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Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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sexta-feira, 18 de abril de 2025

Festa de Aniversário

Estávamos, Carlos e eu, sentados a uma das mesas da padaria esperando os nossos pedidos. Minha atitude calma e silenciosa escondia um turbilhão de ideias. Eu sabia o que ele estava pensando e, embora discordasse, não queria chateá-lo. Daí o meu esforço em imaginar uma forma diplomática de abordar o assunto.

Enquanto isso notei uma família que entrou e se acomodou em uma mesa atrás do Carlos. Um casal e uma garotinha vestidos modestamente mas com capricho, naquela deselegância discreta de que falava o Caetano. Pareciam estar voltando de um passeio.

Nós também estávamos voltando de uma espécie de passeio. Tínhamos visitado um maravilhoso buffet de festas infantis. Nosso primeiro filho ia completar um ano, e eu queria dar uma festa grandiosa. Meu marido tinha outra opinião: o bebê é muito novo, para ele não vai significar nada, a despesa não compensa. Eu, pelo contrário, fazia planos de chamar toda a família, os amigos e as respectivas crianças para uma tarde de muitas brincadeiras, doces, salgados, refrigerantes e bolo.

Falando em bolo, reparei que a senhora do casal havia se levantado e estava examinando a vitrine de confeitaria. Passou direto pelos bolos e se concentrou nas tortas pequenas, aquelas de tamanho individual. Chamou o atendente e apontou para uma delas.

Voltei a atenção para o Carlos. Ele vinha de uma família de classe média baixa, por isso aquela constante preocupação com dinheiro. Não era o meu caso, mas sempre entendi e respeitei o seu modo de ser. No entanto agora se tratava do nosso bebê, e eu queria sim enfiar o pé na jaca com fé e vontade, mesmo sabendo que ele não ia ficar confortável com a minha oferta de pagar tudo sozinha.

O garçom trouxe os nossos pedidos e dei graças aos céus pela chance de adiar a conversa mais um pouco.

Na mesa da família já estavam a pequena torta de chocolate junto com três copos de suco. "Esse pessoal vai ficar com fome", pensei.

Nesse exato momento a senhora abriu a bolsa e tirou alguma coisa de dentro. Sem parar de mastigar o meu delicioso pastel de forno com recheio cremoso, continuei a prestar atenção. Eram três velinhas cor-de-rosa, que foram cuidadosamente espetadas na tortinha sob o olhar vigilante e curioso da criança. Em seguida o pai riscou um fósforo e as acendeu.

No meio daquele burburinho não deu pra ouvir a família cantando "parabéns a você", até porque faziam tudo discretamente. Os gestos é que mostravam claramente a comemoração: as palmas da menina e o seu sorriso de felicidade não deixavam dúvidas.

Parei de comer e fiquei contemplando aquela cena linda. Ela se lambuzando toda com o creme de chocolate enquanto a mãe ia limpando o que era possível com um lenço branquinho.

Carlos terminou o seu pastel, tomou um gole de cappuccino e me olhou como quem diz: "vamos conversar sobre aquele assunto?" Mas quem tomou a iniciativa fui eu:

--- Amor, eu pensei bem e acho que você tem razão. Besteira fazer uma festa enorme para um bebê de um ano. A gente pode convidar o pessoal mais próximo e comemorar com um jantar aconchegante. O que acha?

A expressão no rosto do meu marido se transformou. Até os seus olhos brilharam. Saímos de lá abraçadinhos como dois namorados. 

Mal sabe ele que vou pegar todo o dinheiro já reservado para a festa e doar para uma instituição que cuida de crianças. Porque o meu bebê merece essa homenagem. E aquela garotinha também. ❤️


Este conto foi inspirado no texto de Fernando Sabino

sábado, 29 de março de 2025

Ama as tuas rosas

Visitando uma casa de repouso conheci o Seu Matias.

Mais de noventa anos, vários problemas de saúde, mas --- segundo me contaram --- pessoa culta e perfeitamente lúcida. 
No meio da conversa sobre como anda caótico este mundo, me perguntou se eu já havia lido "A máquina do tempo", de H. G. Wells.
Respondi que sim, e ele disse que a leitura desse livro o fez entender por que as coisas são como são. 
Estranhei.

--- Se já leu o livro deve se lembrar que naquela história a humanidade estava dividida em dois tipos de gente: os morloques e os elóis. Os morloques viviam no subterrâneo e eram um povo tecnológico. Os elóis viviam na superfície, eram infantilizados, completamente passivos, cuidados e alimentados pelos morloques. Depois se descobre que na verdade os morloques eram antropófagos e que os elóis eram o seu gado de corte.

Sim, eu me lembrava perfeitamente. Mas ainda não havia entendido o que tinha isso a ver com o estado atual do mundo. Seu Matias continuou:

--- A gente sabe que nada se perde, tudo se transforma. Tudo o que existe e tudo o que acontece tem um motivo e um propósito. Já pensou no porquê de tanto sofrimento no mundo?

--- Não... Existe sofrimento mas também existe felicidade. Uma coisa compensa a outra.

--- Não compensa. Existe muito mais sofrimento do que felicidade. E só pode haver um motivo.

Fiquei aguardando a conclusão...

--- Nós também somos gado de corte. Não para os morloques, porque eles não existem, mas para outro tipo de seres. Que não enxergamos.

--- Seres que não enxergamos?!

--- Não fomos feitos pra enxergar esses seres. Nem desconfiamos da existência deles. Mas eles se alimentam da nossa energia de sofrimento. 

Abri a boca pra falar mas demorei um pouco até conseguir formular a pergunta:

--- Mas por que energia de sofrimento? Não seria melhor a energia do amor, da felicidade?

--- Para os humanos sim, mas para eles não. Eles deixam a gente ser feliz só na medida certa para sobrevivermos entre um sofrimento e outro. Essa medida é bem pequena.

Pensei, pensei. Estava até com um pouco de medo de perguntar.

--- Tudo isso o senhor concluiu lendo o livro? Mas pra ter certeza de qualquer coisa é preciso ter provas.

--- Existem indícios. Mais ainda: existem evidências. Tem que existir um motivo para que a Terra seja um lugar de tanta dor. E não é só a raça humana que sofre. Repare que até os animais levam uma vida bem dura.

--- E não haveria um modo de reverter isso?

--- Reverter completamente não sei, mas minimizar seria possível sim.

Nem esperou a próxima pergunta e já foi esclarecendo:

--- Fraternidade. Amor fraterno. Amai-vos uns aos outros. Se esse conselho fosse seguido
, o grau de sofrimento humano diminuiria muito, a alegria de viver aumentaria, até os animais seriam mais felizes. Resultado: os seres parasitas iriam definhar por falta de alimento e quem sabe iriam embora, atrás de outras vítimas.

