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terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Homem Dourado

Éramos apenas um bando de errantes. Mulheres, crianças e idosos andando devagar sob o sol. 
Precisávamos de outro lugar para viver, precisávamos nos integrar a uma nova comunidade ou então reconstruir a nossa, porém longe daquela devastação. Sem saber aonde ir, tomamos aquele caminho e seguimos em frente. Sempre em frente, afastando-nos da aldeia destruída pela guerra. Não que tivesse sido atacada pelos inimigos, mas a partida sem retorno de todos os homens aptos para a luta levou o nosso pequeno mundo à completa deterioração. Os animais morreram, as plantações secaram. Tudo se tornou árido e estéril. 

Naquele dia da nossa partida o céu estava muito azul e as cigarras cantavam. 
O verde do mato, o cheiro morno da terra... Uma sensação morna também na alma, como se alguma coisa importante estivesse para acontecer. 
A desesperança parecia ter ficado lá atrás, junto às nossas choupanas em ruínas, infestadas de insetos e ratos. 
Só importava agora o que estava por vir. 

Continuamos por toda a tarde. Silenciosos, vagarosos, mas serenos. 
A noite ainda não havia chegado quando avistamos à frente, do lado esquerdo do caminho, uma pequena ponte de pedra. Não havia rio nem riacho sob ela, apenas a depressão deixada pelo curso d'água que não mais existia. 
Porém a nossa atenção foi desviada para algo extraordinário do outro lado da ponte. Uma cabana de cânhamo e palha, de tamanho amplo e aparência acolhedora. 
Ao seu lado, sentado sobre uma pilha de pedras, um homem completamente dourado. 
Mesmo à distância dava para ver que se tratava de um ser muito belo, como uma estátua primorosamente esculpida em ouro. Mas não era estátua, porque se movia e nos observava silenciosamente. 

Paramos todos, admirados demais para entender o que víamos. 
Finalmente alguém disse que a cabana seria um lugar propício para passarmos a noite. 
Sim, mas precisaríamos da permissão do homem dourado. 
Quem seria ele? Uma divindade, sem dúvida. 
Poderíamos nos aproximar e pedir? Seria apropriado? Seria perigoso? 

Não havendo outra escolha, resolvemos seguir em frente e atravessar a ponte. Éramos tão poucos, tão inofensivos! Ele não veria ameaça nessa aproximação. 
Recomeçamos a andar, mais vagarosamente do que antes. Atravessamos a ponte, paramos em frente ao monte de pedras e ficamos em silêncio, olhando para o chão. 
Desrespeitoso seria olhá-lo diretamente, e mais grave ainda tomar a iniciativa da conversa. 
Os nossos corações batiam forte de medo e de esperança. As crianças, embora não entendessem a situação, sentiram que era preciso ficar muito quietas. 

Não esperamos muito tempo. Ele logo se levantou ─ era alto, perfeito, a materialização da beleza ─ e veio em nossa direção. 
Falou com uma voz muito humana que éramos bem-vindos, ouviu a nossa história e o nosso pedido, e nos deixou entrar na cabana. 
Por dentro era ainda mais acolhedora do que pensáramos. Muito limpo, o chão era revestido por esteiras de palha onde se podia deitar confortavelmente para passar a noite. 
Ninguém ousou perguntar quem era o homem dourado. 
Ninguém ousou suspeitar que a cabana fosse um tipo de chamariz, uma armadilha para algo incerto. 
Ninguém ousou tocar no homem dourado. A não ser uma criança, que inocentemente deslizou o dedo sobre a sua pele para ver se a cor de ouro saía. 
Nem todos viram isso acontecer, mas quem viu teve um momento de horror diante da possível fúria da divindade ultrajada. Eu sei porque vi, e tenho certeza de que o meu sangue parou de circular naquele momento. 

Não houve fúria, mas sim um sorriso. A cor de ouro não ficou no dedinho da criança, que, incentivada pelo sorriso, retribuiu com uma risadinha breve e musical. 
A primeira risada que ouvíamos desde muito, muito tempo. 

As outras crianças se apressaram em imitar o gesto, e riam felizes com a brincadeira. 
Para meu espanto, os adultos do grupo começaram a tomar a mesma iniciativa. 
Não sei explicar de onde os meus companheiros, normalmente reservados, tiraram coragem para tão insano atrevimento. 
A cada vez, o homem dourado sorria e aparentemente se divertia com a admiração que causava. 

Então resolvi me aproximar e fazer o mesmo. Apesar do sobressalto enorme dentro do peito, não quis agir diferentemente dos outros. O que viesse depois, fosse para o bem ou fosse para o mal, era melhor que acontecesse a todos sem exceção. 
Isso foi a explicação dada pela mente, mas o coração sabia que a motivação era outra. 
Fui a última a estender a mão, mas ele imediatamente se afastou e disse: "Você não. Você não pode me tocar." 

É impossível descrever a tristeza que senti naquele momento. Mais do que uma surpresa, mais do que a mágoa da rejeição, era uma tristeza muito profunda que me fez chorar amargamente. Jamais tinha me sentido assim. Não sabia, até aquele momento, que poderia haver no mundo uma tristeza tão profunda. 
Enquanto as pessoas começaram a se ajeitar para passar a noite, eu, parada em um canto, vi quando o homem dourado se afastou da cabana. 
Tudo era tão incompreensível... sem pensar no que fazia, fui atrás. 
Ele se deitou no chão, colocando um dos braços sobre a testa. Ao me ver fez sinal para que me aproximasse. 
Quando cheguei perto ele estendeu a mão e disse: "Agora você pode me tocar." 

Sentei-me ao seu lado e o abracei. Abracei muito, muito. Ele se deixava abraçar, e parecia estar ficando cansado, cada vez mais cansado. Em dado momento abriu as pálpebras pesadas, me contemplou com seus olhos cor de ouro e disse: "Entende agora por que você não podia me tocar? É que você me ama, por isso se me tocar eu morro." 
E eu o abraçava mais e mais, e ele morria. 

No dia seguinte ninguém mais viu o Homem Dourado. Havia desaparecido. Mas um novo ânimo parecia habitar todos os corações. Retomamos a jornada, encontramos o local que desejávamos, reconstruímos as nossas vidas. 
Quando nasceu o meu filho, seus cabelos loiros reforçaram a suspeita que já existia. 
Suspeita transformada em certeza assim que ele abriu os seus olhos cor de ouro e iluminou para sempre as nossas existências.
Imagem: http://paintthemoon.net

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