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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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domingo, 9 de julho de 2017

O lustre de cristal

Nossa casa em Dinkelsbühl era grande, decente, mas sem luxo. A parcimônia, quase uma filosofia de vida da família, nos proporcionava com sobriedade os confortos da época. Como se dizia então, vivíamos bem. Apenas duas extravagâncias existiam na residência: um enorme lustre de cristal na sala principal e uma adega bem guarnecida.

A casa, herança do meu bisavô, fora comprada um pouco antes do seu casamento. Profissional da ourivesaria, soube poupar o suficiente a fim de realizar o sonho de ter uma casa boa, sólida, capaz de abrigar a família numerosa que planejava ter. A noiva, filha de um bem sucedido artesão, recebeu de seu pai como presente de núpcias o belíssimo lustre.

Segundo a lenda, ele havia sido manufaturado séculos antes por um mestre vidreiro da ilha de Murano. A encomenda viera de um aristocrata veneziano sob a recomendação de imitar uma longa e volumosa cascata de lágrimas de cristal, límpidas e perfeitas, capazes de multiplicar a luz em mil raios iridescentes.

À medida que trabalhava, o mestre foi se apaixonando pela obra de arte que via tomar forma em suas mãos. Três anos depois, prestes a terminar o serviço, já tinha decidido que não iria cedê-la. Sem poder fazer a devolução do dinheiro recebido e estando esgotado o prazo de entrega, o mestre desmontou o lustre, depositou-o cuidadosamente em uma arca e fugiu da ilha, abandonando sua antiga vida. Vagou por várias localidades e após alguns anos foi ter à vila de Dinkelsbühl, onde se apresentou com outro nome e constituiu uma nova família.

Várias gerações depois o sogro do meu bisavô, descendente desse homem e guardião do tesouro mais precioso da sua linhagem, houve por bem passá-lo à responsabilidade do genro, que não o decepcionou, mantendo o magnífico objeto sempre limpo e bem conservado no local mais visível da residência. Assim ele passou para as mãos do meu avô e depois para as do meu pai, que continuou honrando a tradição.

O lustre encantava a todos os que o viam pela primeira vez. Algumas pessoas chegavam a inventar pretextos para voltar lá e contemplá-lo mais um pouco.

O mais assíduo admirador da obra de arte (e da adega do meu pai) era o burgomestre da vila, Herr Bardric Hensler. Quando esgotaram-se os pretextos para voltar à nossa casa e olhar o lustre, ele se ofereceu para comprá-lo. Não conseguindo resposta positiva, aumentou a proposta para valores bem altos, mas o tesouro da família não estava à venda por preço nenhum. Desde então, de amigo que dizia ser, passou a nos tratar com uma indiferença que beirava a antipatia, e deixou de comparecer aos almoços e jantares oferecidos em nossa casa ― o que deve ter lhe custado certo esforço, já que apreciava por demais os vinhos da coleção do meu pai.

O ano era 1930. Meu irmão do meio, Benjamin, estudava na Inglaterra e de lá podia observar certas movimentações ocorrendo na Alemanha, fatos fora do normal que nós mesmos não percebíamos com clareza por estarmos concentrados nas tarefas do nosso ofício, que não eram poucas. Eu, o mais velho, e Efraim, o mais novo, trabalhávamos na oficina de ourivesaria junto com o nosso pai. Benjamin, porém, preferiu se dedicar às ciências matemáticas e para isso recebeu o necessário apoio.

Eis que certo dia recebemos pelo correio um livro mandado por ele junto com este bilhete: “Estou enviando o livro que a mãe tanto pediu. Espero que ela goste do romance.”

Nossa mãe nunca havia pedido livro nenhum. Percebemos que se tratava de um aviso cifrado. Vasculhamos as páginas e encontramos palavras sublinhadas com tinta azul. Copiamos essas palavras na ordem em que apareciam, compondo uma mensagem. Não me lembro das frases exatas, mas era um pedido veemente para que vendêssemos tudo o mais rápido possível e fôssemos encontrá-lo na Inglaterra, porque coisas terríveis estavam para acontecer aos judeus alemães.

Benjamin era inteligente e ajuizado. Não duvidamos por um segundo da veracidade da sua informação. Nosso pai achou melhor fazermos tudo discretamente. Prudência e sigilo eram necessários à nossa salvação.

Fizemos os planos. Venderíamos uma parte das pedras preciosas que conservávamos em local secreto na adega; a outra parte levaríamos conosco para a Inglaterra. A casa precisava ser vendida, mas o pretexto deveria ser muito bom para não despertar suspeitas. E o lustre? A solução era desmontá-lo e repetir a façanha do nosso antepassado, o mestre vidreiro de Murano.

Graças aos contatos que tínhamos a venda das pedras foi rápida; em algumas semanas estava em nossas mãos o dinheiro para a viagem; ficou guardado na oficina. A outra parte das pedras minha mãe, boa costureira, ocultou na parte interna das roupas íntimas que haveria de usar na viagem. Faltava vender a casa, mas antes que pudéssemos por em prática essa parte do plano, recebemos a visita de Herr Bardric Hensler.

Veio nas primeiras horas da manhã, antes de sairmos para o trabalho. Entrou com arrogância, sem nos cumprimentar, indo de imediato ao assunto ― não sem antes lançar o olhar cobiçoso ao lustre de cristal.