Nessa altura quem estava com vontade de ir embora era eu. Falar o que para alguém que tinha esse tipo de ideias na cabeça? Mas a boa educação exigia que eu não interrompesse de maneira abrupta a conversa. Falei só por falar:
--- O difícil é convencer os humanos a colocar em prática esses preceitos.

--- Difícil? É impossível. O ser humano não foi projetado pra ter bom senso. As criaturas sinistras nem precisavam ter silenciado o sujeito que pregava esses ensinamentos. Era um projeto que não ia dar certo nunca, mesmo que ele tivesse sobrevivido e repetido a cantilena por mais duzentos anos.

Cruzes! -- pensei eu. Que pessimismo! Mas ainda não estava na hora de dizer tchau, então continuei:
--- Se o senhor pensa assim, quer dizer que perdeu a esperança na humanidade?

--- Totalmente. Não vejo futuro para a nossa raça. Meu único consolo é que o meu tempo neste planeta está se aproximando do fim. Ainda bem.

Não consegui disfarçar um certo incômodo:
--- E as pessoas que ainda têm muitos anos pela frente? No que elas podem se apegar a fim de suportar tudo isso?

Seu Matias contemplou demoradamente o jardim florido à nossa frente..
--- Pessoas como você, por exemplo? É simples: segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias.


quarta-feira, 19 de março de 2025

Por que o céu é azul?

 --- Mãe, por que o céu é azul?

--- Sei lá, Betinho. Porque Deus fez assim.

--- Mas por que ele fez assim? Não podia ter escolhido outra cor? Verde, ou roxo, ou cor-de-rosa?

--- Podia ter escolhido qualquer cor. Ele pode tudo.

--- Então por que preferiu o azul?

--- Como vou saber? Pergunta pra ele!

--- Como faço pra perguntar?

--- Fecha os olhos e pergunta em pensamento.

(Segundos depois...)

--- Mãe, quanto tempo vai demorar? Ele ainda não respondeu.

--- Pra que essa pressa? Vai ver ele está ocupado agora.

--- Ué! Ele não tem um montão de anjo ajudando ele?

--- Tem, mas a gente não sabe o que tá acontecendo lá no céu. Deve ter muita coisa pra ele tomar conta.

--- Era só ele criar mais um montão de anjo e pronto! Dava pra ele descansar e até responder as perguntas.

--- Num fala besteira, Betinho. Deus não descansa nunca.

--- Credo, mãe! Que vida besta ele tem. Eu é que não queria ser Deus.

--- Não se avexe não, Betinho. Ele vai dar um jeito de te responder. Quem sabe não te manda um daqueles anjos pra assoprar a resposta no teu ouvido?

(No dia seguinte...)

--- Mãe, já descobri por que o céu é azul.

--- Descobriu como, Betinho? Deus te respondeu?

--- Perguntei pro meu professor. Ele disse que é por causa do nitrogênio. Tem muito nitrogênio no ar. Quando o sol bate no nitrogênio, o ar fica azul.

--- Não te falei, Betinho? Deus te respondeu!

--- Mãe, será que o meu professor é um anjo?

--- Pode ser, Betinho. Tem muito anjo por aí fingindo de professor.


Imagem: Stockcake.com

quarta-feira, 5 de março de 2025

Uma doce velhinha

 Sou uma idosa de aparência frágil. Vivo em uma cidade perigosa, por isso saio pouco de casa. Além do risco de assaltos há o problema das calçadas irregulares. Ser vítima de assalto ou de queda: duas possibilidades desencorajadoras.

Passo algum tempo, todos os dias, escrevendo. Antigamente eu fazia planos de publicar as minhas histórias, de me tornar escritora em tempo integral. Agora não tenho mais expectativas. De nada. Escrevo para me divertir, para exercer a criatividade, para manter os neurônios funcionando. Sou sozinha, não posso me dar ao luxo de perder a sanidade mental. Quem iria cuidar de mim?

Às vezes fico pensando que após a minha morte virá alguém para esvaziar o apartamento, e esse alguém vai encontrar as pastas onde guardo os meus escritos. Porque escrevo à mão, como se fazia antigamente. Pois essa pessoa há de ficar curiosa, lerá alguns contos e, achando-os maravilhosos, vai recolher e levar consigo todas as pastas. Depois de algum tempo todo esse material será publicado em diversos livros, que farão muito sucesso. E receberão prêmios! (Quem sabe até um Nobel de Literatura?!)

De volta ao mundo real.

Semana passada aconteceu um fato pitoresco. Como já disse, evito sair de casa, porém é preciso pagar contas, fazer compras, ir de vez em quando às consultas.

Daí que estava a caminho do banco quando fui abordada por um jovem. Nem percebi quando ele se aproximou porque estava prestando atenção na calçada cheia de buracos. De repente ele estava ao meu lado, e falou com muita firmeza:

--- Aí, dona. Vai me passando o celular.

Olhei para ele e fiquei paralisada por alguns segundos devido à surpresa. Ele insistiu:

--- Vai logo, dona!

Sem desviar os olhos, abri o maior sorriso.

--- Rafael! É você, meu neto? Já está um moção! Veio ver a sua avó?

O rapaz ficou irritado:

--- Tu é demente, dona? Que neto que nada, me passa logo as suas coisas!

Nem me abalei. Continuei no mesmo tom:

--- Não mudou nada, né Rafinha? Sempre chamando a sua avó de louca. Mas por que você não vem comigo, em vez de ficar aí falando bobagens?

Nessa hora percebi um brilho no olhar do jovem. Deve ter pensado: "Essa maluca vai me levar até a casa dela? Tô vendo vantagem."

Falando em voz mais baixa me perguntou:

--- Onde a senhora está indo?

E eu:

--- Tô indo ao cemitério. Faz tempo que não visito o seu túmulo, meu neto. Preciso trocar as flores. Foi por isso que você veio, né? Sentiu a minha falta, não sentiu?

Uma expressão de repulsa apareceu em seu rosto. A rispidez voltou.

--- Tá falando do quê, velha louca?

Antes que ele continuasse, interrompi com energia:

--- Olha aqui, Rafinha, essa sua mania de me chamar de louca tem que acabar. Foi por isso que perdi a calma com você daquela vez.

Em seguida amenizei um pouco:

--- Falando nisso, já que você está aqui quero aproveitar pra te pedir perdão. Estou muito arrependida.

Ele não falou nada, nem dei tempo.

--- Arrependida do que te fiz, Rafinha. Não se lembra mais de como perdeu a vida? 

