Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

acesse:

http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Estrelinha estremunhada


Imagem: http://giphy.com
Estrelinha estremunhada
tremula na madrugada.

“Está com sono, estrelinha?
Por que não vai pra caminha?”

“Minha caminha é gelada!
Eu espero o Sol nascer
para poder me aquecer.
Então daqui a pouquinho
já vou dormir no quentinho.”

“Até amanhã, estrelinha.
Agora preciso ir.
Não se esqueça de rezar
quando deitar pra dormir.”

domingo, 29 de junho de 2014

De como a virtude e a inocência venceram a malícia e a iniquidade

Aos dezenove anos eu era recepcionista em uma agência bancária. Apesar da idade, continuava bastante infantil a respeito de certos aspectos da vida.
Um dia apareceu na agência um rapaz que tinha ido tratar de assuntos da empresa onde trabalhava, e conversa vai, conversa vem, ele perguntou se aquele emprego era bom. Devo ter respondido que não era lá essas coisas. Então ele disse que a firma dele, uma editora de revistas em quadrinhos, estava aumentando o quadro de funcionários e possivelmente haveria alguma coisa para mim. Por que eu não passava lá no dia seguinte pra ver isso? Melhor no fim do expediente, quando não há tanta correria...
Achei ótima a sugestão e prometi aparecer. Pensei lá com os meus botões que, se eles estavam em fase de expansão, podiam contratar também o meu irmão, naquele momento à procura de emprego.
No dia seguinte, na hora combinada, apareci na editora com o meu irmão. Não entendi a cara de má vontade do rapaz. Não era ele que tinha me convidado, afinal de contas?
Acabamos conversando muito pouco porque ele parecia estar com pressa de ir embora com um colega de trabalho (que estava achando graça não sei do quê).
Emprego? Nem fiquei sabendo onde era o departamento pessoal.
Não entendi aquela mudança de atitude. No final, talvez para nos compensar pela falta de atenção, ganhamos uma porção de revistinhas...
Imagem: http://www.clipartbest.com

sábado, 28 de junho de 2014

"Physique du rôle"

Engenheira e professora universitária. Jovem. Estatura mediana. Índice de massa corpórea dentro da faixa considerada normal. Limpinha mas sem nenhuma vaidade: nunca usou maquiagem; passa só uma camada de base nas unhas curtinhas pra dar um pouco de brilho. Alguns dos colegas nerds até quiseram namorá-la, porém ela não gosta de nerds! Sente-se atraída pelos homens bonitos e com senso de humor, justamente os que não estão interessados em garotas como ela.
E agora, o que fazer a respeito dessa nova situação? Ela ficou mesmo interessada nesse cara, ele é tudo o que ela sempre fantasiou, ela realmente quer ficar com ele.
Melhorar a aparência, eis a questão. Mudou o esmalte para um cor-de-rosa intenso. Cintilante, ainda por cima! Comprou um espelho de aumento para examinar os pelinhos faciais, coisa que nunca a preocupara até então. E começou a usar creme hidratante! Incrível como até aquela idade jamais havia se lembrado de passar um simples creme nas mãos ou no rosto.
Agora é diferente. Está planejando jogar todo o seu charme pra cima do rapaz, e vai aproveitar a saída com um grupo de amigos.
Arrumadinha, perfumada (com discrição) e cheia de amor pra dar, conseguiu conversar bastante com ele. Foi uma noite ótima. No final, ele disse:
“Sabe do que mais? Nunca conheci uma garota igual a você!”
Coração batendo forte: “Igual a mim como?”
“Uma garota assim tão... tão... (coração dela batendo mais forte ainda) tão inteligente!”
Água gelada na fervura.
No dia seguinte, olhando-se no espelho, percebeu que tinha a aparência de uma mulher completamente desinteressante, com aqueles óculos ultrapassados e o cabelão mal cuidado. Tinha que tomar providências.
Trocou o par de óculos por outro bem mais moderno, que, segundo o vendedor, ficava muito bem com o seu tipo de rosto. Em seguida, o cabelo.
Foi ao salão das celebridades, onde um corte seguido de escova era mais caro do que uma consulta médica em clínica de luxo. A profissional que a atendeu olhou, mexeu, verificou a textura dos fios, avaliou o grau de hidratação, e sugeriu um corte e uma cor que realçariam a sua beleza natural.
Dito e feito. Depois da lavagem, do corte, da coloração, da hidratação e da escova, disse a cabeleireira:
“Você está uma gata! Hoje não vai conseguir ir direto para casa.”
Ela se olhou no espelho e achou que realmente estava uma gata. Se tivesse ido assim àquele encontro de amigos não teria ouvido a frase cruel sobre a sua “inteligência”, mas sim esta outra: “Nunca conheci uma garota tão gata!”
Ao colocar os óculos o efeito ficou um tanto prejudicado, mas ela procurou não pensar nisso. Pagou uma fortuna pela sessão de embelezamento e foi-se embora, fazendo oscilar felinamente aqueles cabelos tão lindos e tão caros.
Passando diante de uma loja de produtos eletrônicos lembrou-se de que a sua amada calculadora HP com “notação polonesa reversa” havia sofrido uma queda fatal e precisava ser substituída. Entrou e perguntou, toda gata, ao vendedor: “Vocês têm calculadoras?”
O vendedor a olhou por um instante e respondeu com toda a segurança: “Calculadoras comuns nós temos, mas científicas não temos não!”
Nesse momento ela percebeu que não adiantava nada mudar o cabelo, a cor do esmalte, fazer as sobrancelhas ou o que quer que seja. Sua aura nerd jamais a abandonaria. Essa era a sua vida.
Voltou a usar brilho incolor nas unhas. Continua usando hidratante porque gostou da refrescância. E ainda pega, muito de vez em quando, o espelho de aumento pra examinar os pelinhos faciais.
.
Imagem: http://weheartit.com

