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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Jardim de Delícias

Quando adoeceu o pároco da única igreja daquela cidadezinha, o médico escreveu uma carta à irmã do enfermo pedindo-lhe que viesse ajudar. 

Dona Amora era viúva, costureira, e tinha uma filha de quinze anos chamada Edelvais. Ao receber o pedido, refletiu e chegou à conclusão de que tanto fazia costurar aqui como acolá. Perderia algumas freguesas mas logo conquistaria outras, que para isso era competente. Além do mais, morando com o irmão ficaria livre do aluguel. Resolveu mudar-se definitivamente.

Edelvais gostou da ideia porque ali onde vivia não tinha amigas e muito menos namorado. Quem sabe o que a aguardava na nova casa? Seu jovem coração encheu-se de esperanças.

No dia da chegada o médico enviou seu empregado à estação de trem para recebê-las e conduzi-las à casa paroquial. O rapaz voltou cheio de histórias pra contar. Dona Amora não parecia uma costureirinha simplória não. Era uma mulher muito elegante. Usava um grande chapéu azul de cetim com copa alta e abas arredondadas, arrematado por um laço de renda. Sua filha usava chapéu também, que era igual ao da mãe mas um pouco menor e cor-de-rosa.

Os dias se passaram sem novidades, a não ser pelos comentários das poucas pessoas que visitavam o pároco. Diziam que sua irmã e sobrinha os recebiam sempre de chapéu, o que era de se estranhar já que dentro de casa não havia razão para tanta formalidade. Os chapéus de Amora eram azuis ou verdes, em várias tonalidades; os de Edelvais tinham cores mais alegres como rosa, alaranjado e amarelo.

Certa altura alguém perguntou o motivo de a menina não ir à escola como todas as outras de sua idade. O assunto passou a ser discutido na casa paroquial. Seria uma grande novidade para a jovem, que havia aprendido com sua mãe a ler, escrever e fazer contas. Junto com a alfabetização e a aritmética vieram também os ensinamentos de tricô, crochê e costura. De que mais precisava uma mulher para viver com dignidade?

Na opinião do pároco seria conveniente matricular Edelvais, afinal elas desejavam integrar-se à vida da cidadezinha. Amora pretendia retomar seu ofício de costureira, e nada melhor do que fazer amizade com algumas senhoras. A escola seria a porta de entrada para uma vida social.

Deveras emocionante para Edelvais o primeiro dia de aula.

Vestiu-se com capricho e colocou seu  chapéu predileto. Caderninho em branco, lápis bem apontado, lá foi ela em companhia do tio, que embora caminhasse devagar já estava quase recuperado.

Foi apresentada à professora, que chamou de lado o pároco e lhe perguntou se estava ciente de que a classe era mista. Cidade pequena, muita dificuldade em arranjar professores, resultou que a escola tinha apenas uma sala dedicada aos estudantes daquela idade. Então a classe misturava meninas com meninos. Se ele não tivesse objeção, ficaria tudo certo, caso contrário...

Não querendo criar caso, o pároco respondeu que confiava no recato da sobrinha e não via problema no convívio com jovens do outro sexo. Tudo acertado, Edelvais foi conduzida à sala de aula.

Muita curiosidade e falatório dos alunos ao verem a aluna nova com seu grande chapéu amarelo-ouro. Sentando-se no lugar indicado, logo começou a receber queixas dos colegas de trás, que não conseguiam enxergar a lousa. Será que não podia tirar o chapelão quando estivesse na classe?

Edelvais não precisou ouvir duas vezes e foi logo descobrindo a cabeça. Um brado de assombro se fez ouvir por toda a sala.

O que era aquilo? Uma cabeça ou um jardim? Mal se viam os cachos escuros da menina tamanha a profusão de folhas, flores e gavinhas brotando por todo o lado.

O que mais causava espanto era que, evidentemente, as plantas não haviam sido colocadas entre os cabelos, mas sim brotado ali mesmo em sua cabeça.

Os estudantes mais próximos se afastaram, num estranhamento que se mesclava ao medo e à repugnância. Outros, pelo contrário, quiseram ver de perto.

Atenuado o susto, ficaram sabendo que as plantas haviam mesmo crescido ali, as sementes tendo germinado entre os fios. Edelvais não lavava a cabeça nunca, porém não sofria com coceiras ou mau cheiro. Aparentemente as pequenas raízes sugavam qualquer sujidade e toda a umidade excessiva. Bastava molhar uma vez por dia e ficar no sol umas duas horas. Para dormir, um travesseiro estreito, duro e alto onde apoiava a nuca sem pressionar o jardinzinho.