A repulsa se misturou ao horror. Ele deu um passo para trás. Continuei, já me exaltando um pouco:

--- Me arrependi sim, mas a culpa também foi sua. Quantas vezes já tinha pedido pra você ter mais respeito comigo? Mas não adiantava. Aquele dia perdi a calma, bem na hora em que estava cortando o pão. Era pra você que eu estava cortando aquele pão, Rafinha. E olha, vou te dizer: nem foram as palavras que fizeram o meu sangue subir, foi o ar de deboche. Uma criança de sete anos e já debochada daquele jeito.

O rapaz começou a se retirar, olhando de lado, meio assustado e meio curioso. Aproveitei para fazer uns gestos exagerados.

--- Que decepção, Rafael. Já vi que você não tomou jeito. Será que vou ter que fazer aquilo outra vez?

Abri a bolsa e comecei a remexer, como se estivesse procurando alguma coisa. O assaltante virou as costas e se afastou depressa sem olhar para trás.

Dessa vez me livrei, mas desde então tenho pensado em me mudar para algum lugar mais tranquilo.

Nem todo assaltante vai se comportar como esse, se deixando levar pelo roteiro de "Uma doce velhinha", um conto despretensioso que acabo de escrever.



quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Cuidadora

 Vem. Me dá a mão. Devagarinho. Cuidado pra não tropeçar. Já estamos chegando. Tá vendo aquela luz? É ali. Mais um pouco. Se apoia em mim. Pronto, a gente chegou.

 Agora o senhor tem que entrar. Não precisa ficar com medo não. Vão lhe cuidar muito bem. Melhor do que eu, pode acreditar. 

Não fica triste. Um dia venho lhe encontrar, eu prometo.

Tchau. Fica com Deus, pai.



sexta-feira, 26 de maio de 2023

Confissões

Padre Bento andava chateado com o estado deplorável da sua igrejinha, tão carente de limpeza e arrumação.

Foi quando recebeu no confessionário a dona Luzia, mulher do seu Januário.

Envergonhada, ela pediu perdão por um pecado muito feio que havia cometido. Jurou que não queria fazer aquilo, mas acabou fazendo, e precisava urgentemente se penitenciar.

Padre Bento já havia se deparado com pecados piores, porém mostrou-se estarrecido e concordou que um ato de tal gravidade exigia reparação excepcional. Passou-lhe como penitência a limpeza da igrejinha, além da reza de dez padrenossos.

Dias depois, contemplando o primor do trabalho de dona Luzia --- o esforço tinha sido proporcional ao sentimento de culpa ---, ele se lembrou da triste condição da casa paroquial. Teve outra boa ideia.

O único problema era descobrir como fazer chegar às mãos do seu Januário, anonimamente, uma daquelas revistas que ele guardava escondidas sob o colchão, havia tantos e tantos anos...



quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Quem Deus ajuda?

Oi, mãe.  Olha eu aqui. A senhora já sabe, né? Quando eu apareço assim, de supetão, é porque tenho alguma coisa pra contar. Ou pra desabafar. 

Primeiro um copo d’água. Não precisa café não, tá bom assim. Se prepara, mãe. O caso de hoje é desabafo mesmo. Faz dias que isso não sai da minha cabeça. Preciso colocar pra fora. Então lá vai.

Tem a ver com aquele ditado que a senhora sempre fala, “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Então. Eu sigo esse conselho desde que me entendo por gente, e não me arrependo.  Madrugar é meu costume. Quando arranjei o primeiro emprego de carteira assinada, pensei: “é aqui que vou ficar até a aposentaria”. Por isso chegava antes da hora, pegava os meus apetrechos e já começava a trabalhar. Eu era faxineiro, lembra? Mas tinha jeito com eletricidade e também consertava coisas, então fui promovido pra ajudante geral. Daí comecei a prestar atenção no serviço do pessoal do escritório. Perguntei como fazia pra trabalhar ali. Falaram que eu não podia porque não tinha estudo. Arranjei escola noturna e fui atrás do diploma, isso a senhora se lembra porque me esperava toda noite com a janta na mesa, mesmo eu chegando tão tarde.

Tirei o diploma e pensei que já podia mudar de função. Até mudei, mas não foi bem do jeito que eu queria. Me botaram pra fazer um monte de coisa na rua: buscar e levar documento, resolver assunto em banco e cartório, falar com fornecedor, e o que mais aparecesse.

Nessa época me veio uma ideia: prestar muita atenção em tudo e aprender o máximo para conhecer a empresa por completo. Meu pensamento era: quem sabe um dia eles reconhecem o meu valor e me dão uma oportunidade no escritório.

Como a senhora sabe, esse dia chegou. Mandaram embora um funcionário e, em vez de pegar um novo, me colocaram no lugar.

Olha, eu fiquei feliz que só vendo. E continuei com a minha ideia de aprender cada vez mais pra poder subir de cargo. Disseram que era preciso faculdade, então fui fazer a faculdade. Dessa vez quem me esperava tarde da noite com a janta em cima da mesa era a minha mulher, abençoada seja.

Então, mãe. Tirei o diploma da faculdade. Aprendi tudo o que era preciso. Não faltava mais nada, a não ser a vaga de supervisor, era essa que eu queria.

Mês passado o supervisor morreu, Deus o tenha. Era bem idoso e estava doente. Coisas da vida. Logo começaram a comentar quem ia ocupar o cargo. A maioria achava que só podia ser eu, antigo de casa, conhecia o serviço de cabo a rabo, e além do mais, funcionário de confiança.  

Sabe o que aconteceu, mãe? Isso tá fazendo uma semana. Convocaram a gente pra uma reunião. Meus colegas já foram me dando os parabéns antes mesmo do anúncio.

Pois não é que apresentaram lá um molecote todo engomadinho que nunca ninguém tinha visto antes, e disseram que era o novo supervisor?

Ficou todo mundo de boca aberta sem entender. Pior ainda, mãe: me chamaram e disseram que era pra eu ensinar o serviço pro molecote.

Ele não é má pessoa, parece esforçado e me trata com respeito, reconheço.

Mas isso não foi justo, mãe. A gente descobriu que é filho de um amigo do diretor, e nem acabou a faculdade ainda.

Tanto que madruguei, tanto que me esforcei, confiando que Deus ia me ajudar… Não me arrependo de ter seguido o seu conselho, mãe, porque é o caminho certo pra se tomar na vida, mas tenho pensado muito numa coisa. Sabe a conclusão que tirei? É triste, mas não tenho outro modo de encarar isso. Não devia ser assim, mas é. Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Fantasia

Gabi passa o dia todo sozinha em seu apartamento. Trabalha para uma editora fazendo leituras críticas e revisões, presta serviços como "ghost writer" e o que mais aparecer. Dentro desse pequeno espaço sente-se feliz com a liberdade de se dedicar ao que gosta e ser quem realmente é.

