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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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domingo, 1 de novembro de 2015

Comendo bombons

     Nada melhor do que um bombom delicioso, comido bem devagarinho, para nos ajudar a olhar de frente a vida, reavaliar as nossas escolhas, tomar decisões... Este aqui é recheado com creme de avelã e tem uma avelã inteirinha no meio. Hmmm... delícia...
     Renato, Renato... Como você é vacilão. E como eu sou trouxa. Bem feito pra mim. Larga de ser trouxa, Gabi. Ficando velha e sempre fazendo papel de trouxa. Toma vergonha, mulher.
     Meus amigos me diziam: “Gabi, você é tão exigente que daqui a pouco vai estar pedindo currículo pros caras.”
     Eles tinham razão, eu era assim mesmo. Depois de umas experiências desastrosas, me tornei exigente sem perceber. Mas escutei os amigos e revi minhas atitudes.
     Daí conheci o Renato. Uma figura interessante. Foi logo dizendo que era ator. Se queria me impressionar, não conseguiu. Ator, poeta, artista plástico... Cada um coloca em si a etiqueta que lhe convém. Quanto à qualidade de sua arte, é caso a se conferir.
     À medida que a conversa continuava, fui me deixando envolver. Ele era ator, porém havia se formado em administração. No entanto trabalhava como vendedor em uma loja do shopping. Hein? Como assim?
     Seguinte. Seu sonho era atuar, mas por ser uma carreira cheia de altos e baixos foi cursar administração. Enquanto estudava arranjou emprego como vendedor e aos sábados e domingos animava festinhas vestido como “palhacinho Beleléu”.
     ”Nossa, Renato! Você não descansava nunca?”
     Não, ele não descansava, nem podia. Precisava de dinheiro para pagar a pensão do filho.
     ”Filho? Você já tem filho?”
     Tinha, de seis anos. Engravidou a namoradinha adolescente quando estava no último ano do colégio.
     Que figura, pensei eu. Tão jovem e já com tanta responsabilidade nas costas. Uma pessoa no mínimo intrigante. Vale a pena conhecer melhor.
     Nessa altura eu já tinha deixado de lado as exigências. Um cara que não passou no vestibular das universidades públicas e cursou administração numa dessas faculdades caça-níqueis, ajudado pelos pais e pela irmã mais velha. Que estava formado havia três anos e ainda tinha o mesmo emprego dos tempos de estudante. Que desejava ser ator mas por falta de dinheiro não fazia curso na área, só participava de um grupo de teatro mundialmente desconhecido. Que precisava pagar pensão ao filho, e para isso continuava dependendo dos pais e da irmã mais velha.
     ”Isso é gente de verdade, Gabi. Não é excepcional em nada, não é nem projeto de príncipe encantado. É só um cara que fez besteira, que ainda não se encontrou, mas que não fica parado. Ele insiste. Todo atrapalhado, mas insiste. Um dia pega o rumo certo.”
     Então tá. Vamos ver no que vai dar, pensei. Confesso que a minha boa vontade tinha algo a ver com a bela aparência do Renato. Bem bonito, o danado.
     Isso aconteceu está fazendo oito meses. E, cinco minutos atrás, recebi uma mensagem de texto dele. Levei uns trinta segundos para ler e apreender o significado. Então, há exatos quatro minutos e meio, ele deixou oficialmente de ser meu namorado. Nem sei se vou me dar ao trabalho de responder ou se vou deixar o babaca no vácuo. Depois resolvo. No momento só quero acabar de comer este bombom.
     Acabei. Vou pegar outro. Este é de nozes, com creme de café e conhaque. Combinação maravilhosa. Casquinha crocante. Que tudo!
     Retomando o fio dos pensamentos. Essa mensagem foi simplesmente a última gota d’água num copo que começou a se encher logo depois de nos conhecermos. E olha que eu usei um desses copos bem altos, onde cabe meio litro de chope.
     Foi no dia em que ele me perguntou sobre a minha família. Falei que o meu pai estava em tratamento de radioterapia contra um câncer de próstata. O que me respondeu a criatura? “Radioterapia é fogo, né?” Quatro anos de curso superior e só tinha isso no repertório. Nunca mais tocou no assunto, nem pra perguntar se o meu pai ainda vivia ou se já tinha morrido.
     Tempos depois me convidou para assistir a uma peça do grupo de teatro desimportante. Eles se apresentam no salão dos fundos da igreja. Gente fina, o pastor: deixa o grupo usar aquele espaço gratuitamente a fim de que os jovens da congregação tenham contato com a arte. Renato me recomendou chegar uma hora antes do início para que eu pudesse ver o ensaio final. Era só falar com o zelador Luizinho, que sempre fica lá tomando conta da entrada.
     Fim de uma tarde bastante fria. Cheguei no horário marcado e vi na porta um homem magro, baixinho, conversando ao celular. Não querendo incomodá-lo, fiz um gesto indicando que ia entrar. Ele me olhou e, sem afastar do ouvido o aparelho, falou bem alto, abanando a outra mão: “Espera aí, espera aí! Não pode entrar!” Imediatamente me deu as costas e foi para dentro, retomando a conversa interrompida.