Resultava que as plantinhas delicadas, com suas folhas pequeninas e florinhas em diversas cores, enfeitavam o rosto bonito de Edelvais como a uma fada da primavera. Lindo de se ver, mas estranho, aproximando-se do bizarro.

Nesse mesmo dia a menina foi para casa com uma carta solicitando o comparecimento da mãe.

Dona Amora não esperou pela manhã seguinte: foi à escola assim que leu o papel. A diretora, enquanto expunha a perplexidade geral em relação à nova aluna, não conseguia tirar os olhos do grande chapéu verde-água que oscilava com suavidade à sua frente. Percebendo a insistência do olhar, dona Amora tirou o chapéu. Devagar, com cuidado, foi revelando a vegetação que carregava entre os cabelos: uma pequena horta de morangos silvestres com vários frutinhos amadurecendo.

O médico teve de ser consultado. Após examinar as cabeças das mulheres concluiu que a situação, embora inusitada, não oferecia perigo para a saúde. Em ambas, a higiene capilar apresentava-se um tanto comprometida, mas o couro cabeludo mantinha-se preservado e os bulbos capilares continuavam saudáveis.

Embora contrariada, a diretora teve de permitir a presença da menina, com cabeça florida e tudo, na sala de aula.

A murmuração logo ganhou as ruas, praças e armazéns, que embora fosse pequena a cidade tinha lá suas ruas, praças e armazéns; e principalmente uma profusão de línguas .

Dona Amora não via mais motivos para ocultar sua hortinha de morangos, então aboliu o uso do chapéu tal qual a filha já tinha feito. Começou a receber muitas visitas, a pretexto das encomendas de costura.

O pároco já recuperado, o trabalho de Amora frutificava e a menina Edelvais florescia.

Meses depois, feliz por ter conquistado algumas amizades, um primeiro amor surgiu para a garota. Era um mocinho de sua classe, daqueles que no primeiro dia de aula haviam chegado bem perto para examinar o jardinzinho. Chamava-se Ascânio.

Dizia ele que os cabelos de Edelvais de longe tinham cheiro de flor, e de perto cheiro de terra molhada. As pessoas se perguntavam a que cabelos ele se referia, já que estavam quase totalmente cobertos pela folhagem miúda salpicada de florinhas minúsculas. E de gavinhas que se enrolavam e desenrolavam de acordo com a hora do dia. Chegava a ser sinistro.

Fosse como fosse, os jovens estavam enamorados. Naquele tempo tudo acontecia com mais vagar, por isso o primeiro beijo tardou a acontecer. Já havia decorrido algumas semanas de namoro quando, encontrando-se ambos em lugar discreto, Ascânio fez menção de beijá-la.

Edelvais sorriu antecipando o paraíso e indicou com um gesto que ele tivesse cuidado com as suas flores. Aproximaram-se mais e ele, delicadamente, segurou-lhe rosto com as duas mãos. O beijo começou suavemente, as folhinhas sequer vibraram. Após alguns segundos nenhum dos dois se lembrava de folhas, de flores, nem de nada ao redor. O beijo aprofundou-se, as mãos de Ascânio afundaram-se entre as ramas dos cabelos de Edelvais, e poderia ter sido o beijo mais longo deste mundo não houvesse alguma coisa misteriosa serpenteado sorrateiramente para dentro do ouvido do rapaz.

Ele afastou-se instantaneamente, arregalou os olhos, deu um grito terrível e caiu desmaiado.

Acudiram rapidamente. O médico localizou uma minhoca muito esguia dentro do canal auricular de Ascânio. Retirou-a cuidadosamente com uma pinça enquanto o menino permanecia desacordado. Recuperando-se logo depois, ele olhou para o jardim parcialmente destruído na cabeça da namorada e pôs-se a chorar de nervoso.

Edelvais, atarantada com o pensamento de que abrigara um verme nojento em sua cabeça, o qual estivera próximo de matar seu gentil conversado, decidiu que tudo precisava mudar.  

Já em casa arrancou as plantinhas, lavou a cabeça repetidas vezes com sabonete perfumado e pediu à mãe que cortasse os seus cabelos bem curtinhos. Diante da desoladora destruição daquela obra de arte vegetal, Amora, em solidariedade à filha, imitou-lhe o gesto e despojou-se da sua plantação de morangos.