Vaidosa, está sempre arrumada como se esperasse visita. Mas não, é apenas o prazer de se sentir bem cuidada e elegante.

Porém o trabalho que ama não é suficiente para pagar todas as contas. Em certos dias da semana vê-se obrigada a deixar o seu refúgio por algumas horas e exercer outra função.
Nesses dias, o cair da tarde traz consigo uma tristeza que já se tornou familiar. O jeito é enfiar a tristeza no saco e enfrentar a realidade.

Tira a maquiagem, deixa de lado as sandalinhas de salto, os brincos e as pulseiras; livra-se da roupa habitual e coloca a fantasia. Se disfarça tão bem que ninguém suspeitaria quão penoso lhe é fazê-lo.

Ao sair sempre cumprimenta com um sorriso o porteiro da noite. Este lhe responde muito solícito e amável:
--- Boa noite, professor Gabriel. Boas aulas! Vai com Deus!



sábado, 17 de abril de 2021

Tardígrado

Ela voltava da horta quando viu, em frente ao seu barraco, um jovem bonito, bem vestido, em atitude de expectativa. 

--- Doutora Solange? A senhora é a doutora Solange, não é?

Medo, contrariedade, surpresa e estranhamento: tudo isso se mostrou em seu semblante. Aproximou-se, depositou no chão o cesto com algumas raízes de mandioca e uma abóbora pequena.

--- Dotora? Que dotora? Por acaso tenho cara de dotora, moço?  

--- Eu sei que é a senhora. O meu pai reconheceu a senhora numa foto.

--- Que é que você tá falando,  menino? Foto? Que foto? Nunca tirei foto na vida.

--- Vou lhe explicar direitinho. Fui com o meu pai a uma exposição de imagens, e quando ele viu a sua, reconheceu na mesma hora!

--- Não tô entendendo nada do que você tá falando, moço. Vorta pra estrada e continua percurando porque você errô de endereço. 

Ele olhou longamente aquela mulher de meia-idade, mal vestida, a pele curtida de sol, o cabelo escondido sob um pano grosso. Não desistiu.

--- Depois que o meu pai lhe reconheceu, eu fui falar com o fotógrafo. Foi assim que descobri o seu paradeiro. Ele disse que enganou a senhora. Que a senhora não queria, mas ele deu um jeito e fez a foto escondido. 

Uma pausa. Olhou para o chão. Voltou a encará-la e falou devagar:

--- Parece até que foi coisa do destino, mãe. 

A última palavra mexeu com ela. 

--- Mãe? Essa dotora era sua mãe?

--- Era não. É. Quando a senhora fugiu eu tinha só dois anos, por isso não me reconheceu.

A mulher se mostrou emocionada.

--- Não tenho filho, moço. Deus lhe ajude a encontrar a sua mãe. É triste filho sem mãe. 

--- Olha, eu só quero que a senhora saiba que não tem mais perigo, já pode voltar. Meu pai me contou que a senhora era cientista e fez uma descoberta muito importante, mas ficou com medo que caísse em mãos erradas e apagou tudo. 

--- Que é que você tá falando, menino? Num tô intendendo.

Ele ignorou a interrupção. 

--- Daí o chefe do seu grupo de pesquisa quis lhe obrigar a refazer todos os passos da descoberta, porque o resultado valia muito dinheiro. A senhora fugiu para não ser obrigada a revelar os detalhes, e também para proteger a sua família. 

Ela ficou olhando o jovem. Agora a expectativa era dela.

--- Mas esse cara já morreu, e ele era o único que sabia do estudo. Pode ficar tranquila, ninguém mais vai lhe perseguir. Volta comigo e fica com a gente de novo. 

Ela estava quase chorando, mas se segurava.

--- Não entendi nada do que você falou, menino. Mais é muito triste um filho ficá sem a mãe. Inda mais se ela fugiu. Vô rezá pra você incontrá ela, viu?

Ele, cabisbaixo, parecia decepcionado. O pai lhe garantira que a mulher da foto era a sua mãe, sem a menor sombra de dúvida. Talvez fosse, mas nesse caso a negação revelava um grande pavor. De quê? O inimigo estava morto. Ninguém mais sabia da descoberta. Medo de quê? Não fazia sentido. Mais provável que ele estivesse ali fazendo papel de bobo. 

--- Então a senhora me desculpe. Pensei mesmo que tinha encontrado a minha mãe. Pelo visto, o meu pai se enganou. Fique com Deus, então. Está precisando de alguma coisa? O que posso fazer pela senhora?

--- Não, menino. Não tô percisando de nada não. Vai em paz. Tomara que as coisa se ajeite pra você. Vô rezá pra Deus te ajudá. 

Quando o jovem entrou no veículo e rumou para a estrada ela ficou acenando adeus até ele desaparecer na curva. Depois entrou no barraco e sentou no banco perto da janela.  Ficou olhando para as galinhas ciscando no terreiro, o cesto esquecido no chão. Pensava na vida... 

* * *

Afinal, quem era --- ou tinha sido --- essa doutora Solange?

Era médica, trabalhava em pesquisa do câncer e descobriu acidentalmente, por meio de um estudo com tardígrados, uma droga que embora falhasse na cura daquela doença produzia rejuvenescimento nos organismos. A fonte da juventude. 

Assustada com as implicações de tal descoberta, resolveu mantê-la em segredo até decidir o que fazer. Não conseguiu. Tendo se negado a compartilhar os detalhes da pesquisa com o chefe do laboratório, sofreu sequestro e tortura. Nessa altura já tinha destruído tudo: anotações, arranjos experimentais e substâncias químicas. Não revelou nada. Conseguiu fugir, mas teve que deixar para trás sua família e sua vida.

***

Finalmente levantou-se do banco a mulher de meia-idade, mal vestida, a pele curtida de sol, os cabelos escondidos sob um pano grosso.  Foi ao terreiro e recolheu o cesto com as raízes de mandioca e a abóbora pequena. 

Antes de voltar para dentro ficou uns instantes contemplando o horizonte. Pra onde, agora? Tantos anos aperfeiçoando seu novo eu, tentando incorporar aquela personagem.

Pra onde, agora? Qualquer lugar, menos a sua antiga vida. Como poderia contar ao filho que o chefe estava morto porque ela o matara na tentativa de fuga? E como poderia revelar a ele que o seu próprio pai havia facilitado o sequestro depois de aceitar um acordo com o chefe?

Não, impossível voltar. O inimigo ainda estava à espreita.