― Herr Isaac, estou confiscando a sua casa em nome do Partido Nacional Socialista. Aqui será instalada a unidade de controle e fiscalização político-social do burgo.

― Mas por que justamente a minha casa, Herr Bürgermeister?

― Não tenho necessidade de responder às suas perguntas, Herr Isaac, mas como ato de generosidade esclareço que o motivo é a localização. Por estar isolada e situada sobre esta elevação, proporcionando uma perfeita vista de toda a vila.

Embora não estivéssemos surpresos, tendo sido avisados que mais cedo ou mais tarde teríamos nossa privacidade invadida, não foi possível reprimir algumas palavras e gestos de dor. Porém mostramos resignação. Resistir seria perigoso. O outro lado era muito mais forte.

― Quanto tempo temos para desocupar a casa, Herr Bürgermeister?

― Até o meio-dia de hoje, Herr Isaac. Poderão levar a roupa do corpo e uma mala cada um. As malas serão vistoriadas. É bom que contenham apenas vestimentas. Qualquer outro objeto será confiscado. A partir deste momento a residência está sob vigilância.

Sem dar tempo a nenhuma resposta, ele bateu os calcanhares, fez a saudação nazista e dirigiu-se à porta. Antes de ir, um breve porém ávido olhar ao lustre.

Sentíamos deixar para trás a casa de nosso bisavô e a herança de família da nossa bisavó. A vida, no entanto, se apresentava como o bem mais precioso a ser preservado.

As malas foram examinadas e só continham roupas. Revistaram cada um de nós e nada encontraram em nossos bolsos. Entregamos o molho de chaves e fomos liberados.

Passamos o resto do dia na oficina. Foi decidido que era melhor viajar imediatamente, e tomamos as providências a fim de partir de madrugada. Ao anoitecer deitamos para descansar um pouco. Quando os nossos pais adormeceram, Efraim e eu saímos e rumamos para o antigo lar. Eu havia retirado do molho de chaves aquela que abria a porta externa da adega. Embora o nosso plano fosse perigoso, não podíamos deixar de tentar.

Caminhamos sem pressa e em silêncio para não chamar a atenção. Demos uma volta bem grande até chegar ao caminho que passava atrás da casa. Subimos cuidadosamente a colina, observando se havia guardas vigiando a propriedade. Estava tudo escuro, nenhum ruído se ouvia. Alcançamos a porta da adega. Girei lentamente a chave, abri a porta e o que vimos ali? Herr Bürgermeister Bardric Hensler caído no chão, cercado de garrafas vazias, visivelmente desacordado.

Prosseguimos em nosso objetivo. Chegamos à sala principal e, apesar da escuridão, sabíamos exatamente o que fazer e como fazer. Inúmeras vezes ajudamos o pai a descer o lustre até uma altura conveniente para a limpeza, e depois a erguê-lo novamente. Foi o que fizemos. Em vez de limpeza, porém, íamos retirar as peças de cristal. Precisávamos ser rápidos, não tanto por receio de sermos surpreendidos pelo burgomestre, que certamente permaneceria prostrado até a manhã seguinte, mas para não perdermos a hora da partida.

Trabalhamos muito bem, soltando rapidamente cada uma das gotas e colocando-as dentro de um saco de pano cheio de estopa, ali colocada para amortecer o atrito. Demorou menos do que tínhamos pensado. Os lindos cálices e espirais que ornamentavam a cascata de lágrimas não podiam ser levadas devido ao volume e ao peso que fariam. Efraim não pensou duas vezes: começou a esmagá-los sob o salto dos sapatos. Meu coração doeu, mas concordei e o ajudei. Nada deveria ficar para aquele usurpador nazista que se embebedara com os preciosos vinhos da nossa adega.

Terminamos a tarefa e na saída Efraim se deteve um instante contemplando o porco bêbado largado no chão. Fazendo sinal para que eu o esperasse lá fora com o saco, ele foi a uma das garrafas, quebrou o gargalo e despejou o vinho. Entendi o que ele queria fazer. Depositei na grama o tesouro de cristal e fui ajudá-lo. Não deixamos intacta uma única garrafa, derramamos até a última gota. Feito isso, trancamos a porta e deixamos aquele ser abjeto desacordado no meio dos cacos de vidro e poças de bebida. Que lambesse o chão, se quisesse tomá-la.

O saco era muito pesado. A necessidade de voltarmos a tempo e a satisfação pelo êxito do plano nos deram forças. Ajudamo-nos um ao outro, revezamo-nos, encorajamo-nos mutuamente, e tudo deu certo.

Partimos de madrugada no horário combinado. Chegamos à Inglaterra e lá ficamos durante um curto período. Logo viajamos novamente, desta vez com Benjamin, rumo ao Brasil, onde ficaríamos a salvo do nazismo.

Hoje o lustre está restaurado, embora sem a mesma perfeição. Nenhum artífice conseguiu reproduzir as espirais e os cálices com o esmero e o brilho dos originais. É compreensível. Ninguém no mundo possui a maestria, muito menos a paixão do vidreiro de Murano. Sentimos, mesmo assim, grande alegria ao contemplar a sua obra de arte. Alegria por termos conseguido resgatar até a última gota de cristal. Elas representam as lágrimas do nosso povo e também a sua tenacidade.

Brindemos ao eterno renascimento! Venham todos beber conosco, que a vida é bela e a nossa adega generosa!
Imagem: Crystal Raindrop

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