O pároco alegrou-se com a mudança. Nunca se sentira à vontade tendo à vista aqueles adereços que remetiam vagamente a antigos e desarrazoados costumes pagãos.

No dia seguinte Edelvais apareceu na escola sem nenhum elemento botânico na cabeça. Lá vicejavam agora apenas as raízes de seus cabelos escuros.

Ascânio, ainda abalado, olhou com surpresa e não escondeu certa decepção. Achou que ela não estava tão bonita quanto antes. Em vez de reconhecer e valorizar o sacrifício da menina, perdeu totalmente o interesse por ela. 

(E jamais, jamais em sua vida contou a alguém que aquele grito desesperado não tinha sido de dor ou de pânico, mas sim de um agudo, indescritível, excruciante surto de prazer...)


Imagem: https://d2gg9evh47fn9z.cloudfront.net

sábado, 12 de dezembro de 2015

Era esperada uma flor, mas...

Naquela tarde abafada
daquele distante verão
nasceu uma cebola.

Cada cebola tem os seus atributos;
nada sei das outras cebolas,
mas esta é assim:

A camada externa parece ser doce
mas não é
(o sabor é azedo com notas picantes, e retrogosto amargo sobre um leve toque de mel).
Simula ser transparente
mas não é
(embora deixe toda a luz entrar, pouca luz deixa sair).

A seguir, uma camada feita de olhos.
Olhos por todos os lados.
Olhos que nunca piscam,
que tudo olham e nunca se cansam de olhar.

Abaixo dessa, vem a camada das perguntas.
Breves e demoradas,
fúteis e profundas,
algumas já obtiveram resposta;
a maioria permanecerá eternamente irrespondida.

A próxima é a camada das perplexidades.
Essa é a camada mais grossa,
repleta de perplexidades ásperas e suaves 
(com alguns maravilhamentos de permeio).

Depois vem o núcleo da cebola:
um caroço aproximadamente esférico
que pode ser macio e pode ser duro
(alternadamente ou ao mesmo tempo),
que pode ser escuro e pode ser luminoso
(alternadamente ou ao mesmo tempo),
que pode ser quente e pode ser frio
(alternadamente ou ao mesmo tempo),
e todas as combinações imagináveis das possibilidades acima.

Por fim, no centro desse caroço,
lá onde ninguém jamais terá acesso,
existe uma coisa
que não se sabe o que é, nem o que foi, e nem o que virá a ser
(se é que virá a ser...

(clique na imagem)