***

"Tardígrados são animais microscópicos da família dos artrópodes. Conhecidos popularmente como ursos d'água, são muito resistentes: podem sobreviver em temperaturas variando desde duzentos graus negativos até cento e cinquenta positivos. Suportam pressões de seis mil atmosferas e radiações mil vezes maiores do que um ser humano pode aguentar. Algumas espécies brilham no escuro."



sábado, 10 de abril de 2021

"Turning point"

Mil vezes ele perguntou o que havia lá pra cima. Mil vezes lhe responderam que tudo, tanto acima quanto abaixo, era exatamente igual àquele lugar onde estavam. Mas ele nunca acreditou. Alguns seres apareciam ali ocasionalmente; eram perseguidos e mortos para se transformarem em alimento. Vinham sempre do lado de cima e nunca do lado de baixo. Não podia ser tudo igual. Quando chegou à idade adulta a dúvida foi esclarecida. Um ancião o chamou e, falando em voz baixa, contou que eles próprios tinham vindo do lado de cima e para lá deveriam voltar quando o perigo tivesse passado. Isso havia acontecido há muito tempo; certamente já era chegada a hora. Todos ainda tinham muito medo e precisavam de alguém com coragem para ir e depois retornar a fim de convencê-los. Em seguida o ancião lhe deu instruções, entregou-lhe uma tocha apagada, ensinou como acendê-la e recomendou que deveria ser acesa apenas quando sentisse uma forte lufada de ar frio. Assim ele empreendeu a jornada. Levou mais tempo do que havia imaginado: a subida era longa, íngreme, escura, por vezes escorregadia. Sua persistência e disciplina foram recompensadas: enfim chegou a um lugar amplo e fresco onde a luz da tocha lhe revelou o mundo lá fora. O que ele viu à sua frente lhe deu instantaneamente a certeza de que jamais iria voltar. 




domingo, 21 de março de 2021

Visita à velha senhora

Minha bisavó tem cento e um anos. Ontem fui visitá-la. Como sempre, não me reconheceu. Mas sorriu e estendeu a mão. Sentei-me à cabeceira da cama e ficamos de mãos dadas, sem necessidade de conversar. Ela alterna períodos de longo silêncio com outros dedicados a narrativas da sua vida. 

Alguns minutos se passaram até que virou a cabeça na minha direção e começou a dizer que costumava ficar feliz quando a sua mãe lhe penteava o cabelo e prendia o rabo-de-cavalo com uma fita azul. Era uma fita de seda azulzinha como o céu. Assim, de cabelo arrumado, ela ia para a escola. Essa escola ficava bem no meio da plantação de café. Grande e bonita, cheia de crianças, e tinha muitas gaiolas de passarinho dependuradas nas paredes. Na hora do lanche ela repartia o pão e a goiabada com os coleguinhas mais pobres que não levavam nada pra comer. A mãe se admirava com o seu apetite quando chegava e ia almoçar. É que ela às vezes dava o lanche inteiro para as outras crianças e por isso ficava com fome. Mas não contava nada porque tinha medo de levar bronca.

Dito isso, caiu em silêncio. Fiquei quieta segurando a sua mão, pensando na história de vida daquela mulher. História conhecida por todos nós, seus descendentes. 

Ela foi a única menina de uma família de imigrantes italianos. Nasceu logo depois do desembarque. Sua mãe morreu no parto. Cresceu entre irmãos bem mais velhos, e aos treze anos foi dada em casamento a um homem que nunca tinha visto, com o dobro da sua idade. Meses depois deu à luz uma criança que viveu poucas horas. A partir daí, a cada ano e meio em média, tinha um novo bebê. Do total de onze, sete sobreviveram. Após o décimo primeiro nascimento o meu bisavô teve a decência de morrer. Deus sabe como ela fez para criar sozinha aqueles filhos. A pobreza e o analfabetismo os acompanharam pelo resto da vida, mas todos chegaram à idade adulta sem nunca se desviar do bom caminho.

Um fato marcante ainda lhe aconteceria: a alfabetização através do neto mais velho, que vem a ser o meu pai. Uma mudança profunda em sua qualidade de vida: passou a ler tudo o que lhe caía nas mãos e tinha preferência por romances românticos, aqueles cheios de adjetivos e com finais felizes. Só parou de ler quando foi vencida pela senilidade.

Estava eu nesses pensamentos quando entrou a cuidadora. Sorriu com expressão de cumplicidade e teve a delicadeza de fingir não ter visto as lágrimas tremulando nos meus olhos.

--- Quietinha, né? Tem estado bem quietinha hoje.

--- Acabou de me contar a história da escola no meio do cafezal.

--- Eu gosto dessa história. Mas agora ela inventou uma nova, muito bonita. Acho que é a mais bonita de todas. Você também vai gostar.

--- Sobre o quê?

--- Sobre como foi lindo e romântico o dia em que o namorado de infância, seu bisavô, a levou para passear numa campina toda florida. Assim que o sol começou a se por, o céu ficou mais bonito e a brisa mais fresca. Foi então que ele se ajoelhou e pediu a mão dela em casamento.

Olhei para a face tranquila da minha bisa. Estava fitando o nada, totalmente em paz. Talvez sonhando com aquela tarde encantada na companhia daquele namorado afetuoso. 

A vida não é justa. Ela merecia ter sido feliz. Apertei mais a sua mão e, finalmente, as lágrimas relutantes escorreram dos meus olhos.


segunda-feira, 15 de março de 2021

Esterilidade

O coração humano é mesmo cheio de mistérios. Estou alegre e triste ao mesmo tempo. 

Alegre por ter cumprido a minha missão; triste porque o desfecho foi diferente do que eu esperava e desejava. 

Agora estou voltando à minha terra. 

Até ontem eu trabalhava para a famosa fotógrafa Darina Svoboda. Nem tão famosa assim, concordo, mas próspera o suficiente para contratar uma assistente particular. O fato de termos a mesma nacionalidade e portanto falarmos a mesma língua ajudou na minha contratação. Também foi estratégico ter feito uma pesquisa sobre a sua carreira e personalidade. O acaso, por sua vez, colaborou fazendo eu estar no lugar certo na hora certa.

Foram nove meses de convivência. Uma gestação completa. Para mim isso carrega uma simbologia especial.

Nove meses tentando ser a assistente perfeita, aquela que desempenha com perfeição e rapidez todas as tarefas, que faz um café exatamente ao gosto da chefe, que sabe ouvir com discrição os eventuais desabafos, e suporta com humildade os não tão raros surtos de mau humor. Uma criatura eficiente, submissa e sem personalidade. Um objeto útil, indispensável.

Não foi fácil. Deus sabe quantas noites adormeci chorando de nervoso e cansaço. Mas era preciso. E valeu a pena.

Ontem finalmente tivemos a conversa que eu tanto esperava. Começou de forma natural, como tinha de ser.