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Oração

Este texto foi publicado há muitos anos na resenha literária de um jornal.
Decorei o poema mas não anotei o nome do autor. Nunca consegui descobrir.

* * *

O sangue abandonou-me, Senhor
e minha vida é pálida sombra
na palidez do mundo.

Senhor
sei que teus olhos me fitam
mas não sei ver-te.

Guia os meus passos, eu te peço.
Dá-me a ousadia de seguir-te.

Não importa se ferindo-me nas lâminas das rochas
ou sobre a leveza da areia
que uma praia estende.

Imagem: http://igalleriez.com

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A garotinha que adoçou a água do mar

Adriane tinha cerca de três anos de idade quando viu o mar pela primeira vez.
Bem bonitinha no seu maiozinho novo, de mãos dados com os irmãos, entrou na água muito animada. Mas logo depois de ser atingida por uma pequena onda começou a chorar em altos berros.
"O que foi, Adriane? Entrou água nos olhos?"
Nenhuma resposta, só choro.
"Engoliu água salgada, Adriane?"
Choro e mais choro.
"Vai ver que um peixe mordeu ela!"
"Claro que não, aqui não tem peixe! Será que machucou o pezinho num caco de vidro?"
Não, o pezinho não estava machucado.
E Adriane chorava, e chorava.
Depois de muito esforço de comunicação chegou-se à conclusão de que o problema era mesmo a água salgada. Então prometeram a ela que na próxima vez trariam açúcar para ela misturar no mar. Aquietou-se a menina, mas preferiu ir brincar no seco.
Dia seguinte, promessa cumprida. Levaram açúcar e uma colherinha.
Adriane fez questão de ela própria derramar o açúcar na água. Depois pediu a colher para mexer. E mexeu bem mexidinho.
Cumprido o ritual, entrou na água toda sorridente e se esbaldou! E continuou se esbaldando sempre que ia à praia.
Lógica de criança: para ela o mar ficou doce para todo o sempre.

(Ei! Alguém aí me empresta uma xícara de açúcar para adoçar a vida???)

Imagem: http://www.wetcanvas.com

terça-feira, 24 de junho de 2014

Para onde vão os sonhos?