domingo, 1 de novembro de 2015

Comendo bombons

     Nada melhor do que um bombom delicioso, comido bem devagarinho, para nos ajudar a olhar de frente a vida, reavaliar as nossas escolhas, tomar decisões... Este aqui é recheado com creme de avelã e tem uma avelã inteirinha no meio. Hmmm... delícia...
     Renato, Renato... Como você é vacilão. E como eu sou trouxa. Bem feito pra mim. Larga de ser trouxa, Gabi. Ficando velha e sempre fazendo papel de trouxa. Toma vergonha, mulher.
     Meus amigos me diziam: “Gabi, você é tão exigente que daqui a pouco vai estar pedindo currículo pros caras.”
     Eles tinham razão, eu era assim mesmo. Depois de umas experiências desastrosas, me tornei exigente sem perceber. Mas escutei os amigos e revi minhas atitudes.
     Daí conheci o Renato. Uma figura interessante. Foi logo dizendo que era ator. Se queria me impressionar, não conseguiu. Ator, poeta, artista plástico... Cada um coloca em si a etiqueta que lhe convém. Quanto à qualidade de sua arte, é caso a se conferir.
     À medida que a conversa continuava, fui me deixando envolver. Ele era ator, porém havia se formado em administração. No entanto trabalhava como vendedor em uma loja do shopping. Hein? Como assim?
     Seguinte. Seu sonho era atuar, mas por ser uma carreira cheia de altos e baixos foi cursar administração. Enquanto estudava arranjou emprego como vendedor e aos sábados e domingos animava festinhas vestido como “palhacinho Beleléu”.
     ”Nossa, Renato! Você não descansava nunca?”
     Não, ele não descansava, nem podia. Precisava de dinheiro para pagar a pensão do filho.
     ”Filho? Você já tem filho?”
     Tinha, de seis anos. Engravidou a namoradinha adolescente quando estava no último ano do colégio.
     Que figura, pensei eu. Tão jovem e já com tanta responsabilidade nas costas. Uma pessoa no mínimo intrigante. Vale a pena conhecer melhor.
     Nessa altura eu já tinha deixado de lado as exigências. Um cara que não passou no vestibular das universidades públicas e cursou administração numa dessas faculdades caça-níqueis, ajudado pelos pais e pela irmã mais velha. Que estava formado havia três anos e ainda tinha o mesmo emprego dos tempos de estudante. Que desejava ser ator mas por falta de dinheiro não fazia curso na área, só participava de um grupo de teatro mundialmente desconhecido. Que precisava pagar pensão ao filho, e para isso continuava dependendo dos pais e da irmã mais velha.
     ”Isso é gente de verdade, Gabi. Não é excepcional em nada, não é nem projeto de príncipe encantado. É só um cara que fez besteira, que ainda não se encontrou, mas que não fica parado. Ele insiste. Todo atrapalhado, mas insiste. Um dia pega o rumo certo.”
     Então tá. Vamos ver no que vai dar, pensei. Confesso que a minha boa vontade tinha algo a ver com a bela aparência do Renato. Bem bonito, o danado.
     Isso aconteceu está fazendo oito meses. E, cinco minutos atrás, recebi uma mensagem de texto dele. Levei uns trinta segundos para ler e apreender o significado. Então, há exatos quatro minutos e meio, ele deixou oficialmente de ser meu namorado. Nem sei se vou me dar ao trabalho de responder ou se vou deixar o babaca no vácuo. Depois resolvo. No momento só quero acabar de comer este bombom.
     Acabei. Vou pegar outro. Este é de nozes, com creme de café e conhaque. Combinação maravilhosa. Casquinha crocante. Que tudo!
     Retomando o fio dos pensamentos. Essa mensagem foi simplesmente a última gota d’água num copo que começou a se encher logo depois de nos conhecermos. E olha que eu usei um desses copos bem altos, onde cabe meio litro de chope.
     Foi no dia em que ele me perguntou sobre a minha família. Falei que o meu pai estava em tratamento de radioterapia contra um câncer de próstata. O que me respondeu a criatura? “Radioterapia é fogo, né?” Quatro anos de curso superior e só tinha isso no repertório. Nunca mais tocou no assunto, nem pra perguntar se o meu pai ainda vivia ou se já tinha morrido.
     Tempos depois me convidou para assistir a uma peça do grupo de teatro desimportante. Eles se apresentam no salão dos fundos da igreja. Gente fina, o pastor: deixa o grupo usar aquele espaço gratuitamente a fim de que os jovens da congregação tenham contato com a arte. Renato me recomendou chegar uma hora antes do início para que eu pudesse ver o ensaio final. Era só falar com o zelador Luizinho, que sempre fica lá tomando conta da entrada.
     Fim de uma tarde bastante fria. Cheguei no horário marcado e vi na porta um homem magro, baixinho, conversando ao celular. Não querendo incomodá-lo, fiz um gesto indicando que ia entrar. Ele me olhou e, sem afastar do ouvido o aparelho, falou bem alto, abanando a outra mão: “Espera aí, espera aí! Não pode entrar!” Imediatamente me deu as costas e foi para dentro, retomando a conversa interrompida.