Cumprindo o ritual diário de elogios, apontei para uma de suas fotos. Achei que se parecia com um lugar da minha cidade natal, Praga. Que, não por coincidência, é a dela também. Em preto e branco, um fim de tarde ou um amanhecer chuvoso. Calçadas reluzentes de umidade. Névoa. Um homem se afastando, segurando um guarda-chuva. 

"Magnífica esta imagem!" disse eu. 

"Uma das minhas preferidas!" respondeu ela.

E, sem necessidade de outros estímulos, iniciou uma sessão de recordações.  

"Essa é a última foto que fiz antes de deixar a República Tcheca. Foi tirada da janela do apartamento onde eu morava com meu noivo Marek, o homem do guarda-chuva."

Nessa hora senti o coração disparar. Ela não percebeu nada e nem perceberia, egocêntrica que é, incapaz de enxergar outros seres humanos. Continuou:

"Era uma manhã bem fria. Acordei sacudindo ele, pedindo que fosse buscar alguns trdelníks, meu doce preferido, já que estava com desejo."

Começou a rir. 

"Ele era tão bobo! Fazia tudo o que eu pedia, acreditava em tudo o que eu dizia. Estava guardando dinheiro para comprar o nosso apartamento. Você sabe como as coisas são difíceis na Tchéquia. Sempre foram. Mas ele tinha esse sonho de comprar um apartamento para nós, e ia juntando as economias num cofrezinho de madeira guardado debaixo da cama."

Aqui, outra risada de deboche. 

"Eu tinha dito a ele que estava grávida, por isso ele se levantou imediatamente, se vestiu e saiu prometendo voltar o mais rápido possível com os meus doces. O bobalhão nem percebeu que ainda faltavam duas horas para o comércio abrir."

Outra risada. Eu cada vez mais nervosa, mas sempre em silêncio para não cortar o fio do relato. 

"Quando ele saiu fui à janela e achei interessante o cenário. Peguei minha Kodak e bati a foto. Tive muito tempo pra juntar as coisas e partir rumo ao aeroporto. O que eu queria da vida era bem diferente daquilo que ele podia me dar. Fui em busca do meu futuro. Dele, só queria mesmo o cofrezinho de madeira pra pagar a passagem e as primeiras semanas neste país."

Nessa altura eu estava em choque. Tive que interrompê-la:

"E a criança que a senhora estava esperando?"

Ela me olhou surpresa, não sei se pela interrupção ou pelo teor da pergunta. Mas não se abalou.

"Criança? Que criança? Era mentira. Nunca fiquei grávida. Sou estéril. Não falei que ele acreditava em tudo?"

Antes de ouvir a próxima risada de escárnio simplesmente me virei e fui embora, sem uma palavra de despedida. Nem sei se ela disse alguma coisa, se me chamou de volta. Mortos não falam, e para mim ela estava morta. 

Pobre tio Marek. Passou a vida toda preocupado com um filho que nunca existiu. Não contou a ninguém, nem a mim, que havia sido roubado pelo seu grande amor. Jamais se ligou a outra mulher. Quando descobriu onde Darina estava, passou a guardar dinheiro para viajar ao seu encontro, mas a doença não permitiu.

Já no leito de morte me pediu o favor de localizar o seu filho e lhe explicar que a ausência não havia sido proposital. 

Meu último ato desta missão será visitar o seu túmulo assim que desembarcar. Vou me sentar na grama perto da lápide e lhe contar tudo o que descobri. Sei que não estará ali para me ouvir, mas quem sabe ouvirá de onde estiver. 

Ou, melhor ainda, talvez não me ouça e seja poupado de saber que amou uma criatura despida de sentimentos.

De qualquer maneira, a missão estará cumprida. 

Espero que descanse em paz, tio Marek. Que finalmente se liberte da imagem congelada em preto e branco na qual a mulher de coração estéril o aprisionou. Que a manhã lhe nasça ensolarada, colorida, e que toda a doçura daqueles trdelníks flua para dentro da sua alma e lá permaneça para sempre.



domingo, 7 de março de 2021

Mais cinco minutinhos

Destrancamos a porta lentamente, com todo o cuidado para não assustá-la. Quando abrimos, ela estava sentada sobre um caixote de madeira, vestida com roupas que obviamente não eram suas. Ao redor, pedaços de pano e de papelão, alguns tijolos espalhados, desordem e poeira.

Em vez de uma reação de alegria ou de alívio, ela nos olhou com indiferença.  Nem sequer se levantou. Tive que tomar a iniciativa:

--- Vem, senhora. Pode sair. Já prendemos a quadrilha.

Ela, desinteressada:

--- Prenderam?

--- Prendemos todos. A senhora está segura. Pode vir conosco. Seu marido aguarda lá fora.

Ela nem se mexeu.

--- Ele pagou o resgate?

--- Não. Ele acionou a polícia. 

--- Entendo.

E ficou em silêncio, olhando para o nada. Deve ser trauma, pensei. Melhor conversar mais um pouco.

--- Então. Sua família está ansiosa. Vamos sair daqui agora? Seus pais viajaram pra cá e estão na sua casa esperando. 

--- Ah sim. Meus pais...

Meu Deus! Que entusiasmo contagiante! Resolvi ser mais assertiva e chamá-la pelo nome, com outro tom de voz:

--- Vamos agora, dona Cláudia. A perícia quer entrar pra fazer o trabalho deles. Não tem por que continuarmos aqui. A senhora precisa passar por exame e depois se alimentar e descansar.

Me encarou pela primeira vez:

--- Pode me fazer um favor?

--- Com certeza, dona Cláudia, é só dizer.

Ela olhou em volta. Suspirou como se estivesse se despedindo do lugar.

--- Me dá só mais cinco minutinhos?



terça-feira, 2 de março de 2021

Dourado ou azul?

Assim que entramos na sala o seu olhar foi atraído, como sempre, pela parede coberta de quadros. Aproximou-se de uma paisagem em duas cores, demonstrando grande interesse. Ficou lá parado, totalmente absorvido pela imagem. 

--- Bonito, né? disse eu só para quebrar o silêncio. 

Tive a impressão de que não me ouviu, mas algum tempo depois respondeu:

--- Esse quadro é novo. Não tava aqui antes.

Sou incapaz de imaginar como o meu filho consegue perceber essas coisas. A parede abarrotada de pinturas, uma bagunça de cores que parece uma salada de frutas, ou um arco-íris esfacelado, sei lá. Mesmo que frequentasse aquele ambiente todos os dias,  eu jamais iria perceber alguma mudança.

--- É a vida,  mãe. 

---- Me explica, filho. Só estou vendo duas figuras num barquinho.

--- Canoa, mãe. 

--- Que seja. Mas por que é a vida?