     Esperei durante meia hora e nada de voltar o homem. Começou a se formar uma pequena fila em frente à janela ao lado. Suspeitei que fosse ali a “bilheteria”. Mais uns quinze minutos e a janela se abriu. Lá estava o Luizinho, para vender as entradas.
     Sem outra opção, fui para o fim da fila e comprei a minha. Ele me tratou friamente, como se não soubesse do tempo que eu tinha ficado de bobeira ali fora naquele frio. Nessa altura de que adiantava dizer que eu era a namorada do Renato e tinha vindo para assistir ao ensaio final?
     A peça. Jesusmariajosé. É verdade que eu não gosto muito de teatro, admito. Mas o que era aquilo? Meia dúzia de jovens adultos falando alto, vestidos de forma bizarra, as caras pintadas de um jeito que não percebi o porquê, movendo-se e gesticulando com exagero. De vez em quando a música aumentava extraordinariamente e todos os atores paravam como se estivessem congelados. A luz ia baixando e ficava tudo escuro, só aquele barulho ensurdecedor. Repentinamente a música cessava, as luzes se acendiam sobre o palco, e a representação recomeçava.
     Suportei aquilo o melhor que pude. Procurei não pensar no meu pai, que estava lá em casa encarando resignadamente os efeitos colaterais da radioterapia. Eu queria estar lá e não aqui, diante desses palhacinhos beleléus do caramba. No final, uma chuva de confetes caiu sobre a plateia de umas trinta pessoas, e estava encerrado o espetáculo. Que maneira patética de passar uma noite de sábado, pensei.
     Finalmente pude conversar com o Renato. “Por que você não chegou antes, Gabi? Perdeu o ensaio. Foi muito interessante, você ia gostar. Mudamos um monte de coisas na última hora. Você podia até ter dado umas sugestões, porque a criação é coletiva.”
     Ah, criação coletiva. Isso explicava muitas coisas, principalmente a total falta de sentido. Quanto a chegar atrasada, pra que eu ia reclamar do zelador imbecil que não me deixou entrar? Em vez disso, elogiei o trabalho. Vai ser falsa desse jeito lá em Teerã, dona Gabi. Mas na hora me pareceu que mentir para o bem era melhor do que ser sincera para o mal.
     Na saída cruzamos com o Luizinho. Sem saber de nada, o Renato todo sorridente disse pra ele: “E aí, conheceu a minha namorada, hein?” Virou-se para mim e continuou: “Olha, Gabi, este cara é mais do que amigo, é como um irmão para mim. Nos conhecemos desde a infância.”
     Pela maneira com que o zelador me olhou tive a impressão de que nesse momento ele se conscientizou da mancada. Mas ficou quieto. Estiquei a mão para cumprimentá-lo e fiz de conta. Ficou por isso mesmo.
     Pronto, acabou-se mais este bombom. Qual vou pegar agora? Deixe ver... Chocolate branco recheado com coco, creme de baunilha e licor de laranja. Será que é bom? Vamos ver.
     Voltando. Certo dia perguntei ao Renato sobre o seu filho. Ele contou que a ex-namorada havia se casado. O padrasto do menino se comportava como um verdadeiro pai. Uma família bem estruturada, o que deixava Renato tranquilo. Mas ele nunca desperdiçava os dias de visita porque adorava estar com o garoto.
     Quando me mostrou a foto, fiquei sem palavras. O menino era lindo, um principezinho. O detalhe é que tinha Síndrome de Down. Isso mudava tudo, no meu entender, porque durante toda a vida ele ia precisar de assistência direta. Será que o Renato estava consciente desse fato? A mim parecia que não.
     ”Renato, você precisa fazer um seguro de vida para garantir o futuro do seu filho. Já pensou nisso?”
     ”Credo, Gabi, você fala cada coisa! Sou muito novo pra pensar em seguro de vida. Além disso preciso de um emprego melhor. Com esse de agora não consigo nem pagar a pensão. Se não fosse a minha família já tinha sido preso há muito tempo.”
     Uma dificuldade tentar conversar com o Renato de adulto para adulto. Ele dizia não ter ideia do motivo que o impedia de obter uma nova colocação. Enviava currículos mas eram poucas as chamadas para entrevista. Nunca dava certo. Mesmo quando pensava ter ido bem, ficava aguardando inutilmente o retorno. Não entendia o porquê. (A culpa não seria do diploma sem valor da faculdade caça-níqueis? Ou da personalidade imatura? Ou da cultura medíocre? Ou tudo isso junto?)
     Nessas horas eu me perguntava a razão de continuar com ele. Adotava a desculpa de estar exercitando a tolerância, de que ser exigente não levava a nada, de que a vida real era assim mesmo, e outras bobagens. Agora percebo que o verdadeiro motivo era ele ser bom de cama.
     Bem feito, Gabi. Quem mandou ser depravada? Por causa disso ficou suportando o bobalhão durante oito meses, perdendo tempo, se desgastando, se decepcionando. Tudo em troca do trato que ele te proporcionava de vez em quando. Shame on you, bitch!