     Esperei durante meia hora e nada de voltar o homem. Começou a se formar uma pequena fila em frente à janela ao lado. Suspeitei que fosse ali a “bilheteria”. Mais uns quinze minutos e a janela se abriu. Lá estava o Luizinho, para vender as entradas.
     Sem outra opção, fui para o fim da fila e comprei a minha. Ele me tratou friamente, como se não soubesse do tempo que eu tinha ficado de bobeira ali fora naquele frio. Nessa altura de que adiantava dizer que eu era a namorada do Renato e tinha vindo para assistir ao ensaio final?
     A peça. Jesusmariajosé. É verdade que eu não gosto muito de teatro, admito. Mas o que era aquilo? Meia dúzia de jovens adultos falando alto, vestidos de forma bizarra, as caras pintadas de um jeito que não percebi o porquê, movendo-se e gesticulando com exagero. De vez em quando a música aumentava extraordinariamente e todos os atores paravam como se estivessem congelados. A luz ia baixando e ficava tudo escuro, só aquele barulho ensurdecedor. Repentinamente a música cessava, as luzes se acendiam sobre o palco, e a representação recomeçava.
     Suportei aquilo o melhor que pude. Procurei não pensar no meu pai, que estava lá em casa encarando resignadamente os efeitos colaterais da radioterapia. Eu queria estar lá e não aqui, diante desses palhacinhos beleléus do caramba. No final, uma chuva de confetes caiu sobre a plateia de umas trinta pessoas, e estava encerrado o espetáculo. Que maneira patética de passar uma noite de sábado, pensei.
     Finalmente pude conversar com o Renato. “Por que você não chegou antes, Gabi? Perdeu o ensaio. Foi muito interessante, você ia gostar. Mudamos um monte de coisas na última hora. Você podia até ter dado umas sugestões, porque a criação é coletiva.”
     Ah, criação coletiva. Isso explicava muitas coisas, principalmente a total falta de sentido. Quanto a chegar atrasada, pra que eu ia reclamar do zelador imbecil que não me deixou entrar? Em vez disso, elogiei o trabalho. Vai ser falsa desse jeito lá em Teerã, dona Gabi. Mas na hora me pareceu que mentir para o bem era melhor do que ser sincera para o mal.
     Na saída cruzamos com o Luizinho. Sem saber de nada, o Renato todo sorridente disse pra ele: “E aí, conheceu a minha namorada, hein?” Virou-se para mim e continuou: “Olha, Gabi, este cara é mais do que amigo, é como um irmão para mim. Nos conhecemos desde a infância.”
     Pela maneira com que o zelador me olhou tive a impressão de que nesse momento ele se conscientizou da mancada. Mas ficou quieto. Estiquei a mão para cumprimentá-lo e fiz de conta. Ficou por isso mesmo.
     Pronto, acabou-se mais este bombom. Qual vou pegar agora? Deixe ver... Chocolate branco recheado com coco, creme de baunilha e licor de laranja. Será que é bom? Vamos ver.
     Voltando. Certo dia perguntei ao Renato sobre o seu filho. Ele contou que a ex-namorada havia se casado. O padrasto do menino se comportava como um verdadeiro pai. Uma família bem estruturada, o que deixava Renato tranquilo. Mas ele nunca desperdiçava os dias de visita porque adorava estar com o garoto.
     Quando me mostrou a foto, fiquei sem palavras. O menino era lindo, um principezinho. O detalhe é que tinha Síndrome de Down. Isso mudava tudo, no meu entender, porque durante toda a vida ele ia precisar de assistência direta. Será que o Renato estava consciente desse fato? A mim parecia que não.
     ”Renato, você precisa fazer um seguro de vida para garantir o futuro do seu filho. Já pensou nisso?”
     ”Credo, Gabi, você fala cada coisa! Sou muito novo pra pensar em seguro de vida. Além disso preciso de um emprego melhor. Com esse de agora não consigo nem pagar a pensão. Se não fosse a minha família já tinha sido preso há muito tempo.”
     Uma dificuldade tentar conversar com o Renato de adulto para adulto. Ele dizia não ter ideia do motivo que o impedia de obter uma nova colocação. Enviava currículos mas eram poucas as chamadas para entrevista. Nunca dava certo. Mesmo quando pensava ter ido bem, ficava aguardando inutilmente o retorno. Não entendia o porquê. (A culpa não seria do diploma sem valor da faculdade caça-níqueis? Ou da personalidade imatura? Ou da cultura medíocre? Ou tudo isso junto?)
     Nessas horas eu me perguntava a razão de continuar com ele. Adotava a desculpa de estar exercitando a tolerância, de que ser exigente não levava a nada, de que a vida real era assim mesmo, e outras bobagens. Agora percebo que o verdadeiro motivo era ele ser bom de cama.
     Bem feito, Gabi. Quem mandou ser depravada? Por causa disso ficou suportando o bobalhão durante oito meses, perdendo tempo, se desgastando, se decepcionando. Tudo em troca do trato que ele te proporcionava de vez em quando. Shame on you, bitch!