--- O remador precisa remar com atenção, sem perder tempo, porque se perder tempo vai ficar de noite, vai ficar tudo escuro.

--- Como você sabe?

--- A sombra. A sombra aumenta e vai chegando perto. Ele quer alcançar o outro lado antes da sombra escurecer o lago.

--- Ah, é um lago? Pensei que era um rio.

Na verdade eu não estava pensando nada, só queria incentivar a conversa. Ele, muito sério, sem tirar os olhos da imagem:

--- É um lago. Ele precisa chegar do outro lado antes de escurecer.

--- E a figura que está com ele, sentada atrás?

--- É a sabedoria,  mãe. 

--- Então não é uma pessoa?  É uma espécie de anjo? Tipo o anjo da sabedoria?

--- Anjo não. É a sabedoria que nasceu com ele. Aonde ele vai, a sabedoria vai junto.

--- Nesse caso ele é alguém especial, já que recebeu esse dom.

--- Todo mundo nasce com sabedoria. 

--- Mas nem todo mundo é sábio. Pouca gente demonstra sabedoria. 

--- É porque não é obrigado, mãe. Se não quiser usar não usa.

--- Entendi. Mas voltando pro quadro, me diga uma coisa. Se a escuridão chegar até ele antes de alcançar a margem do lago, o que acontece?

--- A vida acaba. A sabedoria tá falando o que ele tem que fazer. Se fizer, a vida acaba só na outra margem. Se não fizer, a escuridão alcança ele e ele morre no meio da travessia. 

--- Então é melhor ouvir os conselhos da sabedoria. 

Nesse momento ele se virou e, para minha surpresa, me olhou nos olhos.

--- Por quê, mãe?

Fui salva pela recepcionista:

--- Vocês já podem entrar, a doutora está esperando.

Eu sei que ele não vai esquecer a pergunta. Uma hora vou ter que responder por que a jornada mais longa é melhor que a mais curta. 

Não sei a resposta agora. 

Espero que me surja alguma inspiração durante a nossa consulta de rotina, com a psiquiatra preferida do meu filho.



Imagem: Johannes Plenio

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A maldição de Rosalina

Aqui é o lugar perfeito . 
No alto da escadaria, no conforto deste assento macio, consigo observar todo o salão. 
Não faz diferença ele estar mascarado. 
Cada pessoa tem o seu jeito; o dele é inconfundível.

Muitas coisas ele não sabe. Nem suspeita.

Não sabe o quanto penso nele. 
Não sabe que posso reconhecê-lo na multidão. 
Não sabe o motivo de eu estar usando esta máscara tão delgada, incapaz de esconder minhas feições. 
Não sabe que me sentei aqui a fim de ser vista com facilidade.  

Tudo para que, ao chegar, venha ao meu encontro.
Tudo para ficarmos juntos.

Tudo para vê-lo entrar e no mesmo instante ocupar-se daquela menina fantasiada de santinha. 

Não olhou em volta. 
Não me procurou. 
Sequer se lembrou de mim. 

É isso o que você quer? 
É isso o que você escolheu? 

Assim seja. 

Nunca saberá que esta seria a nossa noite.
A noite tão aguardada.
A noite inesquecível. 
A noite destinada a durar para sempre.  

Não importa.
Não ficarei no seu caminho.
Não me lamentarei. 

Siga o seu destino.

Seja feliz, Romeu. 

Se puder.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Velhos deuses

Juntos estamos como há muito temos estado. Só nós dois.
Eu, deus.
Ele, meu derradeiro crente.
Ninguém mais.
Tanto tempo, tanto tempo, que as bordas se desvaneceram.
É ele aqui comigo onde habitam os deuses, entre as nuvens que vagam sobre os picos mais altos?
Ou sou eu lá com ele onde habitam os humanos, em meio aos charcos sombrios?
É dele a cabeça exausta que se apoia nos meus joelhos? Ou é nos joelhos dele que eu me inclino e desfaleço?
Não há mais diferença. Tudo se tornou indistinto. Como as montanhas distantes fundindo-se no azul do céu.
Ele tem me sustentado e eu a ele.
O último do seu povo. Todos os outros, mortos. Ele único. Ele e eu: sozinhos.
Não fosse por mim já teria morrido também. Liguei o fio de prata da sua vida às energias celestes. Etéreo cordão umbilical.
Muita energia escorreu por esse fio, energia vinda do nada. Passou por ele, retornou ao nada.
Pouco resta para ele próprio tornar-se nada.
Junto com ele, eu.
Que há de mais aterrorizante do que a não existência?
Esse terror agora nos domina.
Suportamos ao máximo. Estamos esgarçados.
Eu não existo sem ele, ele não existe sem mim. Mas nenhum de nós é eterno.
Nestes últimos instantes a razão não me basta. O que eu sei não me consola. A convivência me tornou humano. Tenho emoções. Sofro.
Eu não queria morrer. Não queria fazer você morrer. Porque quando eu me for, você irá comigo. Ao nada. Ao não ser. Ao nunca ter sido.
Mesmo assim, embora seja inútil insistir, reafirmo que te adorei. Que te glorificava a cada manhã. Que te agradecia pelos raios de sol, pelas gotas de chuva e pelas estrelas.
Porque sem você nada haveria neste mundo. Nada nem ninguém nem prazer nem dor e ainda na dor eu te agradecia. Por continuar vivo.
Agora não tenho mais dor, só tristeza. No fim de tudo, valeu a pena?
Ah, a dúvida. Por que agora a dúvida? Toda uma vida de crença e adoração.
Quem fez as leis a que obedeci? E se não as tivesse obedecido?
Meu entendimento se esvai. Minha mente se confunde. O sentido de tudo se desorganiza.
Sinto-me débil. Ele não pode me ajudar porque minha debilidade o contamina.
Perder tudo é a maior das dores. Ao menos a crença ― ou a ilusão da crença ― poderia restar.
A morte com dignidade: a morte com a certeza de que tudo valeu a pena.
Por que, deus, me negas esse último consolo?
Enxergo com os olhos dele. Seus olhos buscam as estrelas, âncoras da eternidade. Quer se unir a elas e permanecer.
É inútil. O fio de prata tornou-se névoa, dissipou-se no espaço.
Descansemos, meu criador, minha criação.
As estrelas estão se apagando. Quem se apaga? Elas ou nós?
Elas em nós.
Mergulhemos na escuridão. Unidos como sempre estivemos.
E não tenha medo, porque sempre fomos um único. E com Ele continuaremos a ser.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Lá, naquele lugar