     Aí veio A Grande Crise. Duas coisas bem ruins ao mesmo tempo. Em ordem cronológica: minha mãe ficou doente e a casa de repouso onde trabalho começou a demitir.
     Começando pela última: a prefeitura não renovou o convênio. A mensalidade paga pelas famílias não é suficiente. Dependíamos do dinheiro da prefeitura. Então começaram os cortes de despesas e de funcionários. Passei por uma fase heavy metal, com receio de demissão. Escapei por ser a única assistente social da casa, mas se resolverem me substituir por outra com um salário menor...  Melhor não pensar nisso agora e colaborar ao máximo para evitar o fechamento.
     A outra coisa ruim: na mamografia de rotina da minha mãe apareceu um nódulo. Ficamos assustados porque a minha avó morreu disso. E, como diria o Renato, genética é fogo.
     Esse bombom acabou logo. Acho que é a ansiedade, estou mastigando muito depressa. Calma, dona Gabi. Isto é uma reflexão sobre a vida, não uma apresentação para investidores. Qual outro tem aqui? Maracujá e musse de leite condensado no chocolate meio amargo. Docinho com azedinho e um pouco de amarguinho; deve ser bom.
     Voltando à casa de repouso, começamos a pedir donativos. Nunca fizemos tal coisa, mas agora precisamos. Perguntei ao Renato se a igreja dele não poderia contribuir, afinal o pastor é um cara legal. Fomos lá, conversamos, e ele se dispôs a ajudar. Bendito seja.
     A ideia era arrecadar produtos de higiene e limpeza. Sabonete, shampoo, detergente, desinfetante, alvejante, essas coisas. Fraldas geriátricas, lenços umedecidos e papel higiênico também. Ficou acertado que ele faria o pedido nos cultos dos dias seguintes. Saí de lá agradecida e animada.
     Enquanto isso, ficou pronto o resultado da biópsia da minha mãe. Positivo, como já suspeitávamos. Começando o tratamento em 3, 2, 1, já! Sem tempo a perder. Apesar da confiança de que tudo vai dar certo, fica aquela inquietação no peito. Parece que a vida está suspensa e só voltará ao normal depois que o perigo for superado.
     Boba eu, esperando apoio do Renato. Fiz até a besteira de chorar no ombro dele, contando a barra que é ter dois casos de câncer na família ao mesmo tempo. Pai e mãe.
     Ele me abraçou? Ele me consolou? Não. Ficou parado, ouvindo. Parecia um poste. Só fez a concessão de liberar o ombro para eu encostar a cabeça. Depois de tudo, a frase padrão: “É fogo... é fogo mesmo.”
     Agora percebo que a partir daí ele foi se tornando arredio. Claro, óbvio: ele já tem os seus problemas, pra que vai querer participar dos dramas de outra pessoa? Uma namorada com doença grave em dose dupla na família. Vale a pena? Se você ama a pessoa, vale. Caso contrário...
     A arrecadação de donativos encerrou-se. Ontem de manhã o pastor ligou dizendo que o zelador estava levando as caixas de donativos. Uma notícia boa no meio do vendaval. Dei graças aos céus, fiquei esperando ansiosa. E lá vem o Luizinho, tirando da perua e trazendo para dentro cinco caixas grandes de papelão, repletas de materiais. Que maravilha. As pessoas são tão generosas! Ainda existe esperança para a humanidade. Agradeci bastante a gentileza do sujeito, tentando esquecer a antipatia que senti no dia do teatro.
     Ele perguntou para onde deveria levar as caixas espalhadas pela recepção. Falei para não se incomodar, porque eu ainda tinha que fazer o levantamento antes de encaminhá-las ao nosso almoxarifado. “Levantamento? Para quê?” perguntou ele demonstrando uma surpresa descabida. Respondi: “Tudo o que nós recebemos tem que ser registrado. Além disso preciso fazer o recibo. Mas não se preocupe, não há necessidade de ficar esperando, porque vai demorar. Depois eu levo o recibo lá na igreja. Quero agradecer pessoalmente.”
     Ele ficou lá parado, com cara de besta . “Será que está esperando gorjeta?” pensei. “Não, não deve ser isso. Se eu oferecer é capaz de ficar ofendido.”
     ”Seu Luizinho, o senhor não quer tomar um café antes de ir? Foi feito agorinha, está muito bom.”
     Não quis café. Foi embora ressabiado. Na hora não entendi, mas não estava com tempo para pensar em futilidade. Comecei a esvaziar as caixas, classificando e contando item por item. Quando terminei, pouco antes do almoço, veio nova ligação do pastor. Queria saber se eu tinha recebido direitinho os donativos, se estava tudo em ordem.
     “Claro que sim, muito obrigada. Vou lhe levar o recibo e agradecer pessoalmente, faço questão”.
     “Não se preocupe, foi um grande prazer. Nós fizemos a contagem das doações e ficamos contentes com o resultado. Na próxima vez o sucesso vai ser ainda maior, com certeza.”