     Aí veio A Grande Crise. Duas coisas bem ruins ao mesmo tempo. Em ordem cronológica: minha mãe ficou doente e a casa de repouso onde trabalho começou a demitir.
     Começando pela última: a prefeitura não renovou o convênio. A mensalidade paga pelas famílias não é suficiente. Dependíamos do dinheiro da prefeitura. Então começaram os cortes de despesas e de funcionários. Passei por uma fase heavy metal, com receio de demissão. Escapei por ser a única assistente social da casa, mas se resolverem me substituir por outra com um salário menor...  Melhor não pensar nisso agora e colaborar ao máximo para evitar o fechamento.
     A outra coisa ruim: na mamografia de rotina da minha mãe apareceu um nódulo. Ficamos assustados porque a minha avó morreu disso. E, como diria o Renato, genética é fogo.
     Esse bombom acabou logo. Acho que é a ansiedade, estou mastigando muito depressa. Calma, dona Gabi. Isto é uma reflexão sobre a vida, não uma apresentação para investidores. Qual outro tem aqui? Maracujá e musse de leite condensado no chocolate meio amargo. Docinho com azedinho e um pouco de amarguinho; deve ser bom.
     Voltando à casa de repouso, começamos a pedir donativos. Nunca fizemos tal coisa, mas agora precisamos. Perguntei ao Renato se a igreja dele não poderia contribuir, afinal o pastor é um cara legal. Fomos lá, conversamos, e ele se dispôs a ajudar. Bendito seja.
     A ideia era arrecadar produtos de higiene e limpeza. Sabonete, shampoo, detergente, desinfetante, alvejante, essas coisas. Fraldas geriátricas, lenços umedecidos e papel higiênico também. Ficou acertado que ele faria o pedido nos cultos dos dias seguintes. Saí de lá agradecida e animada.
     Enquanto isso, ficou pronto o resultado da biópsia da minha mãe. Positivo, como já suspeitávamos. Começando o tratamento em 3, 2, 1, já! Sem tempo a perder. Apesar da confiança de que tudo vai dar certo, fica aquela inquietação no peito. Parece que a vida está suspensa e só voltará ao normal depois que o perigo for superado.
     Boba eu, esperando apoio do Renato. Fiz até a besteira de chorar no ombro dele, contando a barra que é ter dois casos de câncer na família ao mesmo tempo. Pai e mãe.
     Ele me abraçou? Ele me consolou? Não. Ficou parado, ouvindo. Parecia um poste. Só fez a concessão de liberar o ombro para eu encostar a cabeça. Depois de tudo, a frase padrão: “É fogo... é fogo mesmo.”
     Agora percebo que a partir daí ele foi se tornando arredio. Claro, óbvio: ele já tem os seus problemas, pra que vai querer participar dos dramas de outra pessoa? Uma namorada com doença grave em dose dupla na família. Vale a pena? Se você ama a pessoa, vale. Caso contrário...
     A arrecadação de donativos encerrou-se. Ontem de manhã o pastor ligou dizendo que o zelador estava levando as caixas de donativos. Uma notícia boa no meio do vendaval. Dei graças aos céus, fiquei esperando ansiosa. E lá vem o Luizinho, tirando da perua e trazendo para dentro cinco caixas grandes de papelão, repletas de materiais. Que maravilha. As pessoas são tão generosas! Ainda existe esperança para a humanidade. Agradeci bastante a gentileza do sujeito, tentando esquecer a antipatia que senti no dia do teatro.
     Ele perguntou para onde deveria levar as caixas espalhadas pela recepção. Falei para não se incomodar, porque eu ainda tinha que fazer o levantamento antes de encaminhá-las ao nosso almoxarifado. “Levantamento? Para quê?” perguntou ele demonstrando uma surpresa descabida. Respondi: “Tudo o que nós recebemos tem que ser registrado. Além disso preciso fazer o recibo. Mas não se preocupe, não há necessidade de ficar esperando, porque vai demorar. Depois eu levo o recibo lá na igreja. Quero agradecer pessoalmente.”
     Ele ficou lá parado, com cara de besta . “Será que está esperando gorjeta?” pensei. “Não, não deve ser isso. Se eu oferecer é capaz de ficar ofendido.”
     ”Seu Luizinho, o senhor não quer tomar um café antes de ir? Foi feito agorinha, está muito bom.”
     Não quis café. Foi embora ressabiado. Na hora não entendi, mas não estava com tempo para pensar em futilidade. Comecei a esvaziar as caixas, classificando e contando item por item. Quando terminei, pouco antes do almoço, veio nova ligação do pastor. Queria saber se eu tinha recebido direitinho os donativos, se estava tudo em ordem.
     “Claro que sim, muito obrigada. Vou lhe levar o recibo e agradecer pessoalmente, faço questão”.
     “Não se preocupe, foi um grande prazer. Nós fizemos a contagem das doações e ficamos contentes com o resultado. Na próxima vez o sucesso vai ser ainda maior, com certeza.”
