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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma rosa para Daiane

Amanhã é o último dia de aula. Acabou o curso. Quem foi aprovado, muito que bem. Quem não foi, já era.
Agora só quero o meu certificado. Festa de formatura? Sai fora. Não vou desperdiçar dinheiro com besteira.
Todo mundo lá arrumadinho, sorridente, fazendo de conta. Eu, hein?
Quero meu certificado, mano. Chego na secretaria, pego o papel e vou-me embora pra nunca mais voltar. Nem olho pra trás.
Três anos terríveis. Professores lixos, colegas idiotas, escola caindo aos pedaços.
Alguém por acaso se lembra da menina que se matou no ano passado? Que pulou na frente do ônibus? Não, né?
Fui lá na diretoria e avisei: a Daiane está com depressão. Ela anda falando umas coisas que gente normal não fala. Avisa lá a família dela antes que seja tarde.
Jacaré avisou? Nem jacaré nem a diretora. Depois que chegou a notícia foi um tal de ai que horror pra cá, ai que pena pra lá, colega chorando no fundo da sala, professor fazendo discurso sobre o perigo das drogas. Que droga, mano? A Daiane nunca usou droga! Nesse dia quase parti pra ignorância.
Depois do chororô, ninguém mais tocou no assunto. Acho que só eu ainda me lembro disso nessa zorra de escola.
E a inspetora homofóbica? Foi dar bronca no sujeitinho que estava escrevendo na parede, até aí concordo que vandalismo não pode, mas precisava tanta falta de educação? Tanta gritaria? Não, né? E no final, igual à cereja em cima do bolo, chamou o cara de gayzinho sem noção.
Logo ela, mano! Logo ela que todo mundo sabe que é lésbica. Como pode isso?
Olha, foi dureza aguentar professor de português falando errado. Tipo: oucem aqui, pessoal, a prova é dia tal e tal! Juro, não tô inventando. O cara falou bem assim: oucem aqui!
E a professora que não dava aula porque mandava todo mundo apresentar trabalho? Toda vez tinha apresentação de trabalho. Ela ficava lá sentada assistindo. Quase nunca falava alguma coisa. Desse jeito até eu.
Sinceramente, mano? Cansei. Levar papel higiênico de casa, beber água direto da torneira, engolir merenda de bolacha seca, sentar em carteira quebrada.
E a galera fazendo zoeira sem parar. Quase não dava pra ouvir nada. Eu lá querendo anotar as coisas, entender a bagaça da matéria, levantando a mão para fazer pergunta, tudo pra depois aguentar a gozação. Olha aí a nerd! Essa daí vai pra NASA quando se formar! Quanto cê tá pagando pelas notas?
Ai, as meninas. Tão arrumadinhas, batonzinho na boca, chapinha no cabelo. Burras que nem uma porta. Porta ou porca? Sei lá. Aula de matemática: professor, por que o triângulo equilátero não tem hipotenusa?
Nessas horas eu ficava com dó do professor, apesar de ele também não ser lá grande coisa.
Os carinhas da classe, então, só ligados nos bagulhos que rolam na pracinha. Sabe a pracinha em frente à escola? Muita coisa acontece ali, principalmente na hora do intervalo. Todo mundo sabe, menos a direção. Sair no intervalo não pode, mas cadê que tem inspetor no portão? Sai quem quer, mano. Sai quem quer, entra quem quer, faz o que quer.
Amanhã é o último dia, por isso muita gente não vai. Eu vou. Pra sentir que terminei mesmo essa etapa. Que terminei para sempre. Tipo ir ao velório só pra ter a certeza de que o defunto morreu.
E também pra colocar uma rosa naquele cantinho do pátio, lá onde tem o pé de ipê amarelo. Uma rosa em homenagem à Daiane.
Nunca vou esquecer. Foi bem ali, naquele cantinho, perto do ipê amarelo, que trocamos o nosso primeiro e o nosso último beijo.
Adeus, Daiane. Fica na paz. <3


Imagem: http://resource4christians.blogspot.com.br

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