     Muito legal o pastor. No final ele disse que estava enviando por email o levantamento que tinham feito. Desliguei e fui acessar a mensagem. Tendo acabado de fazer a minha própria relação, ao bater o olho logo percebi que os números não coincidiam. A não ser pelas fraldas geriátricas, todos os meus números estavam diferentes. Menores. E agora? Como dizer ao pastor que havia ladrão furtando donativo de sua igreja? Coitado, não merecia tal decepção. E como saber quando e onde se deu o sumiço? E como provar que não tinha sido eu mesma a subtrair os itens para reclamar depois? Muito complicado.
     Fiz as contas e vi que o total das coisas desaparecidas perfazia um valor não muito alto. Saí imediatamente e fui comprar — com o meu dinheiro — o que estava faltando. Assim o meu levantamento ficou igual ao deles, e ninguém jamais saberá do problema. Óbvio que nesse meio tempo não me saiu da cabeça a cara abestalhada do Luizinho. Noventa e nove por cento de certeza de que o ladrão foi ele. Ladrão e burro. Então achou que era só entregar os donativos e pronto, que ninguém iria conferir, contar, fazer relação?
     Se fosse em outro momento da vida a minha reação teria sido outra. Acho que teria denunciado tudo ao pastor. Mas agora, com tanta preocupação na cabeça, eu quis me poupar. Deixei pronto o recibo para levar à igreja no dia seguinte, que é hoje, no culto da noite. Assim posso aproveitar para agradecer a todos de viva voz.
     Acabou-se mais este bombom. Que se dane, vou pegar outro. Paçoquinha com creme de limão, recheado com amendoim. Ô perdição!
     Hoje, logo cedo, recebo essa mensagem de texto do Renato. Covarde miserável, se escondeu atrás do teclado, não teve coragem de ligar e falar diretamente. Disse que o Luizinho contou tudo o que aconteceu no dia da peça. Como eu havia me comportado mal, chegando atrasada e querendo furar a fila alegando que namorava o ator principal, criando caso com as pessoas e até falando palavrões. Que o Luizinho não tinha dito nada antes por consideração, mas agora, depois de eu ter repetido o comportamento na entrega dos donativos, não tinha mais por que se calar. Como é que eu me atrevia a duvidar da honestidade do Luizinho, fazendo questão de examinar as caixas para ver se alguma coisa havia sumido? Isso era imperdoável. Além do fato de tê-lo tratado como um reles subalterno, fazendo-o carregar as caixas para lá e para cá, dando bronca sem parar. Não, depois de tudo isso, era melhor terminarmos. Como poderia ele conviver com uma mulher grosseira que não respeitava as pessoas, e nem quando recebia um favor demonstrava gratidão? Sorte dele ter alguém para avisá-lo, seu querido amigo de infância, senão ia continuar enganado por mais tempo ainda.
     Jesusmariajosé, que decepção! Apesar de saber que o Renato tem um intelecto limitado e um senso de justiça bastante débil, eu não podia supor tamanha covardia.
     Entendo que ele não queira continuar se relacionando com uma pessoa cheia de problemas como eu. Doença grave na família e risco de desemprego, tudo junto ao mesmo tempo. Não existe nenhuma obrigação da parte dele em me dar apoio moral, sofrer junto, perder seu tempo. Nem deve, aliás. O que ele deve fazer com urgência é procurar um emprego melhor, parar de depender da família e assumir sua responsabilidade com o futuro do filho. E esquecer essa mania de querer ser ator. Renato, você é bonito mas não tem talento nenhum, eu ia acabar te falando isso um dia.
     Eu sei que a vida da gente muda, o que é conveniente hoje deixa de ser amanhã. Ele só precisava dizer que não estava mais a fim, pronto. Mas não, tinha que ser babaca até o fim. Se aproveitou das mentiras do amigo ladrão como pretexto. Me julgou, condenou e aplicou a pena sem sequer falar comigo, sem me dar chance de defesa. Depois de todos esses meses de convivência ele tinha a obrigação de saber que não sou capaz de grosseria com ninguém. Mas aceitou a palavra do ladrãozinho como verdade absoluta. Porque te convinha, né covardão?
     Ah, quer saber? Cansei! Vou fingir que você é este último bombom aqui, o de cereja com licor. Vou comer você bem devagarinho. Depois de engolido e digerido, adeus bombom, adeus Renato.
     No final das contas, pensando bem, tudo deu certo para todo mundo. A casa recebeu os donativos; os doadores estão felizes pela boa ação; Luizinho vai ficar impune para usar os produtos do furto e manter o privilégio duvidoso da sua amizade; você se livrou de uma namorada incômoda, e eu me livrei de você.
     E, o que é melhor ainda, estou me vingando. Como? Deixando você continuar amigo de uma pessoa falsa e desonesta que mais dia menos dia vai te aprontar uma boa.
     Eu cá tenho assuntos importantes para resolver. Os idosos carentes que precisam de ajuda, esses merecem a minha atenção. Quanto a você, criatura, pode ir para onde a brisa te levar.
     Adeus, Renato. Cumpra o seu destino: permaneça eternamente esse palhacinho beleléu gauche na vida.
     E que o vento sopre levemente em suas costas.