     Muito legal o pastor. No final ele disse que estava enviando por email o levantamento que tinham feito. Desliguei e fui acessar a mensagem. Tendo acabado de fazer a minha própria relação, ao bater o olho logo percebi que os números não coincidiam. A não ser pelas fraldas geriátricas, todos os meus números estavam diferentes. Menores. E agora? Como dizer ao pastor que havia ladrão furtando donativo de sua igreja? Coitado, não merecia tal decepção. E como saber quando e onde se deu o sumiço? E como provar que não tinha sido eu mesma a subtrair os itens para reclamar depois? Muito complicado.
     Fiz as contas e vi que o total das coisas desaparecidas perfazia um valor não muito alto. Saí imediatamente e fui comprar — com o meu dinheiro — o que estava faltando. Assim o meu levantamento ficou igual ao deles, e ninguém jamais saberá do problema. Óbvio que nesse meio tempo não me saiu da cabeça a cara abestalhada do Luizinho. Noventa e nove por cento de certeza de que o ladrão foi ele. Ladrão e burro. Então achou que era só entregar os donativos e pronto, que ninguém iria conferir, contar, fazer relação?
     Se fosse em outro momento da vida a minha reação teria sido outra. Acho que teria denunciado tudo ao pastor. Mas agora, com tanta preocupação na cabeça, eu quis me poupar. Deixei pronto o recibo para levar à igreja no dia seguinte, que é hoje, no culto da noite. Assim posso aproveitar para agradecer a todos de viva voz.
     Acabou-se mais este bombom. Que se dane, vou pegar outro. Paçoquinha com creme de limão, recheado com amendoim. Ô perdição!
     Hoje, logo cedo, recebo essa mensagem de texto do Renato. Covarde miserável, se escondeu atrás do teclado, não teve coragem de ligar e falar diretamente. Disse que o Luizinho contou tudo o que aconteceu no dia da peça. Como eu havia me comportado mal, chegando atrasada e querendo furar a fila alegando que namorava o ator principal, criando caso com as pessoas e até falando palavrões. Que o Luizinho não tinha dito nada antes por consideração, mas agora, depois de eu ter repetido o comportamento na entrega dos donativos, não tinha mais por que se calar. Como é que eu me atrevia a duvidar da honestidade do Luizinho, fazendo questão de examinar as caixas para ver se alguma coisa havia sumido? Isso era imperdoável. Além do fato de tê-lo tratado como um reles subalterno, fazendo-o carregar as caixas para lá e para cá, dando bronca sem parar. Não, depois de tudo isso, era melhor terminarmos. Como poderia ele conviver com uma mulher grosseira que não respeitava as pessoas, e nem quando recebia um favor demonstrava gratidão? Sorte dele ter alguém para avisá-lo, seu querido amigo de infância, senão ia continuar enganado por mais tempo ainda.
     Jesusmariajosé, que decepção! Apesar de saber que o Renato tem um intelecto limitado e um senso de justiça bastante débil, eu não podia supor tamanha covardia.
     Entendo que ele não queira continuar se relacionando com uma pessoa cheia de problemas como eu. Doença grave na família e risco de desemprego, tudo junto ao mesmo tempo. Não existe nenhuma obrigação da parte dele em me dar apoio moral, sofrer junto, perder seu tempo. Nem deve, aliás. O que ele deve fazer com urgência é procurar um emprego melhor, parar de depender da família e assumir sua responsabilidade com o futuro do filho. E esquecer essa mania de querer ser ator. Renato, você é bonito mas não tem talento nenhum, eu ia acabar te falando isso um dia.
     Eu sei que a vida da gente muda, o que é conveniente hoje deixa de ser amanhã. Ele só precisava dizer que não estava mais a fim, pronto. Mas não, tinha que ser babaca até o fim. Se aproveitou das mentiras do amigo ladrão como pretexto. Me julgou, condenou e aplicou a pena sem sequer falar comigo, sem me dar chance de defesa. Depois de todos esses meses de convivência ele tinha a obrigação de saber que não sou capaz de grosseria com ninguém. Mas aceitou a palavra do ladrãozinho como verdade absoluta. Porque te convinha, né covardão?
     Ah, quer saber? Cansei! Vou fingir que você é este último bombom aqui, o de cereja com licor. Vou comer você bem devagarinho. Depois de engolido e digerido, adeus bombom, adeus Renato.
     No final das contas, pensando bem, tudo deu certo para todo mundo. A casa recebeu os donativos; os doadores estão felizes pela boa ação; Luizinho vai ficar impune para usar os produtos do furto e manter o privilégio duvidoso da sua amizade; você se livrou de uma namorada incômoda, e eu me livrei de você.
     E, o que é melhor ainda, estou me vingando. Como? Deixando você continuar amigo de uma pessoa falsa e desonesta que mais dia menos dia vai te aprontar uma boa.
     Eu cá tenho assuntos importantes para resolver. Os idosos carentes que precisam de ajuda, esses merecem a minha atenção. Quanto a você, criatura, pode ir para onde a brisa te levar.
     Adeus, Renato. Cumpra o seu destino: permaneça eternamente esse palhacinho beleléu gauche na vida.
     E que o vento sopre levemente em suas costas.


