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sábado, 4 de abril de 2015

Em negrito

"Se no fundo ignorado do existir 
Há mais alma que a que pode vir 
À tona vã de nós, como à do mar 
Fazei-me livre, enfim, de o ignorar." 
(F. Pessoa)
(Ou livre, enfim, de o expressar.)


O vidente vestia um jaleco branco, como um médico.
Sentou-se à minha frente e segurou as minhas mãos. Fechou os olhos, abriu depois de alguns segundos, e me encarou.
— Você está com trinta e seis anos.
(Verdade. Como ele adivinhou? Interessante.)
— Vejo que você é uma pessoa batalhadora.
(Concordo. Mas não é assim que todos se consideram?)
— Você se preocupa com a sua mãezinha.
(Acertou, me preocupo mesmo. Mas que história é essa de “mãezinha”?)
— Você não tem se sentido bem ultimamente, não é?
(Correto. É só olhar a minha cara pra descobrir isso.)
— Também está tendo problema em perder peso.
(Oras, e quem não está?)
— Sua mãezinha também não está bem.
(Se estivesse eu não teria motivo para preocupações, não é?)
— Você dorme mal e sente dores musculares, certo?
(Dá pra ver pela minha cara que eu durmo mal. Por isso é que tenho dores musculares, é assim que funciona.)
— A sua mãezinha está ainda pior.
(Ela tem quarenta anos a mais do que eu, como não estaria pior?)
— Já entendi o que está acontecendo. Foi um trabalho que fizeram contra a sua mãe, e você também está pegando o efeito.
(Aposto que ele vai dizer que o motivo é inveja.)
— São coisas de outras vidas. Uma pessoa que ela prejudicou muito numa vida passada. Agora as duas reencarnaram na mesma época e essa pessoa quer se vingar.
(Perdi a aposta. Tá bom, não é inveja, são vidas passadas...)
— Pra dizer a verdade, a sua mãezinha já devia ter morrido.
(E por que não morreu?)
— O que tem salvado ela é que você é uma pessoa de muita fé.
(Sou mesmo, não posso negar. Tenho muita fé em Deus.)
— É a sua fé que tem defendido a sua mãezinha do pior.
(Folgo em saber.)
— E o motivo é só um: o grande amor que você tem por ela.
Nessa hora puxei as minhas mãos e disse para o vidente que não estava me sentindo bem, que voltava no outro dia. Ele ficou um pouco surpreso mas não tentou me reter.
Para a minha colega, na sala de espera, falei que estava com uma tonteira esquisita e achava melhor ir pra casa. Ela respondeu que às vezes acontecia isso; o motivo era a energia forte do local.
A verdade é que eu não queria ficar perdendo tempo com um charlatão. Apesar de ele ter acertado em algumas coisas mais ou menos óbvias, errou justamente no que deveria ter percebido desde o início. Mesmo com toda a força do sentimento que carrego à flor da pele, saindo pelos poros, ele não percebeu.
Que papo idiota foi aquele do “grande amor que você tem por ela”?
Ele não percebeu então que eu odeio a minha mãe?

4 comentários:

Fernanda Moura disse...

Olá Zulmira!
Adorei seu blog, parabéns!

Beijos,
Fernanda
http://www.oprazerdaliteratura.com.br/

Zulmira Carvalheiro disse...

Obrigada, Fernanda! Eu também adoro o seu blog. Estou aprendendo cada dia uma coisa nova graças aos seus posts tão interessantes. Beijão!

Isie Fernandes disse...

Hahaha! Coitada dessa mãe. :D

Beijos,

Isie Fernandes - de Dai para Isie

Zulmira Carvalheiro disse...

Isie, eu suspeito que o vidente acertou tudo. Os corações humanos são muito complexos.