Eu me sentia tão bem naquele lugar. Lá eu era quem realmente sou. Nada mais, nada menos. Apenas eu.
Enquanto vivia aqui, sempre fui o que queriam que eu fosse; sempre fiz o que queriam que eu fizesse.
Todos ficavam satisfeitos, me aprovavam e sorriam. Todos viviam contentes, menos eu.
Lá não. Lá eu era diferente. Não pensava em ninguém. Nem sequer me lembrava dos outros. Estava muito ocupado comigo mesmo. Sendo feliz pela primeira vez.
Me sentia aliviado, essa é verdade.
Agora que voltei, voltei diferente.  Consigo ver com clareza: sempre carreguei um peso nas costas. Era difícil, mas eu me esforçava. Até que não consegui mais.
Por isso fui para lá.
A vida inteira desejei duas coisas: um jardim e uma horta. 
Conversa de maluco, diziam meus pais. Você tem que estudar, não pode perder tempo chafurdando na terra. Essas coisas a gente compra na feira e na quitanda. Vai estudar, menino, larga de inventar histórias.
Estudei, me formei. Agora vou ter um jardim e uma horta, pensava. Jardim? Horta? Minha noiva estranhava. Um dia quem sabe, depois da aposentadoria. Agora temos outras prioridades.
Montamos casa, criamos nossa filha, me aposentei.
Jardim, pai? Horta? Pra quê? Com essa idade, fazer serviço pesado com pá e enxada? Tomar friagem? Melhor não. Olha a saúde.
Pois fiquem sabendo que lá, naquele lugar, eu tinha tudo isso. E ninguém para me criticar.
Plantei um jardim na frente da casa e uma horta nos fundos. Sim, porque eu tinha uma casa. Estão pensando o quê? Que eu vivia ao relento? Não senhor.
Era uma casinha pequena, simples, e eu nunca me senti tão confortável.
Plantei margaridas, rosas, gerânios e dálias.
E todas floriram em pouco tempo! Um colorido maravilhoso. As borboletas, abelhas e pássaros aprovaram o meu jardim. Coisa linda de se ver como o ar se enchia de asas e sons.
Ainda não contei sobre o meu amigo, o Francisco de Paula. Ele morava mora ainda na casa mais perto da minha. Não há muitas habitações por lá, mas o suficiente para a gente não se sentir só. Às tardes nos sentávamos na varanda e ficávamos observando as borboletas, abelhas e beija-flores. Bichinhos abençoados.
Francisco gostava do meu café. Ninguém da minha família gostava. Muito fraco, diziam. Pois o Francisco achava melhor assim, fraco e com bastante açúcar.
Me ajudou a plantar a horta. Eu não sabia bem o que era melhor plantar, então ele me trouxe sementes e mudas. Ervilha, cenoura,  tomate, espinafre e alface. E também ervas: manjericão, alecrim e orégano. Horta pequena, mas muito viçosa. A última coisa que plantei foi berinjela, e já estava quase ficando boa de colher quando voltei pra cá.
Não me conformo. Abandonei tudo aquilo pra quê?
Um dia acordei e não sei por que motivo comecei a pensar na família. Minha mulher, minha filha, genro e netos. Durante todo o tempo que fiquei lá nunca pensei neles, mas naquele dia me levantei preocupado.
Francisco me disse: se você acha que deve voltar, volte. Siga o seu coração.
No final das contas acabei seguindo o meu sentimento de culpa. Estava feliz longe deles. Não me preocupava a respeito de como se sentiam com a minha ausência. Sofriam? Eram indiferentes? Estariam satisfeitos? Pouco me interessava. Que pessoa egoísta eu era. Tinha que me penitenciar. Tinha que voltar e fingir que me importava.
Agora estou novamente entre eles, e mais infeliz do que nunca.
Todos em redor da minha cama.
A esposa, de olhar cansado, mal contendo a vontade de se lamentar. Não está propriamente feliz com o meu retorno. Seu pensamento é: quando ficarei livre de todo esse incômodo?
A filha preocupada, mas não muito. Sinto-a mais focada em sua própria vida, nos problemas com o marido e os filhos. Entendo. É natural que seja assim.
O genro irritado com a perda de tempo. Tantas tarefas urgentes e ele ali fazendo de conta.
Netos impacientes. Gostamos do vô, mas gostamos mais de fazer as nossas coisas.
Será que voltei com o poder de ler pensamentos? Ou voltei senil, paranoico?
Noite passada conversei em sonho com o Francisco de Paula.
Ele disse: você pode vir pra cá quando quiser, meu amigo, mas dessa vez vai ser definitivo. Não é permitido ficar viajando de um lugar para o outro assim, toda hora.
Preciso decidir. O que me faz mais feliz: minha família ou minha horta?
Tenho pensado muito naquelas berinjelas...

terça-feira, 31 de julho de 2018

Ser ou não ser

Moleque ainda, eu trabalhava na venda do meu tio. Ano de mil, novecentos e quarenta, se tanto.
À tarde ficava sozinho por longo tempo, já que o tio saía para almoçar e se demorava bastante nos seus comeres e beberes.
Certa ocasião, só eu na venda, entrou um freguês e já foi apontando para a manta de carne dependurada ao lado do balcão:
― O que é isso?
― É carne seca.
Ele ajeitou os óculos e chegou mais perto, demonstrando interesse.
― Deixe ver como está.
E passou o dedo sobre a manta.
― Isto aqui não é carne seca.
― Como não? É carne seca sim senhor.
― Mas está molhada.
― Molhada? Pode estar úmida por causa desse tempo abafado. Mas é carne seca.
― Se está úmida, não é carne seca.
Senti falta do tio. Aquele freguês ia ter coragem de azucrinar a paciência de gente grande do mesmo jeito que azucrinava a paciência de uma criança?
― Olha, senhor, ela está úmida agora, mas é carne seca legítima. Todo mundo compra e ninguém nunca reclamou.
― Mas estou te dizendo, menino. Ou é uma coisa, ou é outra. Se é seca, é seca. Se é molhada, é molhada. Isto aqui é carne molhada.
Fiquei sem resposta. Só consegui dizer:
― Faz assim: o senhor compra e depois enxuga ela.
― Pois então não fique dizendo para as pessoas que é seca. Se o freguês precisa enxugar, então é molhada.
Meu tio que não aparecia. Resolvi concordar.
― É verdade, o senhor tem toda a razão.
Ele se mostrou satisfeito:
― Ainda bem que reconhece. Me vê aí um filão de pão.
― E quanto o senhor vai levar de carne seca? Quer dizer, molhada?
― Quem falou que eu quero comprar carne, menino? Só vim mesmo pra comprar um filão de pão!
Depois de receber o troco foi embora resmungando.
― Cada uma! Querendo me empurrar carne molhada. Eu, hein?


Imagem: https://asimplicidadedascoisas.wordpress.com