tão rápidas! Mal dá tempo de dizer “olá, como vai?” Raramente alguém chega, senta, e se interessa em saber alguma coisa sobre mim. Então vou te contar tudo direitinho.
Foi assim: eu era uma pessoa como outra qualquer, morava em uma casa, tinha uma família, e trabalhava muito.
O problema era que, por mais que eu me dedicasse, por mais que me esforçasse, nunca parecia ser suficiente.
Engraçado que eu não percebia isso. Tinha a impressão de que a vida era aquilo mesmo: muito trabalho e uma constante sensação não estar cumprindo as expectativas. Sempre havia alguma coisa que alguém queria, que alguém precisava, e eu falhava em satisfazer. Depois me culpava e tentava fazer um esforço maior ainda.
Acho que vivi assim muitos anos. Nem sei quantos, mas foram muitos. Essa insatisfação, esse sentimento de culpa, que sempre me incomodaram, começaram a ficar insuportáveis.
Sabe que de tanto trabalhar fiquei com problema de dor nas costas, nos braços e nas pernas? E dor de cabeça, então? E insônia?
Além de tudo eu não tinha tempo para me tratar. Comecei a ficar cada vez mais feia. Não ia ao médico e nem cuidava da aparência. Me olhava no espelho e me achava horrorosa, mas tinha tanta coisa pra fazer que deixava pra depois arrumar o cabelo, dar um jeito nas unhas ou comprar uma roupa nova.
E as cobranças aumentando cada vez mais. Cobranças, reclamações, recriminações. Nunca um “obrigado”. Nunca um “deixe isso pra depois, vá descansar um pouco”. Nunca um “vou te ajudar a fazer isso”. Nunca um “parabéns, ficou muito bom”.
Então um dia olhei pela janela e vi aquele palácio de cristal. Engraçado que nunca tinha visto antes, embora tenha olhado naquela direção tantas e tantas vezes. Nessa hora pensei: “é para lá que eu vou! e vai ser agora!”
Por isso construí este barquinho, todo acolchoado por dentro, bem confortável. Plantei essas flores todas para ele ficar bonito e perfumado.
Levei o barquinho para o rio, entrei dentro, e desde então estou viajando na direção do palácio.
É tão bom ficar aqui deitada, sem fazer nada, só descansando. O barquinho vai navegando sozinho, porque o rio se encarrega de levá-lo. Assim, sem pressa, sem turbulência. Enquanto isso eu fico olhando o céu azul, respirando o ar puro, vendo as borboletas chegarem para pousar nas flores. São tão bonitas as margens deste rio, tão coloridas, que às vezes dá vontade de desembarcar e ficar morando aqui mesmo.
Mas o meu destino é o palácio de cristal. Há um quarto lindo esperando por mim, onde vou poder ser feliz. Muitos livros para ler, um espelho bem grande com moldura de prata, uma cama maravilhosa com colunas nos quatro quantos. Já pensou que beleza? Ninguém me amolando, me cobrando, me recriminando.
Este rio tem muitas voltas, por isso a viagem é longa. Mas eu não me importo, porque sou feliz desde já, desde que entrei no barquinho e deixei tudo para trás.
O que foi, passarinho? Precisa voar agora? Está bem, mas volte outras vezes, se puder. Vá me visitar lá no palácio. A minha janela é aquela que dá pra ver daqui. Está vendo? Aquela dourada, com cortinas de renda branca.
Tchau, passarinho! Seja feliz!

Imagem: http://crosti.ru

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O último vôo do passarinho

Foi depois de uma chuva forte que os irmãozinhos - uma menina e um menino - encontraram no jardim um passarinho caído no chão.
Se as próprias plantas se mostravam maltratadas por aquela tempestade cheia de ventos e de raios, o que dizer daquele ser pequenino e tão vulnerável?
As crianças o recolheram e o colocaram em um ninho improvisado feito com paninhos limpos e macios.Tentaram dar-lhe comida e água, sem muito sucesso.
A mãe disse: “Não se preocupem que a própria natureza vai cuidar dele. Esses bichinhos são muito fortes. Logo ele vai estar bom de novo.”
Porém no dia seguinte ele ainda estava mal. As asinhas não pareciam estar quebradas e não havia ferimentos visíveis, mas ele não dava mostras de que ia se levantar.
Continuaram tentando alimentá-lo, mas ele pouco bebeu e comeu. Dava muita pena o seu estado.
Era domingo, dia de missa. O menino não queria saber desses negócios de religião, mas a menina era bastante devota de Nossa Senhora. Então naquele dia ela foi à missa e rezou pela recuperação do doentinho.
Pediu para que ele melhorasse logo e ficasse completamente bom; ou então que morresse rapidamente, porque o pior era o sofrimento pelo qual estava passando aquele bichinho inocente.
Ao voltar para casa imaginava encontrar o passarinho cantando, já pronto pra voar. Caso tivesse morrido, iria fazer uma cova no jardim para se lembrar dele para sempre, com muito carinho.Talvez pusesse uma pequena cruz e plantasse uma flor sobre o local.
Cheia de esperanças, chegou e perguntou se ele tinha melhorado. O irmão respondeu, sem nenhuma emoção, que - muito pelo contrário - tinha morrido.
A menina sentiu um soco no coração. Nesse caso era preciso fazer o enterro.
Perguntou:
“Onde vocês colocaram o corpinho?”
“Jogamos na enxurrada.”
Que pena. Que falta de sensibilidade. Nem um enterro decente o coitadinho teve. E não adiantava reclamar. Os meninos não sentem as coisas como as meninas.
Mas, no final, Nossa Senhora havia atendido ao pedido, e ele não sofria mais. Tinha voado para o céu dos passarinhos.
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