Imagem: http://i1262.photobucket.com

sábado, 10 de outubro de 2015

Espera

Parado aqui na porta da minha choupana, fitando a imensidão do céu, tenho visto o mundo se transformar. 
Sentei nesta soleira há muito tempo e nunca mais levantei. A não ser uma vez, quando peguei doença e me carregaram para dentro. Mas depois voltei e aqui estou como sempre, espiando a estradinha de terra.
Enquanto isso, o sol nasce, o sol se põe, e tudo vai mudando. 
Os morros eram verdes de tanta árvore. Aí derrubaram tudo. O verde sumiu. Só se via a terra e a poeira que o vento esparramava. 
O tempo passou, a terra verdejou outra vez. Mas não é como antes, só cresceu mato rasteiro. 
O riacho também modificou. A água, de clarinha que era, escureceu.  Agora nem enxergo mais a correnteza, deve ter secado tudo.
Quando os morros eram verdes e as águas eram claras, tinha bastante gente morando por aqui. Disso me recordo bem. 
Então veio aquele dia. Cheguei do eito e estranhei a porta aberta. Tudo escuro lá dentro. Saí procurando ela, mas ela não estava em lugar nenhum. Me disseram que tinha ido embora de manhã cedo, carregando a mala. Enveredou pela estradinha e desapareceu sem falar com ninguém.
Duvidei, fui pra casa e encontrei o guarda-roupa vazio. Era verdade, ela tinha fugido. O motivo, levou junto com ela.  
Vim aqui e sentei na soleira, esperando ela voltar. 
As pessoas chegavam e me diziam pra entrar pra dentro, que estava de noite, fazia frio e eu ia perder a pouca saúde que tinha. Me traziam comida, sentavam do meu lado e me obrigavam a comer pelo menos um pouco. Até cobertor arrumavam pra me cobrir, porque entrar eu não entrava. 
Aí fiquei doente. Eles me pegaram e me puseram na cama.
Esqueci o que aconteceu. Só sei que voltei pra cá e ninguém tornou a falar comigo. Passavam reto na estrada sem virar a cabeça nesta direção. 
Não fiz conta, prefiro estar sozinho. Acostumei. Nunca mais senti frio nem fome nem sede.
Sumiu o arvoredo dos morros, o riacho secou, e todo o povo foi pra longe. 
Só restou eu aqui, sem outra labuta além de olhar o sol nascer e o sol morrer.
Um dia, quando ela apontar na curva logo ali depois da cerca, vai me ver neste mesmo lugar, esperando. 
Vai ficar bem contente, que eu sei. E vai apertar o passo, com vontade de me abraçar.


Imagem: http://portalbigtrails.com.br

sábado, 3 de outubro de 2015

Criança perdida

Manhã bem cedinho. Andando rápido pela Rua Direita.
Rápido rápido quase correndo na direção da Praça do Patriarca.
“Não posso perder o ônibus fretado. Não tenho dinheiro para táxi. Ônibus comum vai me atrasar. Sem chance. Tô na experiência, se atrasar já era.”
Depressa, mais depressa!
E lá ia quase correndo.
Cruzando o Largo da Misericórdia, uma mulher estacou alguns metros à sua frente. Virou-se, atarantada, olhou ao redor e gritou: “Pedro! Pedro!”
Dava pra perceber: era caso de criança perdida.
Não se via nenhuma criança por ali. Onde raios estaria o menino?
A mulher passou a gritar mais alto, em tom mais desesperado: “Pedro! Pedro!”
Mas que droga de mãe era aquela que não segurava a mão do filho ao andar pela Rua Direita?
E agora? Não podia parar, sob pena de perder o ônibus fretado.
Tanta gente na rua, alguém na certa ajudaria.
Apressou-se mais ainda a fim de compensar os segundos perdidos na hesitação.
Os gritos ficaram para trás. 
“Pedro! Pedro!”


Imagem: https://umpalcodeteatro.files.wordpress.com