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sábado, 15 de outubro de 2016

O "Seio de Tétis"

     O governador da ilha demonstrava impaciência e certa irritação, embora estivéssemos conversando havia poucos minutos.
     ― O senhor desculpe, não é má vontade, mas eu sei de antemão que a sua pesquisa não vai ter sucesso. Já recebemos dezenas de geólogos, e todos foram embora do mesmo jeito que chegaram: sem conclusão nenhuma.
     ― É pena eu não ter encontrado nada na literatura científica sobre essas visitas anteriores. Teria chegado aqui com mais preparo.
     ― O senhor não encontrou nada porque não existem publicações. Como não conseguiram explicar o fenômeno, todos resolveram fazer de conta que nunca estiveram aqui.
     Decepcionado, me apeguei à ideia de que os outros não possuíam conhecimentos tão profundos como os meus. Nem instrumentos tão modernos.
     ― O guia vai conduzir o senhor. Esteja à vontade. Quando quiser partir da ilha, venha avisar. Boa sorte.
     Lá fomos nós, o guia e eu, em direção à montanha que jorrava água. Idêntica a um vulcão, porém ― em vez de lava ― expelia água fresca e doce. Ininterruptamente.
     De onde surgia aquele manancial? Como se mantinha à baixa temperatura? Que força projetava a água para cima, à semelhança de um chafariz gigantesco? Por que a montanha não desmoronava apesar do atrito constante com o jorro volumoso?
     O guia disse que jamais chovia ali. A névoa fina e incessante era responsável pelo verde da vegetação. Contou também que certo pesquisador quis perfurar um túnel atravessando a montanha lado a lado; foi expulso imediatamente. Outro se jogou no orifício usando um escafandro; o jato o lançou para fora e ele quase morreu. Essa e outras histórias bizarras me foram relatadas à medida que nos aproximávamos do “Seio de Tétis”, nome da misteriosa montanha.
     A tarde ia caindo. De repente fez-se noite. Não se viam mais os contornos das árvores e das rochas, transformadas em sombras. Tudo escuro, apenas uma luminosidade azul e difusa. O guia parou de repente e eu segui o seu olhar. Estávamos diante de um cone negro que projetava ao céu inacreditáveis esguichos luminosos.
     O magnífico "Seio de Tétis". 
     ― A água é luminescente? Ninguém me disse isso. Como é possível?
     Voltei-me para ele, esperando resposta. Não era mais o guia, e sim o governador ali do meu lado. Olhava-me com a expressão séria e cansada.
     ― Não te falei, geólogo?
     ― Não entendo... Como...?
     ― Você sabe a explicação.
     Sim, eu sabia a explicação. Mas não queria pronunciá-la em voz alta. Deixei que ele falasse.
     ― É muito simples. Você está sonhando.
     Naquele momento percebi no seu olhar um brilho sutil, repentino, que durou menos de um segundo.  Não havia sido reflexo das águas luminosas.
     Meu espírito foi atravessado por uma suspeita. De que a solução para aquele mistério não era, afinal de contas, algo tão simples assim. 


Imagem: http://www.news.com.au

3 comentários:

Newton Silva disse...

Bastante surpreendente e onírico!

Zulmira Carvalheiro disse...

Será mesmo que ele estava sonhando?! ;)

Newton Silva disse...

O bom mesmo do conto é essa dúvida cruel.