Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos os que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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terça-feira, 8 de julho de 2014

O mistério do Cascão

Trecho do livro "Os meninos da Rua Beto"

Junho de 1967

Havia por lá um homem cujo apelido era Cascão; seu nome verdadeiro nunca ninguém ficou sabendo. Ele tinha cerca de cinquenta anos, era baixinho e andava encurvado, como se carregasse alguma coisa pesada no bolso interno do paletó azul-marinho que nunca trocava.

Cascão se mudara para as redondezas havia uns três anos e morava num quartinho do cortiço do Seu Alfeu, na rua de baixo. Ele não tinha fontes de renda visíveis; nunca se soube de onde vinha o dinheiro com o qual sobrevivia.

Os adultos o consideravam retardado mental e não repreendiam as crianças que faziam gozações quando ele passava. Quando isso acontecia o Cascão dizia às crianças:

”Vocês não podem me tratar assim, porque não me conhecem e não sabem quem eu sou!”

Mas todo mundo “sabia” que ele não tinha estudos, não tinha emprego e não tinha família. Ele, no entanto, afirmava que era muito rico e que guardava um tesouro lá no quartinho. Ninguém, nem mesmo as crianças, acreditava em tais maluquices.

Um dia porém aconteceu um fato estranho. Parou na frente do cortiço um “Galaxy” azul, carro luxuoso da época, e dele desceram dois homens. Um deles era alto, de pele clara e avermelhada, parecendo estrangeiro; o outro era mais abrasileirado; os dois muito bem vestidos. Entraram no cortiço e saíram em companhia do Cascão.

Os três andaram juntos por certo tempo, conversando sobre algum assunto que parecia importante. O Cascão falava e gesticulava, e os outros dois prestavam muita atenção.

Quando voltaram desse pequeno passeio ele foi lá dentro e saiu carregando um bauzinho. Entraram todos no carro luxuoso e foram embora.

Desde esse dia o Cascão nunca mais foi visto.

Imagem: http://produto.mercadolivre.com.br

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O figo e o mel

Reverenda Madre,

Rogo humildemente a vossa atenção para os fatos que, breve e objetivamente, passo a expor.
Tenho para mim que ao final serei favorecida por vossa compreensão e misericórdia.
Quando aqui cheguei anos atrás, criança ainda, vinha em busca de paz espiritual, recolhimento e sabedoria.
Apesar da pouca idade, havia feito uma escolha consciente entre a vida secular e a vida clerical. Eu sabia que a grande realização do ser humano se consuma no momento de sua sincera e total renúncia a qualquer interesse próprio.
Tal conhecimento não me foi transmitido por ninguém; chegou-me assim um dia, natural e espontâneo como o enuncio agora. Naquele momento decidi de que maneira queria viver, e desde então tenho sido coerente com tal decisão.
A vida no monastério não é dura como se costuma dizer lá fora; é justa em todas as suas medidas. Não temos, não fazemos e não desejamos nada a mais e nada a menos do que o necessário. Qualquer coisa a menos representaria carência e desnecessário sofrimento; qualquer coisa a mais seria supérfluo e portanto estranho ao nosso modo de ser. Ainda que o corpo se ressinta, por vezes, da privação de alguma futilidade, a recompensa aparece cem vezes multiplicada em forma de enriquecimento espiritual. Trabalho, oração, estudo e meditação, sempre nas suas exatas proporções, nos concedem a paz e a sabedoria que buscamos.
Todas essas coisas, Reverenda Madre, são de vosso pleno conhecimento. Apenas as exponho para lhe assegurar de que a minha mente está e sempre esteve em acordo com tudo isso, e que o meu coração sempre se alegrou diante da perspectiva dos anos vindouros.
No entanto, apesar de toda a certeza e segurança, uma inquietação penetrou em meu espírito. Precisamente pela convicção de viver alerta contra todas as tentações, acredito estar diante não de um simples e vulgar enleio mundano, mas sim de algo importante e até agora desconhecido.
Aconteceu recentemente que, ao atravessar os portões do monastério para a aquisição de mantimentos, vislumbrei entre os mercadores um homem jovem e rude, mal vestido e sujo como costumam ser os pobres das redondezas.
Tão rude e inculto que, ao falar comigo, me olhou diretamente nos olhos, e depois (embora tivesse eu baixado a cabeça, como mandam as regras de compostura de nossa casta ordem) continuou me examinando insolente e despudoradamente. Aquela criatura rústica, Reverenda Madre, me tratou como se eu fosse mulher do povo, o que me vexou de um modo tal que fui obrigada a voltar sem concluir o trabalho para o qual havia saído.
Desde então coisas estranhas começaram a povoar minha mente, e, de forma semelhante àquela revelação que aqui me trouxe ainda em criança, outra se mostrou ao meu espírito. Também a esta pretendo obedecer prontamente, assim como obedeci à primeira.
Quero voltar ao século, Reverenda Madre, para - entre outras coisas - poder sustentar o olhar daquele jovem rude sem ter que baixar a cabeça, e examiná-lo como ele examinou a mim. Quero desfrutar da liberdade de cometer excessos para depois me arrepender, ou então me alegrar por ter alcançado novos limites. Quero não ter certeza do amanhã, mas sim dúvidas e sobressaltos que façam disparar meu coração. Quero ter desejos, para depois tentar satisfazê-los. Quero lutar pela salvação da minha alma, estando em meio a todas as perdições.
Tudo isso deve ser bom, Reverenda Madre. Se não fosse, como se explicaria o fato de que, enquanto as nossas faces são tão pálidas e os nossos olhos tão apagados, as pessoas lá de fora (como aquele jovem de cabelos negros que mencionei) têm os olhos e as faces tão cheios de fogo?
Nossa vida aqui dentro é doce como o figo mais doce, mas se esta devesse ser a maior das doçuras não teria Deus criado o mel. E agora, sabendo que ele existe, não desistirei de prová-lo. Sei que esta é a Sua vontade, ou não me teria revelado sua existência.
Nada mais me resta a dizer a não ser pedir a vossa bênção, Reverenda Madre.

Imagem: http://www.billsphotooftheday.com

sábado, 5 de julho de 2014

Milagre do Amor

Esta é a história do Cristiano, um rapaz bonzinho que estudava lá na faculdade. Ele tinha uma característica muito especial: não tomava banho!
Se você conseguisse, com algum esforço, abstrair o seu revestimento de sujidade, descobriria que ele era bem bonito, com cabelos loiros ondulados, olhos azuis de bela tonalidade e pele rosada sem imperfeições. Além disso tinha um bom peso para a sua altura e nenhum defeito físico aparente.
Porém tudo isso se encontrava semioculto pela sujeira. Os cabelos ensebados, a roupa em péssimas condições, os pés mal cuidados nas sandálias havaianas cheias de poeira. Ele também não fazia a barba, porque achava antinatural se barbear.
Ouvi dizer que o problema era um trauma. Havia sido obrigado a servir o exército, e lá o forçaram a fazer coisas totalmente contra os seus princípios, como cortar o cabelo e as unhas, fazer a barba e tomar banho todos os dias. Tudo isso o deixou traumatizado, e agora que estava livre só fazia as coisas que o seu coração mandava.
Uma das coisas que o seu coração não mandava era estudar. Ele assistia às aulas e meditava. Afirmava que se você "meditar" não precisará passar horas e horas estudando (como nós outros fazíamos), porque vai entender tudo com muito maior facilidade já que a sua mente estará descansada e disciplinada.
Não sei se a mente do Cristiano era disciplinada, mas descansada certamente era. Todo mundo reparava na expressão os seus olhos, absolutamente tranquilos. Parecia que ele estava sempre contemplando alguma paisagem distante, em total relaxamento e despreocupação.
Uma vez ele me convenceu a assistir a uma palestra lá no instituto de meditações que ele frequentava. O palestrante falou um bom tempo (não me lembro de nada), e no final, para exemplificar a excelência do hábito, perguntou ao meu colega, notório e conhecido meditador:
"Não é verdade que depois que você começou a meditar passou a obter notas muito melhores?"
O Cristiano, que só levava pau em todas as matérias, respondeu:
"Eu exagerei um pouco e meditei demais, por isso não consegui bons resultados..."
O palestrante não se deu por vencido:
"É, realmente, tem que haver uma certa moderação, senão os efeitos benéficos são prejudicados."
O que me lembro bem daquele dia é que na hora de irmos embora tivemos a companhia de uma meditadora conhecida dele. Ela foi contando pelo caminho a sua rotina de meditação, incluindo o fato de comer uma "banana nanica" depois de fazê-lo. Fiquei maravilhada (no sentido da Bíblia) com a preocupação da menina em informar que a banana era nanica. Acabei concluindo que a meditação não era para o meu perfil.
O tempo foi passando e tudo continuava no mesmo. Mas de repente algo extraordinário aconteceu!
Uma colega chegou um tanto assustada e disse:
"Adivinhe quem eu acabo de ver no ônibus!"
"Não faço ideia."
"Vou dizer três palavras e você vai adivinhar na hora: limpo, arrumado, perfumado!
"Cristiano!"
Era o Cristiano. Consta que passou a tomar banho, vestir roupas limpas e até usar desodorante.
Como já deu pra suspeitar, ele estava apaixonado. Finalmente encontrou alguém que o fez esquecer totalmente os seus princípios e ficou interessado apenas em ser aceito como um ser humano comum.
Dizem até que começou a estudar a sério. E todos foram felizes para sempre :)

Imagem: http://www.peanuts.com

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Luz Pedra Diamante Flor Cintilante

LUZ
A letra "ele" da palavra luz representa a sua leveza; "u" traz ideia de escuridão, das trevas que são o meio onde a luz existe; "z" é a velocidade.
Nada há mais leve e mais veloz do que a luz dentro do abismo escuro do espaço.

PEDRA
Nesta palavra a sílaba "dra", que soa como um pequeno pedregulho revirando-se na ponta da língua, contém a essência do objeto "pedra". A sílaba "pe" (pronunciada "pé") transmite ideia de movimento.
Seja o movimento da pedra rolando colina abaixo, seja o movimento através do tempo caracterizando a sua perenidade.

DIAMANTE
Esta é outra palavra cujo som revela a natureza do objeto.
"Dia" significa "através". Pode-se enxergar através do diamante: ele revela sua pureza por meio da transparência.
"Mante": a sílaba "man" é musical; essa música termina bruscamente no "te", como se batesse em alguma coisa dura.
Diamante é transparência (pureza) e música (beleza) encerradas (preservadas) dentro da mais dura das superfícies.

FLOR
O "efe" de flor é o prenúncio da abertura do botão. Quando o "efe" se junta ao "ele", obrigando a língua a imitar o movimento da pétala se abrindo, é o próprio desabrochar que começa a acontecer.
O "o" (pronunciado "ô") desvenda ao meio exterior a parte interna da flor que se abre. O "erre" completa o movimento das pétalas lançando-se para fora.
Assim, a mesma pronúncia da palavra "flor" já é em si um desabrochar.

CINTILANTE
"Cin" é som sedoso, que faz lembrar o brilho e a textura da seda.
"Ti-lan-te" é um carrilhão de cristal ao vento.
"Cintilante" traz à mente a imagem de uma superfície formada por fragmentos justapostos de cristal, que brilham como seda.
Não por acaso, Cíntia é um dos nomes da Lua.

Imagem: http://socialspirit.com.br

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A senhorinha do ponto da pracinha

Ela vai quase toda tarde, entre 4 e 5 horas, ao ponto de ônibus da pracinha.
É uma senhora de 80 anos muito simpática, sempre bem vestida e bem penteada, com os cabelos tingidos de loiro acobreado.
Ela chega, senta-se no banco do abrigo, e imediatamente começa a falar com quem estiver mais próximo. Durante essa conversa relata toda a sua vida, em detalhes. Às vezes mostra fotos.
Se o ônibus chega e ela perde o interlocutor, imediatamente se vira para outra pessoa e reinicia a conversação.
Mas não está interessada no que o outro tem a dizer.
"Olha esta foto aqui. Sou eu e o meu marido. Aqui estou bem jovem, não? Ele já morreu faz tempo. Não foi fácil."
"É, eu sei... perdi o meu filho tá fazendo seis meses... ele morreu de meningite..."
"Então, tá vendo este colar que estou usando? É de pérolas verdadeiras. Foi da minha mãe. Ganhei no dia do meu casamento."
Eu já ouvi a história de sua vida várias vezes, embora ela tenha falado comigo em apenas uma ocasião.
Sei que é viúva, que criou o filho praticamente sozinha, que foi rainha da beleza no clube que frequentava quando mocinha, que torce para o mesmo time de futebol desde criança, que trabalhou em uma malharia durante 25 anos.
Seu filho mora em Santos e ela vive sozinha aqui em São Paulo. Só há uma coisa de que ela não gosta quando ele vem visitá-la: cozinhar. Ela detesta cozinhar e fez isso a vida toda; agora que é sozinha acha muito bom não ter mais essa obrigação, mas quando o filho vem é preciso fazer comida como antigamente, e disso ela não gosta não.
Era para ela ter tido, além dele, duas filhas gêmeas. Mas devido a um acidente acabou sofrendo um aborto. Esse acidente foi provocado por um gato. Sem querer, ela pisou no rabo do bicho, então ele deu um berro tão forte que ela se assustou e caiu de mau jeito.
Mas vejam como é a vida: agora tem duas netas gêmeas! As meninas são iguaizinhas, não dá nem pra distinguí-las. Por isso vivem fazendo brincadeiras com a avó, aquelas danadinhas.
Do que ela gosta mesmo, além de tomar cerveja de vez em quando, é passear de ônibus.
Os motoristas já a conhecem, conta ela, e a levam ao centro da cidade e depois de volta até o ponto final, lá na periferia. Eles esperam os outros passageiros descerem, vão até uma lanchonete próxima e compram um salgado e um café com leite; levam ao ônibus e esperam até ela acabar de comer. Só então retomam a viagem de volta, deixando-a no mesmo ponto onde a pegaram.
“Eles gostam muito de mim.” diz ela sorrindo.
Quem também gosta muito dela são os jogadores do time para o qual torce (desde criança, faz questão de enfatizar).
“Eles não andam jogando bem não. Fui lá no clube e conversei com eles depois do treino. Eles já me conhecem porque eu vou lá às vezes. Me respeitam muito, aqueles meninos.”
Daí relata minuciosamente a bronca que deu neles, já que não estavam jogando nada.
“Então o Fulano me respondeu: a senhora acha que a gente não está jogando nada, tia? Então a senhora faz assim: vem aqui no clube, coloca as chuteiras e vai jogar no nosso lugar.”
Dito isso, ela ri e repete: “Eles me respeitam muito, aqueles meninos.”
O ônibus chega. Ela entra, eu entro em seguida e vou procurar um lugar para sentar. Ela fica em pé ao lado do motorista, e imediatamente começa a explicar pra ele tudo o que aconteceu quando uma amiga levou o cachorrinho ao pet shop.
Imagem: http://youcallthatart.files.wordpress.com