Eles formavam uma boa dupla de estudo: a moça idealista e o rapaz pragmático.
Ela queria fazer relevantes contribuições para a sociedade por meio do seu trabalho; ele só queria um ótimo emprego.
O ponto em comum entre eles era a convicção de que precisavam de conhecimentos profundos sobre a carreira que desejavam seguir. Por isso estudavam muito.
Certo semestre cursaram uma disciplina que lhes pareceu tediosa, difícil de entender, cansativa e chata. O professor, inexperiente, não ajudava em nada.
Quando saíram as notas da última prova os dois colegas viram que tinham sido aprovados. Mas, estranhamente, não ficaram felizes. O diálogo foi mais ou menos assim:
“Passei, mas não sei nada.”
“Eu também. Sinto que não aprendi nada, apesar de tudo o que estudamos.”
“Já me falaram que essa matéria é muito importante. Se a gente não souber, vai ter dificuldade em um monte de coisas.”
“Melhor se tivéssemos sido reprovados. Pelo menos poderíamos cursar de novo, com outro professor. Quem sabe aí daria pra aprender alguma coisa.”
“Concordo. Afinal passar sem saber não adianta nada.”
“Isso mesmo. Tirar o diploma pra depois virar um profissional medíocre não vale a pena.”
“Eu por mim prefiro jamais me formar a me tornar um profissional medíocre.”
“Eu também!”
“Então vamos até a sala dele pedir para sermos reprovados.”
“Vamos agora mesmo!”
E foram.
Pessoas ajuizadas não teriam feito isso, mas aqueles dois tinham ideias peculiares. Não pensaram por um segundo nos sentimentos do professor quando recebesse um pedido tão fora do normal. Simplesmente foram lá e reproduziram para ele o diálogo que tiveram, quase com as mesmas palavras. O sujeito ficou com a cara no chão, mas concordou em reprová-los.
No final do semestre seguinte, bem mais confiantes, foram aprovados sentindo-se merecedores. Afinal desejavam ter carreiras bem sucedidas, e para isso o conhecimento era essencial.
Formaram-se.
Nenhum dos dois conseguiu seguir carreira.
Ele faleceu prematuramente.
Ela precisou desistir dos sonhos porque a família, com vários casos de doenças graves, precisou de sua atenção e cuidados.
Suas ausências não foram notadas e menos ainda lamentadas pelos colegas de profissão.

Imagem: http://www.deviantart.com

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tráfico de gerimboca

A uma certa altura do curso universitário, o meu amigo Valter e eu concluímos que as nossas respectivas situações financeiras estavam igualmente alarmantes, e resolvemos arranjar um emprego de meio período. Acabamos indo trabalhar como recepcionistas no Aeroporto de Congonhas, depois de transferir as nossas matrículas do diurno para o noturno. O Valter na VASP e eu na VARIG.
Eis que um dia, após jantarmos no restaurante central da universidade, inventamos de catar sementes de lírio no jardim que ficava ao lado. Os lírios amarelos, depois de florescerem, haviam deixado centenas de cápsulas carregadas de sementes pretas e brilhantes. Por que resolvemos colher as sementes? Por nada. Só porque eram bonitas.
Quando chegamos à faculdade encontramos um colega nosso cujo apelido era Li. O nome dele não me lembro; o apelido era Li porque ele tinha vindo da cidade de Limeira.
Esse jovem era alto, moreno, vestia-se muito bem e usava colônias masculinas de ótima qualidade. Um galã. Seu único problema era uma certa lentidão de raciocínio...
Não sei de onde o Valter tirou a ideia, mas com a maior naturalidade do mundo perguntou ao Li se ele não estava interessado em um pouco de gerimboca da Amazônia.
"Gerimboca da Amazônia? O que é isso?"
"Você não sabe?! Pensei que fosse mais bem informado! Foi um comandante da VASP que trouxe de Manaus. É mais potente do que qualquer droga conhecida, e é natural. Dizem que os índios curtem adoidado!"
E colocou na mão do Li um bom punhado de sementes pretas, dizendo que naquele estado bruto não produzia efeitos tão grandes, mas quando refinado... era incrível!
O Li deu um sorriso maravilhado (e um tanto aparvalhado) e pediu mais um pouco. O Valter deu, avisando que não era pra se acostumar com tal generosidade.
Entramos para assistir às aulas e esquecemos o assunto. Na hora do intervalo encontramos o Li sentado no mesmo banco onde o havíamos deixado antes. Estava com cara infeliz e a mão sobre o estômago.
"O que foi, Li?"
"Valter, acho que te enganaram. Comi toda aquela gerimboca e não aconteceu nada. Só me deu uma bruta dor de estômago!"
Graças ao Li aprendemos duas coisas:
1) Gerimboca da Amazônia, isto é, sementes de lírio amarelo, provocam indigestão mas não são letais.
2) Pode ser perigoso fazer certas brincadeiras com pessoas reconhecidamente subdotadas. Elas podem ser muito mais subdotadas do que supõe a mais ousada das suposições.
Imagem: http://www.dondrup.com