Visitando uma casa de repouso conheci o Seu Matias.
Mais de noventa anos, vários problemas de saúde, mas --- segundo me contaram --- pessoa culta e perfeitamente lúcida.
No meio da conversa sobre como anda caótico este mundo, me perguntou se eu já havia lido "A máquina do tempo", de H. G. Wells.
Respondi que sim, e ele disse que a leitura desse livro o fez entender por que as coisas são como são.
Estranhei.
--- Se já leu o livro deve se lembrar que naquela história a humanidade estava dividida em dois tipos de gente: os morloques e os elóis. Os morloques viviam no subterrâneo e eram um povo tecnológico. Os elóis viviam na superfície, eram infantilizados, completamente passivos, cuidados e alimentados pelos morloques. Depois se descobre que na verdade os morloques eram antropófagos e que os elóis eram o seu gado de corte.
Sim, eu me lembrava perfeitamente. Mas ainda não havia entendido o que tinha isso a ver com o estado atual do mundo. Seu Matias continuou:
--- A gente sabe que nada se perde, tudo se transforma. Tudo o que existe e tudo o que acontece tem um motivo e um propósito. Já pensou no porquê de tanto sofrimento no mundo?
--- Não... Existe sofrimento mas também existe felicidade. Uma coisa compensa a outra.
--- Não compensa. Existe muito mais sofrimento do que felicidade. E só pode haver um motivo.
Fiquei aguardando a conclusão...
--- Nós também somos gado de corte. Não para os morloques, porque eles não existem, mas para outro tipo de seres. Que não enxergamos.
--- Seres que não enxergamos?!
--- Não fomos feitos pra enxergar esses seres. Nem desconfiamos da existência deles. Mas eles se alimentam da nossa energia de sofrimento.
Abri a boca pra falar mas demorei um pouco até conseguir formular a pergunta:
--- Mas por que energia de sofrimento? Não seria melhor a energia do amor, da felicidade?
--- Para os humanos sim, mas para eles não. Eles deixam a gente ser feliz só na medida certa para sobrevivermos entre um sofrimento e outro. Essa medida é bem pequena.
Pensei, pensei. Estava até com um pouco de medo de perguntar.
--- Tudo isso o senhor concluiu lendo o livro? Mas pra ter certeza de qualquer coisa é preciso ter provas.
--- Existem indícios. Mais ainda: existem evidências. Tem que existir um motivo para que a Terra seja um lugar de tanta dor. E não é só a raça humana que sofre. Repare que até os animais levam uma vida bem dura.
--- E não haveria um modo de reverter isso?
--- Reverter completamente não sei, mas minimizar seria possível sim.
Nem esperou a próxima pergunta e já foi esclarecendo:
--- Fraternidade. Amor fraterno. Amai-vos uns aos outros. Se esse conselho fosse seguido, o grau de sofrimento humano diminuiria muito, a alegria de viver aumentaria, até os animais seriam mais felizes. Resultado: os seres parasitas iriam definhar por falta de alimento e quem sabe iriam embora, atrás de outras vítimas.
No meio da conversa sobre como anda caótico este mundo, me perguntou se eu já havia lido "A máquina do tempo", de H. G. Wells.
Respondi que sim, e ele disse que a leitura desse livro o fez entender por que as coisas são como são.
Estranhei.
--- Se já leu o livro deve se lembrar que naquela história a humanidade estava dividida em dois tipos de gente: os morloques e os elóis. Os morloques viviam no subterrâneo e eram um povo tecnológico. Os elóis viviam na superfície, eram infantilizados, completamente passivos, cuidados e alimentados pelos morloques. Depois se descobre que na verdade os morloques eram antropófagos e que os elóis eram o seu gado de corte.
Sim, eu me lembrava perfeitamente. Mas ainda não havia entendido o que tinha isso a ver com o estado atual do mundo. Seu Matias continuou:
--- A gente sabe que nada se perde, tudo se transforma. Tudo o que existe e tudo o que acontece tem um motivo e um propósito. Já pensou no porquê de tanto sofrimento no mundo?
--- Não... Existe sofrimento mas também existe felicidade. Uma coisa compensa a outra.
--- Não compensa. Existe muito mais sofrimento do que felicidade. E só pode haver um motivo.
Fiquei aguardando a conclusão...
--- Nós também somos gado de corte. Não para os morloques, porque eles não existem, mas para outro tipo de seres. Que não enxergamos.
--- Seres que não enxergamos?!
--- Não fomos feitos pra enxergar esses seres. Nem desconfiamos da existência deles. Mas eles se alimentam da nossa energia de sofrimento.
Abri a boca pra falar mas demorei um pouco até conseguir formular a pergunta:
--- Mas por que energia de sofrimento? Não seria melhor a energia do amor, da felicidade?
--- Para os humanos sim, mas para eles não. Eles deixam a gente ser feliz só na medida certa para sobrevivermos entre um sofrimento e outro. Essa medida é bem pequena.
Pensei, pensei. Estava até com um pouco de medo de perguntar.
--- Tudo isso o senhor concluiu lendo o livro? Mas pra ter certeza de qualquer coisa é preciso ter provas.
--- Existem indícios. Mais ainda: existem evidências. Tem que existir um motivo para que a Terra seja um lugar de tanta dor. E não é só a raça humana que sofre. Repare que até os animais levam uma vida bem dura.
--- E não haveria um modo de reverter isso?
--- Reverter completamente não sei, mas minimizar seria possível sim.
Nem esperou a próxima pergunta e já foi esclarecendo:
--- Fraternidade. Amor fraterno. Amai-vos uns aos outros. Se esse conselho fosse seguido, o grau de sofrimento humano diminuiria muito, a alegria de viver aumentaria, até os animais seriam mais felizes. Resultado: os seres parasitas iriam definhar por falta de alimento e quem sabe iriam embora, atrás de outras vítimas.
Nessa altura quem estava com vontade de ir embora era eu. Falar o que para alguém que tinha esse tipo de ideias na cabeça? Mas a boa educação exigia que eu não interrompesse de maneira abrupta a conversa. Falei só por falar:
--- O difícil é convencer os humanos a colocar em prática esses preceitos.
--- Difícil? É impossível. O ser humano não foi projetado pra ter bom senso. As criaturas sinistras nem precisavam ter silenciado o sujeito que pregava esses ensinamentos. Era um projeto que não ia dar certo nunca, mesmo que ele tivesse sobrevivido e repetido a cantilena por mais duzentos anos.
Cruzes! -- pensei eu. Que pessimismo! Mas ainda não estava na hora de dizer tchau, então continuei:
--- Se o senhor pensa assim, quer dizer que perdeu a esperança na humanidade?
--- Totalmente. Não vejo futuro para a nossa raça. Meu único consolo é que o meu tempo neste planeta está se aproximando do fim. Ainda bem.
Não consegui disfarçar um certo incômodo:
--- E as pessoas que ainda têm muitos anos pela frente? No que elas podem se apegar a fim de suportar tudo isso?
Seu Matias contemplou demoradamente o jardim florido à nossa frente..
--- Pessoas como você, por exemplo? É simples: segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias.