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sábado, 13 de setembro de 2014

Palácio de cristal

Ah, que bom que você parou aqui para conversar! É verdade que recebo muitas visitas, mas são tão rápidas! Mal dá tempo de dizer “olá, como vai?” Raramente alguém chega, senta, e se interessa em saber alguma coisa sobre mim. Então vou te contar tudo direitinho.
Foi assim: eu era uma pessoa como outra qualquer, morava em uma casa, tinha uma família, e trabalhava muito.
O problema era que, por mais que eu me dedicasse, por mais que me esforçasse, nunca parecia ser suficiente.
Engraçado que eu não percebia isso. Tinha a impressão de que a vida era aquilo mesmo: muito trabalho e uma constante sensação não estar cumprindo as expectativas. Sempre havia alguma coisa que alguém queria, que alguém precisava, e eu falhava em satisfazer. Depois me culpava e tentava fazer um esforço maior ainda.
Acho que vivi assim muitos anos. Nem sei quantos, mas foram muitos. Essa insatisfação, esse sentimento de culpa, que sempre me incomodaram, começaram a ficar insuportáveis.
Sabe que de tanto trabalhar fiquei com problema de dor nas costas, nos braços e nas pernas? E dor de cabeça, então? E insônia?
Além de tudo eu não tinha tempo para me tratar. Comecei a ficar cada vez mais feia. Não ia ao médico e nem cuidava da aparência. Me olhava no espelho e me achava horrorosa, mas tinha tanta coisa pra fazer que deixava pra depois arrumar o cabelo, dar um jeito nas unhas ou comprar uma roupa nova.
E as cobranças aumentando cada vez mais. Cobranças, reclamações, recriminações. Nunca um “obrigado”. Nunca um “deixe isso pra depois, vá descansar um pouco”. Nunca um “vou te ajudar a fazer isso”. Nunca um “parabéns, ficou muito bom”.
Então um dia olhei pela janela e vi aquele palácio de cristal. Engraçado que nunca tinha visto antes, embora tenha olhado naquela direção tantas e tantas vezes. Nessa hora pensei: “é para lá que eu vou! e vai ser agora!”
Por isso construí este barquinho, todo acolchoado por dentro, bem confortável. Plantei essas flores todas para ele ficar bonito e perfumado.
Levei o barquinho para o rio, entrei dentro, e desde então estou viajando na direção do palácio.
É tão bom ficar aqui deitada, sem fazer nada, só descansando. O barquinho vai navegando sozinho, porque o rio se encarrega de levá-lo. Assim, sem pressa, sem turbulência. Enquanto isso eu fico olhando o céu azul, respirando o ar puro, vendo as borboletas chegarem para pousar nas flores. São tão bonitas as margens deste rio, tão coloridas, que às vezes dá vontade de desembarcar e ficar morando aqui mesmo.
Mas o meu destino é o palácio de cristal. Há um quarto lindo esperando por mim, onde vou poder ser feliz. Muitos livros para ler, um espelho bem grande com moldura de prata, uma cama maravilhosa com colunas nos quatro quantos. Já pensou que beleza? Ninguém me amolando, me cobrando, me recriminando.
Este rio tem muitas voltas, por isso a viagem é longa. Mas eu não me importo, porque sou feliz desde já, desde que entrei no barquinho e deixei tudo para trás.
O que foi, passarinho? Precisa voar agora? Está bem, mas volte outras vezes, se puder. Vá me visitar lá no palácio. A minha janela é aquela que dá pra ver daqui. Está vendo? Aquela dourada, com cortinas de renda branca.
Tchau, passarinho! Seja feliz!

Imagem: http://crosti.ru

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