Imagem: http://i1262.photobucket.com

4 comentários:

Beto disse...

Zulmira como varia o estilo de seus contos, hein? É claro que adorei este. Essa moça foi paciente demais em estender esse relacionamento defeituoso,talvez no fundo ela tivesse tido uma leve esperança de que se apaixonaria por ele e ele sairia desse comodismo. Bom, o ruim foi que ela precisou de um conflito para desistir de vez dessa relação, mas isso mostra o quanto ainda temos que aprender a lidar com relacionamentos.

Ótimo texto. Parabéns

Beto

Zulmira Carvalheiro disse...

Pois é, Beto. Nós sempre temos esperanças de que aconteça alguma coisa milagrosa e aquilo que não estava satisfatório acabe se ajeitando. Mas não é assim na maioria das vezes. Talvez seja até bom que surja um conflito incontornável, porque assim a pessoa é obrigada a tomar uma atitude, em vez de continuar no conformismo. Sobre as mudanças de estilo, é proposital. Estou como uma criança brincando com aquele brinquedo de blocos, divertindo-se em construir ora um castelo, ora uma casinha, ora um estádio de futebol... rsrsrs... (Obrigada pelo comentário!)

Anônimo disse...

seus textos sao longos e chatos.....

Zulmira Carvalheiro disse...

Nem todos, anônimo. Alguns são bastante curtos. (rsrsrsrsrs):D